B. APPROCHE QUANTITATIVE
3. Le potentiel de recherche
Como vimos, Bruner salienta os (des)caminhos pelos quais a revolução cognitiva passou ao promover a ênfase na compreensão do pensamento de uma forma (unicamente) paradigmática, que chega ao limite de entender a mente humana numa similaridade com os processos computacionais. Por seu lado, a Psicologia, para que se ocupe devidamente com as questões humanas, deve debruçar-se sobre a compreensão do modo mais inerentemente humano de pensar. A Psicologia deve se voltar à cultura e, a partir dela, se aproximar do que as pessoas dizem sobre si mesmas e sobre o mundo em que vivem. Deste modo, é a partir da cultura que se poderá encontrar os modos como as pessoas elaboram os significados que atribuem aos eventos e às ações de que participam.
Bruner busca demonstrar como o modo mais coerente de compreendermos tanto a cultura como a nós mesmos se dá pela forma narrativa com que a cultura e a nossa forma de pensar são constituídas. O modo narrativo de pensar, dirá Bruner:
“(...) trata de ações e intenções humanas ou similares às humanas e das vicissitudes e conseqüências que marcam o seu curso. Ele se esforça para colocar seus milagres atemporais nas circunstâncias da experiência e localizar a experiência no tempo e no espaço.” (1998: 14)
culturas populares; o que poderíamos, numa aproximação ainda leviana com Bruner, compreender como categorias de uma psicologia popular. Vamos mais adiante discutir isso devidamente.
O modo narrativo de pensar, de acordo com Bruner, está presente em nosso cotidiano como uma forma mesma de “verossimilhança” para com a vida. Ele é anterior à formulação lógica de um pensamento, sendo que mesmo as formulações científicas necessitam, para sua devida compreensão, ser localizadas temporalmente, pertencer a uma história.
Bruner apresenta algumas características para que compreendamos o que é uma narrativa e como ela se diferencia de outras formas de discurso presentes na cultura. Primeiramente uma narrativa se caracteriza por uma “sequencialidade inerente” (1997: 46). O que caracteriza a narrativa e mesmo determina o significado que seus elementos possuirão, está justamente na forma singular com que os eventos, e mesmo os estados mentais, se harmonizam na lógica única e própria de uma história. A sequencialidade é característica também, como lembra Bruner, do “modo de organização mental em cujos termos ela [a história] será captada” (id.: 47). O que nos remete ao processo de (re)figuração da intriga, presente na mimese III que vimos a partir de Ricoeur.
Outro aspecto da narrativa é que ela pode tratar tanto de eventos reais ou imaginários “sem perder seu poder como história” (idem). A história é “indiferente” às realidades exteriores a sua própria linguagem, seu significado é compreendido em si mesmo. Ele está contido na lógica interna de seus eventos, e “não na verdade ou falsidade de quaisquer dessas sentenças” (ibid).
Embora a narrativa em si mesma não defina uma verdade ou falsidade para com as ações que relata, ela possui uma forma de apreensão da ordem dos eventos similar à ordem dos eventos que compõem a vida humana. De modo que, enquanto ela possuí uma condição de canonicidade característica de uma psicologia popular, como observa Bruner, “ela focaliza o previsível e/ou o usual da condição humana. Ela dota de legitimidade ou autoridade estes dois aspectos”(id.: 49). A narrativa, enquanto um elemento articulador da ordem do significado em uma cultura, permite as “negociações” dos significados entre o que se remete ao canônico e o que se aproxima do excepcional para a cultura. No caso de uma psicologia popular, diz Bruner, “as histórias atingem seus significados explicando desvios do comum de uma forma compreensível” (idem). As narrativas em uma cultura preenchem este espaço entre o que é estabelecido (canônico) e o que é estranho e gera espanto. É um espaço que será ocupado pelo narrar, com as histórias que retratam as diferenças e semelhanças entre o existente e o inesperado.
A partir desta compreensão, ainda outro aspecto da narrativa está em ser “revestida” de uma qualidade dramática que “focaliza os desvios do canônico que apresentam consequências morais e afastamentos relacionados à legitimidade, ao compromisso moral, aos valores”(id.: 51). Em uma cultura, contar uma história é inevitalvelmente assumir uma posição moral. Esta preocupação é básica para compreendermos a importância das narrativas para a educação, como vimos aliás no capítulo anterior, a partir de Tappan e Brown (1991).
O que foi demonstrado até aqui nos permite compreender o aspecto de “onipresença” das histórias em nossas vidas. A narrativa é mesmo uma característica da cultura e do pensamento humano que promove a interação entre seus membros e a negociação dos significados presentes em suas ações e eventos, além mesmo de tornar evidente nossa experiência humana de tempo. Ela lida enfim com as dimensões da ação humana no mundo e dos estados intencionais da subjetividade humana. Em resumo, como diz Bruner:
“Ela intermedeia entre o mundo canônico da cultura e mundo idiossincrásico dos desejos, crenças e esperanças. Ela torna o excepcional compreensível e mantém afastado o que é estranho, salvo quando o estranho é necessário como um tropo. Ela reitera as normas da sociedade sem ser didática (...) ela provê a base para uma retórica sem confronto. Ela pode até mesmos ensinar, conservar a memória, ou alterar o passado.” (1997: 52)
A narrativa, como um modo de pensamento e de transmissão cultural, nos permite visualizar a importância que ela possui para a educação e para a formação de uma cultura, de um povo e de cada um de seus membros. Antes de entrarmos nestas discussões mais práticas sobre narrativa e educação, vamos averiguar como a centralidade da “noção de si- mesmo”, ou o conceito de self, participam desta condição de “onipresença” das histórias em nossas vidas, e em nosso pensamento.
4) Atingindo patamares mais elevados... a mente refletindo a si mesma