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Les études ontologiques

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John OGBORN

2. ÉTUDES EMPIRIQUES

2.2. Les études ontologiques

Recorrer à sociologia, nesse estudo, fez-se necessário para entender melhor o comportamento social do trabalhador rural numa perspectiva histórica reveladora de um passado de dominação. Em seus primórdios sob o domínio da escravidão e ao longo dos tempos metamorfoseando-se sob o disfarce da “proteção”. Conhecer sua trajetória ajudará a

entender como se processavam as suas relações sociais e principalmente como o trabalhador entende e desenvolve a sua atividade laboral.

Em qualquer revisão bibliográfica que busque retratar a saga da cultura canavieira do Estado de Pernambuco, quando se evoca a sua origem étnica, surge o livro Casa-Grande & Senzala (Freyre, 1933) como fonte de pesquisa das mais ricas e expressivas da formação da sociedade rural ao tempo do Brasil Colônia. Ninguém melhor do que Gilberto Freyre, autor da obra referenciada, para abordar de forma panorâmica a sociedade pernambucana dos senhores de engenhos, até porque dela foi ele um legítimo descendente. Essa contingência é motivo de crítica de alguns estudiosos, quando diminuem a importância da sua obra, ao atribuir às suas origens, vetor determinante para descrever de forma complacente a saga dos senhores da cana, a partir das relações “democráticas” travadas nas casas-grandes, entre as raças que deram origem ao povo brasileiro.

Essa crítica é retomada por Darcy Ribeiro em um dos seus ensaios, quando assim se expressa: “Freyre nunca foi um pensador stricto sensu. Estudou na América com o célebre antropólogo Franz Boas e herdou dele o gosto pela descrição criteriosa, exaustiva, cuidadosíssima, mas desinteressada de qualquer generalização teórica”. Entretanto o antropólogo não deixa de reconhecer que:

Em nenhuma outra língua existe trabalho tão minucioso, tão copioso em informações. E tão fascinante. Porque lemos Casa-grande e Senzala como quem lesse uma obra narrativa. Para isso contribui a habilidade verbal de

Freyre que estabelece o que, em literatura, se chama estilo. Ele tem um

estilo sugestivo e brilhante, uma volúpia no trato om a palavra. Os efeitos de linguagem tornam-se visíveis a todo o instante. (Disponível em:

<htttp://www.terra.com.br/literatura/livrodomes. Acesso em: 20 fev. 2007).

Na esteira do entendimento do antropólogo sobre a obra Freyreana é que se desenvolve a abordagem sociológica da pesquisa objeto desse estudo. Assim, por meio da análise de trechos do livro Casa-Grande & Senzala, busca-se reconstituir as bases da sociedade brasileira no período colonial e em seu interior, da sociedade pernambucana, identificando o “bóia-fria” como o descendente direto do escravo das lavouras de cana-de-açúcar.

Nada mais contundente do que...

A força concentrou-se nas mãos dos senhores rurais. Donos das terras. Donos dos homens. Donos das mulheres. Suas casas representavam bem esse imenso poderio feudal. Feias e forte. Paredes grossas. Alicerces profundos. Óleo de baleia. Há uma tradição nortista que um senhor de

engenho mais ansioso por perpetuidade não se conteve e mandou matar dois escravos e enterrá-los nos alicerces da casa. O suor e às vezes o sangue dos negros foi o óleo que mais do que de baleia ajudou a dar alicerce às casas-grandes (Freyre, 1961).

Essa história de sangue, suor e lágrimas tem início logo após a descoberta do novo mundo, quando pelas mãos colonizadoras dos portugueses, a produção de cana-de-açúcar é introduzida em solo brasileiro. A origem da cana vinda de Portugal é árabe, porque foram os mouros, detentores de grande tradição agrícola, que durante a ocupação da Península Ibérica transferiram para os portugueses a tecnologia para o fabrico do açúcar. O engenho mouro é, portanto, a matriz do engenho pernambucano.

A princípio, foi o índio a mão de obra disponível para o cultivo da cana. Entretanto, sua relação com o homem branco – o português – não era das mais fáceis. O choque cultural entre europeus e ameríndios foi de grandes proporções. As relações entre homem e mulher, mestre e discípulos, colonizados e colonizadores, sofria de certa forma a mediação dos jesuítas. Estes exerciam seus ofícios em capelas construídas nos interiores das casas-grandes, servindo tanto para oficializar os ritos da igreja católica, como para ministrar as aulas aos filhos dos senhores de engenho e catequizar os índios. A fragilidade dos índios para contrair as doenças do homem branco, tornava difícil a sua adaptação ao trabalho árduo do campo, que exigia na sua lida, muito vigor físico.

