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L'INTERVENTION DES FORCES AERIENNES SOVIETIQUES ET CHINOISES

Ao optar pelo termo “salvar” para referir-se ao desejo implícito do projeto poético adeliano de forjar um território no qual possa se inscrever uma imagem do mundo ameaçada pela contemporaneidade, o presente trabalho pensa nas diversas nuances que tal palavra carrega consigo. Mais que preservar, parece ser um desejo da poeta guardar – diga-se, no sentido mais contemporâneo que a palavra adquiriu com a ascensão das novas tecnologias – a experiência do mundo vivido pelo sujeito lírico e, assim, colocar o próprio sujeito a salvo. Impossível não pensar também nas implicações religiosas que o vocábulo carrega consigo e que são potencializadas quando se pensa na relação que a poesia adeliana tem com a religião.

Todavia, a possibilidade de salvação de uma imagem do mundo e da experiência humana que ela implica está fadada ao fracasso se realizar-se no interior de um projeto de modernidade cujos valores sejam a imanência e a mudança. Com efeito, a aceleração do tempo faz a modernidade estranhar-se a si mesma a cada instante. Não há imagem do mundo que perdure, justamente porque, como recorda Paz (2012, p. 267), na modernidade, “não há mundo”. Portanto, é necessário ousar uma hermenêutica que, não estando alheia à modernidade, pois relaciona-se de modo dialético com ela, responda aos anseios do homem de forma alternativa, concretizando-se, não segundo os axiomas do pensamento forjado na era do racionalismo, sempre rígidos e estreitos, mas sim abraçando a liberdade que

advém do interior da própria arte, que, no caso da literatura e como defendia Mallarmé, não se faz com ideias, mas com palavras.

Dentre os poemas que compõem a obra de Adélia Prado, talvez seja o poema intitulado “Guia”, de seu primeiro livro, que melhor explicite o projeto poético adeliano:

1 A poesia me salvará.

2 Falo constrangida, porque só Jesus 3 Cristo é o Salvador, conforme escreveu 4 um homem – sem coação alguma –

5 atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança 6 de Congonhas do Campo.

7 No entanto, repito, a poesia me salvará. 8 Por ela entendo a paixão

9 que Ele teve por nós, morrendo na cruz. 10 Ela me salvará, porque o roxo

11 das flores debruçado na cerca 12 perdoa a moça de seu feio corpo.

13 Nela, a Virgem Maria e os santos consentem 14 no meu caminho apócrifo de entender a palavra 15 pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos. 16 Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos, 17 porque temo os doutores, a excomunhão 18 e o escândalo dos fracos. A Deus não temo. 19 Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida 20 da brutalidade das coisas?

(PRADO, 1991, p. 61)

Neste poema, cabem duas observações que justificam a presença massiva de imagens e referências religiosas. Primeiramente, o projeto poético adeliano associa-se a uma visão religiosa do mundo porque percebe nesse olhar a oposição aos valores da modernidade. Todavia, sua relação com a religião não está associada somente à ideia etimológica que esse termo carrega em si, o de uma religação entre o humano e o divino. Além, vê-se aqui a associação com uma segunda etimologia possível para a palavra, ressaltada em um artigo de Giorgio Agamben (2007, p. 66), o de relegere, uma espécie de releitura do mundo, viável somente a partir do que a religião tem de poético e que, strictu sensu, a constitui enquanto religião. Esse sentido de releitura está presente na poética adeliana. Abre- se a uma experiência com as coisas que permite captar aquilo que, presente nelas, manifesta-se pelo olhar poético, exigente de escrúpulo e atenção como o olhar da religião. A própria poeta alerta em seus versos: “Às vezes a poesia me abandona, olho pedra, vejo pedra mesmo” (PRADO, 1991, p. 199). Em segundo lugar, neste

poema impregnado de religiosidade, o sujeito lírico também estabelece o distanciamento entre uma visão ortodoxa da fé, arraigada aos dogmas e à moral mais ordinária, e uma liberdade que a poesia requer, liberdade que se concretiza numa linguagem cifrada que é própria do texto poético e que, justamente pela sua liberdade, mais se aproxima da experiência com o outro divino.

