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4. La théorie du genre :

4.2. Les conventions du journalisme narratif

4.2.1. Le narrateur

2.1 - Objetivo, opções e limitações

Este capítulo tem como objectivo apresentar algumas etapas da história da Geografia portuguesa, no contexto da institucionalização e consolidação no ensino superior, em Lisboa, durante a primeira metade do século XX. A delimitação temporal e espacial decorre do objeto principal deste trabalho: a Geografia de Luís Schwalbach.

Escolhemos olhar para o local onde Schwalbach ensinou entre 1915 e 1955, ou seja, a Faculdade de Letras de Lisboa. O período tratado – a primeira metade do século XX – constitui uma simplificação. Corresponde, genericamente, ao período de formação e de trabalho de Schwalbach. Em qualquer caso, avançaremos ou recuaremos pontualmente em relação a estas balizas temporiais – tal como sairemos do quadro geográfico particular de Lisboa – sempre que isso permita completar raciocínios.

Os grandes domínios da Geografia serão introduzidos em conjunto. O período corresponde ao início da Geografia institucionalizada, com poucos geógrafos a lecionar e a investigar e, consequentemente, com especializações pouco rígidas2. Procurou-se

apresentar os eixos do desenvolvimento do ensino universitário e da investigação geográfica em Lisboa, nomeadamente a institucionalização da disciplina, as reformas do ensino, os geógrafos responsáveis pelo mesmo, as origens da investigação geográfica na FLUL, e, finalmente, os temas centrais que então ocuparam a prática da Geografia. O esquema geral da investigação foi norteado pelos seguintes domínios de análise: principais instituições, geógrafos e orientações teóricas e temáticas dos estudos.

No que respeita ao papel individual dos geógrafos, não se recuou a Francisco da Silva Teles (1860-1930), o primeiro responsável por uma cadeira de Geografia, em 19043. No período tratado, o ensino superior da disciplina, em Lisboa, foi um mundo estritamente

2 A separação da investigação entre a Geografia Física e Humana começou a ser visível em meados dos anos 60 (Brum,

Gaspar e Medeiros, 1986:69).

3 Por motivos metodológicos limitou-se o conceito “geógrafo/a” àqueles/as que lecionaram, ou frequentaram, Geografia no

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masculino. A contratação de Raquel Soeiro de Brito, a primeira geógrafa a lecionar, foi decidida em novembro de 1951 (Livro de Actas, PT/AHFLUL/FLUL/A4, p. 71), por indicação de Luís Schwalbach e Orlando Ribeiro (1911-1997). Dentro do que parece um paradoxo, constatou-se que, para o mesmo período, foi superior o número de alunas que realizaram teses de licenciatura em “Ciências Históricas e Geográficas” e “Ciências Geográficas”4.

Teria sido desejável agregar outras componentes de análise. Pensa-se, no entanto, que seria pouco praticável no âmbito desta dissertação, pelo que se tecem algumas considerações sobre as opções tomadas.

No período analisado, a formação de professores de Geografia passou por diferentes soluções: da formação pedagógica integrada no Curso Superior de Letras (CSL) caminhou-se para as Escolas Normais Superiores, anexas às Faculdades de Letras e de Ciências. Tratou-se sempre de um sistema específico de acesso à profissão que, por necessidade de circunscrever a temática, não foi aqui explorado. Considera-se, no entanto, que o seu aprofundamento permitiria perceber melhor os designados “trabalhos práticos de Geografia”, que representaram uma primeira fase de orientação promovida por Silva Teles junto dos seus alunos do CSL e também futuros professores liceais. Se analisada em detalhe, esta linha de investigação poderia também ajudar a interpretar o número mais elevado de geógrafas face ao de geógrafos na fase de conclusão das licenciaturas.

Optou-se também por não desenvolver a temática associada à transição, em Portugal, de uma Geografia de carácter descritivo para uma Geografia interpretativa, conforme a clivagem proposta por Leite de Vasconcelos no primeiro volume da Etnografia Portuguesa (1933). Ribeiro dedicou um dos seus primeiros trabalhos a Barros Gomes (1839- 1910), afirmando ter sido entre nós “o primeiro cultor da geografia moderna”, referindo-se às Cartas Elementares de Portugal (1934:105). Devy-Vareta e Garcia retomaram o tema, apresentando os estudos silvícolas de Barros Gomes enquanto marco fundador da ciência geográfica portuguesa (1989:139). O contributo de Jaime Batalha Reis (1847-1935) – outro exemplo – foi estudado por Garcia, que notou como a Geografia, na linha naturalista de

4 De acordo com Couvaneiro (2013:910), a FLUL foi-se transformando numa escola na qual a população era

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Alexander von Humboldt (1769-1859), vinha a ser discutida pelos intelectuais da Geração de 70 (1985:301).

