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1.3 Les neutrons et les quatre interactions fondamentales

1.3.5 L’interaction forte

Um dos debates que se estabeleceu com alguma controvérsia no campo de análise sociológica, foi o das implicações da evolução histórica das sociedades nos laços de solidariedade estabelecidos e no reconhecimento da interdependência humana.

Durkheim, na obra A Divisão do Trabalho Social (1999 [1893]) realça a interdependência decorrente da divisão do trabalho, defendendo que a sociedade moderna não tendia para a

Página 79 de 427 desintegração, mas sim para a estabilidade orgânica. Assim, a tradicional coesão social assente na solidariedade mecânica, teria sido substituída por uma coesão baseada na solidariedade orgânica (Giddens, 1972).

A solidariedade mecânica nas sociedades tradicionais, resultava da semelhança entre indivíduos, com fraca especialização e divisão do trabalho, assentando numa estrutura jurídica penalizadora da diversidade individual (Paiva, 2014). Tratava-se de uma solidariedade baseada na atração individual dos membros do grupo entre si, exatamente por se assemelharem, mas também pela ligação direta à sociedade (Durkheim, 1999 [1893], p. 78). Neste sentido, se bem que dotadas de uma existência distinta, a consciência individual e coletiva estavam interligadas, daí resultando a noção de solidariedade mecânica, que limitava a individualidade dos membros do grupo, na medida em que a personalidade individual é absorvida na personalidade coletiva (Durkheim, 1999 [1893], p. 108).

A segunda aceção de solidariedade, a solidariedade orgânica que se teria desenvolvido nas sociedades modernas, tinha como característica principal a divisão do trabalho e especialização profissional, acentuando as diferenças e complementaridades entre indivíduos e valorizando a liberdade individual (Paiva, 2014). Desta forma, a estas sociedades corresponderia um direito restitutivo e uma solidariedade baseada na interdependência dos indivíduos (Durkheim, 1999 [1893]), ou seja, a individualidade do todo aumenta ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem mais movimentos próprios (p. 108).

De acordo com Durkheim a consciência coletiva56 e individual interligam-se de forma

solidária, sendo os estados sociais de interdependência (…) mais ricos e mais desejáveis do que o isolamento e o individualismo (Paiva, 2014, p. 337). Assim, a dependência entre os

56 Durkheim diferencia consciência coletiva de consciência social, sendo a consciência coletiva o conjunto das

crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade (1999 [1893]: p.50). A

consciência social seria mais abrangente, na medida em que abrangeria ainda as funções judiciais,

Página 80 de 427 indivíduos não era considerada por Durkheim como uma limitação, mas sim como um aspeto enriquecedor nas sociedades (Paiva, 2014).

Durkheim apresenta, pois, uma alternativa à análise de Tönnies, que advoga uma tendência de desintegração social fruto das mudanças sociais e económicas, ao defender a emergência da solidariedade orgânica como fonte de coesão social. Desta forma, as redes de solidariedade não estariam a desaparecer, tal como preconizado por Tönnies, mas estaria em curso a reformulação das mesmas, com base na dependência mútua entre indivíduos estimulada pela divisão do trabalho social57. Com a especialização preconizada pela

industrialização, os indivíduos ficariam cada vez mais dependentes entre si (Piteira, 2008).

(…) a divisão do trabalho, ao colocar os indivíduos em interdependência e em

presença mútua, conduziria a um sentimento de participação no grupo, à ajuda

mútua e a um sentimento de respeito e de obrigação em relação ao grupo. Este

sentimento seria resultante de cada indivíduo perceber, sentir que não poderia

sobreviver sozinho e que os outros indivíduos eram importantes para si encontrando-

se todos dependentes de um sistema que os transcendia (Paiva, 2014, p. 350).

Paiva (2014) chama a atenção para o facto de que a noção de solidariedade orgânica de Durkheim nos remete, paradoxalmente, para que o indivíduo, nas sociedades modernas, se apresentasse simultaneamente mais individualista, mas também mais solidário.

Convém, no entanto, discutir esta questão de forma reflexiva no contexto socioeconómico atual, em que as condições de funcionamento do mercado de trabalho não garantem de forma automática e direta a emergência da solidariedade. Desta forma, parece afigurar-se

57 No mesmo sentido parece apontar o estudo mais recente levado a cabo por Putnam (1994) acerca das

tradições cívicas nas regiões italianas de Seveso e Pietrapertosa. As áreas em que as práticas cívicas surgem mais fragilizadas são as aldeias tradicionais do Sul. Nas cidades, particularmente nas do Norte, os cidadãos parecem mais predispostos a envolver-se na deliberação coletiva e nas escolhas públicas.

Página 81 de 427 como necessário o desenvolvimento de uma inteligência coletiva que permita a reconstrução da solidariedade social e que será construída com base em vozes diversas, que reflitam a diversidade cultural e que permitam, assim, melhorar a qualidade de vida de forma global (Brown e Lauder, 2000).