É para essa liberdade da poesia – e das artes – que o crítico George Steiner (1993, p. 128-129) chama a atenção de seus leitores. A partir do estabelecimento de uma fenomenologia do encontro, Steiner compreende a arte como concretização de um “desejo de alteridade”. Ela se torna o território onde o criador e, num segundo momento, o leitor/ouvinte/espectador podem se encontrar com o desconhecido, “a alteridade radicalmente inumana da matéria”, tornando-a familiar ou ainda mais estranha, mas, nos dois casos, propiciando uma experiência que não permite ao criador ou ao leitor permanecerem indiferentes. Nesse sentido e como afirma Steiner: “Toda estética, todo o discurso crítico e hermenêutico, é uma tentativa de elucidação do paradoxo e da opacidade desse encontro bem como da sua múltipla felicidade”.

Voltando ao poema “Guia”, nota-se que logo em seu primeiro verso esboça-se, em declarativa contundente, o objetivo do projeto poético adeliano: “A poesia me salvará”. A mesma pretensão é reiterada no sétimo verso, após o comentário referente ao possível constrangimento religioso de uma frase pouco ortodoxa, e no décimo verso. Como jaculatória ou mantra, a repetição tríplice tem um caráter de insistência do projeto que nela se esboça independentemente das dificuldades que possam surgir. Nota-se também que esse verso está projetado para o futuro e explicita o sujeito atingido pela ação salvífica da poesia: “me salvará”, possibilitando a salvação do sujeito (“me”) que aparece na construção sintática da frase em posição passiva. O que se salva com o sujeito é sua imagem do mundo, arraigada à sua constituição enquanto sujeito, e com ela uma concepção de tempo e de espaço, uma série de memórias e sentimentos que compõem sua autoimagem enquanto sujeito. Não haveria o sujeito lírico, tal como ele figura no poema, sem a imago mundi que se deixa transparecer no texto. A destruição dessa imagem ou sua ausência também esfacelaria o sujeito que se deixa perceber no poema. Existe, portanto, o sujeito, porque existe o mundo que o engendrou, esse Outro com o qual o sujeito interage. Como propõe Michel Collot (2004, p. 166):

Pelo menos desde Platão, sabe-se que o sujeito lírico não se possui, na medida em que ele é possuído por uma instância ao mesmo tempo a mais íntima de si e radicalmente estrangeira. Essa possessão e esse desapossamento são tradicionalmente referidos à ação de um Outro, quer se trate, no lirismo místico ou erótico, de um deus ou do ser amado, no lirismo elegíaco, à ação do Tempo, ou ao chamado do mundo que arrebata o poeta cósmico. Essa ação não se separa da que exerce o próprio canto, que mais se apodera do poeta do que dele próprio emana.

Daí o que se salva é mais um si que um eu, uma vez que o sujeito lírico da poesia adeliana é aquele configurado e forjado numa experiência do mundo marcada pela relação com o Outro divino e inserida num ambiente interiorano, ambos estranhos à modernidade. Ainda, segundo Collot (2004, p. 166),

Fazendo a experiência de seu pertencimento ao outro - ao tempo, ao mundo ou à linguagem -, o sujeito lírico cessa de pertencer a si. Longe de ser o sujeito soberano da palavra, ele se encontra sujeito a ela e a tudo o que o inspira. Há uma passividade fundamental na posição lírica, que pode ser similar à submissão.

Ao sujeitar-se à palavra da poesia, o sujeito inscreve nela sua possibilidade de salvação e, consigo, a salvação do mundo. Isso só se faz possível para aquele sujeito que se coloca numa posição de padecimento e se permite ser atravessado pelos acontecimentos, o que constituiria um vivenciamento da experiência em sentido heideggeriano.

[...] fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma. Quando falamos em “fazer” uma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, “fazer” significa aqui: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo. (HEIDEGGER apud BONDÍA, 2002, p. 25)

Ora, ao conceber a experiência nesses moldes, compreende-se, como postula Bondía, a ausência de experiência no mundo moderno. Com efeito, esse pesquisador espanhol opõe a experiência enquanto “algo que nos acontece” àquilo que “se passa no mundo”. Para Bondía (2002, p. 5), o sujeito da experiência constitui-se enquanto território e espaço: “algo como superfície sensível que aquilo que acontece afeta de algum modo, produz alguns afetos, inscreve algumas marcas,

deixa alguns vestígios, alguns efeitos". Tal sujeito não está definido somente por sua passividade, mas também por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura.

