1.4 Les normes d’ingénierie système
1.4.3 Analyse des similitudes, différences et complémentarité normatives . 29
As vindimas são uma festa em vários pontos do país, mas mais ainda no Douro, onde, como diz Torga “certamente que toda a festa é uma festa, mormente enquadrada num cenário de sol, de folhas e de frutos maduros” (Torga, 1971, 18). A Vindima é o culminar de todo um ano de labuta constante, de suor, sangue e lágrimas de homens e mulheres dedicados à arte de ajudar a natureza xistosa a transformar esse trabalho em vinho fino e generoso, mundialmente apreciado:
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surriba e na poda, na escava e na levanta, na enxofra e na desfolha, no sulfato e na redra, num rememorar subterrâneo e dorido de todos os passos do calvário onde a própria vida tinha de vez em quando a sua crucificação… a fila de acarretadores serpenteava agora pelas encostas, como um formigueiro negro” (Torga, 1971, 158).
Este é o momento em que se colhem esses frutos sagrados que darão origem a esse outro néctar que é o Vinho do Porto e que, por isso, é vivido como se de uma verdadeira festa se tratasse:
“Desde o amanhecer, mal as perdizes começaram a cacarejar pelos socalcos… as mulheres cortavam, as crianças despejavam as cestas cheias, os homens erguiam sobre as trouxas os vindimeiros, e o som cavo do bombo ia abafando pelas valeiras fora o repenicado do harmónio e o dindim dos ferrinhos” (Torga, 1971, 17).
A festa da vindima é vivida tão intensamente que:
“Outros ranchos desciam por outros caminhos em direcção a outras quintas… Cantavam, riam, paravam a dançar nas encruzilhadas, comiam, bebiam, sem horas nem ave-marias. A grande festa do mosto ia começar. E os peregrinos acorriam de longe, chamados pelo aceno das vides” (Torga, 1971, 13).
Concluída a colheita, eis que surge a oportunidade de homenagear o patrão, o dono da vinha, aquele que irá recompensar monetariamente os trabalhadores e, por isso mesmo, será recebido com as melhores honras e coroado com um belo ramo de vides, como nos relata Torga:
“Os patrões chegam logo (…) e é preciso dar-lhes as boas-vindas do costume. As raparigas entrançam vides e fazem arcos, os homens, formados de um lado e de outro da alameda, erguem os cestos vazios, os do toque estrondam a valer, deitam- se foguetes… vinho à descrição. À noite, baile, claro… Era praxe obrigatória, na recepção, um do rancho limpar à chegada as botas do patrão. Adiantava-se dos companheiros de lenço branco na mão e, ajoelhado, procedia ao ritual. Este gesto de submissão e respeito abria o sorriso do patrão e a carteira” ” (Torga, 1971, 18).
39 Como verificamos, este ritual a que se refere Torga é tratado na sua obra com grande centralidade, tanto mais que a obra a que nos vimos a referir é, nada mais nada menos, que o seu único romance, intitulado Vindima, e nele se eterniza uma das mais típicas atividades agrícolas da região duriense, fotografada carinhosamente no poema S. Leonardo de Galafura:
“São Leonardo da Galafura
À proa dum navio de penedos, A navegar num doce mar de mosto, Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino. Ancorado e feliz no cais humano, É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados; Doiros desaguados
Serão charcos de luz Envelhecida;
Razos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes Até onde se extinga a cor da vida. Por isso, é devagar que se aproxima Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança Debaixo dos seus pés de marinheiro. E cada hora a mais que gasta no caminho É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!”
(Torga, 1977, 91-92)
O título Vindima foi recuperado num conto da coletânea Contos da Montanha. Em ambos os textos Torga remete para uma diversidade de campos semânticos sugeridos que conotam paradoxalmente o ritual que é simultaneamente fonte de alegria e paixão, mas
40 também fonte de esforço e risco e até dureza que todo o trabalho telúrico, mas gratificante, impõe. Com efeito, em ambos os textos abundam vocábulos que conotam os sentimentos que povoam o trabalho da vindima. A riqueza vocabular nos dois textos é de tal modo significativa que foi alvo de um estudo aprofundado, por parte de Fonseca e outros14, donde se transcreve o seguinte quadro comparativo:
Classes
gramaticais “A Vindima” (conto) “Vindima” (romance)
Substantivos
Aflição, alma, amor, barulho, coração, contemplação, bardos, barra, bombo, braço,
cabaça, cabeça, cacho, cama, caminho, canção, cesta, companheiros, Doiro,
socalcos, vindima, etc.
