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Les agences semi-autonomes

3) La distribution

3.4 Les agences semi-autonomes

Lacan estabelece o dispositivo do passe no final dos anos 60, época em que estava às voltas com a criação de um novo modo de conceber a formação do analista, distanciando-se daquele fornecido pela International Psychoanalytical Association (IPA), instituição criada por Freud e da qual Lacan foi expulso em 1963. Propõe um novo tipo de associação em que o termo Escola aparece no lugar de “sociedade analítica”, único termo até então usado. Desde o Ato de Fundação de sua Escola em 1964, assegura que a Escola é uma experiência inaugural, o que quer dizer uma experiência de ruptura com o modelo vigente de formação da IPA calcado no formalismo.

O dispositivo do passe é lançado por Lacan em sua Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola, texto que se tornou referência quanto à formação do analista na Escola de Lacan.

O passe sempre foi assunto polêmico entre os psicanalistas; muitas dissidências no movimento lacaniano foram motivadas por esta questão. Trata-se de um procedimento institucional criado com o intuito de verificar o final de análise em termos lógicos, ou seja, de forma que possa ser demonstrado e transmitido para uma comunidade analítica. O que o passe se propõe a verificar é a passagem que se dá de psicanalisante para psicanalista, pois é esta passagem que vem a definir o analista, não a partir de sua prática de analista, mas de sua análise pessoal. Nessa direção, Lacan reconhece: “essa sombra espessa que encobre a junção de que me ocupo aqui, aquela em que o psicanalisante passa a psicanalista, é ela que nossa Escola pode empenhar-se em dissipar” (2003 [1967], p. 258).

Mesmo que não seja possível, no âmbito desta investigação, aprofundar todas as questões que estão envolvidas no passe, é preciso que se diga que, com esse procedimento, Lacan dá novos rumos à questão da formação do analista, instituindo, para isso, o princípio da autorização: “Antes de mais nada, um princípio: o psicanalista só se autoriza de si mesmo” (LACAN, 2003 [1967], p. 248).

Lacan não abre mão de assegurar que o “autorizar-se analista” pela via do passe, “não impede que a Escola garanta que um analista depende de sua formação” (LACAN, 2003 [1967], p. 248). Nessa direção, ele indica, que se autorizar analista não é universal, do “qualquer um”, mas do um a um que se autoriza pela análise, mas não sem a instituição de formação, a quem terá que dar provas, através do passe, de que ali, na experiência analítica, se produziu um analista. Há, pois, uma tensão entre autorização e garantia institucional que deve ser mantida na Escola fundada por Lacan.

Na proposição do passe, o passante (aquele que é submetido ao passe), quando aprovado, é nomeado “Analista da Escola” (AE), e passa a exercer, nessa condição de AE uma função que tem ressonâncias políticas e epistêmicas dentro da Escola. De acordo com a Orientação Lacaniana do Campo Freudiano, o AE, durante três anos, tempo de validade de seu título – pois não há AE que seja permanente –, testemunha, para a comunidade analítica, o saber que extraiu da experiência, tanto para a sua posição subjetiva quanto para o avanço da psicanálise, sobretudo no que diz respeito à teorização do final de análise. Há, no passe, uma dimensão clínica e política, as quais devem ser consideradas como o direito e o avesso que estão em permanente tensão e que traçam o rumo do institucional. Reconhece-se, hoje,

inclusive, o inestimável valor que os relatos de passe têm como norte para orientar as análises em curso.

O passe, como procedimento institucional, do período de seu ato inaugural em 67 aos tempos atuais, sofreu transformações no que diz respeito ao seu regulamento, o qual está em constante renovação, apesar de manter a célula original criada por Lacan. Como enuncia, de forma clara, o site da AMP sobre o passe hoje:

Um dispositivo cuidadosamente desenhado recolhe o testemunho do ‘passante’ através de dois ‘passadores que o transmitem a um jurado, o Cartel do Passe, que o avalia. se o Cartel considera que há evidências suficientes de que se chegou ao final da análise dá, então, ao "passante" o título de AE – Analista da Escola. Este deverá testemunhar publicamente à comunidade e ensinar, a partir de sua experiência, durante os três anos seguintes.4

Quanto ao modus operandi do passe na atualidade, é pertinente recuperar as considerações de Holck, que se submetera ao dispositivo em 2007:

Uma vez que o analisante considera que sua análise está concluída, ele pode se dirigir ao secretariado5 do passe da Escola e formular sua demanda. Se o secretário julga que há algo a ser transmitido, o passante se dirige aos passadores, ou seja, àqueles para quem faz o relato de sua análise. Os passadores são analisantes que atravessaram um certo percurso em sua análise e começam a pensar no fim. Podem ser inteiramente desconhecidos do passante, a transferência não está dirigida a eles, mas à Escola.

Depois de realizado o relato de análise, os passadores transmitem ao cartel do passe o que escutaram do analisante. Cabe ao cartel verificar se o sujeito experimentou seus limites, lugar de onde seu dizer adquire sentido e gozo, e se houve passagem do analisável para o ‘ensinável’, isto é, se o passante conseguir transmitir um saber a partir do que teve lugar e já não está. (HOLCK, 2008, p. 104-5)

Na dobradiça do analisável e sua passagem para o ensinável, há, nos testemunhos, uma preocupação de transmitir o que pode caracterizar um final de

4 Disponível em : <http://www.wapol.org/pt/las_escuelas/Template.asp?Archivo=el_pase.html>

acesso em: 10/10/2011.

5 A Secretaria do passe, que tem duração de dois anos, é a quem o candidato dirige seu pedido para

ingressar no procedimento. Essa secretaria é responsável pelo exame, organização, orientação ao candidato, comunicados, inclusive da decisão do Cartel do Passe no que concerne à nomeação.

análise. Verificamos que os ensinamentos dos testemunhos têm mudado a teoria do final de análise.

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