Variedades e similaridades nas histórias de ocupação dos lugares do Sertão
Este capítulo trata da ocupação de Ibimirim, no sertão do Moxotó, desde os passos iniciais desta ocupação, entre o final do século 17 e início do 18, até o processo de modernização que se intensifica a partir de meados do século passado, com o desenvolvimento de grandes obras para a implementação de projetos de irrigação. No entanto, não é para realizar uma revisão histórica detalhada de um período histórico tão grande que este capítulo foi escrito. Para os fins desta tese interessa-me realizar uma leitura sociológica dessa ocupação a partir de um olhar sobre a evolução da configuração social que lá se desenvolveu, observada do pela transformação do modo de vida dos sujeitos em interdependência com as transformações das relações econômicas e políticas que conformam o que a sociologia chama de estrutura social. Uma leitura que, sob a ótica da teoria das configurações, busque identificar os princípios geradores de práticas, comportamentos e normas sociais nas formas que tomam a vida social no campo e na cidade, nas interdependências desta com as relações de caráter mais eminentemente econômico e político que marcaram o território com lutas, cercas, estradas, fazendas, barragens, enfim, que definiram possibilidades e interditos naquele espaço social, gerando movimentos de cooperação e oposição entre os grupos sociais que se confrontaram nesse lugar do Sertão17.
Entendendo que as práticas e idéias coletivas se ancoram nas relações sociais dinâmicas, o estudo do processo histórico de ocupação do Sertão do Moxotó interessa enquanto elemento do conhecimento necessário à compreensão das configurações
17 Toma-se o conceito de interdependência no sentido que é empregado por Elias, de “uma estrutura
de pessoas mutuamente orientadas e dependentes”, que formam o nexo do que ele denomina como
84
sociais atuais, no que tange às relações entre as formas coletivas de comportamento e pensamento presentes nos grupos sociais que hoje vivem em Ibimirim e as mudanças nas estruturas econômicas e sociais engendradas no processo histórico.
Isto se distingue de certas abordagens estruturalistas que tomam o espaço como cenário da história, quando na verdade ele é produzido na história e como todo construto histórico, também é simbólico. A definição do corte regional parece não ser problematizada quando se toma a região somente como algo vivido, palco dos acontecimentos, à maneira como Vidal de la Blache, geógrafo do regionalismo, recorta uma região, ou como a história regional narra a sua história.
Segundo a crítica que Durval Muniz de Albuquerque Junior18 faz à história regional – cujos pressupostos, afirma o autor, são guiados pelo modelo da Escola dos Annales para a monografia regional –, esta toma a região como base onde são sobrepostos elementos de uma geografia humana e de uma história econômica e social, tais como informações sobre os povos que ali habitaram e habitam, sobre como se adaptaram, que elementos exógenos trouxeram e incorporaram aos elementos locais, o que e como produziram, que fluxos de trocas estabeleceram a partir do lugar e as formas de mobilidade social que foram operadas. E ainda, qual a relação do homem com a terra, quais as formas de utilização dos recursos naturais, como se organizaram os sistemas de produção e as relações de produção, quem foram os agentes que se apropriaram dos excedentes e como essas relações de produção e dominação segmentaram o espaço social definindo hierarquias nas relações de poder. A todos esses elementos uma história regional ainda poderia acrescentar o estudo da cultura, da
18
Palestra proferida pelo autor no dia 21 de outubro de 2008, no Instituto Ricardo Brennand (Recife/PE).
85
linguagem, das manifestações artísticas e sobre as funções das produções simbólicas nessa ordem social.
