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Le champ des triangles rectangles

II.2 Le champ des triangles

II.2.1 Le champ des triangles rectangles

Pela sua raridade, o mais interessante é o sobrado da Rua da

Quitanda, onde está instalada a ―Biblioteca Antônio Torres‖. É o

único prédio no Brasil onde ainda existe conservado um muxarabiê completo. É um balcão inteiramente fechado por treliças, permitindo que a pessoa que o ocupar possa ver a rua, quase sem ser vista. Esta peça é de nítida influência oriental, certamente introduzida pelos portugueses que a viram nos países exóticos que percorreram no período das grandes viagens e dos descobrimentos marítimos.

(MOURÃO, 1980, p. 40).

As colegas às vezes passam lá para sairmos juntas e acham graça dela ficar na sacada até eu entrar na Escola.

Elas sempre dizem: "Sua avó parece mais um namorado seu".

(MORLEY, 1895. 268)

Ressaltaremos nessa seção um exame das sacadas, essas aberturas das casas que ficavam no alto, sobre a rua, como um espaço de mediação para a o aprendizado do olhar, um posto de treino da observação da mocidade: a sacada pode ser aqui elevada ao status de observatório. Portanto, analisaremos como essa prática cotidiana da observação participava da formação social, política e estética dos jovens.

O texto de Mourão (1980) é surpreendente porque se nele o autor se preocupa em diagnosticar o papel das sacadas como elemento estético maior na arquitetura local, elas teriam uma idade de madeira e outra de ferro. Ao fazer sua descrição, o autor aponta também

a função de panóptico das fachadas, com seus observatórios disfarçados estendidos sobre a rua. Embelezar e espreitar seriam também funções de tais peças dos sobrados.

As sacadas não seriam outra coisa senão uma construção que avança da fachada de uma parede do sobrado e se projeta sobre a rua; em muitos casos, é composta por um balcão feito em madeira ou ferro batido que, saliente numa sacada, às vezes é coberto por um alpendre. Esse balcão pode ser curto, servindo a uma porta-janela, ou longo, com um peitoril inteiro, na horizontal, atravessando toda a fachada do sobrado, na altura do segundo ou terceiro andar.

Quanto às atribuições das sacadas, são pelo menos três: trabalham a favor do aproveitamento e da penetração da luz natural, externa, no interior dos pavimentos; fornecem aos moradores da casa uma posição privilegiada para espreitar a movimentação pública e funcionam como uma espécie de fronteira vazada entre a casa e a rua, permitindo visões de dentro para fora, mas também ao contrário, porém com visão mais limitada, pois de baixo para cima estreitava-se com maior dificuldade.

As sacadas eram objeto de preocupação decorativa, pois seus refinamentos estilísticos ensinam como elas eram manifestação do gosto estético da família, bem como de seu poderio econômico, já que provavelmente não deveriam custar pouco para serem executadas.

Segundo um analista do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, criado em 1937), o trabalho do órgão não deveria ser ―fixar somente as casas grandes de fazenda ou sobradões de cidade com sete, nove ou onze janelas e porta bem no meio, mas (também) as casas menores, de três, quatro, até cinco sacadas, porta de banda e aspecto menos formalizado‖. Órgão federal em defesa da identidade nacional, nesse argumento, o SPHAN ressalta a ―sacada‖ como um item de importância na formação cultural da nação. E diz mais: devem-se observar as sacadas ―pequeno-burguês, como essas que ainda se encontram nas velhas cidades mineiras‖ (COSTA, 1937, p. 33).

A primeira vez que o narrador de O Hóspede mencionou as ―sacadas‖, elas apareceram associadas a uma proteção contra a ―neblina fria‖ (RABELLO, 1978, p. 14), porém, auxiliadas por ―cortinas‖ que eram responsáveis por amenizar a incidência de luminosidade, vento e insetos no interior do pavimento, sem se ter que fechar as abas das janelas.

FIGURA 7 - ―Casario na Rua da Quitanda‖:

Vale a pena atentar para as sacadas dos sobrados dos dois lados da rua; na fila da direita, curiosamente, há, parece, duas crianças espreitando o que se passa fora de casa, no espaço público. Foto de autor anônimo, realizada provavelmente na década de 1940 (QUEIROZ, 2010, p. 4).

