Serge André, ao final de seu livro O que quer uma mulher? diz o seguinte: “Referindo-nos à distinção introduzida por Lacan em seu Seminário sobre Os quatro
conceitos fundamentais da Psicanálise, vamos adiantar que a feminilidade não se destaca do recalque, mas sim da censura” (ANDRÉ, 1998, p. 286).
Com isto, ele quer apontar que não existe na linguagem um significante específico que diga da mulher e da sua feminilidade, tal como o significante Falo diz do conjunto dos homens. Não existindo este significante, não há inscrição no inconsciente, portanto, não há recalque. A feminilidade não passa então pelo recalque, mas se destaca da censura.
3.1 Censura e supereu em Freud
Na “carta 79” a Fliess, Freud escreve sobre o recalcamento na neurose obsessiva, e o “significado transferido” que as palavras podem adquirir, “tão logo aparecem novos conceitos que exigem designação...” Para exemplificar o que diz, Freud metaforiza sobre a censura russa em relação a um jornal estrangeiro que tenha passado pelas fronteiras russas. Nesta censura russa, “palavras, orações e frases inteiras são obliteradas, de modo que o que resta se torna ininteligível” (FREUD, 1897, p. 375-6).
Em “As Neuropsicoses de Defesa”, comentando sobre a divisão da mente, Freud, contestando a noção de histeria de Janet, apresenta duas outras formas de a mesma vir a se apresentar, mas ele se detém naquela que denomina como “histeria de defesa”, para distingui- la da histeria “hipnóide” e da histeria de “retenção”.
Freud passa a usar o termo defesa quando descreve que uma representação ou um sentimento tornou-se incompatível para um sujeito, quando esta nova representação passa a conflituar com as representações já existentes em sua vida. Ele coloca que em relação às mulheres é no campo da experiência e das sensações sexuais que estas representações incompatíveis tornam-se mais conflitivas, e de que suas pacientes relatavam com muita precisão os esforços que efetuavam para eliminar de seus pensamentos tais representações. Ainda, neste texto de Freud:
O eu leva muito menos vantagem escolhendo a transposição do afeto como método de defesa do que escolhendo a conversão histérica da excitação psíquica em inervação somática. O afeto de que o eu sofreu permanece como antes, inalterado e não diminuído, com a única diferença de que a representação incompatível é abafada e isolada da memória. As representações recalcadas (...) formam o núcleo de um segundo grupo psíquico, que, acredito, é acessível mesmo sem a ajuda da hipnose. Se as fobias e obsessões são desacompanhadas dos notáveis sintomas que caracterizam a formação de um grupo psíquico independente na histeria, isto é sem dúvida porque, em seu caso, toda a alteração permaneceu na esfera psíquica, e a relação entre a excitação e a inervação somática não sofreu qualquer mudança (FREUD, 1894, pp. 60-1).
Em “Sobre a introdução ao narcisismo”, sobre a formação do ideal de eu, Freud explicita que a mesma decorre da vigilância da consciência moral que parte da “influência crítica dos pais, mediada através da voz, aos quais no correr do tempo associaram-se os educadores, professores e, como multidão ilimitável e indefinível, todas as outras pessoas do meio (as que são próximas, a opinião pública)” (FREUD, 1914, pp. 32-3).
Esta consciência moral também pode atuar sobre os sonhos, e Freud lembra que a “formação do sonho surge sob o domínio de uma censura, a qual coage os pensamentos do sonho à desfiguração” (FREUD, 1914, p. 35).
“Se nos adentramos mais na estrutura do eu, poderemos reconhecer, no ideal de eu e nas manifestações dinâmicas da consciência moral, também o censor do sonho.” (FREUD, 1914, p. 35)
Ainda sobre o narcisismo, em relação ao sentimento de si, este aparece num primeiro momento como uma expressão da grandeza do eu, que decorre, ou se constitui desde a onipotência primitiva e no decorrer da experiência vivida pelo sujeito que pode aumentar aquele sentimento. Freud atribui ao sentimento de si “uma dependência particularmente íntima da libido narcísica”. Este sentimento de si, nas relações amorosas, pode ser diminuído quando o não ser amado se presentifica ou é elevado, quando o sujeito é amado. Ser amado é “o alvo e a satisfação na eleição de objeto narcísica”. Ao amar, perde-se uma parte do narcisismo, parte esta que só poderá ser restituída ao ser amado.
