PARTIE 1. PROFIL, FINALITES ET ENJEUX DE L’ALLEMAND SCOLAIRE EN SUISSE ROMANDE L’ALLEMAND SCOLAIRE EN SUISSE ROMANDE
3.5 L’instauration du Cycle d’orientation (1950-1986)
Um toque na capoeira pode ser definido como um padrão rítmico-melódico, e também de timbre e intensidade sonora (SOUSA, 1998, p. 75). Os nomes dos toques de capoeira variam muito de linhagem para linhagem, de mestre para mestre, e estão relacionados a tipos de jogo: lento, rápido, com os dois jogadores mais próximos ou distantes um do outro, tipos de golpes usados, com mais circulação de jogo, ou com golpes mais diretos, etc. No entanto, a relação entre toque e tipo de jogo é muito variável segundo a
linhagem e o mestre consultado (Ibid., p. 78-82)68. Pode existir, também, uma relação entre uma determinada cantiga e um determinado toque, em algumas linhagens ou grupos (Ibid., p. 81).
Sousa (1998, p. 71-82), a partir do depoimento de Mestre Vavá, dos estudos de Waldeloir Rego (1968), Angelo Decânio Filho (1996)69 e Alejandro Frigério (1989)70, da
Enciclopédia da Música Brasileira, erudita folclórica e popular71 sobre a música da capoeira,
entre outros, e de sua própria pesquisa junto ao Grupo Cultural de Capoeira Angola do
Acupe, em Salvador, acredita que exista um paralelismo entre os toques de capoeira e o
Candomblé.
Algumas variações rítmicas (dobras ou repiques) feitas pelos berimbaus são alusões aos toques de Candomblé – padrões rítmico-melódicos de timbre e intensidade executados em conjunto pelos três tambores, pelo agogô ou gã e, às vezes, também pelo xequerê. Algumas cantigas que apresentarei aqui são cantadas na Capoeira quase sempre sobre a base do “toque de angola” (♪ - 17)72
aos berimbaus, e do acompanhamento dos outros instrumentos, posicionados na ordem apresentada na tabela a seguir73, todos estruturados sobre 8 pulsações elementares:
68 Pelas nossas observações e informações, obtidas de registros de depoimentos e estudos
etnográficos, levantamos duas hipóteses: 1. muito da relação entre toques e tipos de jogo na capoeira foi perdida no decorrer do século XX; 2. esta relação foi estabelecida recentemente de forma diferente por cada mestre do início e meados do século XX, e não chegou a ser amplamente sistematizada.
69 DECÂNIO FILHO, Angelo A. Falando em Capoeira. Salvador: Edição do autor, 1996.
70 FRIGÉRIO, Alejandro. Capoeira: de arte negra a esporte branco. Revista Brasileira de Ciências
Sociais, 10/4 jun. Rio de Janeiro. Pp 85-98.
71
MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da Música Brasileira: erudita, folclórica, e popular. M.A. Marcondes, ed. 2 Volumes. São Paulo: Art Editora. S.v. “Bate-Coxa” 79-80/1. “Batuque” 89/2. S.v. “Batuque-Boi” 89/2. S.v. “Capoeira” 147-8/1. S.v. “Chula” 192-3/1. S.v. “Pernada” 604/2.
72
Mest Manoel (2007, faixa 17).
73 Katharina Döring também utiliza uma tabela similar a esta para demonstrar os planos dos beats
Reco-reco x . . . x . x .
Agogô • . . . • . ▲ .
Pandeiro • . . • • . □ .
Berimbau mais grave – gunga – toque de angola . . x x • * ▲ . Berimbau médio – médio – toque inverso de angola . . x x ▲ . • . Berimbau mais agudo – viola – toque de angola . . x x • * ▲ .
Pandeiro • . . • • . □ .
Atabaque • . . • • . ■ .
Tabela 1 – Bateria e Toques
Vê-se acima o tradicional “toque de angola”, tocado pelo berimbau gunga (grave) (. . x x • * ▲ . )74, repetido pelo berimbau viola (agudo) - embora este execute variações sobre esta base -, e invertido75 pelo berimbau médio (. . x x ▲ . • . ), acompanhado pelo atabaque (• . . • • . ■ . )76, pelo agogô (• . . . • . ▲ .)77, pelos pandeiros (• . . • • . □ . )78 e pelo reco-reco (x . . . x . x . )79. O andamento varia muito, sendo mais lento no início da roda de Capoeira Angola - = ~ 60 -, e podendo aumentar até por volta de = ~ 90.