Paulo, um dos personagens do livro supracitado, estudante de férias na terra natal, ficava vadiando nesses dias, mas na temporada de descanso do moço chovia: era janeiro. Ele usava a sacada para avaliar a chuva e observar a movimentação na rua. É Rabello quem nos introduz num desses períodos de férias do rapaz. Vejamos: Paulo então ―foi ver o tempo pela sacada, que entreabriu. O chuvisco estava bastante forte na rua, já escura, não passava ninguém: apenas um preto velho, embrulhado numa baeta vermelha, carregando uma escada, vinha tossindo estertorosamente e parou junto ao lampião fronteiro à casa‖ (RABELLO, 1978, p. 14).

Nessa atitude do jovem, o que ele viu foi uma imagem decadente de um senhor negro, adoentado, que ―parou‖ para acender o ―lampião fronteiro‖ ao sobrado. É como se Paulo se servisse da sacada para observar as condições (precárias) da iluminação pública de sua cidade natal (RABELLO, 1978, p. 14).

A sacada parece dotada de uma capacidade de gerar informações ou de fazê-las circular. Assim elas poderiam ser utilizadas para confirmar alguma suspeita, tirar alguma dúvida, transmitir alguns rumores: bastava ficar lá em cima à espreita de alguém que pudesse confirmar ou negar um boato, ou obter uma informação acerca, por exemplo, do clima, da política, de determinada cerimônia religiosa, ou mesmo de breves diálogos mais amenos.

Assim é que Amália, moça irmã do Paulo, ouvindo da sacada, percebeu que ―reuniram-se embaixo o tio Batista que esperava a família, conversando com Américo (pai da moça), e subiram a rua, fazendo grande ruído nas lajes do calçamento‖, e, lá de cima, gritou Amália para uma de suas primas:

- Não está chovendo mais? - perguntou Amália, da sacada.

- Melhorou o tempo! - responderam. - Adeusinho! Vá lá amanhã, ouviu? - Se puder...

E ficaram ela e Zulmira, a ver pela sacada até que as primas desapareceram na esquina da rua sombria. Américo subira da loja, e, ao ver as filhas, repreendeu-as;

- Vocês estão apanhando este ar frio? Saíram da sacada e Zulmira, bocejando de sono, passou um dos braços pela cintura de Amália e as duas seguiram para o quarto em que dormiam. (RABELLO, 1978, p. 18).

As sacadas foram também um dos meios de se participar de ritos religiosos sem ter necessariamente que sair de casa; elas permitiam estar presente no rito, mas fora da igreja. Vejamos como isso aparece no diário de Morley, de 29 de março de 1894: ―Vovó foi passar a Semana Santa na Rua Direita, em casa de tio Geraldo que é em frente da Sé e ainda não voltou. Ela não vai à igreja, mas gosta de ver, da sacada do meu tio, a entrada e a saída dos bispos e padres e o movimento do povo na rua.‖ (MORLEY, 1998, p. 140).

As ―varandas aéreas‖ ainda participariam das cerimônias religiosas não só como posto privilegiado de observação, mas contribuiriam com a ornamentação do cenário das festas, pois eram enfeitadas com tecidos em certos dias santificados. Assim, elas cumpriam uma função estética e explicitavam o estilo de vida e o poderio econômico de algumas famílias, já que essas se serviam das sacadas para concorrer com outras, através de uma ornamentação mais pomposa. ―Desde pequena‖, escreveu Morley,

eu nunca vi um Domingo da Ressurreição triste. Até o sol é diferente. Neste dia Dindinha leva para a Rua Direita as colchas de damasco de seda de vovó para juntar com as de tio Geraldo e porem nas sacadas. Ficam bonitas as ruas com as sacadas enfeitadas de colchas de seda de todas as cores. Vovó já disse que vai me dar uma colcha rica de damasco quando eu crescer e tiver minha casa. Hei de escolher a mais bonita (MORLEY, 1998, p. 139)

