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Langages de n-uplets d’arbres

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2.3 Langages d’arbres et de n-uplet d’arbres

2.3.4 Langages de n-uplets d’arbres

Mas os israelenses reservavam a palavra “terrorismo” exclusivamente para os inimigos, não para os amigos falangistas, como a comissão Kahan demonstrou claramente. Uri Avneri, o jornalista liberal que entrevistou Arafat durante o cerco de Beirute Ocidental – ministros do gabinete israelense exigiram mais tarde que ele fosse julgado por traição -, descreveu o uso do termo “terroristas” como “um crime da mídia, uma desculpa para assassinato”. Era, ele me disse em Tel Aviv, em 1986, um “método do tipo nazista” para influenciar as mentes, “um processo de desumanização de pessoas, essencial para os preparativos da guerra” (FISK, 2007, p. 524).

Considerando a importante ligação que as comunidades árabes-muçulmanas da Tríplice Fronteira têm com seu país de origem e considerando que a maior parte dessas comunidades é oriunda do Vale do Bekaa, no sul do Líbano, faz-se necessário compreender, minimamente, as condições políticas, sociais e econômicas desse país que instigaram essas pessoas a migrar e buscar oportunidades em economias de países mais estáveis, uma vez que o Líbano, por muito tempo, esteve envolto em sangrentos conflitos armados. Da mesma maneira, é fundamental entender as complexidades da vida no Oriente Médio para analisar o habitus que permeia as

manifestações políticas coletivas e individuais dos membros das comunidades residentes nos países da América Latina, em escrutínio.

Da mesma maneira, é fundamental entendermos o que é, atualmente, o Hizballah e qual a relação dessa organização, - desde 1992, um partido político libanês legítimo – com a população do sul do Líbano – região de origem de 90% da comunidade imigrante libanesa muçulmana da Tríplice Fronteira (RABOSSI, 2004) – sobretudo com a população xiita, uma vez que o sistema político libanês é organizado a partir de linhas confessionais e teve um papel muito importante para essa parcela da população libanesa, extremamente excluída política e economicamente. Tal entendimento é extremamente necessário, uma vez que as acusações – não fundamentadas - relativas ao envolvimento das comunidades locais com o “terrorismo internacional” estão fundamentadas, principalmente, no apoio desta ao Hizballah, no Líbano. E, claro, à proximidade ideológica do Hizballah com os aiatolás iranianos.

O objetivo, precisamente, da presente subseção é entender, minimamente, o complexo contexto político libanês quando do surgimento da organização – em 1982 –, que consistia em uma violenta ocupação militar israelense que, juntamente com as Forças Multinacionais “de Paz” lideradas por EUA, França e Itália, sustentavam um governo Falangista Cristão Maronita, extremamente violento com as minorias, sobretudo os xiitas de subúrbios de Beirute e do sul do país e palestinos refugiados sob a liderança, principalmente, da Organização para a Libertação Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat; Analisar o uso indiscriminado e seletivo do conceito de “terrorismo” nos discursos hegemônicos, incluindo a inserção do

Hizballah da listagem norte-americana que designa “organizações terroristas” e, por fim,

levantar a discussão – que será desenvolvida, mais à frente, no capítulo IV deste trabalho -, acerca do entendimento legal do Brasil – uma vez que, nessa pesquisa o estudo do processo de securitização se desenvolve a partir das ações em nível estatal - sobre a natureza política do Hizballah.

Após a independência do Líbano, em 22 de novembro de 1943 e a retirada das tropas dos mandatários franceses, houve um “acordo entre os líderes maronitas e dos muçulmanos sunitas de que o presidente da República seria sempre maronita, o primeiro ministro sunita e outros postos do governo e da administração seriam distribuídos entre as diferentes comunidades religiosas (HOURANI, 2006, p. 558). Após relativo equilíbrio político conseguido por meio desse acordo, a mudança significativa da demografia libanesa, com um rápido crescimento da população muçulmana, rendeu inúmeros conflitos civis no país, o primeiro deles em 1958

(FERREIRA, 2010, p. 5). A partir desse ano, os grupos de apoio político e militar aos muçulmanos se concentraram no sul do Líbano. Aliados a estes últimos, juntam-se defensores da libertação da Palestina, em grande parte, refugiados do conflito de 1948, eclodido diante da fundação do Estado de Israel.

