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L’investissement socialement responsable :

Dans le document LA RESPONSABILITE SOCIALE DE L’ENTREPRISE (Page 62-68)

THEORIES ET OUTILS DE LA RSE

Section 2 : L’instrumentalisation de la RSE

VII. L’investissement socialement responsable :

As dinastias marínida, zaiânida e haféssida foram fundadas pelas tribos ber- beres conquistadoras, e o clã vencedor, o makhzen, identificou -se com o Estado.

Esta distinção entre vencidos e vencedores era diferente da divisão tradicional entre khāssa (particulares, cortesãos, aristocracia político -militar, elite etc.) e

‘ammā (homens comuns, plebe, povo etc.), criada pelos juristas, historiógrafos

e governantes. Além disso, o igualitarismo fundamental do islamismo é bem conhecido; o termo khāssa, com frequência, aplicava -se aos letrados, e ‘ammā, aos analfabetos. Não obstante, em Fés, Tlemcen e Túnis, uma classe média, espécie de pequena burguesia com grande poder de assimilação, rompe este bipartidarismo teórico, temperando o espírito de casta. Abre -se para todos a possibilidade de ascensão social pela fortuna ou cultura, ou mesmo pela piedade ou favor dos poderosos.

Os Marínidas

Em tempo de guerra, os Marínidas convocavam cavaleiros Zenāta do Magreb central e árabes, para reforçar sua pequena força de cavalaria. Dispunham de cerca

de 8 mil cavaleiros mercenários (turcomanos, francos, renegados8, andaluzes) e de

uma guarda do sultão, provavelmente Zenāta. Os Zenāta constituíam a aristocracia político -militar, de onde provinham os altos funcionários ou vizires, pertencentes a famílias rivais cada vez mais influentes. A família dos Banū Wattās proveu de regentes até o último marínida e fundou uma dinastia que controlou Fés e parte do país. A chancelaria e a contabilidade eram confiadas a secretários (kātib) marro- quinos ou andaluzes. Os camareiros (hādjib), em sua maioria escravos libertos, não tinham autoridade política; há o caso único de um judeu, hādjib de Abū Ya‘kūb Yūsuf (1286 -1307), que acabou se tornando chefe de governo, e o de outros dois, que foram encarregados pelo último marínida, em débito com os judeus, de

receber os impostos. Os djāndār9 ficavam à porta do soberano e executavam suas

ordens; seu preboste era o mizwār, que cuidava da observância da etiqueta nas audiências dadas no dār al -ammā (“casa do povo”). O herdeiro presuntivo estava estreitamente vinculado ao exercício do poder. Os grandes governadores de pro- víncia eram príncipes de sangue ou chefes Zenāta ou árabes.

No Atlas, praticamente autônomo, as cabilas submissas eram dirigidas por poderosos emires, escolhidos nas grandes famílias fiéis à dinastia. Às cabilas

8 Os renegados eram mercenários geralmente apóstatas que, vindos da Espanha em sua maioria, se punham a serviço do exército magrebino.

9 “Djāndār (ou djandār): no reinado dos Mamelucos e dos Marínidas, a Nōbat al -Djān dāriyā era a guarda parti- cular do sultão, tanto em palácio como em viagens; encarregavam -se de introduzir os emires nos aposentos do sultão para audiências ou para render -lhe homenagens...” Encyclopaedia of lslam, 1. ed., v. 1, p. 1014.

árabes reservava -se o direito de arrecadar o imposto (iktā‘)10; os xarifes e os

homens santos beneficiavam -se de parte da receita fiscal, e as confrarias, das isenções de impostos.

