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Faciliter l’application et la compréhension de la norme du BNQ

7 RECOMMANDATIONS POUR BONIFIER LA NORME BNQ 900-253/

7.1 Faciliter l’application et la compréhension de la norme du BNQ

Como existe uma tradição rica em definições para emoção, o significado dessa palavra pode variar muito, abranger ou ser abrangido pelo significado dos termos “sentimento” e “afeto”. Portanto, o sentido que lhe é atribuído deve ser inferido a partir do relato do autor e entendido no contexto de uma tradição de pesquisa. Faz muita diferença, por exemplo, se o autor considera que estados e processos emocionais tenham existência permanente e contínua ou que emoção seja um fenômeno restrito a episódios em intervalos discretos, como é

freqüente no senso comum. Há autores que contrastam emoção e sentimento restringindo o significado da primeira às mudanças corporais decorrentes dos mecanismos de regulação homeostática e o do segundo à percepção da sensação dessa mudança, ainda que de modo subconsciente, “alguma variação da experiência subjetiva entre a dor e o prazer tal como ocorre nas emoções” (DAMASIO, 2003:3). O termo afeto, em geral, tem conotação mais ampla do que sentimento, incluindo, por exemplo, sensações de necessidades básicas do organismo que orientam o comportamento, tais como estar faminto, sedento, carente.

Para MATURANA (1998:98), o que conotamos com a palavra emoções são disposições corporais dinâmicas que especificam os diferentes domínios de ação em que se move um organismo. Distinguimos27 emoções fazendo uma avaliação do domínio de ações em que se encontra uma pessoa ou um animal, ou fazendo uma avaliação do domínio de ações que sua corporalidade denota. Quando muda a emoção, muda o domínio de ação. O emocionar, como um fluir de uma emoção a outra, é um fluir de um domínio de ações a outro.

Segundo DAMASIO (2003:53), emoção é uma complexa coleção de respostas químicas e neuronais que formam um padrão distinto em um cérebro normal, que detecte um objeto ou evento cuja presença, no presente, ou em evocação, dispara essa emoção. Essa resposta é automática. O cérebro é preparado para responder a certas emoções com um repertório de ações. Entretanto, a resposta cerebral a estímulos emocionalmente competentes não se reduz ao estruturado filogeneticamente e inclui outras, aprendidas em uma vida de experiências. O resultado é uma mudança no estado corporal e das estruturas cerebrais que mapeiam o corpo e sustentam o pensamento. A conseqüência é a colocação do organismo em circunstâncias que conduzem à sobrevivência e o bem-estar.

27 “O ato de designar qualquer ser, objeto, coisa ou unidade, está vinculado a um ato de distinção, que destaca

o designado e o distingue de um fundo. Toda vez que fazemos referência a algo, de modo implícito ou explícito, estamos especificando um critério de distinção, que designa aquilo de que falamos e especifica sua propriedade como ser, unidade ou objeto (MATURANA, 1995:83).”

Emoções mais transientes e episódicas diferem do que chamamos de humor, que se refere à sustentação de um tipo de emoção durante um intervalo de tempo mais longo, muitas horas, dias ou meses, e de temperamento, que se refere ao engajamento repetitivo em uma mesma emoção.

Há diversas categorizações para emoções, segundo diferentes critérios, mais inatas, transculturais e perceptíveis ou mais aprendidas, intraculturais e sutis. Muitas das tipologias tradicionais são derivadas de abordagens que definem e diferenciam emoções com base nos processos cognitivos mais complexos e raramente consideram os mecanismos fisiológicos ou neurológicos. Algumas se concentram mais em como a estimativa das condições ambientais e da relevância dos objetivos pode ser associada com a manifestação de emoções específicas. Essas categorizações mudam à medida que o conhecimento também se modifica e, além disso, as fronteiras das categorias não são rígidas.

DAMASIO (2003:43) tipifica emoções em categorias não-exclusivas, segundo critérios de saliência perceptiva, se mais proeminentes ou mais sutis; e de organização ou desenvolvimento, se mais inatas ou mais aprendidas:

1.emoções de fundo (background). Como o termo sugere, essas não são manifestações proeminentes no comportamento observável, embora sejam muito importantes. Podemos ser diferentemente perceptivos a elas, por exemplo, quando ouvimos uma fala atentos ao significado das palavras tal como existe em um dicionário ou ouvindo a música das sentenças, a entonação e sonoridade da fala, a prosódia. São as alterações de padrões básicos de estados corporais mapeados de modo coordenado pelo cérebro, que produz um fluxo permanente e dinâmico da “paisagem corporal”, uma representação incessantemente renovada e acessível, influenciada por substâncias químicas produzidas em diferentes partes do corpo (hormônios, neurosecreções, etc.). Essas mudanças dos estados corporais resultam de complexas

interações relacionadas ao metabolismo, aos reflexos básicos28, ao sistema imune, aos comportamentos relacionados à dor ou prazer, à aproximação ou evitação, aos apetites e motivações gerando, a cada instante, algo entre bem-estar e mal-estar. É para onde dirigimos atenção quando nos dispomos a responder para além de um mero cumprimento, quando alguém nos pergunta: ― Como está você? As emoções de fundo são sentidas em tom e ritmo minimalista, o sentimento da própria vida, de existir. Provavelmente, são elas que existem durante a maior parte do tempo, ora um tanto agradáveis, ora um tanto desagradáveis, nem demasiadamente positivas nem demasiadamente negativas.