A incapacidade de amar por perturbações psíquicas ou corporais pode ser redutora do sentimento de si. Os sentimentos de inferioridade, segundo Freud, têm como fonte principal “o empobrecimento do eu que resulta dos investimentos libidinais extraordinariamente grandes, retirados do eu, ou seja, o dano do eu pelos anseios sexuais não mais submetidos ao
controle” (FREUD, 1914, p. 37). O ideal de eu possui o componente individual, o social, “o ideal comum de uma família, de uma classe, de uma nação”.
“A consciência de culpa foi originariamente angústia ante o castigo dos pais, melhor dito: ante a perda do amor destes; no lugar dos pais é colocada a indefinida multidão dos companheiros.” (FREUD, 1914, p. 42)
No texto “As Pulsões e suas Vicissitudes” , Freud estabelece que as pulsões no decorrer de seu desenvolvimento e da vida passam por várias vicissitudes, que ele enumera como sendo as seguintes:
- Reversão a seu oposto;
- Retorno em direção ao próprio eu (self) do indivíduo; - Repressão;
- Sublimação.
Freud também coloca que a investigação sobre as vicissitudes das pulsões deve ficar restrita às pulsões sexuais, as quais segundo ele “são mais familiares.” Neste texto, Freud vai trabalhar os dois primeiros itens, a reversão a seu oposto e o retorno em direção ao próprio eu. Ele considera que a existência de forças motoras impedem que uma pulsão possa chegar a seus fins sem passar por uma modificação e seu percurso. A estes desvios ou vicissitudes que a pulsão encontra em seu caminho, ele denomina como “modalidades de defesa contra as pulsões”.
A reversão de uma pulsão em seu oposto transforma-se em dois outros processos, que são de diferentes naturezas:
- A mudança da atividade para a passividade; - E uma reversão do conteúdo.
Em relação ao primeiro processo, encontra-se o par de opostos sadismo-masoquismo e escopofilia-exibicionismo.
Na reversão, o que fica afetado são as “finalidades” das pulsões. “A finalidade ativa (torturar, olhar) é substituída pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado). A reversão do
conteúdo encontra-se no exemplo isolado da transformação do amor em ódio” (FREUD, 1915, p. 148).
O retorno de uma pulsão ao próprio eu (self) de uma pessoa ocorre por um ato reflexo, no qual o masoquismo é o sadismo que retorna sobre o ego da própria pessoa, e o exibicionismo abarca o olhar sobre seu próprio corpo. Nestas duas situações, o que ocorre é uma mudança de “objeto”, mas a finalidade não se altera. Nas duas situações, segundo Freud, “o retorno em direção ao eu do indivíduo, e a transformação da atividade em passividade convergem ou coincidem”. No sadismo-masoquismo:
(a) O sadismo consiste no exercício de violência ou poder sobre uma pessoa ou objeto; (b) Esse objeto é abandonado e substituído pelo eu do indivíduo. Com o retorno em direção ao eu efetua-se também a mudança de uma finalidade pulsional ativa para uma passiva; (c) Uma pessoa estranha é mais uma vez procurada como objeto; essa pessoa, em conseqüência da alteração que ocorreu na finalidade pulsional, tem de assumir o papel do sujeito (FREUD, 1915, p. 148).
Sobre a fase preliminar da pulsão escopofílica, onde o próprio corpo do sujeito é objeto de seu olhar, Freud a classifica sob o narcisismo e diz que se deve descrevê-la como “uma formação narcisista”. Da mesma forma, “a transformação do sadismo em masoquismo acarreta um retorno ao objeto narcisista”. Nos dois casos, na escopofilia passiva e no masoquismo, “o sujeito narcisista é, através da identificação, substituído por outro ego, estranho”.
...as vicissitudes das pulsões, que consistem no fato de a pulsão retornar em direção ao próprio ego do sujeito e sofrer reversão da atividade para a passividade, se acham n a dependência da organização narcisista do ego e trazem o cunho dessa fase. Correspondem talvez às tentativas de defesa que, em fases mais elevadas do desenvolvimento do ego, são efetuadas por outros meios (FREUD, 1915, p. 153). Sobre a mudança do conteúdo de uma pulsão em seu oposto, Freud diz que só pode ser observada na transformação do amor em ódio, que ocorre simultaneamente em direção a um mesmo objeto, e que é a mais importante ambivalência de sentimentos. E ele acrescenta três opostos ao amor:
- Amar-odiar; - Amar-ser amado;
- Amar e odiar em conjunto, “são o oposto da condição de desinteresse ou indiferença”.
