1. CAUSO DA TROVOADA
Inf.1 – Eu sou mais acanhado de que Dacho pra contar história...
Pesq. – Oh Correa me conte, por favor, conte aquele que você me contou, vá Correia, conte... Inf. 2 – Por que você não quer contar?
Pesq. – Você já me contou, por que você não quer me contar? Inf. 2 – Painho que sabe...ele foi pescar mais painho...
Pesq. (falando com inf. 2) Então conte...
Inf. 2 – Painho só fez dizer o que: é...ah minha filha, quase que a gente morre! Ele é que sabe, ele é que foi pescar... Aí eu disse: por que?
– A trovoada! Disse que o relâmpago tava parecendo um curisco e eles temando, não foi Nilson? Por painho, voltavam, né? Por que o tempo tava muito feio. Mas eles insistindo em pescar, aí painho: vamos pra casa. Não foi Nilson? Vamos pra casa!
Inf. 1 – Eu não! Por mim não, vinha embora...
Inf. 2 – Viu, aí eles insistindo na pescaria, quando caiu um... a trovoada foi muito forte. E o relâmpago e disse que o raio quase caiu na cabeça deles, que mesmo assim...
Inf. 1 – Caiu pertinho da canoa, assim (gesto com as mãos)... Pesq. – Vá Correia, conte...
Inf. 1 – Não, não deixe ela conversando...
(risos)
Inf. 2 – Painho falou que foi tipo assim um castigo por que da insistência deles... Inf. 1 – Minha não foi... Eu não fui...
Inf. 2 (referindo ao informante 1) – Você...todo enroladinho, todo encolhido...
Inf. 1 – Eu não! Eu tava deitado na areia. Eles qui tava lá dentro da canoa, eu to aqui deitado na areia. Moreno ainda dizia assim pá mim:
– Oh rapaz, você não ta sentido frio não?
Eu digo: – Eu não, tô aqui. Porra! Não sabendo que eu tava correndo aquele risco também, embaixo do arvoredo. Que disse que o raio embaixo de árvore... uma araçaíba grande e ali embaixo. Eu disse: eu vou ficar na sobra do vento.
A chuva que ia cair, me joguei. Cavei um poquinhu de areia bom e aí fiquei deitado assim, na areia, né? Eles lá, dentro da canoa. O pau cumendo aí!
Aí cessou um poquinhu a chuva. Eu digo: Ói eles tão achando que cessou, mas isso ta circulando tudo aí; ói as nuvem circulando tudo... e esses home, assim que esses homens que acha que são experiente, e eu que praticamente... poucos tempos de pescaria.
Porque eu não ficava muito tempo aqui, meu negoço era mais era Salvador.
E se acham experiente? Moreno, Moreno também queria, que é mais idoso...mas aqueles outros qui tavam ali? Tudo, tudo, uma ig...ignorança só mermo! Não tem conhecimento das coisa. Não tá sabendo do perigo qui tá correndo ali.
Eu sei, mais ou menos, por que eu assisto e eu vejo as coisa... Sabia mais ou menos o perigo qui tava correndo ali.
– Vamos cercá!
Eu digo: Vamos cercá!
Rapaz, como eu disse a você naquela hora... A sorte nossa caiu, tá cumendo aquilo aqui do lado, o...o...o...os raio caindo do lado de cá, cá lado de cá... Nós tava pescando lá. Quando eu vi aquela zorra: ah ta indo pu lado de lá! Tá circulando, tomando tudo aí!
Daqui a pouco... Gostei daquela hora que caiu aquilo ali. Eu gostei porque se não pudia ser pior...
Daqui a pouco...thá! thá...
Se abaixou todo mundo! Eu me abaixei por que também... o medo ali...todo mundo ali no mermo piqui de qui se abaixou. Na hora quando coisa assim, na hora qui abriu, o raio, o istoro veio na merma hora. Todo mundo se abaixou ali... aí Moreno começou a ficar rezando (risos). (NOME DE ALGUÉM) começou a dá risada...
E Moreno sei o que, Moreno sei o que: – Eu não disse qui a gente tinha qui ir? Eu não disse qui a gente tinha qui ir imbora?
Eu digo: – Eu não quero nem saber, o mestre...
