Sabe-se que a Administração Científica Taylorista, com a sua organização clássica do trabalho, focada no estudo de tempos e movimentos da tarefa em chão de fábrica, ainda se constitui no maior referencial para o mundo do trabalho quer nos centros urbanos, quer no meio rural. A leitura taylorista sobrevive ao longo da história como uma ferramenta de análise da organização do trabalho, a partir da sua descrição pela observação. Nessa contemplação, o trabalhador como ator principal pouco é ouvido, de maneira que a sua interpretação da atividade que desenvolve, é ignorada na formulação de políticas de gestão e no desenvolvimento de equipamentos para uso exclusivo em situações de trabalho.
Corrobora com esta visão a ergonomista Leda Leal Ferreira quando na apresentação do livro “Por dentro do Trabalho” (Wisner, 1987), assim comenta:
As poucas e louváveis iniciativas de se estudarem as condições de trabalho sofre na sua maioria de dois grandes males: a falta de uma análise da atividade real dos trabalhadores e a falta de uma abordagem global da situação de trabalho. Apesar de se falar em enfoque multidisciplinar, o que em geral se vê é apenas uma compilação de estudos isolados, feitos a partir de um critério de riscos (químicos, físicos, antropométricos etc) ou de competências profissionais (relatório do engenheiro, do médico, do psicólogo etc). A participação dos trabalhadores – quando se dá – ainda é bastante passiva. É como se a questão das condições de trabalho pudesse ser entendida como um problema puramente técnico, perfeitamente solucionável, sem a participação e interesse dos trabalhadores.
Pelos comentários da ergonomista, percebem-se claramente as limitações dos estudos sobre a matéria e o quanto se faz necessário ampliar a visão sobre o campo de trabalho e suas implicações para aqueles que o desenvolvem. Como ergonomista, refletindo o pensamento de Wisner, apresenta como solução “a análise do trabalho, isto é, a descrição do trabalho tal como acontece realmente e uma abordagem dos mecanismos e das causas que conduzem a trabalhar
segundo tal ou qual modalidade”. E acrescenta: “não se pode fazer ergonomia sem ir para a fábrica, escritório ou campo e analisar in loco o que os trabalhadores fazem”.
Muito embora a proposta ergonômica ainda não esgote a temática, visto também apresentar limitações, é inegavelmente mais abrangente do que a visão da Administração Científica, como defende Wisner (1987): “o princípio da análise ergonômica, do trabalho de campo é em si revolucionário, pois faz pensar que os intelectuais e cientistas tem algo a aprender a partir do comportamento e do discurso dos trabalhadores”.
Na verdade, o que se busca é entender a praxis do trabalho, a forma como ele é pensado e realizado, de maneira a se estabelecer o gap (Gap Analysis – técnica para identificar lacunas) entre a teoria e a prática, ou seja, como de fato a atividade laboral se desenvolve, desde a descrição da tarefa, das atividades que ela requer até como é sentida e refletida na concretização da ação. Portanto, a proposta ergonômica da análise do trabalho, se apresenta como a ferramenta mais adequada para adentrar intrinsecamente no mundo do trabalhador bóia-fria, superando a superficialidade da pura descrição do trabalho para perceber as repercussões cognitivas e psíquicas que ocorrem em seu trabalho real.
Laerte Idal Sznelwar, médico e Doutor em Ergonomia da USP, ao prefaciar a edição brasileira do livro de Guérin et al (2001) “Compreender o Trabalho para Transformá-lo” assim comenta:
A ergonomia propõe uma abordagem diferenciada, baseada numa perspectiva antropocêntrica. O trabalho e a produção são importantes para o desenvolvimento das sociedades humanas e dos indivíduos. A importância dos outros fatores não deveria sobrepujar o humano na produção, uma vez que se pode banalizar a própria existência das pessoas trabalhando. Se esse trabalhador “não serve”, troca-se.
O autor chama a atenção para a necessidade de enxergar com lentes de aumento a participação do homem no trabalho, sem a qual a atividade não acontece. Os interesses que permeiam as relações entre empregado-empregador são determinantes para o estabelecimento do papel que representa o trabalhador na produção. A relação de poder que se observa no binômio mencionado pode levar à banalização da representatividade do trabalhador na produção, considerando o excesso de mão de obra, que permite a troca sem maiores problemas. Nessa perspectiva, o trabalhador torna-se um número. Trocar seis por meia dúzia não implica em maiores dificuldades, a não ser para quem é trocado, porém, essa circunstância não é considerada, quando também não é considerada a dimensão humana do trabalhador.
E conclui:
Muito há que se fazer, em nosso meio, para ultrapassarmos uma realidade ainda cruel com relação ao trabalhador. Na categoria “trabalhador” se enquadra muita, muita gente, e não é apenas operário de fábrica, o operário agrícola, o operário urbano. Todos aqueles que trabalham, que executam tarefas como assalariados ou não, merecem ter no seu trabalho não apenas um meio de ganhar a vida, mas um meio de desenvolvimento pessoal e social.