Por outro lado, a Geografia era já ensinada nas escolas antes do período no qual incide o nosso estudo. Em 1836, foi introduzido no ensino primário “Breves Noções de História, Geografia e Constituição”, enquanto o recém-criado nível liceal incorporava a matéria de “Geografia, Cronologia e História”. Anteriormente, os saberes geográficos eram ministrados em diversos estabelecimentos educativos, o que é observável nos compêndios (Claudino, 2002:183,184). Na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra foram ensinados temas que iriam integrar os futuros estudos geográficos (Oliveira, 2003:23) e em 1830 foi editado por esta Universidade um compêndio de Geografia (Gama e Gaspar, 1980:1).

A Geografia estreitamente articulada com a História constitui outra via essencial do seu desenvolvimento. O acentuar do interesse pelos conhecimentos geográficos por parte dos historiadores é situado por Romero Magalhães (2016:1-18) a partir de meados do século XIX, aquando do incremento de estudos sobre a Expansão. Este autor notou como então faltava aos historiadores o devido enquadramento geográfico, que só poderia ser dado por uma ciência institucionalizada, e refere a existência de um período de trabalhos “pré- geográficos”, composto por corografias e descrições, que prosseguia desde o século XV, identificando a Geographia e Estatística Geral de Portugal e Colónias (1875) de Gerardo Pery (1835-1893) como o primeiro trabalho de Geografia descritiva.

Podia considerar-se ainda um conjunto de trabalhos de autores que, fora ou dentro do meio universitário, contribuíram para a Geografia portuguesa. Oliveira Martins (1845- 1894) e António Sérgio (1883-1969) são dois exemplos, com relevância particular em Geografia Humana, por terem tratado problemas políticos, sociais e económicos que afetam a produção e a organização do espaço5. Em 1945, Schwalbach publicou o estudo As

sociedades humanas e o ambiente geográfico – Anotações em parte sugeridas pela leitura de Oliveira Martins, onde aprofundou as relações do pensamento deste autor com a Geografia.

5 Orlando Ribeiro escreveu o estudo crítico Introduções Geográficas à História de Portugal (1977), em que analisou o

contributo destes dois autores, junto com o de Jaime Cortesão, no que diz respeito à individualidade geográfica e à formação de Portugal.

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No caso de Sérgio, tem um interesse particular a sua Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal, cuja versão inicial data de 1941 (Sérgio, 1974).

Aquela que será, porventura, a nossa omissão deliberada mais relevante diz respeito à análise detalhada do papel da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), fundada em 1875. Aquando da fundação da SGL, existiam já cerca de 40 Sociedades congéneres em diferentes partes do mundo (Guimarães, 1984:24). No caso português, a Sociedade surgiu associada à necessidade de promover o conhecimento dos territórios coloniais, designadamente em África, num contexto marcado pela concorrência com outros países europeus pela posse destes territórios (Amaral, 1983:327; Gaspar, 1985:315). Este foi um propósito partilhado coma generalidade das Sociedades de Geografia europeias, na medida em que este movimento associativo teve como objetivos a criação do “ambiente geográfico” e o desenvolvimento da ciência, mas também a expansão colonial enquadrada no “movimento imperialista” mais vasto do século XIX (Capel, 2012:168). Os objetivos científicos da SGL expressos nos respetivos estatutos são, no fundo, um pretexto e um meio para a ação colonial (Guimarães, 1984:23-25;225).

Foram estas Sociedades que organizaram os primeiros Congressos Internacionais de Geografia (CIG), a partir de 1871, e após a realização do I Congresso, em Antuérpia, por iniciativa da Biblioteca Real de Bruxelas (Santa Rita, 1938:305; Amaral, 1968:84). Este primeiro evento recebeu a designação de Congresso das Ciências Geográficas, Cosmográficas e Comerciais e reuniu cerca de 600 congressistas, evidenciando “o entusiasmo pelos estudos e factos geográficos” (Santa Rita, 1938:305). A formulação encontrada para este evento ilustra como se aglomeravam num espaço de debate muito heterogéneo diferentes ciências, interesses políticos e económicos e o entusiasmo pelas viagens de exploração, denotando a diversidade de interesses que caracterizaria as Sociedades de Geografia.

