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Le Thermostat d’ambiance

No seguimento do que se expôs, anteriormente, sobre a capacidade de comunicação somente através da música, da melodia e da voz, por parte de um não falante da língua, propomos algumas canções que podem ser alvo de uma análise com alunos de um nível A1. Apesar de não se trabalharem as competências mais importantes numa aula de língua, abordar uma canção de forma a conseguir a comunicação só através da melodia não deixa de ser interessante pois permite-nos apreender as emoções dos alunos, o seu nível de relaxamento e motivação, bem como iniciar as atividades de audição da língua. Esta é uma hipotética forma de ver a canção na aula de LE, a que podemos vir a dar bastante atenção.

Dreamer – Supertramp23

Após uma audição cuidada da melodia, podemos deduzir, através das nossa sensibilidade e experiência, que estamos no campo dos sonhos e quase afirmar que a música vai tratando a evolução desse mesmo sonho e das suas fases. O começo, algo sossegado da canção, somente com uns acordes de guitarra, xilofone e vibrafone, pode demonstra-nos a nossa fase de pré sono. De seguida, a junção das vozes e a concentração maior de instrumentos como mais guitarras, piano e baixo, vão-nos dando a noção do sono. O aumento do ritmo, nomeadamente o uso da bateria e o cruzamento das vozes e segundas vozes, dão-nos uma percepção de que quem dorme entra na fase do sonho onde existe atividade, ação. A música termina com um climax instrumental que podemos ler como um climax no sonho, a fase mais agitada da mente, terminando com um xilofone a solo que nos leva a lembrar a fase de calma depois de uma fase intensa de sono.

Esta seria uma análise hipotética que, juntando depois a letra, poderia ir ao encontro das expectativas criadas e tornar-se uma realidade. Poderia ser uma éspecie de jogo para levar a canção mais longe e observá-la de um modo mais sensível e profundo. Aliás, a partir deste exercício de escuta, poder-se-ia pedir aos alunos que verbalizassem, oralmente, as sensações experienciadas, cirando uma atividade de produção oral, e até de confronto de produções orais.

Quatro Estações – Vivaldi (Primavera)24

Outra música, ou músicas, bastante conhecidas que poderiam servir de exemplo, não para uma aula de LE mas para credibilizar esta hipotética teoria, são as Quatro Estações de compositor Vivaldi. Olhando, por exemplo, para a Primavera, conseguimos, na nossa sensibilidade, apercebermo-nos, através dos instrumentos, da existência de elementos alusivos a esta estação. A melodia é inicialmente alegre com notas altas e um ritmo calmo que nos faz sentir, irrefutavelmente alegres e em paz, espírito que a primavera por si só transmite a humanos e animais, ouvindo, claramente, através do trinar dos violinos, pássaros a cantar. Como todas as primaveras, o tempo é incerto e as tempestades são ainda frequentes. Acelarando o ritmo da música e ouvindo notas e acordes baixos, apercebemo-nos de uma mudança na melodia que nos inquieta o espírito como uma tempestade nesta estação. Por fim, como sempre acontece, o sol volta a brilhar e os pássaros a cantar numa melodia alegre, calma e reconfortante, trazendo tudo de bom que a primavera transmite.

Estes são dois exemplos possíveis de analisar. Através da melodia de uma canção o nosso estado de espírito altera-se frequentemente. Um estudo recente demonstra que as baladas são as canções preferidas da maioria das pessoas, pois quanto mais baixas forem as notas musicais, ou seja, quanto mais triste nos parecer a melodia, mais vasto é o ponto de climax no nosso cérebro, libertando-se a dopamina, responsável pelo prazer e emoções, criando uma sensação de satisfação e relaxamento. Durante as atividades por mim lecionadas, percebi que também os meus alunos tiveram mais prazer na audição da balada “Carta” da banda Toranja, explicando somente que era mais “linda”.

Podemos, portanto, além de tentar uma comunicação através da melodia, ter em conta estes fatores na escolha da canção e testar a viabilidade de trabalhar a partir de uma balada e a motivação que esta possa causar ou não nos alunos aprendentes de uma língua estrangeira.

Conclusão e Reflexão Final

Sendo a música uma sublime forma de comunicar e de mostrar a cultura de um país ao mundo, é irrefutável a sua importância na aprendizagem de uma língua estrangeira. Não podemos sucumbir à ideia de que a canção vem tornar uma aula mais simplificada e mascarar os interesses dos aprendentes. As competências de compreensão oral, a influência que a música tem sobre os comportamentos e as emoções, o estudo implícito da pronúncia, a aquisição de estruturas linguísticas através do uso repetido deste material, são argumentos suficientes para desmistificar a velha abordagem que alguns professores ainda fazem da canção e do seu uso.

As expectativas iniciais em torno da relevância do uso da canção sob a forma de karaoke foram totalmente correspondidas, bem como o uso da canção como transmissor cultural e introdutório a temáticas importantes do dia a dia social de um determinado país, neste caso Portugal. As atividades criadas em torno deste material didático permitiram a duas turmas tão desiguais encarar o ensino da língua de uma forma diferente e sobretudo transportar o que adquiriraram para o seu quotidiano.

O facto de a primeira turma ter cantado as Janeiras fora do contexto da aula e de a segunda turma ter participado em manifestações e ter feito karaoke igualmente fora da sala, demonstrou que o uso da canção pode atingir objetivos que talvez poucos materiais consigam e sobretudo tornar-se parte dos interesses dos aprendentes.

As propostas de atividades apresentadas permitem-nos concluir que o objetivo principal do processo ensino/aprendizagem com as canções é ajudar o aluno a compreender o que é relevante na língua e não usá-la apenas como material meramente lúdico. O vocabulário utilizado nas canções vai muito além da linguagem quotidiana e das variações da língua, podendo ser também um ponto de interesse a abordar, permitindo ao aluno reconhecer que a essência da língua não se reduz apenas a Portugal, e que todo um conjunto de países falantes dessa mesma língua fazem parte da cultura e da história da lusofonia.

Concluimos, desta forma, que a canção, e as suas vertentes como o karaoke, são relevantes no desenvolvimento de competências linguísticas e pessoais e permitem ao aluno tornar-se ainda mais um ser do mundo. No entanto, cabe-nos a nós, professores, participar dessa expansão tanto linguística como emocional, para cumprir os verdadeiros objetivos do ensino e, sobretudo, dar aos discentes ferramentas que lhes

permitam adquirir e aproveitar tudo o que uma língua, a língua portuguesa, pode oferecer.

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