2 LA NORMALISATION DES ÉVÈNEMENTS
2.1 La norme de la British Standards Institute (BSI) (BS 8901)
Não há teoria científica consensual que dê conta do universo da mente humana. Mente, consciência, cognição, emoção e conseqüentemente, ensino e aprendizagem são palavras relacionadas a visões de mundo radicalmente diferentes, que rotulam conceitos oriundos de diferentes tradições de pesquisa. Para abarcar processos da afetividade e da cognição em geral, o substrato biológico e o cultural da sua manifestação, foi necessário articular teorias complementares do funcionamento mental.
A investigação das emoções não se ajusta a uma concepção racionalista, que sobrepõe mente e raciocínio e a coloca em um plano sobrenatural, desencarnado, nem a concepções empiristas que concebam a mente transparente para si mesma, com os atos mentais
completamente iluminados pela consciência, a exemplo de Locke (REBER, 1997). Teorias mais interacionistas ou mais holistas, que concebam a mente a partir de um substrato biológico e sócio-cultural, como entidade individual (p.e., PIAGET, 1967) coletiva (p.e., MATURANA, 1995, 1997) ou até estendida a toda a biosfera (BATESON, 1972) são mais compatíveis com a investigação das emoções.
Por milênios, desde o tempo dos antigos gregos, os pensadores distinguem sentimento de pensamento, emoção de percepção, memória, atenção e outros processos cognitivos. Mente, entendida como intelecto, e consciência, entendida como o único conteúdo dessa mente, caracterizaram o ser humano, colocando-o em um plano diferente daquele de outras espécies animais. Esse entendimento, para muitas pessoas, até os dias de hoje, coloca a mente e a consciência no plano da humanidade e a emoção no plano da animalidade, assim bem distintos e diferentemente valorizados.
Segundo LeDOUX (1996: 24-39), dada a longa tradição de separação entre razão e paixão, não é surpreendente que exista um campo chamado de cognição, que tenta compreender como chegamos a conhecer o mundo e a usar nossos conhecimentos para nele viver, estudando a racionalidade em si, independente da emoção. A ciência cognitiva emergente em meados do século passado, descrita como “nova ciência da mente”, é a ciência de uma parte da mente, a que lida com pensamento, raciocínio, intelecto. Um motivo dessa separação é que, no começo do século XX, o pensamento é concebido como um tipo de lógica, uma espécie de linguagem. A metáfora computacionista pareceu mais aplicável a processos lógicos do que às chamadas “ilógicas” emoções. Mas nem a cognição é completamente lógica, nem a emoção ilógica. Tversky e Kahneman16, por exemplo, mostraram como as pessoas usam seu conhecimento implícito do mundo e, freqüentemente, se apóiam em conjecturas, ao invés de princípios da lógica formal, para resolver problemas do
16 KAHNEMAN, D., SLOVIC, P. e TVERSKY, A.: Judgment under uncertainty: Heuristics and biases. UK:
seu cotidiano (KAHNEMAN, 2002). Outra razão é que emoções são vistas como estados subjetivos da consciência. Computadores processam informações, ao invés de terem experiências. A emoção não se encaixou confortavelmente no programa da ciência cognitiva como ciência do processamento da informação, ao invés de ciência de um conteúdo consciente. Sob uma perspectiva funcionalista, os cientistas cognitivistas investigam a organização funcional da mente sem referência ao substrato material em que acontece, concebendo-a como um “programa que poderia ser rodado em qualquer máquina, mecânica, eletrônica ou biológica”. Inicialmente baseados apenas em modelos computacionais, mais interessados em processos inconscientes do que em seu produto, o conteúdo consciente, deixam de lado a consciência e aqueles estados conscientes chamados de emoções.
Na década de 80, aconteceu uma renovação do interesse e do foco da pesquisa sobre processos cujas funções básicas operam de modo bastante independente da consciência. O que emerge dessas pesquisas não é um quadro simples: memória, aprendizagem e percepção implícitas, que compõem o que Kihlstrom intitulou inconsciente17 cognitivo, são processos complexos cujas propriedades estão delicadamente entrelaçadas com aquelas de processos mais familiares, que operam dentro dos parâmetros de controle da consciência. As idéias sobre processamento inconsciente o reconhecimento de que só porque o cérebro pode fazer algo, não quer dizer que saiba (tenha acesso a) como o fez e a compreensão de que a mente é mais do que cognição (no sentido restrito de raciocínio, intelecto) colocaram novamente18 as
17 Não é o mesmo que inconsciente freudiano. O psicólogo John Kihlstrom cunhou o termo inconsciente
cognitivo para descrever o processo subterrâneo que tem sido a principal preocupação da ciência cognitiva: o inconsciente cognitivo “resolve” problemas geométricos, gramaticais, julgamentos complexos sobre a origem mental de crenças e ações, etc., sem que os como e porquês sejam necessariamente objetos de reflexão consciente.