O segundo CIG foi organizado pela Sociedade de Geografia de Paris, em 1875. Foi no ambiente destes congressos que se deram os primeiros passos no sentido da institucionalização universitária da Geografia no ensino. As reuniões asseguravam a divulgação geográfica, funcionando como um local de encontro de saberes científicos e/ou aplicados, permitindo à Geografia evoluir para novos rumos. Os trabalhos realizados no

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contexto dos CIG iam motivando a criação de novas Sociedades6. Santa Rita observou que no

final do século XIX “o entusiasmo pelas explorações geográficas não diminuira”, mas “tinham-se-lhes associado objectivos de expansão política e económica”. Seria “o aspecto utilitário dos estudos geográficos” que conduziria, mais tarde, a um Congresso de Geografia Comercial, realizado em Paris em 1878 (Santa Rita, 1938:309-310).

A partir do Congresso Internacional de Geografia e Etnologia, realizado no Cairo em 1925, dá-se a transição da coordenação internacional das Sociedades de Geografia para a União Geográfica Internacional (UGI). O XII CIG (1928), em Cambridge, já é organizado pela UGI (Amaral, 1968:89-90). Desde o início destes Congressos, e olhando apenas até 1931, verifica-se que passaram pelas reuniões os nomes mais relevantes da Geografia, como Friedrich Ratzel, Paul Vidal de La Blache, Albrecht Penck, Ferdinand von Richthofen, William Morris Davis, Jean Brunhes, Emmanuel de Martonne e Albert Demangeon. Em boa medida, dados como este justificam também a afirmação de Tim Unwin, segundo a qual a Geografia, apesar de institucionalizada enquanto disciplina até ao final do século XIX, assenta numa tradição de conhecimentos muito mais antigos, sendo que poucos aspetos do debate geográfico são realmente novos (1992:45).

Tal como dissemos, consideramos que a opção de delimitação de estudo que tomámos permite aferir uma parte relevante da história do ensino e da investigação universitária da Geografia em Lisboa. Importou encontrar referências para posicionar os trabalhos de Schwalbach, essencialmente um professor universitário de Geografia. O facto de estabelecermos este âmbito para a análise não excluirá o recurso a informações adicionais. Com efeito, há questões centrais – como, por exemplo, o contexto legislativo geral ou o papel de Amorim Girão (1895-1960) – nas quais não se pode separar a Geografia de Lisboa da de Coimbra, condicionando a necessidade de executar prolongamentos pontuais para lá do nosso objeto de estudo principal.

6 As Sociedades decanas foram as de Paris (1821), Berlim (1828) e Londres (1830). Em 1833 foi fundada a Sociedade

Mexicana de Geografia e História, tendo Humboldt estado ligado ao projeto, e em 1838 foi constituído o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, no Rio de Janeiro (Capel, 2012:168,172). Entre 1867 e 1876 foram fundadas 17 sociedades, incluindo a de Lisboa (Santa Rita, 1938:307-308). Após o VI CIG de 1895 foram criadas 39 Sociedades (Amaral, 1968:86).

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2.2 - Institucionalização da Geografia em Portugal

O II CIG (1875) – já longínquo, por comparação com a inclusão da cadeira de Geografia no Curso Superior de Letras de Lisboa (1901) – registara, entre os seus propósitos, a definição do objeto da Geografia. Foi então acordado que a disciplina teria um duplo campo de ação: o conhecimento da superfície terrestre e as relações entre a Terra e os seus habitantes (Amaral, 1968:85). Neste congresso foi instituída a divisão em grupos temáticos, variáveis em cada reunião, e que correspondiam aos diferentes ramos da Geografia Física e da Geografia Humana, incluindo a Geografia Histórica, a História da Geografia e a Cartografia.

O ensino universitário da Geografia portuguesa foi estabelecido aquando da reestruturação universitária operada pela I República, em 1911, nas três universidades do país: a de Coimbra, já existente, e as de Lisboa e Porto, então constituídas7. A Geografia foi

agregada à História, nas denominadas “Ciências Históricas e Geográficas”, dotadas de uma base legislativa comum às Faculdades de Letras de Coimbra e de Lisboa. No Porto começou a ser ministrada alguns anos mais tarde, em 1919, com um curso idêntico aos de Coimbra e Lisboa (Garcia e Pimenta, 2004:548).

