Segundo Green (2003), a principal mudança que tem marcado as centrais públicas de abastecimento européias, também chamadas de Mercados de Terceira Geração, é que elas passaram de instrumentos que exerciam funções consideradas prioritárias a instrumentos complementares, tanto em relação ao abastecimento urbano quanto em suas relações com o comércio moderno. De acordo com este autor e com a OECD (1997), os mercados atacadistas europeus têm adotado a seguinte postura em relação ao comércio moderno: ao invés de enfrentá-lo, unem-se a ele de maneira complementar, ou seja, como recurso de emergência. Além disso, eles têm tentado garantir seu espaço respondendo às necessidades dos novos operadores de mercado como as cadeias especializadas em frutas e verduras e a chamada “restauração
institucional”, ou seja, os restaurantes, os hotéis, as empresas, os hospitais, as escolas, etc., já que, para estes, o que importa em geral é a aquisição de produtos que serão rapidamente consumidos que não necessitem esperar muito tempo nas prateleiras (OECD, 1997). Da mesma forma, também continuam a manter um forte vínculo com o comércio tradicional, principalmente o de frutas e hortaliças, que demonstram capacidade de resposta frente ao comércio moderno.
O CEASA-PE, de fato, parece seguir a mesma tendência das centrais de abastecimento européias. Para a maioria dos permissionários os contatos com as grandes redes ultimamente só acontecem em casos de emergência:
“De primeiro eles chegavam aqui e compravam a gente, caminhão fechado, tudinho. E agora não. Eles só vêm aqui quando tão precisando mesmo, que é quando não tem na roça. Ai eles chegam aqui e compram d a gente. Porque agora eles tudinho tão comprando na fonte mesmo, que pra eles é mais barato. E eles chegando aqui pra comprar à gente se torna mais caro. Ai eles não tão comprando mais à gente não” (D.A, 2007).
Mesmo sendo consideravelmente pequeno o número de permissionários que mantêm relações comerciais constantes com as grandes redes varejistas, as redes locais de supermercado, de pequeno e médio porte, situadas geralmente em bairros populares, continuam sendo compradores importantes dos produtos do CEASA, juntamente com as feiras e os fornecedores. A seguir encontra-se a tabela onde consta uma estimativa de quem são os principais compradores do mercado atacadista de produtos hortifrutigranjeiros do CEASA54.
54 Os números apresentados na tabela são apenas estimados tendo em vista que, como podemos perceber
no capítulo anterior, não há um controle real da saída dos produtos do CEASA.
TABELA 4: PRINCIPAIS COMPRADORES DOS PRODUTOS DO CEASA COMPRADOR PARTICIPAÇÃO SUPERMERCADOS 25% FEIRANTES 25% MERCADOS PÚBLICOS 5% FORNECEDORES 25% AMBULANTES 10% OUTROS 10% Fonte: Gerência de Abastecimento. Dados da pesquisa de campo, 2007.
É certo que os supermercados de pequeno e médio porte geralmente são mais exigentes em relação à qualidade que os estabelecimentos comerciais tradicionais e os hotéis, restaurantes e hospitais.
“A gente vai vender essa mercadoria aqui por um preço mais baixo pra restaurante. Porque, como você vê, ela não tá estragada, só que pra a gente botar na linha de venda, que tem gente aqui de supermercado que compra, ai não é mais interessante. Mas se você comprar pra consumir ela tá em perfeito estado ainda” (C.T, 2008).
“Eles [os supermercados] chegam aqui com uma reclamação só. É tudo igual, eles chegam reclamando. Eu tou dizendo aqui, se você botar laranja pra eles, eles chegam reclamando pra nós melhorar a qualidade ainda mais, você pode botar boa mas ele não vai dizer que tá boa não, se disser que tá boa ai eles vai convencer a gente...eles acha né...mas só que quando elas vai boa eles reclamam de todo jeito...se botar laranja boa eles reclama, se botar ruim reclama, de todo jeito...eles são assim, eles reclama direto” (J.P, 2007).
“Ele [o dono do supermercado] fala: não quero ver o preço não, bota a qualidade da laranja, qualidade boa” (J.P, 2007).
“A gente tem um cliente ali que ele exige padrão. Padronização é isso aqui, você bota pro freguês, se você botar assim surtido como tá ai ele já não vai querer a mercadoria. Agora, ele paga um preço mais caro. É porque você vai escolher uma coisa boa você tem que pagar o preço. Pra tudo na vida nesse mundo, se você vai escolher uma coisa boa você vai pagar um preço” (E.N, 2007).
As exigências das redes locais de supermercados não são, porém, vistas como obstáculos pelos permissionários, uma vez que são consideradas bem menos rígidas do que às das grandes redes.
“Porque o supermercado [de grande porte] você faz o contrato, tudinho, e têm outros clientes, que são os supermercados de pequeno porte, que é um cliente igual mas que às vezes a gente leva uma certa...em lidar é sempre mais fácil por não ter uma qualidade muito pesada, porque esses outros supermercados pra você fornecer tem que revisar, fazer uma primeira categoria de mercadoria, ai nisso ai a gente perde muito”(C.T, 2008).