Uma história regional construída nesses termos, diz o autor, como uma “história total”, enfatiza as permanências e continuidades mais do que as rupturas. Ela tende a tomar a região como comunidade, como singularidade produzida pela interação do homem com o espaço e, por isto, procura explorar apenas as dimensões do equilíbrio, da acomodação, da tradição, ou da resistência às mudanças enquanto forma que reorganiza o sistema e retorna às sincronias. Assim, tal forma de história regional deixa de lado as diacronias e os elementos que apontam para a desorganização do tempo e do espaço, a não ser quando essa diacronia é tão profunda que atinge várias camadas da vida social, e então, passa a interessar como um acontecimento total que produz mutações estruturais. Ela perde de vista as diacronias “menores” que são vividas no cotidiano, aquelas que são fruto das formas como os sujeitos, silenciosamente, interpretam e reinventam as idéias e práticas coletivas. Esvaziada deste simbólico das interpretações dos agentes que fazem a região, todo o trabalho de subjetivação que construiu a identidade daquela região, portanto, o trabalho que permitiu nomear aquela região e reconhecê-la através do nome, que definiu os limites onde o nome se aplica, as fronteiras e características da região, esse trabalho subterrâneo e apagado pelo tempo escapa do olhar do investigador que toma a região como dado natural, esquecendo que todo dado, invariavelmente, é construído pela pesquisa e não “coletado”.
O que pretendo fazer aqui é diferente dessas perspectivas que tomam o espaço como cenário da descrição dos acontecimentos, ele mesmo um não-acontecimento, elemento pré-existente e a-histórico que condiciona a forma de ocupação humana. Não é a região por si própria que interessa à pesquisa, mas a sua relação com a formação
86
social maior que a região se insere, no nível macrossocial de análise, e no nível micro, sua relação com o modo de vida das pessoas (GEBARA, 1987).
Falando a partir do campo da sociologia, adoto um procedimento sociológico importante para estudos deste tipo, que é o de fazer uma análise em perspectiva comparada, no caso, entre o processo de ocupação de um espaço específico do sertão – Ibimirim, no Sertão do Moxotó –, e o espaço maior que engloba o primeiro – o Sertão nordestino – e as conexões destes com o cenário nacional. Estas conexões devem ser entendidas como relações de interdependência entre: (a) os processos sócio- econômicos locais e os processos mais abrangentes da estruturação da sociedade brasileira e da inserção desta no mundo; e (b) os processos de mudanças “estruturais”, ou seja, mudanças nas relações econômicas e sociais, e as mudanças nas formas de pensamento e comportamento social dos indivíduos.
Da primeira ordem de conexões interessa olhar as mudanças nas relações entre um lugar específico e os lugares centrais do ponto de vista das relações de poder numa determinada sociedade, como as relações entre metrópole e colônia na sociedade sistema colonial, ou as relações entre regiões industriais e regiões não-industriais na sociedade capitalista. E também as diferentes posições intermediárias, como as relações entre as cidades da região, ou entre Ibimirim e as vilas antigas que fazem parte do seu território, relações estas que, articuladas, perfazem o espaço de domínio de todo um sistema, mas que mostram diferentes tons na forma como o sistema se organiza. Da segunda ordem de conexões interessa perceber as mudanças operadas no modo de vida dos moradores, observando tanto as mudanças que são engendradas nas relações de produção, mas também as mudanças nas formas de comportamento social, influenciadas pelas transformações sociais influenciadas pelos movimentos sociais, como o feminismo, pela indústria cultural e pelas mudanças geracionais. Ou seja, ver
87
as mudanças em esferas da vida social que não resultam diretamente das mudanças nos padrões de produção e de trabalho.
