2.3 Choix d’un langage et d’un outil de modélisation
2.3.1 Les langages et les outils existants
2.3.1.2 Langages de description de systèmes
Após a leitura de algumas obras de Torga, pode-se afirmar, com alguma certeza, que os três elementos que a perpassam são a terra, a vida e o homem. São eles que, conjuntamen- te, estão na base da fertilidade, da reprodução, são eles os geradores da vida e da morte. No entanto, a terra parece ser o elemento primordial donde o autor retira a sua energia vital. Toda a sua obra é atravessada pela ideia de um humanismo reivindicador onde se culpabiliza o homem pelo empobrecimento da vida e onde, pelo contrário, se exalta a terra como laço de união entre o homem e a natureza que o sustenta e o defende de todos os malefícios e insegu- ranças. Foi à terra que ele foi buscar parte do seu pseudónimo literário – torga ou urze, a planta tenaz que luta pela vida nos despidos solos transmontanos – acusando a vinculação do artista à raiz telúrica original.
O elemento terra, encarado como a progenitora, a mãe, é, com efeito, uma constante na poesia de Torga já que está presente em todas as fases da vida: ele é o princípio, o meio e o fim. O princípio, porque da terra brotam todas as coisas: a seiva, o homem, a vida – “desta terra sou feito./fragas são os meus ossos, /húmus a minha carne” (Torga, 1990, 67); o meio, porque nela o poeta retempera as suas forças – “quando aqui chego (…) a tocar a terra alentadora e a recuperar as minhas forças” (Torga, 1990, 185-186); o fim, porque a ela regressa, encontrando aí o consolo para o seu desespero, nela acabam as agonias, ela é o local onde tudo vai desembocar – “sei que é neste chão que hei-de ser enterrado” (idem). A terra
57 assume uma tal importância na sua poesia que chega a ser personificada, como se de uma verdadeira mãe se tratasse, o mais perfeito dos seres: “A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. (…). Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno” (Torga, 1977, 72).
A terra é como o ventre materno, o chão duro que recebe a semente e que procria. O homem executa um verdadeiro rito nupcial quando ara a terra e lhe lança a semente para que germine, pondo nessa tarefa toda a sua ternura, todo o seu carinho, todo o seu amor e toda a sua esperança. É na terra que o homem procura a sua verdade universal e é também nela que encontra os limites da sua condição humana. Os campos semânticos que povoam o poema Terra apontam para essa missão da terra-mãe e para a sua relação com a vida do homem: “cio”, “procriar", "fermento", "germinar", "semente", "semear", “sexo", "sémen", "fecunda", "seiva”, “parir”, etc.
“À Terra
Também eu quero abrir-te e semear Um grão de poesia no teu seio! Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã Sem fronteiras nem dono, Há de existir a praga da milhã, A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã, E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite, O poema que cante Será graça e limite Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito! E cada imagem que me vem
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É um gomo teu, ou um grito Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada Na criação!
Seja fecunda a vessada, Seja à tona do chão, Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia E te lanço nos braços a colheita Que hás de parir depois... Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher! Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe Uma bolota que não dê carvalhos; A minha, planta orvalhos... Água que a manhã bebe No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção! Ode de pólo a pólo erguida Pela beleza que não sabe a pão Mas ao gosto da vida!”
(Torga, 1956, 15-19)
Por oposição à terra e ao sentido humanista que nela se exala, surge a dimensão celestial como que para traduzir os abismos de Torga. Depressa passa da esperança ao desânimo, da franqueza à inquietação, do otimismo ao pessimismo, do natural ao sobrenatural. A oscilação destes opostos aparentes exprime-se na intuição criadora do Torga poeta, na sua altivez e rebeldia combativa, mas sofridas; na sua energia de espírito e até nos seus poderes proféticos. É em Tributo que Torga veicula esta dinâmica:
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“Inscrição
Vivo
Em atitudes que ninguém tolera. Onde a emoção degenera Em morte.
Onde as artérias rebentam Desde que sejam minhas Ou de quem seja forte.” (Torga, 1985, 26)
É como se Torga se erga, como as giestas da montanha se erguem para o céu, no meio de uma paisagem selvagem e sobreviva porque a terra o fortalece e não vergou o seu destino. Esta mensagem alia-se a uma outra – Torga, poeta da liberdade - e está patenteada claramente no poema Luta (Torga, 1983, 169) onde o poeta transmite claramente a ideia de que a vontade se sobrepõe à realidade e onde reforça a mensagem de que a verdadeira liberdade está em “ser-se” e “pensar-se” a si mesmo.
Conforme refere Cabrita (2007, 200), “O homem de Torga começa por rejeitar o poder divino sobre a sua natureza, em busca da liberdade cercada pelo destino, tentando depois libertar-se do poder social sobre a sua consciência”. E a expressão dessa liberdade atinge o seu clímax em Portugal que ele considera “o meu espaço de liberdade é o mapa de Portugal subentendido na folha de papel onde escrevo” (Torga, 1986, 74). No conto d’Os Bichos, Vicente vislumbra-se também um Torga paladino da liberdade e dos direitos humanos uma vez que nele Torga transmite a ideia de que um homem nunca deve sentir medo quando luta por um ideal que considera justo. Vicente é o protótipo da rebeldia, da luta pela libertação, da coragem e da insubmissão. Este corvo rebelde, que não temeu abandonar a arca de Noé, é, pois, a imagem do próprio Torga que não gostava de muros à sua volta e que sempre assumiu a liberdade como um direito inabalável. A luta contra o próprio criador é a reafirmação da sua possibilidade de ser livre e sê-lo de forma firme e inabalável.
É no poema Cântico de Humanidade que se esclarece a ideia de que cabe a cada homem moldar a natureza à sua feição, apesar das suas limitações de ser humano e mortal:
“Cântico de Humanidade
Hinos aos deuses, não. Os homens é que merecem Que se lhes cante a virtude.
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Bichos que lavram no chão, Actuam como parecem,
Sem um disfarce que os mude.” (Torga, 1956, 67)
No entender de Almeida e Godoy (s/d, 5)19, “Solidão, assim como a morte ou a angústia, singulariza o ser, trazendo-lhe a liberdade ou dotando-lhe, em sua introspeção, de estratégias necessárias para a sua busca”.
A libertação é o máximo de objetivo moral que o homem pode alcançar. A morte, como se viu, acaba por ser a barreira intransponível da liberdade. Miguel Torga procura e realiza essa libertação dos padrões literários, dos preconceitos sociais, das bandeiras políticas e dos credos religiosos. Há uma profunda revolta inicial contra o condutor desgovernado deste mundo que trata o homem como um verme; mas o que pode considerar-se o verdadeiro sentimento de Torga em relação à divindade é a aceitação de Deus como a única entidade capaz de merecer a obstinação e o confronto do homem. No dia-a-dia, Torga comportava-se com os padres como o Adolfo Correia da Rocha se relacionava com o Estado: era amigo do Padre Albino, de S. Martinho de Anta, seu colega de caça, e do Padre Valentim, da Gráfica de Coimbra, que lhe aturava a “forretice” e a atenção às minúcias da impressão; e pagava os seus impostos e cumpria os outros deveres cívicos – apesar de lutar com a pena pela libertação da sua querida pátria.