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La législation de la Social Security, 1972-1983

Dans le document Revue de l’OFCE (Page 26-35)

NARRATIVA POSSÍVEL

“Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...” (Fernando Pessoa –Trecho do Poema:

O guardador de rebanhos)

Nascer a cada momento, renovar o mundo a todo instante, reinventar-nos infinitas vezes. A experiência da novidade está expressa no olhar, no ouvir, no narrar, no escrever, no educar. No ato de ser um acontecimento inédito, mesmo quando o déjà-vu se apresenta, pois, nessa perspectiva “não existe estrada velha, nem será rotina o que você já fez, se você sentir que ama tudo tem o gosto da primeira vez” (Flávia Wenceslau – trecho da música: O Amor Torna Tudo Novo de Novo).

A experiência da escrita nos possibilita “[...] deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa, diferente do que vimos sendo” (LARROSA, 2014, p. 5). A partir dessa perspectiva potente da reinvenção na/com/pela escrita, neste capítulo buscamos refletir acerca da arte de contar, narrar, compor histórias com base na memória, utilizando como norteador o pensamento de Bloch (2001). Em seguida, apresentaremos momentos de uma possível trajetória da filosofia com crianças em São Mateus; aproveitando o ensejo, destacaremos elementos que as experiências de pensamento junto às crianças podem nos proporcionar, bem como o cenário/contexto onde nossa pesquisa aconteceu. Lembrando, que em qualquer ato

narrativo “[...] fazemos para o outro o que queremos como experiência própria, aquela que adquire suas próprias tonalidades e tons com relação a quem temos como interlocutor” (GRAU, 2008, p. 197).

3.1 A infância da memória e a arte de contar histórias

“Resguardemo-nos de retirar de nossa ciência sua parte de poesia. Resguardemo-nos sobretudo, já surpreendi essa sensação em alguns, de enrubescer por isso. Seria uma espantosa tolice acreditar que, por exercer sobre a sensibilidade um apelo tão poderoso, ela devesse ser menos capaz de satisfazer também nossa inteligência” (BLOCH, 2001)

Resguardar a poesia enquanto parte integrante da composição histórica é fundamental segundo Bloch (2001), porque as amarras das criações narrativas são atravessadas por sentidos do vivido, do acontecido, que ao serem rememorados, recontados, são atualizados pelo presente e ganham novos significados, uma vez que o homem é produto das transformações constantes do tempo (BLOCH, 2001, p. 67), e esse movimento possibilita transformações em nossos pensamentos e memórias.

Ter essa noção clara é fundamental para a constituição de nossa pesquisa, principalmente porque no presente capítulo trabalhamos com base na rememoração dos entrevistados, construindo narrativas por intermédio do cruzamento/tensões das lembranças dos participantes.

Considerando que a memória atual dos sujeitos participantes não são as mesmas que as de anos atrás, pressupomos que alguns dados podem ter sido esquecidos, outros podem ter sido confundidos, e porque não, alguns até sido inventados/criados.

Com base nessa perspectiva da sempre atual memória, fica evidente a condição infantil da memória, pois com base em Kohan (2007), o qual nos apresenta uma perspectiva de infância intensa, potente, que pode ser vivida a qualquer

tempo/época, que se movimenta, exatamente como o exercício sempre novo/diferente/atualizado de contar, narrar, fazer história. Infância é estar diante do novo, é vivenciar o novo. E narrar a partir da memória, do ato de rememorar, é sempre uma experiência de criação, é uma arte única, que se refaz a cada novo esforço de se lembrar dos acontecidos a serem contados.

O exercício de narrar resgata a memória para infinitos encontros e composições, por isso, o contar, é uma arte do fazer, do produzir, do transformar uma realidade que existe em função do que outrora foi falado/vivido. Essa é a mágica do movimento, e mesmo que o sujeito ao narrar não perceba, a história contada é sempre atual, porque o sujeito será sempre outro, transformado, alterado, infantil. Sobre essa perspectiva de entendimento característico da memória nos diz Certeau:

Talvez, a memória seja, aliás, apenas essa ‘rememoração’, ou chamamento pelo outro, cuja impressão se traçaria como em sobrecarga sobre um corpo há muito tempo alterado jamais sem o saber. Esta escritura originária e secreta ‘sairia’ aos poucos, onde fosse atingida pelos toques. [...] é tocada pelas circunstâncias, como o piano que produz sons aos toques das mãos (CERTEAU, 1998, p. 163, grifo nosso).

Não trabalhamos sob a hipótese da “verdade histórica absoluta” acerca dos fatos narrados, mas temos clareza de termos optado por uma ótica de “amarração” dos relatos, reconhecendo que há outros prismas de abordagens e composições possíveis. Afirmamos isso, por sabermos da fragilidade da memória quando se trata de legitimação dos acontecimentos históricos. Por isso, nos importa mais, os sentidos atribuídos aos acontecimentos por aqueles que narram os fatos, ou seja, nas falas das pessoas nos importa percebermos a relação entre os fatos narrados e os significados construídos.

Lembrando também, como nos afirma Bloch (2001, p. 42), que nossa sociedade ocidental “[...] diferentemente de outros tipos de cultura, [...] sempre esperou muito de sua memória”. Pode ser que esse seja um dos indicadores que nos ajudem a compreender a inexistência, até então, de registros formais acerca do ensino de filosofia com crianças em São Mateus, ficando esses registrados apenas nas lembranças dos sujeitos participantes.

Ressaltamos que não trabalhamos aqui com a ideia de “história oficial” porque acreditamos que:

[...] Na sua pretensão de hegemonia, tende a anular outras versões sobre os mesmos acontecimentos, outras histórias e memórias que também disputam lugares, não como mitos, mas como evidências das contradições vividas. Na busca da sistematização de ‘a história’, as narrativas dos diversos [...] [entrevistados] descortinam nas suas muitas memórias, muitas histórias, todas elas carregadas de sentidos (CARDOSO, 2008, p. 08).

E ao falarmos em tecer/compor narrativas e contar histórias com base em memórias, tendo consciência de suas possíveis contradições/tensões/invenções, não podemos deixar de citar dois filmes épicos que trabalham esse movimento: Narradores de

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