Assim, não é demasiado reforçar que o “viés” interpretativo adotado nesta tese difere daqueles que buscam, na descrição do processo histórico, encontrar no passado uma origem que viesse dar suporte às interpretações das práticas sociais e culturais atuais. No pensamento de Elias, que dá suporte a esta interpretação, para além do habitus que carrega o passado na forma de uma “segunda natureza” colada ao indivíduo, são as redes de interdependência que os indivíduos constituem no presente que conformam as possibilidades de ser e de viver. Segundo a interpretação de Lahire: “ao evocar a „economia psíquica‟ ou o habitus, em suas reflexões, Elias insiste mais nas redes ou configurações de interdependência que os indivíduos formam entre si do que na articulação com o passado incorporado pelos indivíduos socializados” (2004: 21). O que estou propondo fazer é uma leitura sociológica sobre os processos macro-sociais e as práticas sociais e culturais que contribua para a compreensão do processo de formação dos «lugares onde se vive» – cidades, vilas, fazendas, etc. – e de como esse processo está presente atualmente na conformação dos campos de possibilidades de modos de viver em cada lugar, campo que é formado de estruturas, mas também das relações entre os sujeitos. Está se considerando que «o lugar onde se vive», ou seja, a posição que esse lugar ocupa no mundo e o lugar do mundo de onde a pessoa vê, percebe, sente e conhece o mundo, é fruto das relações sociais, das tensões e do equilíbrio das tensões das relações sociais. Neste sentido, o lugar não é nem o palco, nem o depositário das relações sociais, ele é o próprio resultado dessas relações e, como tal, é parte intrínseca do imaginário, das subjetividades (CARLOS, 1996; TUAN, 1983).
88
Para trilhar este caminho utilizei fontes bibliográficas, que inclui pesquisas acadêmicas, obras literárias de memorialistas e a documentação levantada na pesquisa, constituída principalmente de fotografias de acervos particulares e institucionais, entendendo estes achados como produtos culturais dotados de significados inteligíveis em diferentes camadas, sobre os quais é preciso lançar um olhar sociológico, imaginativo e metodológico, para alcançar um nível de interpretação adequado (WRIGHT MILLS, 1969; ELIAS, 2005a; MANNHEIM, 1982).
2.1 - Considerações sobre métodos de interpretação de imagens e documentos
Conduzir esta pesquisa da forma proposta, como estudo das interdependências entre a sociogênese e a psicogênese dentro do paradigma da sociologia das configurações, exige mesmo lançar um olhar retrospectivo sobre o processo histórico da ocupação do Sertão, que traz implicações metodológicas para a pesquisa. Como a pesquisa tem em seu corpus documental fotografias de origem diversa, de acervos particulares, de órgãos governamentais e do próprio pesquisador, convém explicitar como elas compõem este trabalho sociológico.
Do ponto de vista da utilização como suporte analítico, as ciências sociais marginalizaram as imagens na medida em que radicalizaram o uso da palavra como instrumento fundamental na construção da verdade científica, desde que Karl Popper estabeleceu a premissa da “validade” científica baseada na forma de frase observáveis ou protocolares –, até a chamada «virada lingüística». Esta premissa de Popper para a pesquisa científica levou à compreensão de que, sendo os dados obtidos da observação e das imagens impossibilitados de serem captados sem um primeiro nível de interpretação do cientista –, o único nível em que a influência do cientista deveria ser
89
nula –, a validade desses materiais como base empírica ficaria sob suspeita. “A marginalização da interpretação de imagens foi assim mais uma vez corroborada pela radicalização da compreensão da verdade social como textualmente formatada”, e essa marginalização reverberou até mesmo dentro dos paradigmas das pesquisas qualitativas19(BOHNSACK, 2007: 287).
A antropologia, mais do que a sociologia, experimentou o desenvolvimento de metodologias de pesquisa e de análise de imagens. No entanto, ainda na fase de sua consolidação, a sociologia teve um método de análise construído fundamentalmente sobre a influência das análises de obras artistas que eram feitos por historiadores da arte. O método documental de Mannheim foi assim construído e sua importância se estendeu para o campo da história da arte, influenciando nitidamente o método de análise iconográfica e iconológica de Erwin Panofsky (BOHNSACK, 2007).
No ensaio sobre a interpretação da weltanschauung, publicado em 1923, Mannheim (1982b) considera o problema de tratamento cientifico adequado aos objetos culturais, tal como o trabalho de arte, filosofia etc. No tratamento dos objetos culturais, as criticas daqueles que defendem a tese de que toda análise cientifica deve se conformar ao modelo das ciências naturais incide sobre a interpretação, alegando ser duplamente pela subjetividade: a do pesquisador, como já foi explicado, e a dos autores das obras, seres que vivem na esfera volitiva, estética e emocional, o que faz das obras culturais, segundo esta visão, objetos a-teóricos. Neste ensaio, como em outros, Mannheim posiciona-se contra esta tese.