Também numa análise reflexiva, Laville (2006) contribuiu mais recentemente para a discussão do conceito de solidariedade, referindo a existência de duas fontes da solidariedade moderna: a solidariedade filantrópica e a solidariedade democrática. A solidariedade filantrópica assenta na visão de que os cidadãos, num espírito altruísta, cumprem os seus deveres éticos para com os outros, numa base voluntária. Esta aceção enfatiza, pois, a urgência, a ação paliativa e a manutenção da paz social, podendo eventualmente incorrer no perigo de moralização dos pobres. Olhando em alternativa a solidariedade como um princípio de democratização da sociedade e resultante de ações coletivas, esta implica uma focalização nas questões da auto-organização e dos movimentos sociais, enfatizando a igualdade entre indivíduos.

A solidariedade filantrópica baseia-se na crença na autorregulação do mercado, pelo que as ações de responsabilidade social das empresas poderiam, in extremis, substituir a intervenção pública (Laville, 2006). Laville (2006) defende que, tendo-se multiplicado este tipo de ações, os atores económicos procuram a sua relegitimação a nível externo e interno. Nesta aceção, o desenvolvimento sustentável poderia ser enquadrado no mercado, através do controle da atividade das empresas.

Este tipo de solidariedade é o que pode ser mais facilmente reconhecido no trabalho de Durkheim apresentado anteriormente, uma vez vê como “natural” e automática a cooperação entre indivíduos, em detrimento da análise dos aspetos coletivos e estruturais de construção da solidariedade, onde o poder surge como variável incontornável.

Para Laville, a solidariedade democrática substituiria a economia enquanto instrumento de justiça social e de sustentabilidade, defendendo um mercado regulado e a emergência da economia social e solidária. A dimensão ética não seria assim delegada aos atores

Página 82 de 427 económicos, mas sim alvo de uma negociação coletiva (Laville, 2006). A solidariedade democrática exigiria, pois, relações entre atores sociais, mais especificamente relações de cooperação.

Por outro lado, Carmo (2014a), analisando o campo semântico do conceito de solidariedade, refere alguns aspetos integrantes do mesmo, dos quais destacamos a existência de sentimentos positivos em relação ao outro e de práticas de cooperação ou assistência moral e material, de que resulta a criação de laços entre coisas e pessoas em situação de interdependência (incluindo a relação dos seres humanos com a natureza). A interdependência decorre, pois, do interesse comum e exige uma responsabilidade recíproca, que se traduzirá na coesão social.

Neste sentido, a solidariedade pode ser olhada como a comunidade de interesses e responsabilidades entre os elementos de determinado grupo social (Chorão, 1997, p. 523), implicando, pois, um dever da mútua responsabilidade em três dimensões: nas relações dos indivíduos entre si, destes para com o grupo ou sociedade da qual são membros e entre as diversas sociedades (Cabral, 1999, p. 347).

A atuação nestas diferentes esferas de solidariedade e mútua responsabilidade, implica, pois, a existência de uma vontade (que se baseia em valores e na motivação) e é escorada na razão, ou seja, no reconhecimento da interdependência universal, uma vez que todos ganham se cuidarem uns dos outros ou todos perdem se não o fizerem (Carmo, 2014a, p.72).

A noção de interdependência está presente no trabalho de Kurt Lewin, em particular, na sua teoria do campo, que é esquematizada através da fórmula: C= f (P,M). O comportamento dos indivíduos resultaria, pois, da interdependência entre os aspetos individuais e o meio que os rodeia (Lewin, 1940, p. 30). Esta interdependência poderia também ser expressa como espaço de vida (Carmo, 2014b, p. 166).

Esta análise demonstra conter uma base personalista, no sentido de serem tidas em conta as características e condições individuais, não descurando, no entanto, as condições sociais de forma mais vasta, pelo que o conceito de solidariedade nos parece poder ser mais bem

Página 83 de 427 enquadrado na confluência da consciência individual e social relativamente à interdependência dos seres humanos entre si.

A noção de interdependência está, pois, fortemente ligada ao estabelecimento de relações ganha-ganha, contrariando as relações ganha-perde de uma lógica darwinista e exige, por essa razão, uma aprendizagem, em três vertentes da solidariedade (Carmo, 2014a): para com as gerações passadas, vivas e futuras, ou seja, no reconhecimento de um legado que poderá apoiar a construção da coesão social no momento presente e equacionar a sua sustentabilidade no futuro.

Carmo (2014a) introduz também a sabedoria ou o conhecimento como elemento fundamental na análise da solidariedade, aspeto convergente com que a análise que apresentámos no âmbito das doutrinas religiosas58. A solidariedade surge, assim, como um

ato de sabedoria fundamentado no reconhecimento inteligente da interdependência universal, a que se associa a crença na fraternidade como força aglutinadora, decorrente da filiação comum na espécie humana (p.85).

Neste sentido, e perante a erosão da solidariedade (fraternidade) em detrimento da liberdade que se verificou desde a modernidade (Fukuyama, 2000), Giddens (1998) defendeu que a reconstrução das solidariedades sociais não se poderia concretizar através da proteção contra um mercado baseado no individualismo, mas sim da reconciliação entre a autonomia e interdependência nas várias esferas da vida social, incluindo a económica, ideia consistente com a perspetiva política da terceira via, que foi analisada no capítulo anterior.

A reconstrução da solidariedade depende da confiança, já que esta gera solidariedade no tempo e no espaço (Giddens, 1998) e permite estabelecer relações de reciprocidade.

Página 84 de 427 A solidariedade, assente em relações de reciprocidade e de confiança será, assim, promotora de capital social, aspetos que iremos analisar no ponto seguinte.