Fés atingiu o apogeu em meados do século XIV. Já senhor do Marrocos, Abū Yūsuf Ya‘kūb abandonou Marrakech, capital dos Almorávidas vencidos, e se instalou em Fés, onde fundou, em 1276, uma nova cidade, Fās al -DjadĪd (Nova Fés). Cidade administrativa e militar, compreendia o bairro dos príncipes, um outro, dito “dos cristãos”, e um terceiro, que se tornaria o Mallāh (bairro judeu). Os judeus que se con- vertiam – aqueles que não aceitavam viver no Mallāh – misturavam -se à população muçulmana, dedicando -se ao comércio atacadista. Numerosos refugiados andaluzes vieram reforçar a elite intelectual, artística e comercial.

Para alojar, alimentar e educar os estudantes que afluíam a Fés, Abū Yūsuf Ya‘kūb fundou, na cidade velha, a primeira das famosas madraças marínidas, que dispunham de fundações habous; quatro outras foram edificadas de 1320 a 1323, uma sexta em 1346–1347, tendo Abū ‘Inān Fāris (1349–1358) a elas somado a que leva seu nome.

O comércio com a Espanha, Portugal, Gênova e Veneza era intenso. A comunidade de mercadores cristãos reunia -se num edifício, sob a autoridade de uma espécie de cônsul comum (o “feitor” dos textos portugueses); a comunidade

judaica tinha seu chefe e administração próprios. O muhtasib11 controlava a

atividade comercial.

A prosperidade econômica e intelectual de Fés declinou com a dinastia. O advento dos Sádidas pouco favoreceu a cidade, já que eles escolheram Marrakech, eclipsada e quase arruinada, para sua capital, dando -lhe, com isso, novo vigor.

Zaiânidas (‘Abd al ‑Wādid)

Parentes e rivais dos Marínidas, os Zaiânidas de Tlemcen eram, como aqueles, berberes nômades Zenāta que assumiram a liderança de um Estado sedentário. O fundador da dinastia, Yaghmurāsan (1235–1283), viveu em tendas até por volta de seus 30 anos e só falava o berbere. O vizirato, con-

10 É difícil encontrar nas línguas europeias (ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 3, p. 1088) um correspondente tanto para o termo iktā‘ como para a realidade jurídica e fiscal que designa. Neste caso, significa o direito de arrecadar o imposto.

11 “Muhtasib: censor, funcionário nomeado pelo califa ou por seu vizir para observar se os preceitos religiosos do Islã são respeitados, descobrir delitos e punir os delinquentes. Em alguns casos, suas funções eram paralelas às do cádi, mas a jurisdição do muhtasib limitava -se às questões relativas a transações comerciais, pesos e medidas irregulares, vendas fraudulentas e não pagamento das dívidas.” Encyclopaedia of lslam, 1. ed., v. 3, p. 702 -3.

fiado a princípio a parentes do soberano, passou, a partir de Abū Hammū I (1308–1318), para as mãos de cambistas, cuja família já exercera essa profissão em Córdoba; estes adquiriram terras nos subúrbios de Tlemcen, fazendo -as valorizar. Um desses, do Mallāh, foi ministro das finanças de Yaghmurāsan. O intendente do palácio, escolhido entre os juristas, era também encarregado, entre outras coisas, da chancelaria e da contabilidade.

Abū TashfĪn I (1318–1337) escolheu para hādjib (mestre de cerimônias, superintendente do palácio ou primeiro -ministro), com poder supremo na administração, um liberto andaluz, Hilal, o Catalão.

Yaghmurāsan empregou mercenários – turcos, curdos e cristãos – que haviam ser- vido aos Almóadas (os cristãos foram dispensados após 1254). Mas o corpo principal do exército era formado pelos Banū Hilāl; estes, além de se beneficiarem de importan- tes concessões fiscais (iktā‘), coletavam os impostos, dos quais retinham uma parte.

Muito devoto, Yaghmurāsan mandou construir minaretes nas grandes mes- quitas de Tlemcen e Agadir. A ele se atribui a fundação da fortaleza de Mashwār, onde residiu. Seu sucessor ergueu a mesquita de SĪdĪ Bel Hasen (1296), e Abū Hammū I construiu uma madraça para que dois doutores ali difundissem seu saber. Seu filho fundou mais uma madraça e edificou três palácios. Tlemcen atingiu, nessa época, o auge da prosperidade.

