3 ANALYSE DES DONNEES
3.5 LA TRANSMISSION SUR LE TERRAIN
3.5.1 La formation à la Méthodologie de soins Gineste-Marescotti
Como pôde ser percebido a partir da leitura do capítulo anterior, a teoria do erro tem sido alvo de várias críticas dirigidas por seus opositores, os quais tentam apontar, de uma maneira ou outra, dificuldades que ela enfrenta para que possa se sustentar como uma teoria verdadeira. Paralelamente a todas essas críticas, pode-se notar haver uma certa resistência geral à teoria do erro por parte dos estudiosos da área, fruto de um temor em relação às suas possíveis consequências. Dito mais especificamente, a teoria do erro parece ser vista com
maus olhos por muitos autores, não por encontrarem algum problema na teoria propriamente, isto é, alguma razão que pese contra sua verdade (ou, pelo menos, não apenas por isso), mas, sobretudo, por pensarem que as consequências de sua ampla aceitação poderiam ser devastadoras.
Como dito anteriormente, uma vez que se passe a crer justificadamente na teoria do erro, não se poderá, sob pena de irracionalidade, manter as crenças morais que se tinha até então, ou seja, não se poderá mais crer, por exemplo, que é moralmente errado matar pessoas, abandonar filhos recém-nascidos, descumprir promessas, etc. Se tais crenças não podem racionalmente ser mantidas, a conclusão natural parece ser abolir, abandonar completamente a utilização do discurso moral, da linguagem em que essas crenças são expressas.
Se referido abandono das crenças morais e da linguagem em que são expressas for uma atitude restrita de algumas pessoas mais ou menos dispersas (como, por exemplo, filósofos que desejem agir rigorosamente de acordo com seus posicionamentos teóricos e que tenham endossado a teoria do erro moral), não há que se falar, aparentemente, em consequências devastadoras. Mesmo que tais pessoas deixem de agir em obediência às crenças morais que antes tinham em virtude de as terem abandonado, o que parece ser bastante natural, isto não parece representar uma ameaça para a estabilidade da moralidade como um todo, uma vez que, em qualquer comunidade moral, é comum haver pessoas que, mesmo tendo crenças morais, agem de forma contrária ao que é por elas ordenado ou que, de alguma maneira, não se deixam guiar por tais crenças e isto não desestabiliza o sistema como um todo.
O problema parece surgir quando da ampla aceitação da teoria do erro, a qual poderia vir a instaurar o abolicionismo de forma mais generalizada. Se as pessoas deixarem de ter crenças morais e de usarem o discurso moral, é natural que elas deixem de pensar, falar e agir como antes. As pessoas, então, deixariam de considerar erradas ações que antes reprovavam e não haveria obstáculos, do ponto de vista moral, para sua prática. As pessoas poderiam, por exemplo, matar outras pessoas, abandonar filhos recém-nascidos e quebrar promessas sem serem passíveis de reprovação moral (delas próprias ou de outrem). Ações como essas, entretanto, acabariam causando prejuízos a outras pessoas, o que, em caso de ocorrência mais generalizada dentro de um grupo social, poderia gerar uma situação de instabilidade. Parece ser aproximadamente este, com efeito, o teor das consequências consideradas devastadoras de uma adesão massiva à teoria do erro moral.
De acordo com Joyce, contudo, mesmo não havendo razões para pensar que certos tipos de ação são, de fato, moralmente corretos (e, do mesmo modo, que outros tipos de ação
são moralmente errados), haveria razões prudenciais para praticar as ações prescritas pelas crenças morais, uma vez que elas seriam, em última instância, as mais vantajosas. Nas palavras do autor:
Ao longo de uma vasta gama de situações nós todos temos perfeitamente boas razões prudenciais para continuar a agir de forma cooperativa com nossos companheiros humanos. Em muitas situações relações recíprocas e cooperativas trazem recompensas para ambas as partes. Quando, em adição, levarmos em consideração os benefícios de ter uma boa reputação ― uma reputação que está baseada na atuação passada ― então as disposições cooperativas podem facilmente superar disposições nocivas com fundamentos puramente egoístas. (JOYCE, 2005, pp. 300-301)
Na visão de Joyce, ao que parece, a raiz do problema residiria, propriamente, em como passar a regular a prática desse tipo de ação no nível psicológico após o abandono das crenças e do discurso moral, uma vez que esse papel teria sido cumprido, até então, pelas crenças morais. A crença de que haveria uma obrigatoriedade inerente a determinadas ações e uma proibitividade inerente a algumas outras, independentemente dos desejos e interesses das pessoas, acabaria por aumentar a probabilidade, tanto de praticar ações do primeiro tipo, quanto de evitar a prática de ações do segundo tipo. Dessa maneira é que, segundo Joyce, as crenças morais exerceriam um papel regulativo na promoção de ações cooperativas. (Joyce, 2003, p. 136) Parece ser neste sentido, precisamente, que Joyce vê como negativas as consequências que uma ampla adesão à teoria do erro poderia ter, isto é, no sentido de que a abolição do discurso moral resultante dessa adesão faria com que fossem perdidos por completo os benefícios regulativos das crenças morais.
