B. APPROCHE QUANTITATIVE
4. Le potentiel d’innovation
O ponto de partida de Bruner é uma rediscussão do que ele chama de revolução cognitiva. Ele argumenta que a proposta da revolução cognitiva original - meados da década de 50 -, que ainda requeria inclusive que a psicologia unisse forças com outras áreas como a antropologia, a linguística, a filosofia e a história, logo derivou para tópicos marginais ao impulso que lhe deu existência. Muito cedo a ênfase começou a mudar do “significado” para a “informação”, e assim da construção do significado para o processamento de informações. O fator-chave dessa mudança para Bruner foi a introdução da computação como metáfora reinante e da informatização como um critério necessário para um bom modelo teórico. Diz Bruner: “a informação é indiferente ao significado. Em termos computacionais, a informação abrange uma mensagem já pré-codificada no sistema. O significado é previamente atribuído às mensagens” (1997: 17).
Assim, ainda no início da década de 50 a teoria computacional se tornava a “metáfora-raiz” para o processamento de informações. Em pouco tempo, a ciência cognitiva deixou de lado uma abordagem ligada mais diretamente ao pensamento humano, passando a preocupar-se com o desenvolvimento das tecnologias que poderiam "suplantar" o processamento de informações. As diretrizes da nova ciência da computabilidade vieram deste modo substituir as idéias originais sobre a ordem do significado, como vimos, mais
apropriada ao entendimento humano. Como diz Bruner:
“A computação tornou-se rapidamente o modelo da mente e, em lugar do conceito de significado, surgiu o conceito de computabilidade. Os processos cognitivos foram igualados aos programas que podiam ser rodados em um dispositivo computacional (...) e assim, o sucesso do nosso esforço para “entender”, foram igualados a conceitos como memória ou aquisição de conceitos...” (1997: 18).
Deste modo, com a mente humana tornada equivalente a um programa, de que forma deveríamos compreender o pensamento reduzido à características "programáticas" e deslocado de suas qualidades subjetivas? Em tal sistema, como diz Bruner, “não poderia haver nenhum lugar para “mente”, entendendo-a como estados intencionais, como acreditar, desejar, pretender, ou compreender um significado” (idem: 20). O sistema computacional é cego quanto à significação dos elementos que estão armazenados, ele não distingue “se são palavras dos sonetos de Shakespeare ou algarismos de uma tabela de números aleatórios” (id.: 17). Para Bruner, portanto, não há dúvidas de que a revolução cognitiva desviou-se de seu rumo original deixando em grande parte sem explicação os grandes tópicos que a inspiraram em seu início, obtendo seu sucesso “a custa da desumanização do próprio conceito de mente” (id.: 15).
Bruner elabora seu trabalho em termos da construção de uma ciência mental que esteja de acordo com a produção humana do significado, e sobretudo, voltada para os “processos pelos quais a significação é criada e negociada dentro de uma comunidade” (id.: 21). Desta forma, ele busca um retorno ao “meio ambiente” verdadeiro, onde a comunicação humana se produz, em vez de se basear em suposições de uma ciência que vislumbrava no meio ambiente digital um lugar ideal à compreensão do pensamento.
Bruner parte da discussão a respeito da fragmentação dos estudos e tendências da psicologia contemporânea, que sobretudo da última metade deste século, segundo ele, "perdeu seu centro e corre o risco de perder a coesão necessária para assegurar o diálogo interno" (id.: IX). A psicologia, a seu ver, está ameaçada de se tornar cada vez mais distante de outras investigações relativas à mente humana. Por seu lado, Bruner participa da construção de uma nova psicologia, voltada a buscar seus fundamentos na cultura, julgada um meio ambiente mais adequado ao estudo e à compreensão do ser humano e sua condição de produção e negociação de significados. A partir da compreensão dos contextos culturais em que se encontra a pessoa, a psicologia cultural busca estudar a presença de “estados mentais apropriados” na relação com o meio. Nesta compreensão busca-se a
relação, como diz Bruner, “entre o agir e o dizer no contexto da conduta humana comum” (id.: 27). Nessa perspectiva, o que se pensa possui uma relação direta com aquilo que se faz, ou seja, com a experiência de cada um no mundo.