Durante o cerco de Tlemcen (1298–1306), o marínida Abū Ya‘kūb Yūsuf construiu a cidade -fortaleza de al -Mansūra, que Abū ’l -Hasan retomou e for- tificou durante novo cerco (1335). Senhores de Tlemcen de 1337 a 1348, os Marínidas fomentaram o culto a SĪdĪ Bu Medine (Abū Madyan); embelezaram seu mausoléu e acrescentaram à sua construção a mesquita de al -‘Ubbad e uma madraça. Durante a segunda ocupação marínida (1352–1359), Abū ‘Inān Fāris mandou construir a mesquita de SĪdĪ ’l -HalwĪ – santo de origem andaluza que se havia estabelecido em Tlemcen no início do século XIII –, com uma madraça e uma zāwiya. Mashwār conheceu seus melhores dias no reinado de Abū Hammū II (1359–1389); durante as noites do mawlid eram oferecidas esplêndidas recepções aos dignitários e ao povo, nas quais a mangana, relógio monumental com figuras que se movimentavam, era muito admirada. Abū Hammū II construiu também vasto conjunto de edificações religiosas nos arredores da cidade: um mausoléu de família, uma madraça e uma zāwiya. Deve -se a Abū ’l -‘Abbās (1430–1461) o mausoléu e a mesquita dedicados a SĪdĪ Lahsan (morto em 1453).

Mesmo atravessando vicissitudes políticas, Tlemcen nada perdeu em brilho, tam- pouco sua riqueza parece ter -se abalado. A opulência de seus mercadores, muçul- manos e judeus, repousava no comércio exterior florescente. Tecidos importados da Europa eram estocados e vendidos numa kaysariyya perto da Grande Mesquita.

Os mercadores genoveses e venezianos comerciavam no funduk reservado para cada nacionalidade. A atividade artesanal era intensa: produziam -se tecidos de lã, tapetes, faianças, arreios, couros bordados etc. O tráfego marítimo passava por Hunayn e Orã. Enfim, Tlemcen parece ter suplantado Marrakech como escala do comércio saariano, que passou por certa renovação nos séculos XIII e XIV. O ouro e os escravos chega- vam de Sidjilmāsa a Tlemcen por uma rota controlada pelos Banū Ma‘kil.

Os Haféssidas

Bidjāya, porto comercial, base de corsários, centro intelectual e religioso e por vezes capital, foi, junto com Tlemcen, um dos polos do Magreb central. A floresta da Cabília fornecia aos estaleiros madeira e piche. Além dos estrangeiros em trânsito, dos hóspedes periódicos e de uma comunidade judaica e cristã, a população era formada por indivíduos provenientes da Cabília e da Andalu- zia. Ao que parece. na cidade não havia madraças nem zāwiya enquanto em Constantine, cidade do mesmo porte, contavam -se várias. Constantine abrigava numerosa comunidade judaica e uma rica e antiga burguesia.

Na região berbere oriental, os Haféssidas perpetuaram a ordem almóada. Seus parentes foram reunidos sob a autoridade de um deles, que tomou o título de mazwār al -karāba. Os homens ligados ao exercício do poder, princi- palmente os governadores de província, recebiam o título de emir. Seus filhos, criados na corte com os do sultão e os dos principais cortesãos, eram os sibyān (garçons ou pajens), e recebiam educação primorosa. Entre os servidores do palácio, os renegados cristãos, antigos escravos, tinham papel cada vez mais importante no alto comando civil e militar. O intendente palaciano era um eunuco. O clã dos xeques almóadas, aristocracia militar, agrupava os descen- dentes das “tribos” almóadas primitivas; cada uma delas era liderada por um

mazwār12, e todas obedeciam ao xeque al -muwahhidūn, um dos mais poderosos

pilares do Estado, cujo cargo era vitalício. Os “grandes xeques” eram divididos

em grupos de Três, de Dez e de Cinquenta13. Os “pequenos xeques” participavam

das cerimônias. Em virtude do igualitarismo almóada, todos os xeques, assim como o sultão, ganhavam o mesmo soldo; além disso, recebiam concessões de terras e doação anual em dinheiro e espécie. Embora viessem a perder pouco a pouco sua influência para os andaluzes e alguns libertos, houve momentos de