Amar-ser-amado está relacionada ao passar da atividade para a passividade, com parâmetro à situação do “amar-se a si próprio”, característica do narcisismo.
“Então, conforme o objeto ou o sujeito seja substituído por um estranho, o que resulta é a finalidade ativa de amar ou a passiva de ser amado – ficando a segunda perto do narcisismo.” (FREUD, 1915, p. 155)
Freud coloca como regendo nossa vida mental três polaridades que podem dar um melhor entendimento sobre os opostos do amar:
- Sujeito (ego) – Objeto (mundo externo); - Prazer – Desprazer;
- Ativo – Passivo (FREUD, 1915, p. 155).
Seguindo neste texto, uma nota de rodapé esclarece que após Freud dispor os opostos do amar acima colocados na ordem do “odiar, ser amado e a indiferença”, a partir do trecho que se seguirá ele faz uma outra ordem; “a indiferença, o odiar e o ser amado” (FREUD, 1915, p. 157).
Há uma situação psíquica primordial, na qual o ego é investido pelas pulsões, “sendo, até certo ponto, capaz de satisfazê-los em si mesmo”. A esta condição denomina-se narcisismo, e a forma de obter satisfação auto-erótica. O mundo externo não é investido, tornando-se indiferente aos objetivos de obter satisfação. Nesta forma de amar, onde o ego ama “somente a si próprio e é indiferente ao mundo externo, ilustra o primeiro dos opostos que encontramos para ‘o amor’” (FREUD, 1915, p. 157).
Quando o ego isola uma parte de si próprio e o projeta ao mundo externo como sendo hostil, ele faz aqui uma nova configuração, onde as duas polaridades se encontram mais uma vez, ou seja, “o sujeito do ego coincide com o prazer, e o mundo externo com o desprazer (com o que anteriormente era indiferente)” (FREUD, 1915, p. 158). É quando o objeto surge no narcisismo primário que o segundo oposto do amar, o odiar, faz seu desenvolvimento.
A indiferença se enquadra como um caso especial de ódio ou desagrado, após ter aparecido inicialmente como sendo seu precursor. Logo no começo, ao que parece, o mundo externo, objetos e o que é odiado são idênticos. Se depois um objeto vem a ser uma fonte de prazer, ele é amado, mas é também incorporado ao ego, de modo que para o ego do prazer purificado mais uma vez os objetos coincidem com o que é estranho e odiado (FREUD, 1915, p. 158).
Se há uma “repulsão” do objeto, ele é odiado, ódio este que se intensificado, pode levar à agressividade contra o objeto, com a intenção de destruí-lo. Freud esclarece que o amor e o ódio não podem ser pensados em relação às pulsões e seus objetos, mas sim nas relações entre o “ego total e os objetos”. Considerando o “uso lingüístico” Freud acresce que se deve considerar mais uma limitação ao significado do amor e do ódio, que aos objetos que nos “servem aos interesses de autopreservação”, não dizemos que os “amamos”, mas sim que deles “necessitamos”.
“Assim, a palavra ‘amar’ desloca-se cada vez mais para a esfera da pura relação de prazer entre o ego e o objeto, e finalmente se fixa a objetos sexuais no sentido mais estrito e àqueles que satisfazem as necessidades das pulsões sexuais sublimadas.” (FREUD, 1915, p. 159)
Para Freud, a palavra amor, “só pode começar a ser aplicada nesse sentido após ter havido uma síntese de todas as pulsões componentes da sexualidade sob a primazia dos órgãos genitais e a serviço da função reprodutora” (FREUD, 1915, p. 159).
Sobre o ódio, ele não se vincula ao prazer sexual nem à função sexual. Ele deve ser pensado na relação de “desprazer”. O ego objetiva destruir todos os objetos que lhe sejam causadores de sensações desagradáveis. A relação de ódio origina-se da luta pelo ego em manter-se e preservar-se, e não da vida sexual. O amor e o ódio nascem ou derivam de diferentes fontes “tendo cada um deles se desenvolvido antes que a influência da relação prazer-desprazer os transformasse em opostos” (FREUD, 1915, p. 160).