Na Faculdade de Letras de Coimbra (FLUC), a responsabilidade do ensino da Geografia coube a Anselmo Ferraz de Carvalho (1878-1955), professor na Faculdade de Ciências, que conjugou o ensino da Geologia e da Geografia Física. Francisco da Silva Teles, médico com forte interesse por temas antropológicos e climáticos, teve a seu cargo o ensino da Geografia em Lisboa, dando continuidade à cadeira que já lecionava no Curso Superior de Letras. No Porto, o responsável pela primeira cadeira de Geografia foi António Mendes Correia (1888-1960), igualmente médico de formação, mas que orientou a sua carreira para a Antropologia. De acordo com Capel, também em França e na Alemanha as recém-criadas cátedras de Geografia funcionaram como oportunidades de carreira para geógrafos com formações de base distintas, que, assim, foram imprimindo cunhos diferentes ao desenvolvimento da disciplina. Ratzel e Vidal constituem dois exemplos, com estudos anteriores em Farmácia/Zoologia, o primeiro, e História, o segundo (2012:103-106;119-120).

7 Em Lisboa trata-se, em rigor, de uma refundação visto que o ensino universitário existiu nesta cidade entre 1288-1537

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Em Coimbra e Lisboa entraram nos anos seguintes novos professores assistentes que ficariam, mais tarde, responsáveis pela Geografia nas respetivas Faculdades: Aristides Amorim Girão e Luís Schwalbach Lucci.

A instabilidade política da I República estendeu-se ao meio universitário e a FLUC foi encerrada em 1919, transferida para o Porto e restaurada em Coimbra nesse mesmo ano (Dores, 2008:11). Na sequência de tentativas revolucionárias contra a Ditadura Militar, em 1927, que resultaram em várias dezenas de mortos e diversos exílios, a Faculdade de Letras do Porto foi encerrada por decisão ministerial após o ano letivo de 1930-1931 (Garcia e Pimenta, 2004:549).

Alguns professores do CSL e da FLUL estiveram ligados ao poder governativo, destacando-se Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório da República em 1910-1911, antes de ter sido Presidente da República em 1915, Silva Teles, fugaz Ministro da Instrução durante a Ditadura Militar (1929), e Gustavo Cordeiro Ramos, que transitou nesta pasta da Ditadura para o Estado Novo.

2.2.1 - A Geografia no Curso Superior de Letras

A Geografia, enquanto cadeira, nasceu em Lisboa, no Curso Superior de Letras, aquando da sua reestruturação em 19018. Este Curso, fundado em 1859, existiu a par de outras escolas superiores da capital e resultou do empenho de D. Pedro V. Enquanto existiu, foi o único ensino em Portugal exclusivamente dedicado às Humanidades: História, Filosofia e Estudos Literários, juntando-se depois a Geografia. Tinha uma dupla componente de ensino científico e de formação profissionalizante, eminentemente para a preparação de professores liceais, mas também cargos na Administração Pública (Couvaneiro, 2012:3;8).

A permanente falta de verbas tinha impedido a concretização das medidas educativas que, desde a primeira metade do século XIX, se foram propondo nos sucessivos governos (Nascimento, 2015:5-6). Este facto, a par de uma visão crítica do ensino praticado

8 Instituído por Decreto de 30 de outubro de 1858 e Carta de Lei de 8 de junho de 1859. Foi atribuída à Academia Real das

Ciências a incumbência da operacionalização (Couvaneiro, 2012:27). O mesmo se passou com a Filosofia: a primeira cadeira em Portugal surgiu no CSL (Couvaneiro, 2012:27). No entanto, e contrariamente à Geografia, a Filosofia esteve no plano de estudos desde a origem do Curso.

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em Coimbra, levou a Casa Real a custear o funcionamento do CSL, cuja operacionalização coube à Academia das Ciências de Lisboa. A justificação apresentada para a sua localização na capital – e face às críticas da Universidade existente – assentou na possibilidade de maior recrutamento dos professores que daí decorreria, a par de se considerar que era aí que melhor se poderia servir o “desenvolvimento intelectual dos povos” (2015:12).

As dificuldades do arranque e funcionamento foram inúmeras, desde a falta de perspetivas profissionais para os diplomados, à dificuldade no recrutamento de professores ou às instalações exíguas (Nascimento, 2015:14,15). Apesar das limitações, o corpo docente foi reflectindo sobre as melhorias necessárias, fazendo chegar as suas propostas aos responsáveis governamentais. Entre diversas medidas apresentadas, destacam-se três que interessam à Geografia, por sugerirem a sua inclusão no curriculum do Curso9.

Em setembro de 1869, os professores, acompanhando as tendências científicas universitárias de outros países, materializaram a proposta de incluir o estudo da Geografia (antiga e moderna), da Etnologia, das instituições medievais, a par de alterações no ensino das línguas (Dores, 2008:64; Nascimento, 2015:17).

