Esta subcategoria apresenta a trajetória escolar dos estudantes entrevistados do Curso Técnico em Serviços Públicos. Por meio dos relatos foi possível identificar alguns dados importantes, como o tipo de escola (pública ou particular) onde os estudantes cursaram a Educação Básica. Foram verificadas as causas que levaram alguns estudantes a procurar a modalidade EJA.
Dos 10 participantes, oito relataram que sempre estudaram em escola pública e dois relataram que parte dos estudos foi feita em escola pública e outra parte em escola particular. O Estudante 8 relatou que precisou ir para a escola pública depois de ter reprovado duas séries do Ensino Fundamental.
Foi observado que algumas estudantes haviam interrompido os seus estudos por motivo de gravidez. Seguem os depoimentos:
[...] Eu casei quando estava com 17 (anos). Tive que cuidar dos meus enteados, aí tive filha e tive que parar (de estudar) porque não tinha ninguém para cuidar da minha filha. Eu parei (de estudar) quando eu estava no 9º ano. (Estudante 1)
[...] Eu engravidei, por desvios da vida, eu parei de estudar. Aí quando eu voltei a estudar, eu voltei pelo EJA, aqui mesmo no CED 02. (Estudante 6)
[...] Eu tive que abandonar a escola aos 14 anos de idade porque eu fui mãe aos 14 anos de idade. Após trinta e um anos retornei aos estudos e fui para o sistema de ensino EJA, no qual consegui concluir (Ensino Fundamental e Médio) e depois surgiu a oportunidade do curso técnico, no qual foi de grande proveito pra mim [...]. (Estudante 7)
Assim como identificado em outros estudos, a gravidez na adolescência é considerada um motivo de abandono escolar. As falas apresentadas confirmam o que foi observado por Esteves e Menandro (2005), quando afirmam que uma das consequências da gravidez na adolescência é a interrupção do percurso escolar. Os autores também citam como consequência a menor possibilidade de qualificação profissional e menor oportunidade de inserção posterior no mundo do trabalho. Tendo presentes essas informações e as apresentadas no subcapítulo intitulado como “Caracterização dos Sujeitos da Pesquisa”, podemos perceber que, apesar de muitas vezes a ocorrência da gravidez neste período acarretar tais obstáculos, eles não impediram a busca de realizações, como a conquista da empregabilidade.
Como a LDB preconiza, a EJA foi destinada para dar oportunidade a todos que não tiveram acesso ou continuidade de estudos na idade própria. Então, as estudantes, tiveram a oportunidade de retomar os seus estudos na referida modalidade.
Assim como já descrito neste estudo, todos os entrevistados já possuem o Ensino Médio completo. Do total, quatro concluíram esta etapa de ensino no CED 02 do Cruzeiro na modalidade EJA e um no Ensino Médio regular, também na instituição. Isso mostra a confiança que os estudantes têm sobre a qualidade da educação promovida na escola. Considerando que os requisitos de acesso são a idade mínima de 18 anos e o estudante ter concluído o Ensino Fundamental ou equivalente, conforme recomenda a legislação educacional e o PPC, verifica- se uma certa falta de conexão com o perfil dos estudantes investigados.
De acordo com as discussões realizadas nas reuniões pedagógicas, essa realidade deixou os docentes surpresos, alguns indagaram que tal descoberta deveria ter sido apresentada a todos no início do semestre letivo e não no fim. Uma docente citou que o professor necessita conhecer o seu aluno para saber lidar com as características de cada um e acredita que os estudantes
oriundos do Ensino Fundamental (menos de 10% do total dos estudantes do curso) podem ter tido algum tipo de receio em participar das aulas.
Ao planejar suas aulas, o professor deve ter como ponto de partida a reflexão: Para
quem planejo? Para responder a essa questão, é necessário conhecer os seus estudantes e suas
experiências, situando esses atores no espaço educativo (Vasconcelos, 2012).
É importante ressaltar que o PPC prevê os critérios para a realização da matrícula, sendo obrigatória a participação do estudante na palestra realizada no primeiro dia de aula. O objetivo da palestra foi trazer informações e esclarecimentos sobre as especificidades do curso, a origem, os objetivos, o período de duração, a organização modular e curricular, bem como as formas de avaliação.