12 “O termo mizwār (ou mazwār) aparece cedo na historiografia magrebina, relacionado às instituições almóadas. Designa o chefe da facção e a função correspondente, que, à época, parece ter sido confundida com a do hafīz ou do muhtasib”. Ibid., p. 543.

brilhante revivescência. O conselho (shūrā) era composto por Almóadas e outros notáveis. O califa encabeçava frequentes reuniões públicas e privadas, e toda semana reunia em conselho os cádis e os muftis, os juristas da capital. Assumia pessoalmente a repressão aos abusos (radd al -mazālim)

Enquanto eram apenas governadores almóadas, os Haféssidas designavam como deputado um kātib, espécie de primeiro -ministro. Abū Zakariyyā’ (1228– 1249) tinha três vizires: o do exército, grande xeque almóada ou mesmo o xeque dos Almóadas, que desempenhava a função de primeiro -ministro, o das finanças e o da chancelaria. No final do século XIII aparece a função de camareiro (hādjib), de origem espanhola e essencialmente doméstica, exercida por andaluzes, cuja influência aumentava; no século XIV, o hādjib torna -se o primeiro -ministro. Após o governo do hādjib Ibn Tafrādjin (1350 -1364), um ditador, embora o título tenha subsistido, o cargo torna -se honorário. O vizir das finanças, a prin- cípio escolhido entre os xeques almóadas, passa a sê -la entre funcionários ou andaluzes. A partir de Abū Fāris (fim do século XIV e começo do século XV), o al -munaffid, coordenador das despesas da casa real, é quem detém o poder supremo sobre as finanças; depois do desaparecimento do xeque dos Almóadas e hādjib (em 1462), ele passa a ocupar o posto mais elevado na hierarquia dos funcionários, enquanto o vizir das finanças é relegado à função de tesoureiro. O

mazwār – mordomo do palácio, porteiro e chefe das guardas e dos servidores –

no final do século XV chega a controlar a administração do exército e a ocupar o segundo lugar na hierarquia depois do munaffid. Os escribas, em sua maioria andaluzes, gradualmente vão sendo substituídos por naturais da IfrĪkiya.

Inicialmente, os xeques almóadas eram encarregados das províncias; nos séculos XIV e XV cedem lugar a funcionários de origem frequentemente servil, os kā‘id. Os Haféssidas escolhiam os principais governadores regionais entre os parentes, principalmente os filhos, em particular os primogênitos, que assim faziam sua apren- dizagem; cada um deles tinha um assistente, inicialmente chamado kātib e depois

hādjib. Os xeques tribais, escolhidos entre os membros de uma família ou clã que,

tendo alcançado a supremacia, havia sido investida pelo sultão, comandavam o contingente de sua cabila e coletavam os impostos para o tesouro, beneficiando -se de concessões fiscais e doações de terras.

O exército, bastante heterogêneo, era constituído por Almóadas, árabes nômades, berberes do Magreb ou da IfrĪkiya, orientais, andaluzes e francos cristãos; mas a força dos primeiros era pouco significativa se comparada à do contingente de árabes da IfrĪkiya, de peso considerável. Havia uma milícia urbana, uma andaluza, outra de mercenários turcomanos e outra ainda de cavaleiros cristãos; estes, vindos da Espa- nha ou da Itália, formavam a guarda sultanesca, praticavam sua religião e moravam

num subúrbio da capital. Os renegados cristãos, escravos libertos em sua maioria, constituíam um sólido elemento militar; os generais eram, com frequência, escravos libertos ou renegados. O corso tinha papel importante: os navios eram armados pelo governo ou por homens de negócios.

