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Langage quotidien vs langage scientifique?

Recherche-action sur les apprentissages plurilingues: quelques observables en vue

6. Langage quotidien vs langage scientifique?

“Como seres multicelulares, as cidades crescem, diferenciam-se e ou morrem, ou são capazes de se transformar através de um processo regenerativo.”26

A questão da transformação na cidade existe desde o seu nascimento27. Aldo Rossi,

em A Arquitectura da Cidade teoriza sobre a difícil, e por vezes tangente, relação entre a transformação e a continuidade na cidade: “(…) así la unión entre el pasado y el futuro está en la idea misma de la ciudad que la recorre, como la memoria recorre la vida de una persona, y que siempre para concretarse debe conformar la realidad pero también debe tomar forma en ella.”28

Contudo, esta questão, sobretudo associada a momentos de ruptura, sendo eles catástrofes, acidentes, ou momentos históricos com intervenções urbanísticas relevantes, é um assunto em debate, principalmente nos últimos sessenta anos.

A dificuldade de optar por manter presentes as memórias associadas ao episódio traumático e, portanto, preservar a ruína, ou transformar o objecto, devolvendo-lhe uma função atendendo à sua continuidade histórica, mais do que transformar para “novo”, tem sido a questão mais debatida.

24 SIZA, Álvaro, “Oito Pontos” (1983) publicado in Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme nº 159, Out.Nov. Dez 1983; e também in [Electa], pp.65, [Skira], pp. 203 e [UCP], pp.27; SIZA, Álvaro; MORAIS, Carlos Campos (ed.); 01 Textos; Porto: Civilização, 2009; pp.28

25 “A nosotros nos interessa su secreto, por llamarlo de algún modo, técnico. Nos interesan los criterios, las modalidades: su cómo ante todo.” in GRASSI, Giorgio; “Cuestiones de proyecto” (1983) Trad. Manuel Iñiguez, Alberto Ustárroz, J L Gil Aristu; publicado com o título “Befreite, nicht gesuchte Form. Zum Problem architektonichen Entwerfens” in Daidalos 7, março de 1983; GRASSI, Giorgio; Arquitectura

lengua muerta y otros escritos; Barcelona: Ediciones del Serbal, 2003; pp. 33 (Trad. livre da autora)

26 SIMÕES, Manuel Sobrinho; “A construção de Seres Multicelulares: do Homem à Cidade”; in texto sinopse da sua intervenção no ciclo de conferências Construtores do Mundo, coordenada pela EPUL; Lisboa, Junho de 2012

27 Roberto Collovà, em entrevista à autora, observa o exemplo da cidade muralhada no séc. XIX: Quando esta deixou de servir as necessidades da população crescente, foi preciso pensar em modos de reconverter as muralhas ou, de organizar o crescimento da cidade fora delas. E este é um dos primeiros projectos de reconversão na História das Cidades. O caso de Viena é disso exemplo. In COLLOVÀ, Roberto; entrevista dada à autora, em anexo, pp.113

28 O CHIADO em dicurso directo

Figura 20. Planta do projecto de recuperação da Piazza Alicia e áreas adjacentes em Salemi, Itália, que inclui a reconstrução da Chiesa Madre.

Figura 21. Chiesa Madre di Salemi, após o projecto de reconstrução de Álvaro Siza em colaboração com Roberto Collovà.

29 PARTE I O método

Como afirma Mark Jarzombek, sobre a dialéctica da História pós-traumática na Europa, nas décadas que se lhe seguiram: “we have reclaimed painful memories for our cities and nations, but when it comes to reclaiming the density of a city’s history, we have failed.”29

Este insucesso deve-se, pensamos, ao facto de que, na euforia da reconstrução do pós-guerra, condicionados pela necessidade de reedificar celeremente e em grande escala, aliada ao desejo de difundir as ideias modernistas, muitos projectos não foram capazes de estudar e compreender as condições da transformação solicitada à cidade actual, defendendo planos em total ruptura com a Memória e história do lugar. Posteriormente, particularmente em cidades fortemente dizimadas, a Memória passa a protagonizar os discursos de regeneração urbana, que usam a experiência traumática como elemento fundador do projecto, sem no entanto conseguirem intervenções verdadeiramente capazes e assentes na continuidade histórica .