Uma psicologia de orientação cultural leva em consideração o que “as pessoas dizem sobre seus estados mentais” (ibid), ocupando-se assim diretamente com as “declarações” ou enunciados que as pessoas elaboram sobre suas realidades. Deste modo, a psicologia cultural (etnopsicologia) está preocupada com as “ações situadas” em cada cenário cultural. É no estudo da ordem do significado presente nos atos de fala que as pessoas realizam no contexto de ações situadas culturalmente, que se pode alçar à compreensão das leituras de mundo que as mentes humanas possuem. Como lembra Bruner: “é a idéia de significado que inevitavelmente torna a psicologia cultural” (id.: XI).
Esta observação quanto à importância do que Bruner chama de “declarações”, podemos relacionar com a compreensão oferecida por Bakhtin quanto ao papel da enunciação em uma cultura. Para ele a enunciação é o ato linguístico primordial de uma cultura. É através da enunciação que a cultura cria e reproduz suas ideologias, tendo na palavra o elemento chave para essa “negociação” cultural. Deste modo, a discussão sobre a construção do significado avalia que o contexto cultural é a condição mais coerente aos seres humanos para se estudar “leituras de mundo”.
Diferentemente do que afirmam as teorias computacionais - que a cognição se dá basicamente como processamento de informações - o homem elabora interpretações da realidade a partir da negociação e construção dos significados presentes nos sistemas simbólicos da cultura. Portanto, a proposta de uma ciência mental precisa necessariamente verificar que “os sistemas simbólicos que os indivíduos usam para construir significado [são] sistemas que já estavam colocados, já estavam “presentes” e profundamente arraigados na cultura e na linguagem” (id.: 22). A cultura é o “palco” primordial no qual as possibilidades simbólicas são trabalhadas e negociadas, possibilitando ao sujeito a elaboração de suas leituras e interpretações da realidade. Antes de mais nada, os significados emergem do plano cultural, se constituindo num arcabouço simbólico que permeará toda a vida interior do indivíduo.
Bruner enfatiza esta necessidade de que na psicologia o papel da cultura não seja visto de um modo banal: “é a participação do homem na cultura e a realização de seus poderes mentais através da cultura que tornam impossível construir uma psicologia humana baseada apenas no indivíduo” (id.). Uma ciência mental cognitiva, portanto, deve
se dar nos moldes de uma psicologia cultural justamente porque “a psicologia está imersa na cultura” (ibid). Organizando-se em torno dos processos produtores de significado que conectam o homem à cultura, a psicologia pode promover a interação cultural de seus membros de acordo com a ordem do significado que em uma cultura, como lembra Bruner, é um “processo que além de subjetivo é partilhado” (id.: 23).
Uma Psicologia Cultural pretende deste modo investigar a trama onde se gestam as relações e os significados do mundo simbólico humano, a cultura. Como diz Bruner:
“a própria forma das nossas vidas - o esboço grosseiro e em perpétua transformação da nossa autobiografia que carregamos em nossas mentes - é compreensível para nós mesmos e para os outros apenas em virtude desses sistemas culturais de interpretação (...) a cultura é também constitutiva da mente...” (id.: 39).
Desta forma, existe uma relação direta entre mente e cultura, o que determina à psicologia um comprometimento para com este mundo simbólico constitutivo da existência humana. Ainda, como lembra Geertz: “não existe coisa tal como uma natureza humana independente da cultura” (apud Bruner, 1997: 22).