19 Um exemplo dessa marginalização das imagens foi dado por Bourdieu. Embora tenha feito mais de
3.000 fotografias durante sua permanência na Argélia – documentando espaços, objetos e ocupações dos argelinos, outras para demonstrar a convivência entre costumes tradicionais e as novidades ocidentais – Bourdieu nunca fez uso da fotografia como objeto de análise em suas publicações, por causa da “preocupação de não chegar a ser suficientemente científico”, como confessou por ocasião de uma mostra fotográfica com essas fotos (BOURDIEU, 2003b: 48; citado por MARTINEZ, 2006: 406).
90
A posição de Mannheim é a de que o a-teórico – a arte –, não é irracional, mas antes interpretável. A tarefa da interpretação consiste na descoberta do todo estrutural ao qual pertencem esses fenômenos a-teóricos. Esta tarefa é realizada em três níveis: (1) o objetivo – é o mais superficial, pois que se detém sobre o que é evidente na obra, visível e evidente em seu conteúdo; (2) o expressivo – é menos obvio e se traduz na tentativa de interpretar a obra a partir das intenções do autor, captado através de sua situação biográfica, ou seja, sua posição social e as condições da produção da obra; e, (3) o documental – esse é captado a partir da mensuração da visão geral dos atores, sua visão de mundo (weltanschauung). O significado documental não se confina à arte pela arte, à literatura pela literatura; é relativo ao que é mais real no homem, o seu lugar dentro do todo da realidade histórica (KECSKEMETI, 1964: 24).
Este tipo de interpretação possibilita descer ao nível dos princípios e ideais que circunscrevem a obra e das relações desta com outros princípios e ideais em conflito com esse. Já não é a intenção do artista que está em jogo, visto que a visão de mundo não é inteiramente racional, sendo, portanto, um sentido oculto ao próprio artista. Este é o nível de análise documental, que Mannheim preconiza para uma sociologia da cultura, ou do conhecimento, como ele realizou.
Elias também caminha no sentido oposto à essa aproximação das ciências sociais às ciências naturais. Em sua obra Introdução à Sociologia, Elias retorna à Comte no que diz respeito à impossibilidade da separação entre o método científico e os objetos da ciência, o que, para Elias, aponta para a necessidade de modificar o método e variar sua aplicação conforme a complexidade do objeto exija. O abandono desse pressuposto comteano, segundo Elias, tomou forma na teoria do conhecimento e na filosofia da ciência, “na idéia de que há formas eternas de pensamento, representadas por „categorias‟ ou regras a que chamamos „lógicas‟” constituindo
91
regularidades. Para ele, esta orientação da concepção de ciência a partir de uma ciência particular, no caso, a física, esteve por trás de todo o movimento que se iniciava rumo ao desenho de uma especialização científica crescente, gerando a diferenciação de domínios científicos que antes compunham um mesmo campo do saber, tal como a divisão entre psicologia, antropologia, sociologia, história, ciências políticas e economia20(ELIAS, 2005a: 44-56).
Segundo Elias, para que seja possível ao cientista social interpretar uma trama complexa de interdependências, como são as relações sociais nas sociedades contemporâneas, as metodologias de estudo devem se tornar mais maleáveis e adaptadas aos objetos de estudo. A trajetória de pesquisa de Elias mostra o quanto foi necessário ele se apoiar em métodos diferentes para alcançar os objetivos de pesquisa.
Na “aula” que resultou no livro A peregrinação de Watteau à Ilha de Cítera, Elias (2005b) faz a análise da obra de arte tomando como ponto de partida a obra em si, ou seja, a imagem composta pelo artista, desde a análise dos elementos “recortados” do conjunto – as feições das mulheres, as posturas dos namorados a encorajá-las gentilmente, os cupidos fazendo-as levantar, o capitão à espera etc. –, até a análise da composição dos planos da obra – de um lado as copas escuras das árvores sobre os casais, de outro lado, a luz do ocaso do dia, impedindo a visão clara do que está por vir.