Abismo, aceitação, acidentes, aconchego, acontecimento, água, alheamento, alívio,
alma, amarguras, ambição, ambiente, ameaças, amor, andamento, anfitrião, ano, bondade, boqueirão, borbotões, borrifos, bote,
braços, brancura, brasas, brincadeiras, brutalidade, etc.
Adjectivos
Alegre, amantíssimo, Senhor, asfixiado, cintilante, aproado, acogulados, congestionado, desgraçada, negras, engrandecida, eriçados de zimbro, farta, farto, fecundada, escalvados, desiludidos,
irónicos, coniventes, perpétua, etc.
Absurdo, acariciadora,activos, afáveis, afeitas, aflito, ágil, agressivas, ajoujado, ajuizada, alado, alegre, alheada, avassalante,
ávido, baixinho, besuntados, bisbilhoteira, bisonho, condenado, conformada, desolada,
desprevenido, desumana, desumanizador, diáfano, dialogantes, diferente, difíceis, digna.
Advérbios em -mente
Certamente, morosamente, pressurosamente, principalmente,
religiosamente.
Absurdamente, afanosamente, aflitivamente, ambiguamente, antecipadamente, asperamente, benevolamente, cruamente,
cavalheirescamente, desdenhosamente, claramente, confusamente, cuidadosamente,
demoradamente, denodadamente,
Verbos
Percepção física e intelectual
Calara, olha, conhecer, comentou, ouvir…
Olhar, fala, acha, disse, saber, perguntou, via, dizer, ouvir, mostrar, lia, pensar, perguntava,
compreendia.
Posse Dava, deu, entregava-se, tem, tinha… Tinha, há, ver, queria, quer, teve, deu, tirar, têm, receber, pagar, ofereceu, comprara. Movimento
Descia, rompia, mexer-se, movimentava, saiu…
Veio, leva, continuava, saio, deixava, seguir, erguiam, iam, trabalhar, saíra, vir, parou, deitar, correr, subir, voltou, vindimar, cortar,
puxe, desciam, limpar, rilhava. Sentimento
Chora, festejar, entristecer, esmoreceu,
riram-se…
Sentia, desejava, vivia, afligia, gemeu, sonhar, discutir, sorriu, prefiro, choramingou, florir,
reverdecer, morrer, brotar.
Esquema 2. O Vocábulo da vindima em duas obras de Miguel Torga
O romance, com um objetivo marcadamente ideológico de confronto entre dois
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Fonseca, Rute; Almeida, Graça Maria; e Santana, Maria Olinda Rodrigues, 2005, O Vocábulo da vindima em
41 modos de ser “patrão” e, por isso, considerado por muitos críticos a obra de Torga menos conseguida literariamente, não é só um documento etnográfico e etnológico, mas um texto literário significativo para a narração e descrição precisas num sentido de economia das palavras, que sempre preocupou o autor. Literariamente, há sempre na expressão e no termo torguianos um ajuste perfeito entre o juízo e o conceito que ele pretende transmitir. Juntando a isso a clareza da linguagem e a simplicidade da construção, temos em Torga um grande monumento à língua portuguesa e uma das melhores fontes de aprendizagem agradável da escrita.
O carinho que o olhar atento de Torga impõe quando disfruta desta paisagem está, pois, bem patente na singularidade da linguagem popular e nos aforismos que povoam as suas obras. Expressões como “pé ante pé”, “na paz do senhor”, “dar um ar da sua graça”, “raio da rapariga”, “tem as costas largas”, ilustram, ainda que de forma minimalista, esse carinho que as gentes de Trás-os-Montes lhe inspiram. E a vindima, como a obra de Torga, pretende simbolizar a vida, a luz, o alimento, a jovialidade, mas também a transitoriedade, tanto mais que, terminada a vindima, reinicia-se todo o percurso, ficando a cepa recetiva à repetição dos mesmos tratamentos e rituais que, como nos sonhos dos homens, produzirão novos frutos, como refere Torga neste poema:
“Confiança
O que é bonito neste mundo, e anima, é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura… e que a doçura
que se não prova se transfigura numa doçura muito mais pura e muito mais nova.” (Torga, 1974, 81)
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