Sobre este tema da transformação da cidade traumatizada, Siza tinha tinha trabalhado. Na década de 80 participa no workshop Belice 8030 e, na sequência deste

encontro, inicia em 1982 um projecto em conjunto com Roberto Collovà, para uma área degradada em torno de uma igreja, que tinha ruído após o terramoto de 1968, em Salemi, na Sicília. Aqui, e sem um programa definido à priori, decide aproveitar a ruína da igreja, transformando-a em espaço público.31 Numa intervenção mais alargada,

redefinem-se caminhos e acessos a habitações, e redesenham-se as construções adjacentes de forma a configurar uma praça de usufruto público, limitada apenas pelo fragmento de igreja sobrevivente.

Esta intenção, que à partida nos remete para uma relativa museificação da tragédia, é afinal uma forma de transformar a cidade, a partir da redefinição do seu espaço público: “(…) il cambiamento di forma della Piazza origina dall’intenzione di riconvertire gli effetti negativi del terremoto in elementi di relativa rifondazione della città scegliendo di ricostruire la Chiesa solo per sottrazione.”32

Do que resistiu ao terramoto, foram demolidas as construções abusivas, pequenos acrescentos sem qualidade, e redesenhada a volumetria, para que as partes funcionassem como contrafortes do todo. “O projecto assenta assim nestes princípios: mostrar a anatomia do edifício e tornar o interior, exterior.”33 demonstra Roberto

Collovà.

Com as devidas ressalvas, atendamos ao facto de que, tanto nesta operação como na do Chiado observamos uma clara preocupação com a leitura do lugar, um entendimento do pré-existente e da História, e uma resposta a um problema da cidade, que neste

29 JARZOMBEK, Mark; Urban Heterology, Dresden and the dialetics of post-traumatic history; Lund: Lund University, 2001; pp 22; Disponível em: http://web.mit.edu/mmj4/www/writings.html

30 Belice 80, Laboratório di progettazione: workshop que surge na sequência do terramoto que assolou em 1968 a zona do Vale do Belice, na parte ocidental da Sicília. Neste encontro, onde foram trabalhadas várias propostas de recontrução, participaram Francesco Venezia, Franco Purini, Roberto Collovà e Álvaro Siza, entre outros.

31 Ver também o exemplo da Catedral de Coventry, bombardeada na 2ª Guerra Mundial.

32 COLLOVÀ, Roberto; “Piazza Alicia e Chiesa Madre di Salemi” (2006) in Firenze Architettura; “Il Frammento”; pp.58

30 O CHIADO em dicurso directo

Figura 22. Fotografia aérea do Bairro residencial de Hansaviertel, em Berlim, desenvolvido na sequência do IBA’57 (International Building Exhibition).

Figura 23 e 24. Modernidade com Tradição. À direita o Palazzo Rinascente no início do séc. XX, na Via del Corso, à esquerda o Edifício La Rinascente completado em 1961, projecto de Franco Albini em estreira relação com a tradição do edifício-mãe, interpretando a geometria das cornijas originais com perfis de aço.

31 PARTE I O método

caso se prendia com a redefinição do espaço público desordenado, que não servia a população.

Ainda que em contextos diferentes, Álvaro Siza demostra preocupações idênticas quando intervêm sobre tecidos pré-existentes, transpondo a sua metodologia própria que dissecaremos adiante neste trabalho.

Collovà, concretiza esta questão da difícil dialéctica da transformação na cidade histórica: “(…) na medida certa, a transformação é o único meio capaz de conservar.”34