Ora, seriam as sacadas um mediador para a educação do gosto ou da formação crítica do visual na urbe mineira de feitio colonial, já que elas permitiam uma observação

privilegiada, ou seja, aérea? Isso é o que parece, ao ver Helena fazer uma crítica à vestimenta de uma mulher num dia de festa. ―Eu pensei de morrer de rir quando, da sacada de Luísa Guerra, vi sair do meio do povo uma mulherzinha bem limpinha com sua saia de chita vermelha e paletó branco, pregar a saia com um alfinete de desmazelo, fazendo um calção, arredar os da frente e começar a subir.‖ (MORLEY, 1998, p. 242). A jovem, olhando o que se passava lá embaixo, formulou um julgamento acerca do gosto, ou melhor, do mau gosto de ―uma mulherzinha‖ que andava na rua num daqueles dias santificados.

Não parece exagero inferir que a formação e o treino de um sistema de valores eram desenvolvidos em certos moços, mediados pela prática da observação nas sacadas. Ora, se o olhar permite formar uma opinião geral sobre o outro, e se esse olhar não se faz no cara a cara, ele não permite ao outro agir sobre... Desse modo, o gesto de mirar sem ser mirado garante ao observante do alto uma situação de privilégio pela sua posição aérea. Georg Simmel (1986), ao teorizar sobre as formas de sociabilidade afetivas, considerou o movimento dialético de ver/ser-visto entre os indivíduos como um fator marcante na organização social, quer para a sustentação da coesão dos grupos, quer para o desencadeamento de conflitos.

A visão seria a ação de produção de ideias imediatas sobre o outro, o fora, a realidade. Porém, o olhar seria também uma forma de poder sobre o outro. Logo, estando os jovens sob os olhares das negras, dos velhos, dos outros jovens, estavam eles submetidos à ordem ditada por essas pessoas. Entretanto, a eles também era dado o poder de olhar, e isso certamente lhes garantia alguma forma de domínio. Além disso, pode-se dizer que os gestos eram os locais para onde os olhares se dirigiam. Ora, haveria um saber nos gestos?

Os conflitos sociais também eram objetos de observação e cogitação das sacadas dos sobrados. Certa manhã, Edésia Rabello foi surpreendida com um evento criminoso sob sua casa e o mencionou numa de suas memórias. O motivo relatado por ela: o ―empastelamento‖ de um jornal que funcionava no andar térreo, fato ocorrido por volta do ano de 1894 e que estava ligado à rivalidade política local entre os republicanos e os ex-monarquistas:

Ao regressar do açougue, por volta de seis da manhã, a empregada veio nos participar, espantada, que havia muitos homens entrando e saindo da tipografia, a comentarem a devastação ali causada.

Chegamos à sacada, vimos realmente grande número de homens falando sobre o empastelamento.

Ramalho, de cima, indagou: - Que aconteceu afinal?

Um dêles respondeu:

- Empastelaram a tipografia! (RABELLO, 1963, p. 131)

O curioso nesse fato foi a família não ter ouvido a quebradeira feita durante a noite. Uma explicação possível para isso seria dizer que as tipografias costumavam funcionar à noite, para entregar o jornal pronto pela manhã. Demais, o barulho era algo permanente no andar de baixo, uma vez que ele funcionava como empresa, comércio e outros. Mesmo assim, na manhã seguinte, a sacada foi o recurso utilizado para se informarem sobre um evento criminoso: simplesmente chegaram ao balcão e confirmaram o que disse a ―empregada‖: empastelaram o jornal!46... Desse modo avaliza-se a sacada como ponto privilegiado para experiências visuais em relação às alvoroços transcorridas na rua, os quais possibilitam exames e tomadas de posição sobre realidade social.

Esse caso é sugestivo para se pensar a formação política da jovem, na medida em que ela, do alto, pôde observar uma manifestação de violência na qual estavam em atrito as ideologias não só locais como nacionais: republicanos X monarquistas. Ora, essa geração foi, portanto, estimulada a pensar o problema político de seu tempo, já que alguns desses problemas não eram apenas uma questão abstrata de debates entre adultos, mas um fenômeno concreto que acontecia num cômodo debaixo da casa.

É preciso marcar o vínculo da moça Edésia com sua observação dos processos históricos e sociais daquele tempo. Nesse caso, sua geração compunha-se de um grupo de pessoas que dividiram uma situação social e política comum, e na qual vivenciaram certas experiências que seguramente formaram sua consciência política.