Assim, o sujeito da experiência é um sujeito, no dizer de Bondía (2002, p. 6), “ex-posto”, atravessado pelos acontecimentos. Recorda-se aqui novamente, o poema “Explicação de poesia sem ninguém pedir” (vide p. 45 deste trabalho), no qual o sujeito lírico declara-se atravessado pela imagem poética do trem.

Compreende-se igualmente porque Adélia Prado insiste em propor uma espécie de criação poética que se aproxima da ideia de passividade, de uma permissão do poeta para que a experiência poética, que vem ao seu encontro aconteça. Como afirma, no poema Sedução: “a poesia me pega” (PRADO, 1991, p. 60). Mais ainda, é um se deixar pegar.

Há, retomando a proposta steineriana, um “encontro de liberdades” na poesia. Adélia Prado enfatiza a gratuidade do fazer poético menos como teoria e mais como oposição a uma concepção poética na qual o poeta domina a palavra. Em sua primeira participação no Programa Roda Viva (1994), quando responde à pergunta se o poema lhe chega acabado, a autora diz: “Geralmente sim. Às vezes, a única coisa que eu tenho de fazer depois é limpá-lo, escoimá-lo das gorduras, dos excessos do momento da escrita”.

Ora, se, por um lado, essa resposta confirma a vinda da poesia ao encontro do poeta, por outro, deixa perceber que há, por parte desse, o trabalho de transformar a experiência poética em poema. A posição adeliana em relação à criação poética se arrefece e ganha outras nuances com o desenvolvimento de sua obra, como neste poema do livro Oráculos de Maio, de 2007:

DIREITOS HUMANOS Sei que Deus mora em mim como sua melhor casa. Sou sua paisagem, sua retorta alquímica e para sua alegria seus dois olhos.

Conceber-se enquanto paisagem, sugere a passividade diante do Outro divino. Contudo, a imagem da “retorta alquímica”, embora ainda se trate de um recipiente – enfatize-se a função do objeto que leva este nome –, propõe a possibilidade de uma transformação que se dá em seu interior, transformação que relacionada com a palavra “alquímica”, sugere a transmutação de uma determinada substância em algo parcial ou totalmente diverso. Há, assim, uma participação do poeta naquilo que lhe é dado, o que faz a autora afirmar adversativamente e já explicitada no título: “mas esta letra é minha”.

A insistência adeliana de que a poesia é algo dado ao poeta justifica-se ainda no fato de que a experiência poética associa-se a uma origem divina. Se o primeiro aspecto explorado no poema “Guia” é o caráter salvífico da poesia, o segundo elemento, é a definição do que é a poesia nos versos que fecham o poema referido: “Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida / da brutalidade das coisas?”.

A poesia é, segundo esses versos, a própria revelação de Deus – “Sua Face” – que se deixa perceber a partir da “brutalidade” da matéria. É este o percurso poético que está arraigado ao projeto adeliano: o Outro divino vem ao encontro do homem e a percepção de sua presença pelo homem é um ato poético. Não se poderia, dentro dessa concepção, pensar no poeta enquanto ser único de onde a poesia provém. Ela é resultado de um encontro e este encontro se dá no mundo habitado pelo homem.

Nesse encontro com uma realidade transcendente, que goza de atributos como o da eternidade, a experiência poética só se pode dar com a suspensão do tempo e só pode resultar em um objeto que, mesmo produzido com a matéria gráfico-sonora da palavra, almeja superar toda contingência e tornar-se universal. Adélia Prado, ao conceber o poema como capaz de suspender o tempo, vê nele as condições para a salvação de sua experiência do mundo, que não é outra coisa que a própria vida. Assim, a textualidade do poema também se torna, como este sujeito lírico, um território no qual a experiência se inscreve e perdura. Essa é a aposta do projeto poético adeliano.

Ao compreender o poema como um território, viabiliza-se sua habitação por uma imago mundi. Assim, quando se torna possível fazer do texto poético uma axis mundi, abre-se, outrossim, a possibilidade de afirmar que o poema também é corpo e casa da experiência humana. Afinal, como afirma Aristóteles, o homem é zôon lógon échon, ou seja, vivente dotado de palavra; o que fará Bondía (2002, p. 1) sentenciar: “o homem é palavra”.

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