A julgar pelo comentário de Sznelwar (Guerin et al, 1987) a dimensão do trabalho prazeroso ainda estar por se conquistar, como ademais a própria dimensão do trabalho humano também carece de redefinição, colocando no devido lugar o seu protagonista – o trabalhador -, na medida em que se reconheça, priorize e identifique suas necessidades enquanto trabalhador. Com esse entendimento, o autor suscita uma série de indagações:
Será que, ao pensar numa ferramenta, o projetista coloca em lugar de evidência o usuário desta? Será que, ao organizar a produção numa linha de montagem, uma empresa pensa nas necessidades de pausa, nas necessidades das pessoas para obter retorno sobre o que realizam? Será que, ao pensar na aplicação de venenos contra insetos no campo, os projetistas pensam no peso do equipamento, nas condições do solo, no calor? Será que, ao se desenvolver um programa de computador pensa-se no uso real do sistema, nas limitações e propriedades da memória humana? Será que alguém que tem um papel de gestão, em determinado sistema de produção, tem de fato tempo e condições de fazê-lo? Será que o evidenciar que há riscos de acidente de trabalho e que eles só não ocorrem mais amiúde por causa da prudência das pessoas, as empresas seriam instadas a transformar a situação de trabalho?
Será?... Será?... Para tantas indagações é possível se responder de forma muito simples. A não observância dos serás, é responsável pela grande maioria das demandas trabalhistas que ocorrem no meio empresarial. Ignorar a perspectiva de quem desenvolve o trabalho na organização, não favorece em nada a sua equalização, pela adequação do trabalho às características humanas. Esse descaso que reduz a participação do homem na concepção da organização do trabalho, além de preconceituoso, também é responsável pelos grandes problemas vivenciados nas empresas no que se refere a acidentes, doenças ocupacionais relacionadas ao trabalho, bem como às questões relativas à produtividade e qualidade. Na maioria das vezes, é imputado aos trabalhadores o ônus da culpa por esses problemas. Exatamente para dirimir dúvidas e pontuar com exatidão as origens dos problemas organizacionais, é que a ergonomia oferece uma nova abordagem, como um novo olhar para analisar velhos problemas.
Sznelwar ainda sintetiza assim a contribuição da ergonomia:
Aí entra a ergonomia, aí entra principalmente a análise ergonômica do trabalho, para colocar essa questão no seu devido lugar e colocar em xeque esse tipo de preconceito, tão nesfasto que dificulta a introdução de mudanças efetivas. As principais causas dos problemas estão na inadequação do trabalho às características humanas. Os projetos dos sistemas de produção, processo, da organização do trabalho e das tarefas são feitos, muitas vezes, a partir de estereótipos simplificados do que seria a população de trabalhadores. Em geral, o lugar que o trabalho ocupa dentro de um projeto de produção é irrisório, frente à importância dada aos custos das máquinas e a outros componentes da produção. O resultado é que a questão do trabalho, do ser humano na produção, fica relegada para segundo ou último plano – na realidade, o ser humano “é encaixado” na produção. (Guérin et al, 1987).
Não é sem razão que por muito tempo os trabalhadores de maneira geral são tratados nas organizações como “recursos humanos”. Nessa perspectiva são considerados insumos, tanto quanto os recursos financeiros e materiais. Muito embora já se fale em Gestão de Pessoas, Gestão de Talentos ou de Capital Intelectual percebe-se que a mudança se deu muito mais no plano semântico e da rubrica do departamento, do que na atitude dos que nele atuam, posto que em nada alterou o comportamento dos gestores com relação ao entendimento de que o trabalhador é de fato o principal ativo de qualquer tipo de empresa.
As mudanças ocorridas refletem as discussões nos meios acadêmicos, longe estão ainda de se consubstanciarem na prática no meio empresarial. As nuanças que se percebem, estão identificadas naquelas empresas que lidam com profissionais de extrema qualificação profissional, o que não é o caso do trabalhador rural, notadamente do bóia-fria, cujo nível de escolaridade é baixíssimo, até porque para o trabalho que executa, segundo o entendimento torpe de alguns interessados, não necessita de maiores conhecimentos.
Esse entendimento reducionista e perverso, a pesquisa busca desmistificar, quando sugere uma abordagem ampliada da situação de trabalho pela análise ergonômica. Evidentemente que, nesse estudo não será objeto de análise o trabalho sob a perspectiva do materialismo histórico, em que a questão ideológica sobre a natureza e finalidade do trabalho é priorizada. Dada a importância do tema, essa abordagem se remete para nova pesquisa, em outra oportunidade. No momento, a pesquisa se restringe a análise das condições reais de trabalho sem entrar no mérito sobre a questão da mais-valia, embora que de passagem essa condição seja denunciada.
O enfoque ergonômico enfatiza a necessidade de conhecer o trabalho para modificá-lo, visando essencialmente sua adequação ao homem, de maneira a que este possa desenvolvê-lo de forma mais confortável. Para se chegar ao enfoque ergonômico, faz-se necessário resgatar alguns conceitos sobre a organização do trabalho, para melhor identificar ao longo da linha do tempo como este foi entendido e desenvolvido.