O ódio está em uma relação com os objetos anterior ao amor. O ódio mesclado ao amor deriva em parte das “fases preliminares do amar não inteiramente superadas”, e também em parte das reações de rechaço às pulsões do ego, “as quais, em vista dos freqüentes conflitos entre os interesses do ego e os do amor, podem encontrar fundamentos em motivos reais e contemporâneos” (FREUD, 1915, p. 161).
No texto Recalque, uma das vicissitudes que uma pulsão pode sofrer “é encontrar resistências que procuram torná-la inoperante”. A pulsão, ao encontrar estas resistências, pode sofrer o processo de recalcamento, Verdrängung. A fuga, para a pulsão não tem operacionalidade, “pois o ego não pode escapar de si próprio”.
A rejeição decorrente de um julgamento, “condenação”, será adotada contra a pulsão. O recalque é anterior à condenação, “algo entre a fuga e a condenação”. Freud supõe que há um recalque original, o qual não permite que um representante psíquico, ideacional, irrompa no consciente. Não havendo a possibilidade deste representante tornar-se consciente, opera-se uma fixação, na qual o representante psíquico como tal permanece inalterado com a pulsão, permanecendo ligada a ele. Esta operação é decorrente dos processos inconscientes. Há, então, um segundo momento do recalque, o “recalque propriamente dito” que atinge “os derivados mentais do representante recalcado, ou sucessões de pensamento que, originando-se em outra parte, tenham entrado em ligação associativa com ele. Por causa dessa associação, essas idéias sofrem o mesmo destino daquilo que foi primevamente recalcado.” (FREUD, 1915, p. 171) Ao ser recalcado, o representante pulsional obterá mais intensidade e força atuando via o inconsciente, do que se ele se mantivesse consciente.
Essa força falaz da pulsão resulta de um desenvolvimento desinibido da fantasia e do represamento ocasionado pela satisfação frustrada. O fato de esse último resultado estar vinculado ao recalque, indica a direção em que a verdadeira importância do recalque deve ser procurada (FREUD, 1915, p. 172).
Sobre a técnica psicanalítica, Freud acrescenta que ao se exigir do paciente que ele produza derivados do recalcado pela livre associação, se objetiva que os mesmos, pela distância temporal, ou pelas distorções sofridas “possam passar pela censura do consciente”.
No recalque, não só uma idéia pode sofrer a ação de recalque, mas também o afeto associado a esta idéia, sendo o afeto o fator mais importante a ser considerado, pois de seu recalcamento pode derivar ansiedade. Esta ansiedade deriva do fato de que o recalcamento pode ter sido bem sucedido em relação à idéia, mas não o foi em relação ao afeto ligado à idéia.
Em “O Inconsciente”, Freud usa a palavra censura, para dizer que um ato psíquico passa “por duas fases quanto ao seu estado, entre as quais se interpõe uma espécie de teste (censura)”. Na primeira fase, o ato psíquico é inconsciente e pertence ao sistema Ics.; se, no
teste, for rejeitado pela censura, não terá permissão para passar à segunda fase; diz-se então que foi ‘recalcado’, devendo permanecer inconsciente. Se, porém, passar pelo teste, entrará na segunda fase e, subseqüentemente, pertencerá ao segundo sistema, que chamaremos de sistema Cs. Em vista dessa capacidade de se tornar consciente, também denominamos o sistema Cs. de ‘pré-consciente’ (FREUD, 1915, p. 199).
O sistema Pcs. tem as mesmas características do sistema Cs., e a “censura rigorosa exerce sua função no ponto de transição do Ics. para o Pcs. (ou Cs.). Descrevendo topograficamente os sistemas Ics. e Cs., Freud volta a usar o termo censura, quando fala de que “uma idéia possa existir simultaneamente em dois lugares no mecanismo mental – na realidade, a possibilidade de que, se não estiver inibida pela censura, ela avançará regularmente de uma posição para outra, sem perder talvez sua primeira localização ou registro” (FREUD, 1915, p. 201).