2. emoções primárias (inatas, pré-organizadas, jamesianas). Essas são mais facilmente identificáveis uma vez que as circunstâncias em que se manifestam e os padrões de comportamento que as expressam são mais transculturais para a nossa espécie e elas se manifestam também em animais. A categorização dessas emoções varia entre 5 e 8 tipos, mais freqüentemente designados por alegria, tristeza, medo, raiva, nojo, e às vezes, surpresa, expectativa e aceitação (DAMASIO, 2003: 44; LeDOUX, 1996:113-114).

3. emoções sociais (DAMASIO, 2003:43), também chamadas de emoções secundárias (DAMASIO, 1996:163), as que ocorrem mal começamos a ter sentimentos e formar ligações sistemáticas entre categorias de objetos e de situações com emoções primárias, por exemplo: vergonha, culpa, orgulho, ciúme, simpatia, etc.

DAMÁSIO (2003:86) reserva o termo sentimento29 para a percepção das emoções: “um sentimento é constituído pela percepção de um dado estado corporal, em determinada circunstância, em consonância com a percepção de certo modo de pensar e com pensamentos sobre certos temas”. O sentimentos são gerados porque o cérebro monitora o organismo inteiro, local e diretamente pelos nervos, e global e indiretamente pela corrente sanguínea,

28 Tais como o startle reflex, ou reflexo de Moro.

29 Ao distinguir emoções de sentimentos, Damásio chama atenção para o fato de que, em alguém sadio, atento e

mapeando detalhes e variações dos estados fisiológicos do corpo. A fazer isso, produz padrões de atividades e inatividades neurais, representações integradas da dinâmica da própria vida ─ os mapas neurais. Esses não constituem representações ponto a ponto, e dependem da estrutura individual. E, a partir dos mapas neurais, são elaboradas imagens mentais30, de um modo ainda não explicado pela neurobiologia. Se emoção é um padrão de alterações corporais associadas a imagens mentais, “a essência do sentir a emoção é a experiência dessas alterações em justaposição com as imagens mentais que iniciaram o ciclo”. (DAMASIO, 1996:175).

Os sentimentos são as experiências subjetivas da intensificação ou mudança de emoções. A mente está engajada em rastrear permanentemente os diversos estados corporais. Seu foco primário é o próprio corpo, e a história das mudanças de estados corporais está relacionada à regulação e conservação das condições ótimas de manutenção da vida. “Sentir os estados emocionais, o que equivale a afirmar que se tem consciência das emoções, oferece-nos flexibilidade de resposta com base na história específica de nossas interações com o ambiente” DAMASIO (1996:162).

DAMASIO (1996:180) indica a existência de muitas variedades de sentimentos e os categoriza em termos de intensidade e abrangência:

1. Sentimentos de fundo (background), que têm origem nas emoções de fundo. Corresponde ao que sentimos dos estados corporais durante os intervalos entre o que experienciamos como emoções quando comumente dizemos que estamos emocionados. Sem esses sentimentos de fundo, o âmago da representação do eu é destruído. É dessa forma que estamos, constantemente, sob estados emocionais.

30 Um sinônimo de imagem, para Damásio é padrão mental, construído com sinais provenientes das modalidades

sensoriais e não apenas visuais. É diferente de padrão neural, embora ambos sejam designados pelo autor como representações, no sentido de “padrão que é conscientemente relacionado a algo”. As imagens podem ser conscientes ou inconscientes. As imagens conscientes podem ser acessadas apenas na perspectiva de primeira pessoa, os padrões neurais apenas na perspectiva de terceira pessoa.

2. Sentimentos de emoções universais básicas, que se originam das emoções primárias, medo, raiva, alegria, tristeza e nojo.

3. Sentimentos de emoções universais sutis, variantes da categoria anterior, tanto do ponto de vista cognitivo, da intensidade e da associação das experiências subjetivas, quanto do estado emocional corporal associado, por exemplo, a melancolia como variante da tristeza ou o pânico como variante do medo.

A princípio, e em princípio, consideramos a obra do neurologista DAMASIO (1996, 2000, 2003) em busca de definições e categorizações que pudessem nortear este trabalho. Entretanto, em seu livro mais recente, dedicado aos sentimentos, “Looking for Spinoza. Joy, Sorrow and the Feeling Brain”, ele evita categorizá-los e muda a denominação das categorias de emoções em relação ao primeiro livro, “O erro de Descartes”.

O essencial é que concordamos com esse autor: quando distingue níveis de estados emocionais, do mais “biológico” ao mais “cultural”; quando aponta a existência contínua de um fluxo de estados emocionais; quando define e distingue sentimentos como a percepção de emoções e determinados pensamentos, relacionada a um estilo de pensar; quando realça a importância dos sentimentos e das emoções de fundo, mais comuns e freqüentes em nosso cotidiano, embora menos observáveis e perceptíveis do que emoções primárias e tradicionalmente chamadas de básicas.

Nessa revisão teórica, fizemos um esforço de integrar sensibilidade corporal, processos cognitivos e uma teoria de consciência para articular emoção e razão. Assumimos que a dinâmica corporal inclui um fluxo contínuo de diferentes emoções. (DAMASIO, 2003; BUCK, 1999). Ter uma emoção (estado corporal) é diferente de expressá-la (comportamento não-verbal, por exemplo); de senti-la (representação neural subconsciente); de dar-se conta de que a sente (representação consciente) e ainda de verbalizar o que se sente (atribuir signo).

Embora cada uma dessas manifestações possa acontecer de modo independente da outra, normalmente elas interagem de modo contínuo e complexo.

Ainda na busca de uma conceituação para emoções, encontramos um modelo que atende ao nosso objetivo de abranger os múltiplos componentes de processos emocionais. É o que expomos a seguir.