De acordo com Lévy (1999, p.21), fala-se muito hoje em dia sobre o “impacto” que as novas tecnologias da informação teriam sobre a sociedade ou a cultura. Na visão do autor, o uso da metáfora do “impacto” é equivocada porque já abre o debate reificando as tecnologias e considerando-as como externas à própria sociedade – algo que vem de fora e atinge a sociedade, transformando-a.
As técnicas viriam de outro planeta, do mundo das máquinas, frio, sem emoção, estranho a toda significação e qualquer valor humano, como uma certa tradição de pensamento tende a sugerir? Parece-me, pelo contrário, que não somente as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante o seu uso pelos homens, como também é o próprio uso intensivo de ferramentas que constitui a humanidade enquanto tal (junto com a linguagem e as instituições sociais complexas). (LÉVY, 1999, p.21)
Para Lévy (1999, p.22), as tecnologias não são uma entidade autônoma, apartadas da sociedade e da cultura. Essas, por sua vez, não são apenas entidades passivas atingidas por um agente exterior. Ele afirma que:
É impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo. Da mesma forma, não podemos separar o mundo material – e menos ainda sua parte artificial – das ideias por meio das quais os objetos técnicos são concebidos e utilizados, nem dos humanos que os inventam, produzem e utilizam. (LÉVY, 1999, p.22)
Partindo então do pressuposto de que “as técnicas carregam consigo projetos, esquemas imaginários, implicações sociais e culturais bastante variados” (LÉVY, 1999, p.23) e de que “sua presença e uso em lugar e época determinados cristalizam relações de forças sempre diferentes entre seres humanos” (idem), o autor coloca a questão: “As técnicas determinam a sociedade ou a cultura?” (LÉVY, 1999, p.25, grifo do autor). Ele logo esclarece que, em sua visão:
A emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma evolução geral da civilização. Uma técnica é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas. E digo
condicionada, não determinada. Essa diferença é fundamental. A invenção
do estribo permitiu o desenvolvimento de uma nova forma de cavalaria pesada, a partir da qual foram construídos o imaginário da cavalaria e as estruturas políticas e sociais do feudalismo. No entanto, o estribo, enquanto dispositivo material, não é a ‘causa’ do feudalismo europeu. [...] podemos dizer em contrapartida que, sem o estribo, é difícil conceber como cavaleiros com armaduras ficariam sobre seus cavalos de batalha e atacariam com a lança em riste... O estribo condiciona efetivamente toda a cavalaria e, indiretamente, todo o feudalismo, mas não os determina. Dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem a sua presença. Mas muitas possibilidades são abertas, e nem todas
serão aproveitadas. As técnicas podem integrar-se a conjuntos culturais bastante diferentes. (LÉVY, 1999, p.25)
Fica claro, assim, que as técnicas não podem ser consideradas “boas”, nem “más” e, muito menos ainda, “neutras”. Elas, na verdade, abrem um espectro de possibilidades que os homens podem aproveitar ou não. O surgimento do ciberespaço funciona, na visão de Lévy (1999, p.29), “como suporte da inteligência coletiva” e, embora não determine automaticamente o seu desenvolvimento, “fornece a esta inteligência um ambiente propício” (idem) para florescer.
Antes de enveredar pelos desdobramentos que os avanços da técnica viabilizam, convém entender exatamente o que vem a ser essa inteligência coletiva e como ela funciona, segundo a perspectiva de Lévy.
Chamo de ‘inteligência’ o conjunto canônico das aptidões cognitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar e de raciocinar. Na medida em que possuem essas aptidões, os indivíduos humanos são todos inteligentes. No entanto, o exercício de suas capacidades cognitivas implica uma parte coletiva ou social geralmente subestimada. Antes de mais nada, jamais pensamos sozinhos, mas sempre na corrente de um diálogo ou de um multidiálogo, real ou imaginado. Não exercemos nossas faculdades mentais superiores senão em função de uma implicação em comunidades vivas com suas heranças, seus conflitos e seus projetos. Em plano de fundo ou em primeiro plano, essas comunidades estão sempre presentes no menor de nossos pensamentos, quer elas forneçam interlocutores, instrumentos intelectuais ou objetos de reflexão. Conhecimentos, valores e ferramentas transmitidos pela cultura constituem o contexto nutritivo, o caldo intelectual e moral a partir do qual os pensamentos individuais se desenvolvem, tecem suas pequenas variações e produzem às vezes inovações importantes. (LÉVY, 1996, p.97)
Nossa inteligência possui, portanto, uma dimensão coletiva considerável porque somos seres que vivem em comunidade, compartilhando linguagens, valores, simbolismos, notações científicas, etc. A maneira como percebemos o mundo está carregada de “heranças de julgamentos implícitos e de linhas de pensamentos já traçadas” (LÉVY, 1996, p.98). As ferramentas e os artefatos que utilizamos incorporam a “memória longa da humanidade” (idem) pois cristalizam os recursos de organização e cooperação empregados para produzi-las.