Com o intuito de contribuir para que essa situação não se torne um obstáculo no andamento do trabalho pedagógico, alguns docentes sugeriram à direção a realização de questionário, levantamento e tabulação dos dados na entrada de novos24 estudantes do curso.
Assim, a equipe docente conheceria o público e criaria estratégias de planeamento para executar o trabalho da melhor maneira.
Motivo da escolha do Curso e expectativas relativamente ao primeiro semestre Neste momento são apresentados os principais fatores motivacionais que influenciaram os estudantes entrevistados a escolher e fazer o curso, e quais foram as suas expectativas quanto ao primeiro semestre. Por meio dos dados coletados nas verbalizações, foi possível identificar que a maioria optou em fazer o curso porque no momento estava sem estudar e encontrou neste curso a oportunidade de retomar os estudos.
O curso técnico foi num momento em que eu estava sem nada para fazer, eu vi, achei legal, eu gosto de estar sempre estudando, aí eu quis fazer, quis entrar. (Estudante 3) Bom, eu já estava um tempo parado sem estudar, estava à procura de um novo curso e vi essa oportunidade, que o curso é de graça [...] o governo está proporcionado e vi uma faixa aqui na frente da escola, eu também moro no Cruzeiro, perto de CED 02, e resolvi fazer o curso. (Estudante 2)
Eu estava parada há um ano e aí eu vi nesse curso a oportunidade de ficar estudando com as matérias frescas na cabeça, para estudar para concurso e fazer outra faculdade na área. (Estudante 4)
24Até a referida reunião, já haviam sido matriculados para o primeiro semestre de 2017 catorze estudantes que
apresentaram somente o Ensino Fundamental concluído. Tal fato demonstrou um avanço a respeito da clientela que o curso procura alcançar.
A novidade em haver um curso técnico integrado na modalidade EJA na rede pública de ensino e na zona urbana foi um fator que contribuiu para a motivação em fazer o curso. Mesmo com o Ensino Médio concluído por todos os entrevistados e mesmo alguns já terem feito o Ensino Superior, perceberam esse diferencial como uma possibilidade de apreender novos conhecimentos e de conquistar um aperfeiçoamento especializado numa área de formação. Essas observações ficam claras nos seguintes relatos:
Quis fazer novamente (o Ensino Médio) por causa do curso técnico. Para ter mais conhecimento e porque é perto de casa. Porque eu moro pertinho, cinco minutos. (Estudante 1)
Então, eu estava finalizando o curso EJA nesse centro educacional e aí veio a divulgação do projeto que ia ser integrado e eu gostei bastante do conteúdo do projeto deles e ingressei. Então, mediante o apoio do meu filho, é que eu segui o conselho dele e hoje eu estou aqui. Concluí o Ensino Médio na EJA, fiz o concurso e estou no curso técnico e agora só melhorando cada dia mais [..]. (Estudante 7)
A respeito das expectativa quanto ao primeiro semestre, analisou-se se na visão dos estudantes houve uma correspondência entre as aspirações em relação ao curso e a realidade concreta vivida por eles ao longo do percurso. Segundo os entrevistados, apesar de terem encontrado dificuldades pelo facto de ser a primeira oferta do curso, o diálogo entre e com os professores e o esforço de cada um deles contribuíram para o êxito do curso. Os relatos abaixo comprovam essa valorização:
Foram, foram. Melhorou ao decorrer do curso, fomos atrás, né? E melhorou bastante. Eles (os professores) começaram a conversar entre si e melhorou muito. (Estudante 1) Foram. Foram porque eu coloco os professores que se esforçaram, que estiveram sempre ali em busca de ensinar, valorizar, se atualizar também, sempre procurando melhoras, se aperfeiçoar. (Estudante 9)
O diálogo nas relações que ocorrem dentro da escola é considerado uma estratégia imprescindível “numa educação voltada para a formação integral do indivíduo” (Vasconcelos, 2012, p. 110).
A importância da relação entre teoria e prática foi notada pelo Estudante 5. Através de seu testemunho “eu não só aprendi a teoria, mas como eu passei para a prática” é possível observar a relevância dessa relação na aprendizagem, levando o estudante a utilizar tais conhecimentos em sua vida cotidiana. Nesse sentido, “teoria e prática caminham juntas num processo de realimentação constante” (Vasconcelos, 2012, p. 116).