O partido de base cristã maronita Kata’ib (Partido Falangista), continuamente alarmado com a possibilidade de crescimento do poderio muçulmano, uniu-se a Israel – vizinho com forte poderio militar e muita disposição em conter os palestinos refugiados, principalmente no sul do Líbano, que, constantemente, proferiam ataques com mísseis aos territórios ao norte de Israel como forma de reivindicar os territórios que lhes foram tomados em 1948 e, posteriormente, em 1967 -, e iniciou a segunda guerra civil libanesa que eclodiu em 1975 e continuou – até 1990 - sob a dinâmica de uma combinação de forças que envolvem alianças, rompimentos e conflitos entre a Organização para a Libertação Palestina (OLP), o Partido Muçulmano Xiita Amal (Afwâj al-Muqâwmat al-Lubnâniyya – Batalhão de Resistência Libanesa), a Síria, o Partido Comunista Libanês e o Movimento Nacional Libanês42. Da mesma maneira, não podemos negligenciar o fato de que o conflito acontece no contexto maior da Guerra Fria e o Líbano parece, por vezes, um cenário, também, de disputas de influência e estratégia geopolítica entre as superpotências e seus aliados.

O Hizballah surge nesse contexto de conflagração entre diversos grupos políticos no Líbano. Os massacres aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila em Beirute ocidental, perpetrados entre 16 e 18 de setembro de 1982 - promovido pelas milícias Falangista e Haddad, ambas cristãs maronitas, com apoio israelense, após os acordos firmados por Habib no contexto de ocupação israelense – foram o combustível para o surgimento da organização da resistência xiita no Líbano. Sobre o massacre, o conceituado jornalista britânico, Robert Fisk, pontua:

O que encontramos dentro do campo palestino de Chatila às 10 da manhã de 18 de setembro de 1982 é inacreditável demais para se descrever, embora talvez fosse mais fácil recontar na prosa fria de um relatório médico. Já haviam acontecido massacres no Líbano, mas raramente nessa escala e jamais sob as vistas grossas de um exército regular e supostamente disciplinado. No pânico e ódio da batalha, dezenas de milhares foram mortos neste país. Mas

42 Os leitores que buscam um relato cronológico e detalhado dos eventos devem procurar The Tragedy of Lebanon:

Christian Warlords, Israeli Adventures and American Bunglers, de Jonathan Randall (Londres, Chatto e Windus,

1983 e/ou Israel’s Lebanon War, dos israelenses Ze’ev Schiff e Ehud Ya’ari (Londres, George Allen & Unwin, 1985). No entanto, a análise mais poderosa sobre as Guerras Libanesas e o envolvimento de Israel, EUA e a questão Palestina, encontra-se no livro The Fateful Triangle: The United States, Israel and the Palestinians, de Noam Chomsky (Londres, Pluto Press, 1983).

essas pessoas, centenas delas, foram abatidas desarmadas. Isso era um assassinato em massa, um incidente – com que facilidade usávamos a palavra “incidente” no Líbano – que também era uma atrocidade. Ia muito além até mesmo do que os israelenses teriam chamado, em outras circunstâncias, de uma atrocidade terrorista. Era um crime de guerra (...). Encontramos centenas dos homens desaparecidos no estádio, conforme dissera o repórter da Reuters. Na maioria, eram libaneses – libaneses, bem como palestinos, viviam em Sabra – e estavam sendo levados para “interrogatório” pelos milicianos. Todo lado oeste do arruinado estádio esportivo era guardado por soldados uniformizados israelenses, junto com agentes do Shin Bet à paisana, homens corpulentos de óculos Ray-Ban e metralhadoras Uzi nas mãos. Também havia milicianos, três dos quais eu vi conduzindo um homem assustado para longe do estádio. Os israelenses permitiram que eles fizessem isso, haviam concordado com o procedimento. Os próprios israelenses nos explicaram que era uma busca por “terroristas”. Terroristas. A palavra “terrorista” agora soava obscena. Tornara-se uma palavra assassina, uma palavra que ajudara a provocar essa atrocidade (FISK, 2007, p. 489 e 496).

Os massacres de Sabra e Chatila, perpetrados pelas milícias maronitas falangistas, com apoio político e logístico de Israel – com notório conhecimento do Primeiro Ministro Menachem Begin e do Ministro da Defesa Ariel Sharon – deixou cerca de 2000 civis mortos, entre palestinos e libaneses – apesar de crível, há muitas indagações acerca desse número, uma vez que muitas covas clandestinas foram encontradas meses após os massacres e outras, não foram encontradas mas foram relatadas por sobreviventes (FISK, 2007, p. 527). O diplomata americano, Philip Habib, combinara com Yasser Arafat que a retirada dos guerrilheiros da OLP dos campos de refugiados garantiria a integridade desses palestinos. Os guerrilheiros se retiraram, no entanto, o acordo não fora cumprido e os falangistas invadiram os campos, massacrando centenas de mulheres, crianças e homens desarmados sob o respaldo do exército israelense que, na época, controlava Beirute ocidental.

