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L ES ORGANES DE DIRECTION

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PARTIE IV : ORGANES D’ADMINISTRATION, DE DIRECTION ET DE SURVEILLANCE DE

2. L ES ORGANES DE DIRECTION

Veremos que Nassar escreve como a partir de um sonho ou de um devaneio. Para melhor entender isso, é útil explicitar a mais complexa das figuras do sonho: a condensação, a metáfora na designação da tradição retórica. Já temos percebido a sua importância enorme para definir a identidade. Ela contracena na retórica freudo- lacaniana do sonho com dois outros mecanismos que são o deslocamento (a clássica metonímia), a inversão (amiúde uma per-versão). Por enquanto, deixamos de lado a quarta figura, a elaboração secundária. Reenviamos a Jean-Bellemin Noel que trata dela em La psychanalyse du texte littéraire108, porque ela se afasta do inconsciente stricto sensu.

O Inconsciente é, antes de tudo, o campo dos processos ditos primários ou da energia pulsional em liberdade. O sonho, o espaço por excelência dessas férias da razão e do interdito, tem-se revelado o campo de manobra da condensação. Tivemos a chance de cair sobre o livro dum especialista francês do imaginário

105

O Homem múltiplo: Lisboa: Instituto Piaget, 2003/2001.

106

São Paulo: Perspectiva, 1974.

107

Lacan, J. Escritos. São Paulo: Perspectiva,1978,cap.6; Leclaire, Psicanalisar. São Paulo: Perspectiva,1973, cap. 5.

108

49 mítico, Léon Cellier: Percursos iniciáticos/Parcours initiatiques109. Ali se encontra um capítulo (p. 191-220) sobre o poeta Baudelaire intitulado “Sobre uma retórica profunda: Baudelaire e o oximoro” / D´une rhétorique profonde: Baudelaire et l´oximoron.

Interessa-nos particularmente neste estudo a oportunidade que esta figura oferece de relacionar a condensação lacaniana ao oximoro110 da retórica clássica e também de nos trazer de volta à grande categoria do imaginário durandiano que é o Regime noturno. O Regime noturno apresenta duas vertentes, numa tabela assaz conhecida de Gilbert Durand111: a vertente sintética e a vertente mística, ambas dominadas avultando o traço da eufemização. Pela eufemização, os conflitos frontais que caracterizam o traço belicoso e polêmico do Regime diurno atenuam-se, amenizam-se. Configura-se neste ambiente a aliança dos opostos, dos contrários e mesmo dos contraditórios. Até mesmo a ameaça da finitude metamorfoseia-se em atemporalidade (o “tempo” do sonho) ou no paradoxo da eternidade no tempo. A condensação é, por conseguinte, uma figura de ligamento, de aproximação de atributos ou de elementos antes marcados por uma diferença profunda. O epíteto “profundo” que qualifica a retórica, que Léon Cellier estudou em Baudelaire como dominante metafórica, demonstra um parentesco, ou mesmo uma notável similaridade com a união dos contrários do oximoro, e se revela, como dissemos, um traço essencial do Regime noturno do imaginário. É mais um ponto comum entre Hermenêutica freudiana e a Hermenêutica do imaginário chamada de Mitocrítica por Gilbert Durand112. O noturno está sempre nas almas apaixonadas e o diurno na cabeça dos Pais e do Poder (pelo dinheiro ou pelo governo da multidão).

Ainda na perspectiva da ponte que estamos construindo entre as duas hermenêuticas, temos de acrescentar algumas precisões sobre a iniciativa dos discípulos de Durand da “Escola de Grenoble”. Sob a direção de Danièle Chauvin, André Siganos, e Philippe Walter, eles publicaram no dicionário acima mencionado, Questions de Mythocrítique /Questões de mitocrítica113, não menos de trinta e um (31) estudos. Três destes trabalhos concernem particularmente: nosso trabalho:

109

Neuchâtel: À La Baconnière, 1977.