Logo ficou evidente para os donos das terras e para os representantes da Igreja que apostar no índio como mão de obra intensiva para o desenvolvimento da economia brasileira não resultaria nos ganhos de produção que desejavam. A solução seria, pois, como de fato foi, o suprimento da mão de obra escrava, com a importação de negros caçados na África. A mudança se operou no interior das casas-grandes pela substituição das cunhãs nas cozinhas (índias que trabalhavam como domésticas) e na cama do senhor, pelas escravas negras, como rezava o costume da época. Essa licenciosidade dos senhores de engenho que, por meio da força e do poder, submetiam as índias e as escravas aos seus caprichos libidinosos, contribuiu para a proliferação de filhos bastardos, cuja cor da pele denunciava sua origem.

Em trecho de Casa-Grande & Senzala, Freyre (1961) assim comenta:

Na verdade, senhores, se a moralidade e a justiça de qualquer povo se fundam, parte nas suas instituições religiosas e políticas, e parte na filosofia, por assim dizer doméstica de cada família, que quadro pode apresentar o Brasil quando o consideramos debaixo desses dois pontos de vista?”

A considerar os desmandos dos poderosos senhores de engenho, a sociedade pernambucana do Brasil Colônia, não serviria como exemplo de zelo pela moral e bons costumes. Na verdade, o senhor de engenho é decantado em prosa e verso como a figura soberba do homem poderoso que preguiçosamente vivia deitado numa rede, cochilando e copulando. Quando se dispunha a sair, o fazia sempre com o auxílio dos negros, que o transportava em redes dependuradas às suas costas. E, para demonstrar a sua autoridade nem era preciso sair da rede, bastava apenas ordenar por meio de gritos, que ressoavam como tempestades. Essa relação de poder, no entanto, se democratizava na alcova como assim se referia Freyre, trazendo graves consequências de ordem sanitária, merecendo do autor o seguinte comentário:

Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas. O Brasil, entretanto parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado. A contaminação da sífilis em massa ocorria nas senzalas, mas não que o negro já viesse contaminado. Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram as negras das senzalas. Por muito tempo dominou no Brasil a crença de que para um sifilítico não há melhor depurativo que uma negrinha virgem (Freyre, 1961).

A promiscuidade da elite rural brasileira que sem o menor pudor servia-se da mulher escrava com se objeto fosse, também produziu outras consequências nefastas. A escravidão provocou no negro o distanciamento do seu meio social, desfazendo seus laços familiares. A comercialização das peças favorecia a essa situação, quando eram vendidos separadamente, membros de uma mesma família a outros proprietários. Também, os mais vigorosos escravos tornavam-se reprodutores da espécie, para aumentar o contingente de escravos do senhor. A Igreja corroborava nessa engrenagem, procedendo ao batismo tão logo as crias nasciam. Os rebentos eram considerados gente sem alma.

À exemplo do que ocorre com o Bóia-Fria na atualidade, também seus ancestrais provaram dos efeitos negativos do processo de desterritorialização, que se iniciou quando foram expatriados de forma brutal e se intensificou com a sua comercialização como peças, privando-os do convívio social e familiar. Os mecanismos se metamorfosearam ao longo dos tempos, porém, os efeitos nefastos são os mesmos, em nada contribuindo para manutenção das relações sociais e vínculos afetivos.

O papel da mulher escrava era de mediadora entre a casa-grande e a senzala, representando o ventre gerador. Assim as negras mais bonitas eram escolhidas pelos senhores

para servirem de concubinas e domésticas. A atração fatal que as escravas provocavam nos senhores de engenho produzia em suas esposas um desencadear de sentimentos variados, misto de ciúme, inveja e vingança, que sempre resultavam em castigos aplicados ao objeto do desejo dos seus maridos. Assim, a escrava que capitulava ao sadismo e aos vícios do senhor era impiedosamente castigada pela sinhá, sem que pudesse esboçar nenhuma atitude de constrangimento, tampouco de insurgimento às agressões sofridas. A cada cópula e castigo, sobravam as atividades domésticas a serem cumpridas. Da cozinha para a cama, o objeto do desejo não tinha desejo a considerar. Só, obrigações a cumprir.