18 No sentido de que, se consciência era vista como o conteúdo mental e como propriedade unicamente humana,
outros animais seriam inconscientes e desprovidos de mente. Depois de Descartes, Freud, formalizando o inconsciente como sede de emoções e instintos primitivos, começou a destronar a consciência como única ocupante da mente, estabelecendo certa ligação entre humanidade e animalidade. Behavioristas também estabeleceram essa continuidade, mas só em relação ao comportamento, pondo a mente de lado. A ciência cognitiva inicialmente ressuscitou a mente como razão e lógica. A idéia da mente como máquina foi mais apelativa/operativa do que como órgão biológico com história evolucionária.
partes mais importantes da dinâmica mental humana e de outros animais em um continuum e encorajaram alguns cientistas cognitivistas a estudar as funções mentais no contexto da corporeidade que abriga essas funções, mais do que como abstrações completas.
Segundo REBER (1997:137), tanto a tradição racionalista quanto a empirista criticam a alegação de que a aprendizagem implícita incorpore abstração inconsciente, motivadas, ao menos em parte, por profundas considerações filosóficas a respeito daquilo que, em princípio, seja possível do ponto de vista cognitivo. É como se aqueles cujos pensamentos são imbuídos de uma dessas orientações não os reconhecessem nem categorizassem como tal.
REBER (1997), então, amplia a abrangência do conceito de consciência e propõe a existência de dois tipos, C1 e C2. A primeira, um sistema bottom-up que detecta co-variação entre eventos, origina a sensação de self e distinção do não-self, coordena comportamentos, é a que responde pelo aprendizado implícito. A segunda, a mais recente filogeneticamente, um sistema top-down que estrutura e modula outros processos em funcionamento, incorpora numerosas funções cognitivas que possibilitam modular e refinar ações do self. Essa foi a que atraiu tanto interesse ao longo de milênios, por sobressair-se mais, introspectivamente. Processos cognitivos tais como resolver um quebra-cabeças, girar uma imagem mentalmente, decifrar um mapa, não são apenas passíveis de introspecção por C2, são intimamente ligados a ela. Mas o aprendizado implícito é processo fundador e central nas funções de toda espécie (de animal) complexa. Dependente de estruturas filogeneticamente mais antigas, suas características essenciais podem ser observadas em comportamentos que vão do condicionamento clássico a processos de socialização. E embora os modos cognitivos implícitos e explícitos sejam dissociados um do outro, os padrões de dissociação não são demarcações claras entre sistemas, ao contrário, refletem continuidade.
Também para LeDOUX (1996: 29-30), a consciência (no sentido de “dar-se conta de”) e sua parceira, a linguagem, são “crias novas” da construção da evolução biológica. Ao longo
da evolução, o processamento inconsciente é a regra, mais do que a exceção. E a moeda do domínio mental inconsciente, evolutivamente mais antigo, é o processamento não-verbal.
Ainda para DAMASIO (2000: 294-295), a consciência não é um bloco monolítico e pode ser descrita em três níveis sucessivamente dependentes: central, ampliado e moral. O encadeamento de precedências é: a sinalização neural inconsciente de um organismo individual gera o proto-self que possibilita o self central e a consciência central, que por sua vez, possibilitam o self autobiográfico, o qual possibilita a consciência ampliada. No final dessa cadeia, a consciência ampliada possibilita a consciência moral.
A consciência ampliada (que nós costumamos entender como “capacidade de pensar o pensamento, imaginar, planejar”) permite aos organismos humanos atingir o ápice de suas capacidades mentais, por exemplo: criar artefatos, levar em consideração a mente de outra pessoa, sofrer uma dor em vez de apenas sentir a dor e reagir a ela, construir um senso do bem e do mal distinto do prazer e da dor, levar em conta os interesses de outra pessoa e da coletividade, perceber a beleza em vez de apenas sentir prazer. Do notável conjunto de capacidades possibilitadas pela consciência ampliada, duas em particular merecem destaque: primeira, a capacidade de elevar-se acima dos ditames da vantagem e da desvantagem impostos pelas necessidades de sobrevivência e, segunda, a percepção crítica de discordâncias, que leva à busca da verdade e ao desejo de criar normas e ideais para o comportamento e para a análise dos fatos. Essas duas capacidades não são apenas as melhores candidatas ao ápice da distinção humana, mas são também as que possibilitam a função verdadeiramente humana, captada pela singular expressão consciência moral.
Com base nesses autores, admitimos a existência de diferentes níveis de consciência e, portanto, diferentes modos de manifestar-se e/ou perceber-se consciente, desde estar acordado, estar atento, sensível e disposto, dar-se conta de que sabemos algo, e poder comunicar esse algo, até sentir necessidade interior de agir coerentemente com a crença em
um princípio ético e submeter-se a norma de conduta moral. Concebemos a mente como uma propriedade emergente do funcionamento do cérebro em seres humanos que ontogeneticamente se desenvolvem em redes de interações sociais, essas, por sua vez, histórica e culturalmente desenvolvidas. Esse conceito não pode ser reduzido ao de cognição nem ao de consciência, tampouco ao de emoção, embora se sobreponha a eles em alguns aspectos.
Para explicar a interdependência entre o mental, o racional e o emocional, entre os diferentes níveis de consciência e tipos de cognição, ao invés de uma visão de componentes com existência separada e relações físicas lineares, baseada na lógica clássica, analítica, proposicional, que obriga a escolha de uma hierarquia do tipo bottom-up ou de uma do tipo top-down, preferimos uma dependência causal entre os fenômenos que ambas explicam baseada em uma lógica dialética, mais ampla e inclusiva, capaz de abranger essas alternativas aparentemente opostas sem exclusão nem contradição.