Numa Memória dirigida em 1879 ao Ministro do Reino e à Direcção-Geral da Instrução Pública, voltava a revelar-se um conhecimento do ensino superior noutros países ao ser proposta a constituição de secções específicas e o alargamento do quadro disciplinar do Curso. Os professores pretendiam, novamente, que se incluísse a Geografia, a par da História pátria, da Etnologia, da Arqueologia da arte e da Filologia semita (Nascimento, 2015:17,18). Refira-se que se realizou neste mesmo ano uma reforma do ensino secundário, a qual foi acompanhada pela SGL, que apresentou propostas para os programas de História e Geografia (Guimarães, 1984:51-52).

Em 1889, chegou-se mais perto da concretização. Apresentaram-se duas propostas de reforma, que incluíam cadeiras de “Geografia e Etnologia Geral” ou “Geografia e Etnografia”10. Este propósito foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Superior de

Instrução Pública, e apresentado à Câmara dos Deputados. Não se atingiu, contudo, a

9 Houve propostas anteriores ao CSL que iam neste mesmo sentido, nomeadamente em 1835 (por Guilherme Dias Pegado,

lente universitário), 1836 (por Albino de Figueiredo e Almeida, lente da Academia Real da Marinha) e 1857 (por José Maria de Abreu, deputado) (Dores, 2008:64).

10 As propostas de Jaime Moniz, diretor do Curso, e de uma Comissão de Professores, composta por Adolfo Coelho,

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aprovação legislativa, eventualmente devido à instabilidade política provocada pelo Ultimato britânico de 1890 e pelas eternas dificuldades financeiras. A reforma do Curso viria a ser aprovada em 1893, mas não incluiu a Geografia (Couvaneiro, 2012:52).

Foi apenas a reorganização profunda do CSL, em 1901, que instituiu a Geografia (Figura 1; Apêndice C). Esta Reforma ampliou a oferta formativa, tornou-a mais profissionalizante, criando quatro cursos (Geral, Bibliotecário-arquivista, Diplomático, Habilitações para o Magistério), todos compostos de três anos (Couvaneiro, 2012:54-55). A Geografia era lecionada nos dois primeiros anos gerais, e foi criada uma secção de História e Geografia para o 4º ano do curso do Magistério11. O último ano estava centrado na aprendizagem pedagógica e na iniciação à prática profissional12. Foi este Curso, na secção de História e Geografia, que Schwalbach concluiu no ano letivo de 1908-1909.

De acordo com Capel (2012:85-86), os motivos da institucionalização da Geografia no ensino universitário residem essencialmente em fatores externos e não na lógica interna da ciência. Assim, é importante considerar necessidades como a formação de professores, facto efetivamente observável no caso português.

Figura 1. Excerto do Decreto nº 5, Diário do Governo 294/1901 de 24 de dezembro, criando a cadeira de Geografia

Ao longo da sua existência, o Curso conheceu tensões no corpo docente relativamente à orientação a dar aos estudos. Estas decorriam ainda das ideias e dos

11 Estes alunos passavam a poder lecionar em exclusividade disciplinas liceais, como Geografia, Filosofia e História

(Couvaneiro, 2012:213).

12 Para lecionar ciências nos liceus foi instituído um percurso semelhante, em 1902: preparação científica de três anos e o

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interesses dos políticos responsáveis pelo ensino. Vale a pena notar uma clivagem geral que persistiu ao longo do tempo: a oscilação entre um ensino profissionalizante, vocacionado para a preparação de professores, e uma orientação para as Ciências Sociais e Humanas, de acordo com uma vertente científica13. Pode dizer-se que as duas tendências coexistiram,

alternando forças de acordo com os contextos de cada época. A necessidade de melhorar a formação dos professores liceais era, por exemplo, uma evidência, que se foi acentuando na segunda metade do século XIX e que carecia de respostas operacionais. A formação dada no CSL foi uma delas.

A Reforma de 1901 foi antecedida de debates no seio do corpo docente, verificando- se a já mencionada clivagem entre os defensores do ensino orientado para a ciência e aqueles que pretendiam antes a valorização da formação de professores. Acabou por ser Jaime Moniz, que participara na reforma liceal de 1895, a fazer valer a sua abordagem, dotando o CSL de uma componente pegagógica (Dores, 2008:19-20). A cadeira de Geografia ficou sob a responsabilidade de Silva Teles, que concorrera à docência com a tese A concepção das unidades geográficas. Introdução à antropogeografia (1904).

Uma história curiosa antecedeu esta escolha. Na verdade, o primeiro professor a lecionar Geografia no CSL foi Teófilo Braga, muito embora interinamente. O primeiro concurso aberto, que teve uma forte adesão, foi declarado nulo por ser apenas baseado em

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