No seminário 20, “Mais, Ainda”, Lacan apresenta as quatro fórmulas da sexuação, as quais dizem respeito à maneira que o conjunto dos homens e das mulheres, enquanto seres de linguagem, inscrevem-se no discurso sexual. Esta divisão não corresponde a uma divisão anatômica entre os sexos, mas sim à posição subjetiva de um sujeito, que é determinada pelo próprio discurso do sujeito. Esta posição pode, muitas vezes, não corresponder com a anatomia. À busca de sentido do discurso comum, Lacan aponta que esta direção logo torna- se precária, pois o que a psicanálise precisamente aponta, é que o sentido do discurso, sendo sexual, tem seu limite. Como diz Lacan, “O sentido indica a direção na qual ele fracassa”.
Não há inscrição possível da relação sexual, pois não há relação entre os sexos, ou seja, não há uma relação sexual entre o ser falante homem e o ser falante mulher. A relação sexual nunca é a dois. O Outro de cada sujeito está sempre presente. A inexistência da relação sexual dá conta de uma diferença sexual, de uma falta. Lacan irá demonstrar esta proposição através das fórmulas da sexuação.
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Tomando o primeiro quadro, onde são colocadas as fórmulas x x e ∀∀∀∀x x. __
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x, onde se lê, “existe um” e “não existe um”. A segunda fórmula, ∀∀∀∀x x, decorre da fórmula __
dos “quantificadores universais”, ∀∀∀∀x e ∀∀∀∀x, onde se lê, “para todo x” e “para não todo x”. O x minúsculo representa o sujeito das fórmulas.
É junto a estas fórmulas que fica situado o conjunto dos homens, onde todo x é castrado, (2ª) mas existe pelo menos um x que não é castrado (1ª). Neste conjunto dos homens, é onde a função paterna opera sua função de corte instaurando o Falo. Ao instaurar o Falo, a função paterna, enquanto Lei, opera a castração, a qual, segundo Lacan supre a relação sexual, já que a mesma não é possível ser inscrita. Nesta posição, chamada de masculina, o significante principal é o Um. É através da fórmula da sexuação do conjunto das mulheres, que esta asserção “não há relação sexual”, poderá ser melhor explicitada.
O pelo menos um não castrado, reporta-se ao pai da horda primitiva, do qual Freud fala em seu texto “Totem e Tabu”. É a exceção na figura do pai primitivo, não castrado que podia gozar de todas as mulheres.
Serge André, comentando as fórmulas da sexuação em seu livro “O que quer uma
mulher?”, diz sobre o pai da horda:
...é o único, com efeito, que poderia dar corpo à existência de uma relação sexual, o único talhado para desejar e gozar de toda mulher, o único, pois, a fundar, do ponto de vista masculino, a identidade correspondente do sexo feminino. Diante desse ponto ideal do “verdadeiro homem”, todos os homens fazem uma figura mais ou menos fragilizada. Nem um só dentre eles ama verdadeiramente as mulheres, como nos recordam diariamente nossas analisandas homossexuais. É, no entanto, por essa impotência constitutiva que os machos recebem sua identidade de homens (ANDRÉ, 1998, p. 220). __ __ __ __ __
x x e ∀∀∀∀x x. Na primeira destas fórmulas, x x , não existe um x que não escapa à castração, não há excessão. Não há do lado das mulheres uma figura fundadora do conjunto das mulheres, como o há em relação ao conjunto dos homens, que é representado pelo pai da horda. A este vazio, corresponde o significante S( ). O conjunto das mulheres é um conjunto aberto, não delimitável. Elas não fazem Um.
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Na segunda fórmula, ∀∀∀∀x x, nem todo x é castrado. Aqui, a mulher está não toda submetida à castração simbólica, não toda submetida ao , Falo. Nesta posição, que é dita feminina, a mulher se relaciona com o significante do Outro.
O Outro não é simplesmente esse lugar onde a verdade balbucia. Ele merece representar aquilo com que a mulher fundamentalmente tem relação. Só temos testemunhos esporádicos disto, e é por isso que eu os tomei, da última vez, em sua função de metáfora. Por ser, na relação sexual, em relação ao que se pode dizer do inconsciente, radicalmente o Outro, a mulher é aquilo que tem relação com esse Outro (LACAN, 1985, pp. 108-9).
Lacan também dirá que as mulheres devem ser tomadas uma a uma, exatamente por se inscreverem parcialmente na função fálica. As mulheres, portanto, mesmo que nenhuma delas escape à castração, ficam parcialmente submetidas a ela. A feminilidade, surge então, dividida diante da castração. Diante do significante “mulher”, uma mulher precisa desdobrar-se, criar máscaras, a mulher mascarada, o que não lhe permite unificar-se sob este mesmo significante. No quadrado inferior do quadro das fórmulas, o “a” representa a possibilidade de a mulher vir a ser o objeto da fantasia do homem. Aceitando ser o objeto a causa de desejo do homem, a mulher fica mascarada pelo homem como falo, podendo ser, portanto, o falo para o homem.
O significante , representa o que da mulher nada se pode dizer. S( ), diz do Outro barrado. A mulher relaciona-se então com S( ), lugar de seu gozo do Outro, que é na realidade o gozo do corpo, e, ao mesmo tempo, com o gozo fálico, . O gozo do Outro, ou o gozo do corpo, Lacan diz que dele nada podemos saber, só podemos supor o mesmo, e cita algumas poucas mulheres, e as mulheres místicas como as que em seus discursos supõem tê- lo vivenciado.
Não há, portanto, na linguagem, a inscrição de um significante que possa dizer do conjunto das mulheres. Não existe um significante que possa dizer das mulheres e de sua feminilidade, tal como o significante Falo, diz do conjunto dos homens. Não existindo este significante, não ocorre inscrição no inconsciente de uma feminilidade concernente às mulheres. Não há recalque, mas pode haver censura.
Lacan, no Seminário “Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, explicitando o conceito sobre o inconsciente, no que irrompe no discurso do sujeito como significante provocando “surpresa”, isto que irrompe, é exatamente o que foi apagado.
Aí está onde reencontramos a estrutura basal que torna possível, de modo operatório, que alguma coisa tome a função de barrar, de riscar uma outra coisa. Nível mais primordial, estruturalmente, do que o recalque de que falaremos mais tarde. Muito bem, este elemento operatório do apagamento, é isto que Freud designa, desde a origem, na função de censura. É a podagem com tesouras, a censura russa, ou ainda a censura alemã (...). (LACAN, 1988, p. 31)