Da análise do que é aparente na imagem, Elias envereda por considerações sobre a trajetória do artista, de origem burguesa, que compôs a obra como requisito de ingresso na Academia Real de Pintura e Escultura.
20 Segundo Elias, a autonomia reivindicada pela sociologia em seus primórdios, como a ciência que
estuda a sociedade era contestada sobretudo pela confusão gerada pelo conceito de sociedade: “quais as características próprias de uma sociedade que diferem das características dos indivíduos que a compõe?”. Para Elias a autonomia da sociologia se construiu a partir do desenvolvimento mesmo da sociedade (ocidental) enquanto um processo de “cientifização crescente do controlo sobre a natureza, uma diferenciação ocupacional crescente” e o estabelecimento dos Estados nacionais (ELIAS, 2005a: 67-69)
92
Ilustração 1 – “O Embarque para a Ilha de Cítera” (1719), Antoinne Watteau. Museu de Berlim.
Era uma época de transição, onde a burguesia, à procura de reconhecimento social, imitava a aristocracia. A Academia, dominada pela aristocracia, classificou o quadro como “pintura de festa”, imprimindo a primeira interpretação da obra, como alegoria da vida aristocrática. Nesse primeiro movimento Elias fez uma análise do que no interacionismo se chama “situação biográfica”. Depois, Elias discorre sobre os vários sentidos que foram atribuídos à obra ao longo da história.
A atmosfera crepuscular pode ser associada aos últimos anos de Luis XIV na França, as sombras das velhas árvores como o poder do rei, enquanto a aristocracia ficava acomodada sob a proteção real. Este é o sentido que vai sendo construído após a Revolução Francesa, onde o quadro adquire uma interpretação política que estava ausente no Estado absolutista. Quase em meados do século XIX, quem determinava o gosto eram os próprios artistas e literatos em ascensão, jovens artistas que se reuniam em grupos que “para compensar a rotina cinzenta e sobra da sociedade burguesa [...]
93
sonhavam com a alegria, com a beleza dos trajes que as pessoas então vestiam, com a graça e a elegância de suas festas” (ELIAS, 2005b: 42). Foi aí que Watteau e sua Cítera foram redescobertos e interpretados à luz das “necessidades emocionais e ideais” dessa geração. Primeiro como ideal da vida bela. Até que um desses jovens poetas viaja para Citera, então sob o domínio inglês e conhece uma ilha devastada, feia, onde condenados são enforcados em praça pública. Reinterpreta-se o significado da obra. Elias vai explorar outras fontes que revisitam o tema da ilha “real”, entre eles Baudelaire, em As Flores do mal, e Victor Hugo, em Cérigo, para tratar da mudança do gosto: antes de Baudelaire era impensável ver publicado poemas que tratassem da miséria humana recorrendo ao asco, ao nojo e ao desejo do corpo. Modificado o gosto, a obra deixa de representar as belas utopias para representar as amargas desilusões.
Refazendo o percurso das interpretações da obra ao longo da história, Elias mostra como ela adquire diferentes sentidos, seja devido às peculiaridades próprias da obra – “cuja atmosfera é polissêmica e crepuscular [...] comedido na expressão de sentimentos, e talvez por isso mesmo tão prenhe de sentidos” (2005: 28) –, seja devido às situações dos grupos sociais que a interpretam em cada momento histórico. Interpretar se a peregrinação representada na obra é uma alegoria do prazer, na partida rumo à utopia da Ilha do Amor, ou, pelo contrário, se é uma alegoria da dor, de deixar uma vida de prazer para ser sacrificado no altar da deusa Afrodite, dependerá das circunstâncias sociais de cada época. Para Elias, “pertencem às características