Mas as sacadas seriam exploradas também pelos ―maestros diamantinenses,‖ pois, que elas foram incorporadas às práticas musicais por esses artistas. Isso porque as janelas de púlpito possibilitavam uma redistribuição dos músicos nos espaços públicos mediados pelos edifícios privados, permitindo inovações harmônicas e teatrais nas performances. Na verdade, as sacadas assumiram o papel de palco. Os alpendres aéreos mais uma vez estiveram

46 ―Se um historiador pretendesse contar todos os detalhes, gestos diários, com todos os seus caracteres

qualitativos, cada um dos atos e dos pensamentos de uma só pessoa, num só dia, não conseguiria fazê-lo‖, pois, o

―relato histórico é uma construção seletiva do que aconteceu no passado. Esta seleção é predeterminada, em parte, pela seleção operada nos documentos.‖ Uma coisa é fato, os documentos disponíveis são sempre

lacunares: imprecisos, mas eficazes. A hipótese de Raymond Aron sobre fazer historiográfico poderia ser assim parafraseada: a seleção dos relatos está orientada pelos valores vividos pelos indivíduos históricos (ARON, 2002, pp. 739 -740). No caso em tela, que ―valores‖ seriam esses? Entre os valores em questão estavam os valores políticos?

envolvidos na educação estética e na formação do gosto sonoro da população. Não foi por acaso que

Os maestros que sucederam Piruruca (músico, nascido em 1857) na condução da Banda Militar mantiveram a tradição idealizada por ele, durante as retretas, de dividir as bandas em grupos e destacar os solistas nas sacadas. [...]

A experiência atravessou décadas. Os maestros utilizaram, de diversas formas, as sacadas dos sobrados para a interpretação da fantasia. Em algumas ocasiões foram utilizadas as sacadas do sobrado nº 137, edificado na entrada do Beco do Motta, em frente a Catedral da Sé (CONCEIÇÃO e FERNANDES, 2003, pp.64-74).

No entanto, não foi só música que se derramou das sacadas sobre os ouvidos da população em tela. Sons de vozes humanas foram lançados dali, porém as notas eram políticas. Luiz Gonzaga dos Santos escreveu em suas memórias sobre Diamantina, no início do século XX, um tópico chamado ―Os sempre lembrados‖. Ele se referia a personagens da cena social que eram ídolos da memória coletiva de sua geração. Figurava entre eles um tal ―João Evangelista da Rocha, ou João do Padre‖. Segundo Santos, este senhor

era prêto e tinha pouca instrução, mas bom amigo prestimoso, chefe de família exemplar, um dos fundadores da Sociedade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e da qual era sempre êle 2º orador.

Lembro-me que depois de terminadas as solenidades da festa da sociedade, vinha à sacada agradecer novamente ao povo, âqueles que não podiam entrar no salão (SANTOS, 1963, p. 81).

Visto assim, ―João Evangelista‖ entendia a sacada como púlpito47

, equipamento comum nas Igrejas locais de onde o padre realizava suas oratórias. Não parece incorreto comparar os balcões aéreos a um tablado, no qual os personagens públicos – artistas, políticos, padres - apareciam para fazer suas apresentações. Eles eram seguramente um mediador entre a casa e a rua.

As sacadas assumiram, portanto, diversas funções no trato da alimentação estética, mas também serviram à nutrição dietética Helena observou que seu ―Tio Conrado tem na sacada da sala de visitas um caixote com um tomateiro, que é mais sagrado do que hóstia para

47 O púlpito comum à época era um local nas igrejas, levantado e com balcão, de onde os padres recitavam os

ele. Pois Siá Matilde passando por lá e vendo os tomates vermelhinhos logo desejou, e Seu Marcelo foi pedi-los a tio Conrado‖ (MORLEY, 1998, p. 299).

Ora, os legumes não só ornamentavam a frente da casa, mas alimentavam seus moradores; assim também eram as videiras que se alastravam pelas varandas, dependurando seus cachos de uvas pelas estruturas de madeira dos telhados.