Porque a pescaria é do mestre . E acho qui a gente tinha di ir pescá, qui tinha qui pescá! Né assim!
Quando eu não quero ir pescá, eu não vou...porque as vezes... Pesq. Como é a pescaria do mestre?
Inf. 1 – É porque o mestre ...ele, ele...não é dono da rede, nem da canoa. Ele pesca na proa da rede. Então ele tem a pescaria dele. No caso, é a pescaria do mestre, qui tudo qui fizer, ele dá o quião dos moço e fica o restante pra ele.
Pesq. Hum, rum, não tem qui pagá o dono da rede...
Inf. 1 – Não tem qui pagá o dono da rede, o mestre queria dinheiro, qui queria dinheiro. Aí pronto: não deu certo. Deixemos a canoa na Ponta Grossa, viemos andando todo mundo. Pá saí no outro dia, de novo. Qui a gente depois, ainda saímos no outro dia di baxo de chuva, de madrugada. Di baxo di chuva porque a canoa ficou lá. Qui não fosse isso...
Esses cara não ganha dineiro...ela sabe aí Pesq. E era rubalo qui cês tavam pegando...
Inf. 1 – A gente forrou o cope da rede pá pegá rubalo. Quin i rede comum, rubalo arromba. E quando você forra o cope, bota uma rede mais grossa, ele bate ali, bateu a cara, fica ali mermo. E nessa pescaria, foi essa, mas não deu certo qui a trovoada caiu, pronto! Aí não tem pescaria.
No outro dia, ele tirou o cope da rede, o que forrou, e fomos pescar outra coisa....
Correia e Sonildes Baiacu, 25/03/05
2. Relato da chuva
Aí. Aí ê. Pode acreditar em Jesus. Assim o céu como tá aí... fomos saí daqui pra pescar, chegou atrás do ilhote se finquemos, fiquemos infincados126. Esse rapaz se virou e disse assim:
- Essa quentura que tá aqui...
Pesq. – Infincado é prender a canoa...
Bahia – É. E condo a gente parado aí... Ele chegou disse:
– Ah, uma nuvem aqui agora! Um bom aguacero!... (fez pausa para indicar a retomada da voz do narrador)
Bahia – No espaço de uns dez, quinze minutro. Não deu outra, não! Tô mentindo aí?... Pergunte a ele se é mentira minha!...
Diqui a pouco evém aquela nuvem assim, evém.... Diqui a poco, tome-lhe chuva aí. E a gente aí, infincado aí.
Aí sua boca ruim, que cê falou aí. Se é outra coisa pior que ele fala, acontecia! Se é uma bomba d´água que ele pede também acontece. Ô ele aí! Diga a mim que é mentira minha agora!
Aí. Aí ê. Pode acreditar em Jesus. Assim o céu como tá aí... fomos saí daqui pra pescar, chegou atrás do ilhote se finquemos, fiquemos infincados127. Esse rapaz se virou e disse assim:
Pesq. – E como é bomba d’água?
Bahia – Bomba d’água é aquele negoço que bota, bota a embarcação no fundo e e e...mata um!!
Circ. Comentários e risos
Bahia – Né não, é? Não mata um não, é?...Bomba d’água quando vem de lá mata um! Pesq. – E vem de baixo pra cima?
Bahia – Não, vem de cima pra baixo!
Natinho – Parece um vulcão! Assim ô...(gesticula dando a entender que se trata de algo imensurável.)
Pesq. – Nunca vi não!
Bahia – É, chama bomba d’água!
Pesq. – Também eu nunca fui pescar! Só fui naquele dia...
Bahia – Você pegou um dia bom. No verão tá bom... Mas no inverno, hum... Pesq. – Bomba d’água só dá no inverno?
Bahia – Não, bomba d’água, no verão. Ela é acostumada a dá no verão. Natinho – Mas com chuva e vento.
126 Ancorar em determinado ponto, como em Baiacu as embarcações não dispõem de âncora, os pescadores
enterraram uma vara de madeira no mar e com uma corda prendem a canoa a ela, ficando fixados no lugar.
127 Ancorar em determinado ponto, como em Baiacu as embarcações não dispõem de âncora, os pescadores
Bahia e Natinho Baiacu, 30 de dezembro de 2004