Voltados para o mar, os Haféssidas não se esforçaram para reintegrar Kayrawān, a antiga capital da IfrĪkiya, que a invasão dos Banū Hilāl reduziria à obscuridade. A antiga população urbana foi absorvida pela horda beduína, que tomou conta das planícies. O artesanato em Kayrawān manteve certa vitalidade graças à produção dos pastores nômades. Foram fundadas na cidade numerosas zāwiya.

Túnis era uma metrópole em expansão. A kasaba (casbá) almóada foi refor- mada por Abū Zakariyyā’, que a transformou numa pequena cidade governa- mental. Por volta de 1240, ele mandou construir, perto da grande mesquita de Zaytūna, a madraça de al -Samma‘iyya, a mais antiga da África setentrional. A partir do século XV, uma dezena de outras foram fundadas por príncipes e prin- cesas. As zāwiya multiplicaram -se na madīna e nos subúrbios. Na área do porto, elevavam -se os funduk de mercadores cristãos, agrupados por nacionalidade. Nos

subúrbios, numerosos pomares e hortas eram cultivados por andaluzes. Os parques e habitações de príncipes abundavam; o Bardo já era mencionado em 1420.

Em Túnis nasceu a personagem mais representativa de seu tempo, Ibn Khaldūn (1332–1406); alguns detalhes de sua existência e suas reflexões sobre a época servirão de conclusão a este estudo.

Árabes de origem iemenita, estabelecidos em Sevilha, desde sua conquista e ali exercendo funções políticas, os Khaldūn emigraram, devido à Reconquista, para Ceuta, e depois para a IfrĪkiya. O tataravô de Ibn Khaldūn serviu a Abū Zakariyyā’ em Annāba, seu bisavô foi ministro das finanças de Abū Ishāk, e seu avô foi sucessivamente hādjib de Abū Fāris em Bidjāya, primeiro -ministro de Abū Hafs, vice -hādjib de Abū ‘AsĪd e favorito de Abū Yahyā Abū Bakr. Seu pai dedicava -se às letras, ao fikh e à religião; morreu durante a Grande Peste (1349). Ibn Khaldūn, então com 17 anos, tinha sólida formação cultural, adquirida em Túnis, onde pôde aprender com os doutores que para lá afluíram à época da invasão marínida (1347–1349). No ano seguinte, recebeu o cargo de escrevente

(‘alāma) de Abū Ishāk II. Quando o emir de Constantine invadiu a IfrĪkiya,

Ibn Khaldūn foge para o oeste, inaugurando uma carreira movimentada e fér- til em reviravoltas e intrigas. Após ter passado a servir o marínida Abū ‘Inān Fāris em Fés, completou sua educação, mas participou de uma conspiração e permaneceu aprisionado por dois anos (1357–1358). Secretário de chancelaria e panegirista de Abū SalĪm, foi nomeado juiz dos mazālin. As intrigas obrigaram- -no a se refugiar em Granada, onde foi acolhido por seu amigo, o vizir Ibn al -HatĪb; em 1364, foi encarregado de uma embaixada junto a Pedro, o Cruel, em Sevilha. No ano seguinte, foi hādjib do haféssida de Bidjāya, deposto pouco tempo depois por seu primo de Constantine, ao qual Ibn Khaldūn entregou a cidade (1366). Logo teve de se refugiar entre os árabes Dawāwida, e, pouco depois, junto aos Banū MuznĪ de Biskra. Recusou o cargo de hādjib oferecido pelo sultão de Tlemcen, Abū Hammū II, alegando querer dedicar -se aos estudos. E realmente o fez, sem contudo renunciar à política: favoreceu a aliança do haféssida de Túnis com o zaiânida de Tlemcen contra o haféssida de Bidjāya, recrutando, a seguir, contingentes árabes para o marínida de Fés. Apos muitas outras tribulações no Magreb central, em Fés e em Granada, voltou a Tlemcen (1375), onde o sultão Abū Hammū II confiou -lhe missão junto aos Dawāwida. Aproveitou a ocasião para fazer um retiro em Kal‘a lbn Salāma, perto de Tiaret, onde, durante quatro anos, elaborou a célebre al -Mukaddima. No intuito de consultar documentos que lhe permitiriam dar prosseguimento à sua obra, conseguiu autorização do haféssida para voltar a Túnis (dezembro de 1378), onde lecionou e pôde terminar sua História, da qual ofereceu um exemplar ao sultão. A conspiração liderada pelo jurista Ibn ‘Arafa obrigou -o a fazer a peregrinação à