Sobre o episódio, Habib admitira, em outubro de 1987, que “Ele [Yasser Arafat] estava falando inteiramente a verdade. Eu assinei aquele papel que garantia que essas pessoas [os palestinos] em Beirute ocidental não seriam tocadas. Eu obtive garantias específicas disso de Bashir e dos israelenses – de Sharon” (Ibid.). Habib, disse, ainda, que, assim que soube dos massacres, telefonou, imediatamente, para o presidente dos Estados Unidos buscando entender o que acontecera. Disse, também, que o que acontecera “jamais foi uma fonte de conforto” e que não foi preciso falar com Arafat após o ocorrido, uma vez que os palestinos sabiam sua posição em relação ao assunto. A violência que foi perpetrada contra esses civis desarmados, palestinos e libaneses, assustara os jornalistas, incluindo Robert Fisk, que tiveram acesso ao local logo após os assassinatos. No livro “A Pobre Nação: As Guerras do Líbano no século XX”, o jornalista francês relata, com detalhes, os a atrocidade que vira:

Eles estavam por todas as partes, na rua, nas vielas, nos quintais e cômodos destruídos, embaixo de construções demolidas e sobre montes de lixo. Os assassinos – os milicianos cristãos que Israel deixara entrar nos campos para “desentocar os terroristas” – haviam acabado de partir. Em alguns casos, o sangue ainda estava molhado nos solos. Quando chegamos a cem, paramos de contas os corpos. Em cada viela, havia cadáveres – mulheres, homens bebês e avós – caídos juntos em desordenada e terrível profusão, no local onde tinham sido esfaqueados ou metralhados. Cada corredor em meio aos destroços apresentava mais corpos. Os pacientes de um hospital palestino desapareceram depois que os pistoleiros ordenaram aos médicos para saírem. Em todos os cantos, encontramos sinais de covas coletivas escavadas apressadamente. Talvez mil pessoas tenham sido chacinadas, provavelmente 1500 (...). Nós talvez tivéssemos conseguido aceitar as evidências de uns poucos assassinatos; até mesmo dezenas de corpos, mortos, no calor do combate. Mas havia mulheres jogadas em casas com suas saias rasgadas até a cintura e as pernas bem abertas, crianças com as gargantas cortadas, filas de homens jovens com tiros nas costas após terem sido alinhados diante de um muro de fuzilamento. Havia bebês – bebês enegrecidos, porque tinham sido chacinados havia mais de 24 horas e seus pequenos corpos já estavam em estado de decomposição – jogados em monturos junto a latas descartadas de ração dos EUA, equipamentos médicos do exército israelense e garrafas vazias de uísque (FISK, 2007, p. 488- 489)

Em 8 de agosto de 1982 – enquanto o exército israelense cercava Beirute e colocava Arafat sob cerco -, o primeiro ministro israelense, Menachem Begin, fez um pronunciamento na Faculdade Israelense de Defesa Nacional justificando a invasão do Líbano e o envolvimento de Israel na guerra civil em curso no país. Em resposta a seus opositores, que argumentavam que, ao contrário dos conflitos anteriores – como em 1948, 1967 e 1973 -, essa não consistia em uma “guerra sem alternativa” pois não implicava a existência desse Estado e, portanto, não era necessária, argumentou que “não existe um mandato divino para ir à guerra somente se não houver alternativa” (FISK, 2007, p. 529).