Na sociedade escravocrata e latifundiária emergente os valores culturais e sociais se mesclavam entre brancos e negros. O papel da mulher negra na sociedade escravocrata é realçado até pela figura apagada e de pouca importância da mulher branca dentro de uma sociedade essencialmente machista. Assim, as damas da sociedade eram dadas em casamento pelos seus pais, muito novas, entre os doze e quinze anos, a homens poderosos, muito mais velhos do que elas. O recato natural que espelhavam e a completa ignorância sobre as coisas da vida e do casamento era um dado comum entre elas. As poucas informações que detinham eram transmitidas pelas mucamas, suas escravas de quarto. A vida sedentária, pouco estimulante das senhoras de engenho, contribuía para torná-las infelizes. Em geral, transformavam-se em matronas ainda muito jovens, pelos sucessivos partos que deformavam seus corpos. A falta de cultura e instrução também contribuía para que levassem uma vida de ócio e reclusão. O fato é que a presença da escrava, muito embora servisse aos seus caprichos, era uma constante ameaça à sua condição de mulher desejável.

As crias dos senhores de engenho, recebiam da escrava negra os primeiros cuidados desde que nasciam, sendo acalentados, amamentados, acarinhados e protegidos durante toda sua infância e adolescência, quando então, era também com elas que se iniciam nos domínios do sexo.

A mão escura da negra escrava também contribuiu na culinária, quando a partir das sobras da casa-grande, criava receitas de gosto forte e apurado, usando condimentos africanos e o azeite de dendê, para temperar pratos como: a feijoada, farofa, o quibebe (espécie de purê de abóbora) e o vatapá, para citar apenas os mais conhecidos. A influência africana também se fez sentir na forma de expressar a língua portuguesa. O modo peculiar de colocar os pronomes antes do verbo: (me diga, me espere...) vem do africano, ferindo o português arcaico, muito

mais formal no seu emprego (espera-me, diga-me,). Também a forma diminutiva de se expressar é herança africana (benzinho, sinhozinho, Toinho, Zezinho). Enfim, sua influência se faz presente no jeito do brasileiro falar, andar, comer e expressar seus sentimentos de tristeza e alegria com espontaneidade. Na religião também a cultura africana legou o sincretismo, transformando santos católicos em entidades sagradas ao culto do candomblé e dos terreiros de Umbanda. Aproveitando-se das crenças e magias trazidas pelas mãos dos portugueses, os escravos as transformavam em feitiçarias que eram colocadas a serviço do homem branco, como curas para todos os males. Assim, havia feitiço para aumentar a potência sexual dos homens mais velhos ou para engravidar as sinhás. (Disponível em: <htttp://www.terra.com.br/literatua/livrodomes. Acesso em: 20. fev. 2007).

A vida do escravo pela própria condição de escravo nada tinha de fácil. Porém, o vigor físico do africano, apenas suplantado pelo seu vigor moral, ajudava-o a superar a condição de absoluta submissão, buscando tornar sua vida mais alegre apesar dos pesares. Porém, nem sempre isso acontecia, como fica claro nesse trecho de Casa-Grande & Senzala:

Não foi só de alegria a vida dos negros escravos dos ioiôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo – a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram, mas ficaram penando (Freyre, 1961).

A saga dos escravos africanos em terras brasileiras traduz uma vida de trabalho, repressão e luta pela liberdade. O ideal de liberdade sempre esteve presente no cotidiano do homem negro, tornado escravo pela mão do branco dominador. Nesse ideal a eles também se juntaram filhos dos senhores de engenho que se tornaram abolicionistas por várias razões, dentre elas as questões humanitárias e o sentimento de gratidão pela preta velha que os criou com carinho e dedicação.

Atribui-se ao cientista social Florestan Fernandes, o seguinte comentário a respeito do período de escravidão no Brasil:

Os brancos diziam que em nenhum país do mundo essa nefanda instituição foi tão doce como no Brasil. Agora não me passa pela cabeça – não deve passar pela cabeça de ninguém – que essa nefanda instituição, como os próprios brancos chamavam a escravidão, que ela pudesse ser doce em algum lugar. Ela só pode ser doce da perspectiva de quem estivesse na casa- grande e não na perspectiva de quem estivesse na senzala. (Disponível em: http://www.terra.com.br/literatua/livrodomes. Acesso em 20 fev. 2007).

O comentário de Florestan Fernandes explica de certa forma o ideal abolicionista aflorado entre os filhos dos senhores de engenho. A escravidão vista por eles, poderia ser considerada doce, pela doce presença da mãe preta. Todavia como imaginar um povo subjugado em terras alheias se sentir confortável vivenciando tão situação? A supressão da liberdade para qualquer ser humano dotado de inteligência e vontade, é um castigo inaceitável, só admissível quando se evoca a relação de poder que se estabelece entre os sujeitos. Somente o exercício do poder econômico reforçado pelo status social explica essa triste página da história nacional. Muito embora se negue a evidência, a escravidão no Brasil tem muitas faces que ainda permanecem expostas, na figura dos excluídos de toda sorte, que compõe grande parte da sociedade contemporânea.

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