HIGH-GRADE, LOW-TONNAGE URANIUM OREBODY
S. AJURIA-GARZA
2. LEACHING AND WASHING 1. Experiments in 1 m columns
Definidos os tópicos iniciais para o desenvolvimento da pesquisa, e realizada a primeira aproximação com o campo, enfrentei uma questão que há algum tempo me preocupava: a escolha das organizações para a realização do trabalho de campo. Como eu já havia tido uma primeira aproximação com organizações que faziam parte de uma franquia, com processos de trabalho altamente padronizados, resolvi buscar organizações que cultivassem outra abordagem de atuação. Procurei, então, cafés que desenvolvessem suas atividades sob um paradigma mais artesanal. Sendo assim, meu primeiro passo foi listar alguns cafés nos quais observei uma dimensão não tão padronizada ou industrial de trabalho. Utilizei-me, para isso, de minhas vivências na cidade e de meus informantes a respeito do assunto, ávidos consumidores de café e conhecedores das diferentes organizações que se espalham em algumas regiões de Salvador. Na verdade, não cheguei a muitos nomes: cerca de meia dúzia de organizações, a maioria delas propondo ser, ao mesmo tempo, cafeteria e espaço cultural.
Em meio a esse processo de seleção, minha orientadora, também ávida consumidora e frequentadora de cafés, apresentou-me uma organização em especial, um café localizado em um shopping center de um bairro considerado nobre no contexto da cidade, o Itaigara. Inicialmente, confesso que relutei um pouco em considerar a existência de uma organização artesanal dentro de um shopping
center. No entanto, ao visitar a empresa e contatar a proprietária (à época, também
estudante do Núcleo de Pós-graduação em Administração da UFBA), mudei algumas de minhas concepções iniciais relativas àquele espaço.
Antes de fazer um primeiro contato com a proprietária do café, chamado Espresso & Expressão, visitei o local algumas vezes, em diferentes horários, e elaborei diários de campo para que eu pudesse ter uma ideia do que poderia desenvolver a partir dessa organização. Eu jamais tinha ido sequer ao shopping onde o café se localiza, nem era frequentadora do bairro no qual o shopping se insere. Minhas primeiras impressões foram, portanto, de estranhamento, o que, a princípio, facilitaria minhas observações. O shopping não era o que eu esperava, a princípio: a meu ver, mais parecia uma galeria de um centro comercial, por seu espaço horizontalizado. São apenas três andares de lojas com pé direito baixo, mais estacionamentos que se localizam no térreo, em frente à entrada, no subsolo e no quarto andar, que também abriga a administração do estabelecimento.
As dimensões do shopping não são grandes, como de costume em outros estabelecimentos. Não foi difícil, pois, encontrar o café. Ao chegar ao segundo andar, não precisei procurar muito para localizá-lo: apesar de ficar um tanto escondido, longe do fluxo dos que passam pelos corredores do local, existe uma placa, visível a quem sobe as escadas, indicando o espaço da organização. Ao aproximar-se do espaço, o cheiro de café recém-moído é sensível. Aos poucos, a música tocada pelo DVD vai sobrepujando o burburinho do restante do shopping, que só consegue ser abafado porque o espaço é um tanto reservado. O barulho produzido pelas pessoas nas lojas e nos corredores é pouco ouvido. Próximas ao espaço do café, podem ser vistas uma loja de roupas femininas para festas e uma loja de brinquedos.
Em si, o espaço do café era pequeno, como já dito: os nove metros quadrados divididos entre uma área interna, uma área externa ocupada predominantemente por balcões (há, junto à parede, o balcão sobre o qual ficam os equipamentos de trabalho e, em frente, as vitrines com doces e salgados expostos).
O espaço buscava privilegiar tons róseos, desde os azulejos na parede ao fundo até os estofados dos sofás e cadeiras, com diferentes estampas: listras, flores, ou tecidos lisos. Sobre as vitrines, três luminárias de luz amarelada tentavam dar um tom aconchegante à luz fria do shopping. Ao lado das vitrines, uma televisão de tela plana, que normalmente apresentava DVDs de música popular brasileira. Em uma das paredes da área interna, duas prateleiras de vidro com cálices, copos, garrafas de uísque (lá se comercializavam bebidas alcoólicas também) e embalagens de café em grão. Ao lado das vitrines, um estreito balcão envidraçado com grãos de café por dentro sustentavam o computador e o caixa. Gravuras que ilustram o processo de feitura do café desde o plantio ficavam penduradas na sacada do mezanino, sobre as vitrines.
As seis mesas quadradas e duas redondas ficavam no espaço do corredor do shopping. Eram de uma madeira mais rústica. O material é de um tom claro, e não é pintado ou envernizado (depois, soube que eram feitas de madeira de demolição). Sobre uma das mesas, o jornal do dia.
À direita do balcão, uma escada levava a um pequeno mezanino, que abrigava um sofá e duas poltronas. A luz era diminuída naquele espaço, e o volume do som um pouco mais alto, devido, principalmente, à localização dos alto-falantes. O espaço também acolhia, além de uma mini-biblioteca, uma pequena sala de uso dos funcionários. No meio desse espaço, era possível ver uma mesa de centro retangular em madeira e com tampo de vidro. Entre as duas poltronas, uma mesa oval um pouco mais alta. Ao lado, uma pequena sacada com gradis envelhecidos determinava os limites do mezanino.
Nos primeiros contatos com o café, antes mesmo de obter a aceitação por parte da proprietária, comentei de minhas intenções para algumas funcionárias com a finalidade de observar sua reação, ver como seria uma possível inserção em campo. Uma delas, inclusive, interessou-se sobre o trabalho e disse que eu iria gostar muito de desenvolver minha pesquisa lá. Falou que eram, ao total, seis funcionárias e um gerente, e que trabalhavam em três turnos (manhã, tarde e turnos intermediários). Ela também me comunicou que quase todas as funcionárias lá trabalhavam desde a abertura da empresa (pouco mais de um ano, na época). Eu, já sabendo do cotidiano difícil de outras organizações do gênero (uma vez que já havia conversado com outros proprietários de café), e dos problemas relacionados a
absenteísmo e rotatividade, fiquei surpresa, o que me fez ter interesse maior ainda em desenvolver a pesquisa na organização.
Percebi, logo no primeiro contato com a proprietária, relatos sobre o que seria, de sua parte, um esforço muito grande em tornar o café um espaço diferenciado dentro do shopping, com a proposta de que a organização seja, nas palavras da empresária, um "espaço cultural". Este café ao qual me refiro não era uma franquia, característica por si só diferenciadora de muitos cafés em Salvador. A proprietária relatou suas tentativas de trabalhar com um estilo de gestão que ela chama "antiutilitarista". Ela, graduada e mestre em Administração, dizia apropriar-se de alguns princípios de gestão de cooperativas, como, por exemplo, o compartilhamento de demonstrativos financeiros e outras informações da organização com certa frequência, no intuito de galgar maior envolvimento por parte dos funcionários. Fiquei bastante instigada em estudar essa organização, até mesmo porque a proprietária mostrou-se interessada no tipo de pesquisa que eu vinha desenvolvendo e nas possíveis contribuições que seriam feitas a partir da construção da tese.
A resposta da proprietária com relação a meu interesse de pesquisa foi imediata e positiva. Em pouco tempo, eu estava realizando o trabalho de campo. O próximo item narra o processo de minha inserção em campo.