A partir da compreensão sobre as características de uma psicologia cultural, podemos visualizar uma dimensão mais cotidiana da vida cultural, onde as trocas simbólicas se dão na forma de experiências mais diretas e próximas entre as pessoas. É o que o autor define como psicologia popular ou mesmo “senso comum”. Ela se remete mais intimamente àqueles “estados intencionais” de que a psicologia científica tradicional tanto se esquiva e descarta: crenças, desejos, intenções, comprometimentos, anseios, etc. São “transações” cotidianas nos sistemas simbólicos das culturas que possibilitam a construção e o encaminhamento dos costumes e dos valores próprios as leituras de mundo de um grupo. Diz Bruner:
Toda cultura tem como um de seus mais poderosos instrumentos constitutivos uma psicologia popular (senso comum), um conjunto de descrições mais ou menos conectadas, mais ou menos normativas, sobre como os seres humanos “pulsam”, como é a nossa própria mente e como são as dos outros, o que podemos esperar que seja uma ação situada, quais são os estilos de vida possíveis, como nos comprometemos com eles e assim por diante. (...) é um sistema pelo qual as pessoas organizam sua experiência no mundo social, seu conhecimento sobre ele e as trocas que com ele mantém” (1997: 41)
É através de uma psicologia popular que as transações da vida cotidiana ocorrem: “descartá-la, é equivalente a jogar fora os próprios fenômenos que a psicologia precisaria
explicar” (id.: 24). Bruner considera assim que a base mesma de qualquer psicologia cultural seja verificada a priori nas características de uma psicologia popular. Neste sentido, buscando algumas referências nas características de sua própria cultura, ele nos apresenta um conjunto de elementos constituintes que permitem compreender o que seria uma psicologia popular (senso comum). Embora em cada cultura estes elementos se apresentem com suas próprias características, é possível visualizar desde já a presença de alguns elementos-chave à caracterização dos universais que Bruner nos apresenta20 em outra obra mais recente (A Cultura da Educação, 2001). Estas características, dizem respeito mais especificamente a exemplos presentes na própria cultura à qual o autor pertence, por isso não vou aqui desenvolvê-los. Para nosso estudo é interessante apontar apenas alguns elementos que serão apresentados num formato mais acabado mais tarde, quando da “interpretação narrativa da realidade”. Como veremos adiante, ele apresenta um conjunto de nove categorias ou “universais”, que definem um modo de compreensão da realidade a partir das narrativas. Será a partir destes universais que faremos a leitura de uma autobiografia no capítulo III deste trabalho.
Bruner indica, por exemplo, a existência de crenças e desejos que de algum modo têm coerência com a cultura em que se vive, definindo disposições e estilos de vida - o que possivelmente nos remete ao 3º universal - “as ações tem motivos” -, como veremos adiante; outro aspecto importante é a condição de canonicidade (5º universal) inerente à psicologia popular que, como diz Bruner, “sintetiza não apenas como as coisas são, mas (...) como elas deveriam ser” (id.: 44); ele sugere também que a “noção de si-mesmas” (self) que as pessoas elaboram em uma cultura, é central para a compreensão de uma psicologia popular; todos estes elementos ocorrem, enfim, “ao longo do tempo”, o que enfatiza a narrativa como um princípio organizador de uma psicologia popular - que nos universais poderemos compreender a partir da definição de “extensibilidade histórica” (9º universal).
O autor nos traz ainda (pelo menos) três fatores que demonstram a importância de se associar uma psicologia cultural à uma psicologia popular: a) é nos termos de “categorias psicológicas populares”21 que experimentamos a nós mesmos e aos outros; b) é
20 Estas primeiras definições sobre características de uma Psicologia Popular ou senso comum são de Atos de Significação, obra lançada em língua inglesa ainda em 1990. Mais recentemente que seu livro dedicado diretamente à educação, A Cultura da Educação (2001), traz uma definição mais detalhada destes elementos já na forma de universais verificáveis a partir de uma interpretação narrativa.
21 Ainda que antecipando uma discussão, como veremos no próximo capítulo, é importante pontuar que a pedagogia popular de Freire formula suas categorias a partir da compreensão dos elementos próprios das
através da psicologia popular que as pessoas julgam umas às outras e elaboram conclusões sobre suas vidas ao estabelecer valores para si mesmas; c) uma psicologia cultural influencia o modo como a mente e a vida humana funcionam, ela define o próprio meio no qual a cultura forma os seres humanos segundo suas exigências. A psicologia científica se afasta da psicologia popular, diz Bruner, devido à “satanização dos estados subjetivos”, por considerar que uma psicologia popular tende a valorizar estes estados subjetivos como que possuindo algum “status explicativo”, ou seja, eles têm uma pretensão de explicar a realidade de uma maneira independente do modo paradigmático defendido por uma psicologia “científica”. Outro motivo ainda seria o “relativismo” característico que uma compreensão com base na cultura proporciona; é a partir desta condição, própria à compreensão de uma psicologia de base cultural, que surge a necessidade de se estabelecer um conjunto de “universais” apropriados à compreensão da psicologia de uma cultura.