Begin continuou o argumento fazendo uma analogia a uma análise simplista da II Guerra Mundial – esta sim considerada por ele uma “guerra sem alternativa” – e pontuou que, “caso a França tivesse atacado as tropas alemãs colocadas na desmilitarizada Renânia, em1936, Hitler teria caído e mais de trinta milhões de pessoas teriam permanecido vivas”43. Em uma carta enviada ao presidente norte-americano, Ronald Reagan, Begin explicara que, Hitler, ao massacrar seis milhões de judeus, impedira a realização de uma Eretz Yisra’el totalmente judia – uma vez que seriam, em número, mais populosos que os palestinos. Arafat seria o novo Hitler44, na lógica de Begin, e, portanto, um obstáculo à concretização do sonho judeu (FISK,

43 O pronunciamento de Begin foi publicado no Jerusalem Post de 20 de agosto de 1982.

44 Até 1989, o próprio Ariel Sharon continuou propagando a mesma analogia histórica perigosa e distorcida. No fim do inverso de 1988, o Departamento de Estado dos EUA abriu negociações com a OLP em Túnis, após Arafat renunciar ao “terrorismo”. Sharon anunciou, em uma entrevista ao Wall Street Journal (10-11 de fevereiro de 1989)

2007, p. 530). Por fim, Begin informou à plateia que, durante a invasão do país vizinho, Israel havia “destruído o potencial de combate de vinte mil terroristas” e aniquilado “os melhores tanques e aviões que os sírios possuíam”45.

Em 26 de setembro de 1982, na véspera do Yom Kippur, os israelenses se retiraram de Beirute ocidental às pressas – mas permaneceram ocupando o sul do país. A Força Multinacional regressou à cidade46 e americanos, franceses e italianos pareciam “compreender que a responsabilidade pelo massacre também os tocava” (FISK, 2007, p. 535). No momento de retirada dos israelenses, havia uma média de tentativa de assassinato contra soldados israelenses, em Beirute ocidental a cada cinco horas. Ainda de acordo com Fisk, “os militares israelenses estavam, rapidamente, se envolvendo em uma guerra de guerrilha com pistoleiros não identificados. Na época, não sabíamos que um novo movimento de resistência muçulmano xiita estava nascendo” (Ibid., p. 536).

Em 21 de setembro de 1982, Amin Jumayyil, irmão do presidente eleito anteriormente, Bashir Jumayyil – líder da milícia falangista -, assassinado num atentado com um carro-bomba, foi eleito presidente do Líbano, seguindo o acordo democrático vigente de que apenas cristãos maronitas assumiriam esse cargo. Ao assumir, antes de iniciar uma reunião com o diplomata americano Philip Habib, Amin afirmou que a prioridade de seu governo era “constituir um Estado forte, independente e soberano, capaz de resguardar as liberdades públicas e concretizar a retirada de todos os exércitos estrangeiros do solo da pátria” (Ibid. p. 537). Nesse momento, além dos exércitos de ocupação sírio e israelense, havia forças militares dos EUA, França e Itália e milícias palestinas, em território libanês. Apesar do discurso, Amin solicitou o aumento

era pior que as políticas de apaziguamento britânica e francesas antes da Segunda Guerra Mundial e do que a traição da Tchecoslováquia a Hitler, quando “o mundo, para impedir a guerra, sacrificou uma das democracias”. Arafat era como Hitler que queria muito negociar com os Aliados na segunda metade da II Guerra Mundial... e os Aliados disseram não. Eles disseram que há inimigos com os quais você não conversa. Eles o empurravam para o bunker de Berlim onde encontrou a morte, e Arafat é o mesmo tipo de inimigo, aquele com o qual você não conversa. [Ele] tem muito sangue em suas mãos”. A linha principal do argumento de Sharon era que a criação de um Estado Palestino significaria uma guerra na qual “os terroristas agirão atrás de um cordão de observadores e forças da ONU”. (FISK,2007, 531)

45 Jerusalem Post de 20 de agosto de 1982.

46 A decisão de enviar de volta a força internacional a Beirute foi tomada pelo presidente norte-americano, Ronald Reagan e Shultz em 18 e 19 de setembro, o final de semana em que terminou o massacre de Sabra e Chatila. Foi, como diria mais tarde, um dos assessores de Reagan, “uma reação... emocional, a um evento trágico”, uma decisão influenciada pela sensação de que os EUA haviam assumido uma responsabilidade pela segurança dos palestinos e que nossos amigos, os israelenses, tinham permitido que o pior acontecesse (Geoffrey Kemp, especialista em Oriente Médio no estafe do Conselho de Segurança Nacional em 1982, na Palestra “The American Peacekeeping Role in Lebanon: 1982-84” – Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais, Oslo, 28 de outubro de 1985). As tropas internacionais haviam se retirado do Líbano dias antes do massacre perpetrado pelas milícias cristãs, sob respaldo israelense, logo após o acordo, firmado pelo diplomata norte-americano, Philip Habib, que garantia a segurança dos palestinos após a saída dos guerrilheiros da OLP dos campos de refugiados de Sabra e Chatila.

das tropas da Força Internacional em Beirute, além de ajuda econômica para a reconstrução do país. Fisk descreve a Beirute, durante esse período, como uma Cidade-Estado, totalmente alheia ao resto do país, quase em sua totalidade ocupado por forças militares da Síria (desde 1976) e de Israel (desde junho de 1982 – na verdade, em forma de uma continuação de uma série de incursões israelenses em território libanês que começaram em 1978, no sul do Líbano, com objetivo declarado de destruir a OLP). As Forças Internacionais – que não tinham mandato das Nações Unidas – estavam presentes apenas na capital.