Meca (1382). Passou o resto da vida no Cairo, onde lecionou e exerceu por várias vezes a função de grande cádi maliquita. Encontrava -se em Damasco quando esta foi sitiada por Tamerlão; teve, assim, oportunidade de conhecer, alguns anos antes de morrer, o conquistador mongol. A obra de Ibn Khaldūn alimentou -se da experiência do autor no Magreb, da qual ele soube extrair ensinamentos geniais, de originalidade surpreendente.

Al -Mukaddima é fruto da prodigiosa reflexão de um quinquagenário sobre o

que viu e fez. Ao redigir este tratado de epistemologia histórica, Ibn Khaldūn tinha consciência de que estava fundando uma “ciência nova”: a história da civilização. Sua intenção era compreender e explicar os fatos que obedecem a leis, e elaborar uma filosofia da história. Considerava dois dados fundamentais: o modo de vida e o “tribalismo”. Opunha a vida nômade, primitiva, à vida urbana, civilizada. A primeira baseava -se essencialmente na cabila e na consciência de grupo (‘asabiyya), força viva que fundava novos impérios e ameaçava continuamente os Estados constituídos; a segunda desabrochava, definhava e por fim desaparecia sob o impacto de nova força nômade. Para ele, a invasão dos Banū Hilāl e a Grande Peste trouxeram tão profundas transformações na vida do Ocidente muçulmano, que chega a falar de um “mundo novo”. Sua visão cíclica da evolução não é otimista nem pessimista, mas fundamen- tada na natureza das coisas tais quais ele as observava. O mesmo se pode dizer de sua teoria segundo a qual a soberania só se mantém por quatro gerações.

O que impressiona no pensamento de Ibn Khaldūn é o realismo, a ausência de apriorismo, o determinismo científico, em uma palavra, a modernidade. Compreende -se por que esse genial filósofo da história tem sido considerado precursor da história “total”, da economia social e até mesmo da sociologia moderna e do materialismo histórico, não obstante sua obra também eviden- ciar traços próprios do homem de seu tempo e de seu meio. É um sacrilégio querer interpretar anacronicamente esse monumento, edificado com tanto senso de proporção graças a um equilíbrio constante entre o realismo, fruto da observação, e o racionalismo, que explica e deduz leis inelutáveis.

Embora sua História universal (Kitāb al -‘Ibār) não aplique o método preco- nizado em sua “Introdução à profissão de historiador”, diferentemente dos anais árabo -muçulmanos tradicionais, ela estuda primeiro a história das cabilas árabes e de suas dinastias, e depois a dos berberes e de seus reinados. Constitui, para o período mais próximo da vida do autor, a fonte documentária fundamental.

C A P Í T U L O 6

O povo Manden (Mandenka ou Mandingo) compreende vários grupos e subgrupos, dispersos por toda a zona sudano -saheliana, do Atlântico até o maciço do Air, com projeções bastante profundas nas florestas do golfo do Benin. No início do século XII, porém, o habitat dos Manden era muito mais restrito. No apogeu do

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