Os permissionários do CEASA atribuem à fidelidade das pequenas e médias redes de supermercado a principal vantagem desta relação.
“... porque é melhor o certo do que o duvidoso” (G.A, 2007).
“Os feirantes, que eram muitos, hoje em dia não tem mais feirantes... e você não tem confiança de vender a um feirante mais...” (S.A, 2008).
A solidez da relação entre os permissionários e as pequenas e médias redes de supermercados, por sua vez, não é garantida mediante a assinatura de qualquer tipo de
contrato, mas através do esforço contínuo dos permissionários no sentido de conquistar a confiança de seus principais clientes:
“Pelo menos eu procuro sempre cativar meus clientes desse lado... de confiança, confiança. Você tem preço, qualidade... e uma certa simpatia que tem que ter pra conquistar o cliente, pra conquistar a confiança dele...que hoje em dia o mercado atravessa aquele lado de tanto roubo, tanta sacanagem, que o cliente saber que tá sendo levado com sinceridade...” (E.A, 2007).
“Porque quando eles já vem pra comprar a gente já bota a mercadoria do jeito que eles querem, a gente não bota uma mercadoria mais...por exemplo, eles chega aqui, quer mercadoria boa, ai a gente bota uma mercadoria fraca, ai eles não quer, eles quer mercadoria boa. A gente bota tudo igual pra eles, independente de um ou outro, a gente bota tudo boa” (D.A, 2007).
“Às vezes atrasa a carrada, a mercadoria atrasa, ai pra não deixar nosso cliente na mão a gente faz sempre um certo esforço pra não decepcionar , a gente sempre leva até o cliente” (E.A, 2007).
Como já comentamos nas páginas anteriores, ao contrário de ser simplesmente uma alternativa diante das dificuldades de distribuir para as grandes redes, a ênfase na distribuição para as pequenas e médias redes varejistas e para os estabelecimentos comerciais tradicionais através da modalidade do mercado spot parece ser uma opção. Até mesmo as grandes plataformas logísticas que atuam no CEASA já começam também a mudar de foco. Durante o trabalho de campo tivemos a oportunidade de conversar com um representante de uma distribuidora de grande porte que atua no CEASA. Ele contou que havia sido construída uma nova sede fora do CEASA para tratar diretamente com as grandes redes e que aquela loja onde estávamos não passava de uma filial totalmente voltada para o que ele chamou de “cliente CEASA”. De acordo - 125 -
com o nosso informante, esta opção em parte se deveu ao fato de que, apesar de boa, a estrutura do CEASA não era suficiente para o atendimento das grandes redes:
“A estrutura da CEASA é uma estrutura boa, dependendo do volume que a pessoa vai girar, qual o produto, qual a quantidade que ele vai fornecer aos supermercados. Porque se é um volume que nem a gente hoje gira, a gente teve a necessidade, quase por obrigação, de sair de dentro da CEASA, porque era um volume muito alto ai a gente tinha que comprar metade do CEASA pra fazer um trabalho bem feito” (C.T, 2008).
Assim, ele admitiu que, mesmo contando com uma infra-estrutura discrepante em relação à maioria das lojas do CEASA55, os donos do estabelecimento optaram por aderir à mesma rotina incerta da maioria dos permissionários:
“É aquilo que eu lhe disse, a gente tenta fazer que uma mercadoria não passe mais que uma semana...sempre acontece de ficar uma mercadoria que a gente não conseguiu vender, mas a rotatividade da gente é uma semana, chega no domingo a gente tenta vender ela na semana seguinte. Já começa a dá um prazo de uma semana...” (C.T, 2008).
Por fim, observamos que, apesar das limitações, não podemos considerar que o CEASA tem adotado uma postura de oposição às grandes redes, afinal, como já dissemos anteriormente, alguns grandes permissionários fixos do CEASA ainda possuem contratos com grandes redes de supermercados. E, apesar de serem poucos em número, esses estabelecimentos parecem gozar de alguns privilégios como, por exemplo, o de entrar no CEASA aos domingos e nos horários em que a Central deveria esta fechada para organizar as cargas, tendo em vista a rigidez dos horários de entrega estabelecidos pelos supermercados.
55 Estrutura essa que incluía 3 câmeras-frias e uma grande área de armazenagem de produtos sensíveis ao
frio, além de um espaço reservado para o comércio de produtos no varejo,
Por outro lado, não deixa de ser verdade que a presença desses grandes distribuidores muitas vezes é vista com maus olhos pelos demais permissionários.
“A CEASA já foi bem melhor. Porque ela deixou de ser um centro de abastecimento, porque ela já foi conhecida como um centro de abastecimento, hoje em dia ela já não é mais considerada. Isso é assim, é o meu ponto de vista, porque existem outros grupos ai por fora que se reúnem e estão abastecendo lojas, os supermercados”
Há, porém, os que se beneficiem destes grandes distribuidores, tendo em vista que, como vimos no capítulo anterior, são justamente eles que sustentam o “comércio entre lojas” no CEASA.
4.3 Os desafios da nova relação entre o Estado e o mercado: A questão da