Os fuzileiros navais americanos ficaram com o aeroporto e seu perímetro até Khalde, exatamente o mesmo terreno em que o exército francês montou suas tendas 122 anos antes, quando foi ao Líbano resgatar os maronitas após a guerra drusa-cristã. Fuzileiros navais americanos patrulhavam as favelas muçulmanas xiitas dos subúrbios do sul, enquanto paraquedistas franceses ocupavam boa parte do centro comercial de Beirute ocidental. A área de operações italiana incluía não apenas Sabra e Chatila, mas ainda Bourj al-Barajneh e os adjacentes bairros libaneses xiitas (...). Exceto pela evacuação da OLP e pela saída do exército israelense de Beirute ocidental – um recuo de apenas dez ou onze quilômetros -, as forças e milícias do Líbano permaneciam congeladas nas mesmas posições que ocupavam quando os combatentes cessaram em agosto. A linha do front israelense, agora corria ao longo do perímetro de Beirute ocidental, do cruzamento em Khalde, subindo a estrada velha de Sidon, a leste da segunda pista do aeroporto de Beirute, terminando na Galeria Semaan (...). Beirute ocidental continuava ocupada por soldados israelenses e seus aliados falangistas. Tropas francesas só começaram a patrulhar o setor cristão da cidade, com apreensão, em outubro. O Falange não tinha simpatia alguma pela força multinacional e agarrou-se, vigilante, aos seus próprios postos de controle e áreas de domínio ao norte da capital e nas montanhas a leste. Ao longo dessas linhas nos cumes, o exército sírio agora estava posicionado, desde o litoral trinta quilômetros ao norte de Beirute, pelo topo do Monte Líbano até Sofar, na rodovia Beirute-Damasco, e então a leste pelo chão do Vale do Bekaa. Ao sul dos sírios – e a leste da FMN [Força Multinacional] – ficavam as Chouf, onde milícias drusas e maronitas agora encontravam-se em estado de quase-guerra. Os israelenses que haviam trazido o Falange para Chouf, em junho, estavam sem condições, ou vontade de interromper esse conflito. Mais ao sul, as tropas de ocupação israelenses combatiam um movimento de resistência que a cada dia ficava mais agressivo. Os palestinos tampouco haviam desaparecido do Líbano. Cerca de dez mil guerrilheiros permaneceram no Bekaa e em Trípoli, no norte do país. Em Baalbek, várias centenas de guardas revolucionários iranianos dominaram a cidade com a anuência dos sírios. A Síria era o único aliado árabe do Irã e encorajara o envolvimento iraniano no Líbano (...). Havia, ao todo, pelo menos 33 exércitos estrangeiros e milícias locais no Líbano quando a FMN [Forçar Multinacionais] chegou (FISK, 2007, p. 605-606).

A ocupação israelense do sul do Líbano – que começou com bombardeios aéreos, em junho de 1982, que atingiram, na maior parte a população civil libanesa local e que consistiram em um dos maiores bombardeios de população civil desde a II Guerra Mundial (PINTO, 2014) - continuou após a retirada desse exército de Beirute ocidental, logo após os massacres de Sabra e Chatila. A ocupação militar foi se tornando cada vez mais cruel, brutal e gananciosa em termos

de apropriação de recursos naturais – foram feitos, por exemplos, desvios dos cursos de água do sul do Líbano para o norte de Israel -, iniciando toda a lógica de resistência xiita contra a ocupação israelense. Cumpre apontar que os xiitas compõem a parcela mais excluída e marginal – econômica e politicamente - da população libanesa, ao mesmo tempo que são a maior comunidade religiosa do país.

O próprio acordo democrático vigente não previa a participação – de forma relevante - dessa grande parcela da população, na esfera decisória do país. Nesse momento, conforme citado anteriormente, a estrutura política libanesa reserva aos cristãos maronitas – antigos

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