110

Figura de linguagem que harmoniza dois conceitos opostos numa só expressão, formando assim um terceiro conceito que dependerá da interpretação do leitor. Trata-se duma figura da retórica clássica

111

A Imaginação simbólica. São Paulo: Cultrix, 1988, p.66.

112

Campos do imaginário. Lisboa: Instituto Piaget, 1996; “Passo a Passo Mitocrítico”, p. 245-259.

113

50 “Desejos e Mito” / Désirs et Mythe, da filósofa Camille Dumoulié (p. 191-111), “Devaneio e Mito”/ Rêverie et Mythe, de Zoé Samaras (p. 295-307), A nostalgia do arcaico/ “La nostalgie de l´archaïque” (André Siganos, p.111-115). Imaginário (Mito) e Psicanálise (Desejo, Sonho) flertem obviamente nos dois primeiros títulos. Mais discreto, o terceiro exige trazer à tona a cumplicidade do Imaginário com o mecanismo onírico da inversão e a formação do Inconsciente chamada “a volta do recalcado”.

Com sagacidade, André Siganos detectou essa dupla presença do Inconsciente no dinamismo da imaginação de uma boa porção de obras da modernidade que trabalham a temática do retorno ao passado, característico do sonho, e que se encontra tanto na prática clínica da anamnese como na emergência repentina de um fato do passado que estimamos esquecido. Com a questão do esquecimento estamos no domínio dos fenômenos reunidos por Freud114 (lapso, ato falho, esquecimento etc). Mas não saímos, por isso, das terras do sonho. Pois a psique não delimita nitidamente as suas fronteiras internas.

Encerramos, porém, essas considerações que reivindicam não “o conflito das interpretações”, como diz Paul Ricoeur, mas de preferência a sua convergência,afim de dar conta da obra de Raduan Nassar. Acrescentamos uma recomendação de ordem bibliográfica aos que gostariam de verificar a flexibilidade metodológica da Mitocrítica que, para nós, mantém estreita relação com a Psicanálise: consultar os verbetes Mito e Ciência, Mito e História, Mito e Fantástico, Mito e Memória, no livro acima citado organizado por Chauvin, Siganos e Walter. Ele proporciona também uma reflexão sobre Tradição e Modernidade do Mito, objeto de um de nossos capítulos.

Além da contribuição dos colaboradores de Questões de Mitocrítica, para a nossa convergência das Hermenêuticas, citaremos para concluir esta primeira justificativa teórica o testemunho do ilustre psicólogo Jean Château. Ele afirmou que “A imaginação nunca corta completamente o cordão umbilical que o liga aos afetos/ L´imagination ne rompt jamais complètement le cordon ombilical qui le lie aux affects”115.

114

O.C., Vol; VI, Imago,1980) sob o título de “Psicopatologia da vida cotidiana”.

115

Apud. Robert Ellrodt, Réflexions sur la critique et la poétique. In Murielle Gagnebin et Christine Savinel, orgs, Starobinski em mouvement. Paris: Champ Vallon, 2001, p.84).

51 Nossa leitura de Raduan Nassar nos autoriza a afirmar que Chateau acertou em cheio. A organização da psique não corta de maneira alguma o cordão umbilical entre imaginário e inconsciente. Intuitivamente temos chegado à mesma conclusão ao ler um texto como Lavoura arcaica ou Um copo de cólera ou Menina a caminho. Os textos nassarianos são criações da imaginação dinamizadas pelo desejo e habitadas por um segredo. Assim como indicado acima, serão apresentados os resultados dessa pesquisa no capítulo “O imaginário do segredo em Raduan Nassar”.

Faz-se necessário agora abordar a vertente onírica do material de nossa investigação, ou seja, a hipótese do texto enquanto sonho, a fim de trazer maior esclarecimento ao trabalho de leitura que exporemos sobre Menina a caminho e as outras narrativas: Como se vê, a teoria vem só depois para a exposição da vivência das obras de imaginações.

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