Enfim, esse exame das varandas suspensas dos sobrados como espaços mediadores da formação social dos jovens leva-nos a crer que o relacionamento da mocidade com os costumes promovidos por esse elemento arquitetônico lhe permitia desenvolver certas habilidades e operações visuais de assimilação e resistência das maneiras de estar naquele mundo.

1.3 “Em frente do oratório”: as práticas devocionais e os jovens

Eu perguntei-lhe: "Tio Antônio, por que é que o senhor traz seu oratório fechado? Todos da família são abertos". Ele respondeu: "O meu é diferente".

Helena Morley, 1895.48

Quero que duas ou três vezes por dia visiteis o santo sacramento ou, se não podeis ir à igreja, que vos recolheis a vosso oratório a fim de fazer uma pequena prece e um pequeno exame.

François Lebrun, 1991, p. 100. As reformas: devoções comunitárias e piedade pessoal

Apesar de os oratórios e santos de casa serem bentos e abençoados pelo vigário ou missionário em suas visitas residenciais, nem sempre a relação dos moradores com tais simulacros seguia as normas permitidas pela ortodoxia católica.

Luiz Mott, 1997, p. 167 Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu.

Analisaremos nessa seção as relações dos jovens com os equipamentos da religiosidade doméstica, buscando revelar a potência formadora dessas relações nesses indivíduos. Nesse momento surgem evidências que apontam para o uso de práticas religiosas de feição popular num clima de modernização tecnológica e política da urbe.

Um oratório não seria outra coisa senão uma capela doméstica, fixa ou móvel, disposta em algum canto da casa; normalmente constituía-se de um nicho, um armário com uma ou

48

várias imagens religiosas, o qual se configurava como um adoratório dos santos; considerados os mediadores das relações entre os seres humanos no mundo e Deus.

Em outros termos, o oratório era o espaço da casa diante do qual os membros da unidade doméstica realizavam suas orações, suas rezas: pedidos, agradecimentos e súplicas aos ―senhores da eternidade‖. Na prática, fazia-se um gesto genoflexivo, ou seja, ajoelhava-se diante dos santos depositados dentro do nicho e rogava-se-lhes em voz alta ou baixa. Ao final da prece era comum tocar e beijar a imagem ali exposta. Acompanhavam os oratórios as velas acesas e vasos de flores dispostos nas laterais.

FIGURA 8 – Menina ajoelhada.

Ao lado se pode ver uma menina ajoelhada em uma posição clássica entre os rituais católicos. A foto foi feita por Chichico Alkimim, durante a primeira metade do século XX e tornou-se pública recentemente (2013) numa exposição realizada pelo Museu MinasVale. Essa representação é um símbolo do que seria o gesto em frente ao oratório.

http://circuitoculturalliberdade. com.br/

Se se considerar o oratório como um equipamento básico da casa colonial mineira e como um costume que se estendeu, provavelmente, por todo o século XIX, notar-se-á que as práticas religiosas domésticas eram ritos corriqueiros no dia a dia dessa população. Essas minicapelas, iluminadas, são comuns nos relatos memorialísticos evocados por essa pesquisa, o que corrobora a hipótese de que tais equipamentos possuíam um valor positivo e foram relevantes para a formação espiritual e moral dos membros das unidades domésticas que os possuíam (MOTT, 1997).

Era como se a casa sem esse equipamento fosse um lar incompleto; portanto, se a família não tinha um oratório propriamente, pelo menos uma imagem de sua invocação preferida era fundamental que se possuísse dentro da habitação. A necessidade da população de Diamantina de possuir santos pode ser percebida pela movimentação do mercado de imagens sacras na cidade, no final século XIX:

A nossa casa vivia cheia de objetos quebrados para conserto; entre eles apareciam muitos como por exemplo Santo Antônio sem o menino e a razão é que sendo o Santo muito vítima dos feiticeiros, estes furtavam o menino para as suas macumbas como diziam e só entregavam o menino se o Santo fizesse o que desejavam, caso não fossem satisfeitos ficava o Santo sem o seu querido menino (SANTOS, 1963, p. 51)49.

A importância desse relato está na expressão ―objetos quebrados‖: imagens sacras, na grande maioria eram esculturas de Santo Antônio, que movimentavam esse tipo de mercado50.