Avançando no texto freudiano, quando ele está desenvolvendo no mesmo sobre os investimentos realizados sobre uma idéia substitutiva da idéia original recalcada, embora não use o termo censura, parece que se pode pensar nela quando ele escreve a seguinte frase:
“A fuga de uma catexia consciente da idéia substitutiva se manifesta nas evitações, nas renúncias e nas proibições, por meio das quais reconhecemos a histeria de ansiedade.” (FREUD, 1915, p. 211) No parágrafo seguinte, pode-se ler sobre o mecanismo de defesa e o recalque dele resultante:
Além disso, podemos dar ênfase à interessante consideração de que, pondo-se assim em ação todo mecanismo defensivo, consegue-se projetar para fora o perigo pulsional. O ego comporta-se como se o perigo de um desenvolvimento da ansiedade o ameaçasse, não a partir da direção de uma pulsão, mas da direção de uma percepção, tornando-se assim capaz de reagir contra esse perigo externo através das tentativas de fuga representadas por evitações fóbicas. Nesse processo, o recalque é bem sucedido num ponto particular: a liberação da ansiedade pode, até certo ponto, ser represada, mas somente às custas de um pesado sacrifício da liberdade pessoal (FREUD, 1915, p. 211).
Sobre o sistema Ics., Freud afirma nele não existe “negação, dúvida ou quaisquer graus de certeza”. Isto só ocorre quando o trabalho da censura se faz presente entre o Ics. e o Pcs., sendo a negação o substituto, “em grau mais elevado, do recalque”. O termo censura é novamente usado por Freud, ainda no texto sobre o inconsciente, quando ele aborda a comunicação entre o sistema pré-consciente e o inconsciente:
Além disso, cabe ao sistema Pcs. efetuar a comunicação possível entre os diferentes conteúdos ideacionais, de modo que possam influenciar uns aos outros, a fim de dar- lhes uma ordem no tempo e estabelecer uma censura ou várias censuras; também o ‘teste de realidade’, bem como o princípio de realidade, se encontram em seu domínio (FREUD, 1915, p. 216).
Na elaboração do que é possível de tornar-se consciente ou não, e de que maneira isto pode ocorrer entre os sistemas consciente, pré-consciente e inconsciente, Freud coloca que a soma dos processos psíquicos se apresenta à consciência sob o domínio do pré-consciente.
Grande parte desse pré-consciente origina-se no inconsciente, tem a natureza dos seus derivados e está sujeita à censura antes de poder tornar-se consciente. Outra parte do Pcs. é capaz de se tornar consciente sem qualquer censura. Ao ventilarmos o assunto do recalque fomos obrigados a situar a censura, que é decisiva para o processo de conscientização (sic), entre os sistemas Ics. e Pcs. (...) Agora, passa a ser provável que haja uma censura entre o Pcs. e o Cs (FREUD, 1915, p. 219-20). Também é possível que na transição de um sistema a outro, uma nova censura deve ser considerada. Entre a fronteira do inconsciente e o pré-consciente, há uma censura que tem como função fazer o rechaço daquele em direção a este, mas, ao mesmo tempo, os derivados do inconsciente podem contornar esta censura, atingindo um alto nível de organização e podendo conseguir um certo grau de investimento no pré-consciente. Ocorre, no entanto, que ao atingirem uma intensidade maior em seu investimento, tentando tornarem-se conscientes, eles “são reconhecidos como derivados do Ics”. e são novamente recalcados pela censura na fronteira do Pcs. com o Cs. A primeira censura ocorre contra o inconsciente, e a segunda censura contra os derivados do mesmo.
“...a existência da censura entre o Pcs. e o Cs. nos ensina que o tornar-se consciente não constitui um mero ato de percepção, sendo provavelmente também uma hipercatexia, um avanço ulterior na organização psíquica.” (FREUD, 1915, p. 222)
Em “O Ego e o Id”, o ego é a instância mental que “supervisiona todos os seus próprios processos constituintes e que vai dormir à noite, embora ainda exerça a censura sobre os sonhos” (FREUD, 1923, p. 29).
Além do sistema perceptivo, na formação do ego, Freud acrescenta o corpo de uma pessoa, principalmente sua superfície, como o lugar no qual podem se originar sensações externas e internas. O ego consciente é situado então, como sendo “primeiro e acima de tudo,
um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície” (FREUD, 1923, p. 40).
No texto sobre o narcisismo já citado, é colocado que o ego em seu interior sofre uma diferenciação, a qual foi nomeada como ideal do ego ou o superego. Este, é o herdeiro do complexo edípico, mas não pode ser considerado como um “resíduo das primitivas escolhas objetais do id...”, pois também reage às mesmas de forma enérgica. Ele não segue apenas à ordenação do deveria, mas também as proibições. O superego, nesta sua relação com o complexo edípico, “retém o caráter do pai” e, dependendo da força do complexo e da rapidez