O objetivo mais geral subjacente à proposta de Joyce de um ficcionalismo moral parece ser, justamente, tentar mostrar que a teoria do erro não precisa ter consequências devastadoras, o que poderia contribuir para amenizar a resistência que muitos têm contra ela35. Nesse sentido, Joyce afirma o seguinte:
[...] a viabilidade do ficcionalismo moral deve ser mais do que de interesse acadêmico até mesmo para aqueles que não são teóricos do erro, porque eu suspeito que aqueles ansiosos por repudiar a posição teórica do erro frequentemente derivam sua inquietação em parte das preocupações sobre o que pode acontecer se a teoria passasse a ser amplamente aceita como
35 Joyce não é o único autor que se preocupa em amenizar a resistência que muitos têm à teoria do erro tentando
mostrar que ela não necessariamente precisa ter consequências devastadoras. Essa, com efeito, parece ser uma preocupação recorrente entre os defensores dessa teoria, que geralmente procuram, de um modo ou de outro, mostrar que a teoria do erro, ainda que amplamente aceita, não seria tão nociva quanto pode parecer. Um autor que, a exemplo de Joyce, afirma isso de modo explícito é M. Lutz. (2014, p. 352)
verdadeira. David Brink, por exemplo, uma vez sugeriu que nós devemos aprender a viver com qualquer que seja a ‘estranheza metafísica’ implicada pelo realismo moral se a única alternativa destruiria pouco a pouco a natureza das práticas normativas existentes’ (Brink, 1989: 173). Mas se este tipo de preocupação for injustificada ― como a possibilidade do ficcionalismo moral sugere que ela possa ser ― então a motivação para resistir à teoria do erro moral está em necessidade de reexame. (JOYCE, 2005, p. 310)
As consequências devastadoras, tão temidas por autores como Brink, adviriam necessariamente apenas se a única opção para evitar a irracionalidade após o endosso à teoria do erro fosse abolir o discurso moral, e esta parece ser, de fato, a crença implícita no temor desses autores36. Entretanto, como Joyce intenta mostrar, haveria uma alternativa ao
abolicionismo sobre o que fazer em tal situação, qual seja, o ficcionalismo moral, que consistiria em manter o discurso moral, a despeito de não se crer mais nele, na condição de uma ficção útil. Segundo este autor, aderir ao ficcionalismo moral seria uma opção para o teórico do erro evitar uma eventual acusação de irracionalidade, sem que, para isso, tenha de abolir o discurso moral e, com isso, perder os benefícios práticos das crenças morais. Em outras palavras, o ficcionalismo moral seria uma maneira de evitar possíveis consequências devastadoras da aceitação da teoria do erro.
A partir disso, então, pode-se afirmar que o ficcionalismo de Joyce tem de ser capaz de cumprir os seguintes dois objetivos específicos: (1) conservar uma porção significativa dos benefícios práticos das crenças morais e (2) evitar que aquele que aceita a teoria do erro possa ser acusado de irracionalidade37. Caso o ficcionalismo não consiga se mostrar capaz de
cumprir esses dois objetivos, Joyce não terá conseguido cumprir seu objetivo mais geral de mostrar, por meio de sua proposta, que a adesão à teoria do erro não precisa ter consequências devastadoras. Neste caso, ele não teria conseguido mostrar serem injustificadas as preocupações dos autores que oferecem resistência à teoria do erro, como ele parece almejar.
36 Há quem defenda, como R. Garner (2007), que nem mesmo o abolicionismo moral traria consequências
devastadoras, isto é, que os indivíduos, ao que parece, conseguiriam, recorrendo à racionalidade prática, praticar predominantemente ações para as quais têm razões prudenciais, as quais não serão prejudiciais, nem para o indivíduo, nem para a comunidade como um todo.
37 Como será esclarecido adiante, Joyce, de fato, não se impõe o objetivo de mostrar que o ficcionalismo seria
capaz de conservar uma porção significativa dos benefícios práticos das crenças morais, mas sim mostrar que ele poderia conservar alguma porção, mesmo que pequena, de tais benefícios. Entretanto, conforme será sustentado posteriormente, para que o ficcionalismo moral se mostre capaz de cumprir o objetivo geral que parece estar subjacente à sua proposta por Joyce, ele teria, ao que parece, de se mostrar capaz de conservar, não qualquer porção, mas uma porção significativa dos benefícios em questão. Por essa razão é que o objetivo específico (1) foi formulado da maneira como foi.