[...] as ferramentas não são apenas memórias, são também máquinas de perceber que podem funcionar em três níveis diferentes: direto, indireto e metafórico. Diretamente, lentes, microscópios, telescópios, raios-X, telefones, máquinas fotográficas, câmeras, televisões etc. estendem o alcance e transformam a natureza de nossas percepções. Indiretamente, os carros, os aviões ou as redes de computadores (por exemplo) modificam profundamente nossa relação com o mundo, e em particular nossas relações com o espaço e o tempo, de tal modo que se torna impossível decidir se eles transformam o mundo humano ou nossa maneira de percebê-lo. Enfim, os instrumentos e artefatos materiais nos oferecem muitos modelos concretos, socialmente compartilhados, a partir dos quais
podemos aprender, por metáfora, fenômenos ou problemas mais abstratos. (LÉVY, 1996, p.98)
A diferença entre a forma como os gregos ou as pessoas do século XVII refletiam (e construíam seus modelos cognitivos) e a forma como o fazemos hoje é, basicamente, uma questão de técnica. Agora, construímos modelos computacionais de cognição que são rápidos, abrangentes e capazes de envolver uma quantidade enorme de pessoas na sua “teia”.
Uma questão importante pode ser colocada, então: nessa sociedade contemporânea, onde as redes de computadores ocupam papel de destaque, os homens estariam pensando mais coletivamente do que antes? Lévy esclarece:
Cada indivíduo humano possui um cérebro particular, que se desenvolveu, a grosso modo, sobre o mesmo modelo que o dos outros membros de sua espécie. Pela biologia, nossas inteligências são individuais e semelhantes (embora não idênticas). Pela cultura, em troca, nossa inteligência é altamente variável e coletiva. Com efeito, a dimensão social da inteligência está intimamente ligada às linguagens, às técnicas e às instituições, notoriamente diferentes conforme os lugares e as épocas. (LÉVY, 1996, p.99)
Assim, determinado tipo de ideias ou mensagens podem ser transmitidas facilmente em determinados ambientes, com determinadas técnicas disponíveis, do que em outros, que não dispõem dos mesmos recursos. Segundo Lévy (1993, p.144), “as coletividades cognitivas se auto-organizam, se mantêm e se transformam através do envolvimento permanente do indivíduos que as compõem”. Por outro lado, apesar de viverem imersos em uma cultura específica e de serem profundamente influenciados por ela:
Os sujeitos individuais não se contentam apenas em transmitir palavras de ordem ou em dar continuidade passivamente às analogias de suas culturas, ou aos raciocínios de suas instituições. De acordo com seus interesses e projetos, eles deformam ou reinterpretam os conceitos herdados. Eles inventam no contexto procedimentos de decisão ou novas partições do real. Certamente, o social pensa nas atividades cognitivas dos sujeitos. Mas, inversamente, os indivíduos contribuem para a construção e a reconstrução permanentes das máquinas pensantes que são as instituições. (LÉVY, 1993, p.144)
No moderno universo digital das redes de computadores, cada uma dessas individualidades (ou pelo menos a parcela que tem acesso à rede) pode interagir e aprender, ensinar, descobrir, inventar, refletir, simular, experimentar, etc. Nesse cenário, “o saber se acumula, cresce e fermenta, funde e bifurca em uma grande rede mista, impura, fervente, que parece pensar por conta própria” (Lévy, 1993, p.130).
A inteligência ou a cognição são o resultado de redes complexas onde interagem um grande número de atores humanos, biológicos e técnicos. Não sou “eu” que sou inteligente, mas “eu” com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda a herança de métodos e tecnologias (dentre as quais, o uso da escrita). Para citar apenas três elementos entre milhares de outros, sem o acesso às bibliotecas públicas, a prática em vários programas bastante úteis e numerosas conversas com os amigos, aquele que assina este texto não teria sido capaz de redigi-lo. Fora da coletividade, desprovido de tecnológicas intelectuais, “eu” não pensaria. O pretenso sujeito inteligente nada mais é que um dos micro atores de uma ecologia cognitiva que o engloba e o restringe. 67 (LÉVY, 1993, p.135) A enorme rede da qual hoje fazemos parte, “pensa de forma múltipla” (LÉVY, 1993, p.173) e cada um de seus milhões de “nós” entrelaça um número inimaginável de peças heterogêneas que, por sua vez, “não param de traduzir, de repetir, de cortar, de flexionar em todos os sentidos aquilo que recebem de outros” (idem). Lévy é ainda mais enfático ao afirmar:
É claro, a pessoa pensa, mas é porque uma megarrede cosmopolita pensa dentro dela, cidades e neurônios, escola pública e neurotransmissores, sistemas de signos e reflexos. Quanto mais deixamos de manter a consciência individual no centro, descobrimos uma nova paisagem cognitiva, mais complexa, mais rica. Em particular, o papel da interfaces e das conexões de todos os tipos adquirem uma importância fundamental. (LÉVY, 1993, p.173)
O grau de expansão da inteligência coletiva viabilizada pelas redes de computadores não tem precedentes históricos. Para Lévy (1998, p.19), “quanto melhor os grupos humanos conseguem se constituir em coletivos inteligentes, em sujeitos cognitivos, abertos, capazes de iniciativa, de imaginação e de reação rápidas, melhor asseguram seu sucesso no ambiente altamente competitivo que é o nosso”. E não se trata apenas de “fundir as inteligências individuais em uma espécie de magma indistinto, a inteligência coletiva é um processo de crescimento, de diferenciação e de retomada recíproca das singularidades” (LÉVY, 1998, p.32).
O exercício dessa inteligência coletiva, no novo ambiente expandido das redes de computadores, acaba por gerar novas formas de colaboração e interação diferentes de tudo o que se conheceu até agora. A colaboração em massa é uma dessas novas possibilidades.
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De acordo com Lévy (1993, p.137): “A ecologia cognitiva é o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição”. Ele mesmo afirma, no entanto, que essa ciência ainda está para nascer.