Estes toques também podem ser ensinados e aprendidos “por boca”, com a repetição vocal, num processo mnemônico de “padrões silábicos” ou “onomatopaicos”, já
74
Cada sinal corresponde a um pulso de uma estrutura de 8 pulsações do toque de angola. O som do berimbau é produzido pela percussão de uma baqueta de madeira (biriba) contra a corda de arame (retirado de pneus de carro) do instrumento. Os sinais indicam: ( . ) – silêncio; ( x ) – som chiado produzido pela corda levemente friccionada pelo dobrão (moeda ou pedra) e percutida pela baqueta; ( * ) - som chiado do dobrão interrompendo o som da corda solta percutida; ( • ) - corda solta; ( ▲ ) – corda presa. Os parênteses sugerem que se repita o toque ou célula rítmica indefinidamente.
75 Os nomes dos toques na capoeira angola variam muito de grupo para grupo, como já
demonstrou Shaffer (1977). Na linhagem de Mestre Pastinha difundida pelo GCAP, por exemplo, está o Mestre Boca do Rio, do Grupo Zimba, que chama o toque executado pelo berimbau médio apresentado aqui de “inverso de angola”. Já vi este toque sendo chamado tanto de “São Bento Grande” quanto de “São Bento Pequeno” por outros Mestres.
76
Os sinais indicam: ( • ) - som grave produzido com os dedos nas bordas do coro do atabaque; ( ■ ) – som produzido com o dedos e a palma da mão no centro do coro do atabaque, com a intenção de abafar o som.
77 ( ▲ ) – campana aguda; • - campana grave. 78
( □ ) – tapa no centro do coro com os dedos e a palma da mão ligeiramente com a lateral de fora; ( • ) - som grave produzido com os dedos nas bordas do coro do pandeiro.
identificado por Gerhard Kubik (1979, p. 20, 21) no depoimento que lhe concedeu Mestre Pastinha: “Eu toco berimbau cantando lá dentro”.
Era assim que o Contramestre Severino José Magalhães, conhecido como Nino Faísca na capoeira, do Grupo Angola Mãe, de Olinda, PE, ensinava no primeiro núcleo de Capoeira Angola de Curitiba, PR, fundado em 1994, o “Aprendizes de Angola”. O toque de angola, por exemplo, Nino vocalizava (. . tch tch tonch . tin . ), e o seu inverso (. . tch tch tin . ton . ).
Podemos chamar estes padrões rítmicos, ou rítmico-melódicos, dos instrumentos de percussão de “time-line patterns” (KUBIK, 1979, p. 13-15), isto é, linhas guias ou
ostinatos que permeiam todo o evento musical, orientando os participantes, muito
característicos da música afro-brasileira.
Neste caso as linhas guias persistem durante toda a roda, como uma orientação para os jogadores, tocadores, solista e coro, em três planos básicos de densidade: 1) os beats ou pulsos básicos (semínima) marcados pelos sons mais graves do atabaque, do pandeiro e do agogô, e intercalados com um acento contramétrico no sétimo pulso de uma linha guia de 8 pulsações, utilizando para isso os sons mais agudos destes instrumentos, e apresentando também uma apogeatura no som grave dos pandeiros e atabaque no quarto pulso; 2) as time-
lines dos berimbaus, que executam muitas variações e improvisos, estabelecendo, por vezes,
novos padrões rítmico-melódicos; e 3) e as frases rítmico-melódicas off-beat das vozes, com a utilização de “sìncopes” e antecipações.
Quanto aos toques de berimbau, teremos principalmente variações baseadas em toques do Candomblé e células rítmicas típicas do Samba de Roda80. Sobre a base mais comum nas rodas de Capoeira Angola, o “toque de angola” já apresentado acima, um ou mais berimbaus podem estabelecer as seguintes variações, identificadas, sobretudo, com ostinatos
80 Sugerimos escuta da Orquestra Nzinga de Berimbaus (NZINGA, 2003, faixas 16 e 32), no CD
executados pelo gã, ou agogô, nos toques de Candomblé. Uma das variações para o berimbau viola, e que também pode ser transformado em toque básico para este berimbau, é o “toque gêge”, segundo Mestra Elma, do Grupo Nzambi81
, aluna de Mestre Pato do Maranhão, da linhagem de Mestre Canjiquinha: ( • x x • x x • x ), ou ( • * . • * . • * ), ou ( •. . • . . • . ). No CD de Mestre Traíra (1963, faixa 7), esta variação ou toque, executada pelo gunga ou pelo
viola, é chamado de “gêge”: ( • . . • . . • . . • • . • . . • ), que às vezes transforma-se em ( • . • . • . • • . • . • ), e na mesma faixa, o seguinte toque é descrito como ketu: (• . . • . . • . . • . . • . • ) (♪ - 18). Estas denominações não correspondem às denominações dos
toques no Candomblé, mas a referências às Nações que os utilizam.
Sousa (1998, p. 77) já atentou para os “nomes de nações africanas associadas a nomes de toques da Capoeira”, em Rego (1968, p. 62-3):
A denominação de alguns toques da capoeira está ligada a determinados povos ou regiões africanas pura e simplesmente pelo nome, ou são toques litúrgicos ou profanos de que a capoeira se valeu, como Benguela, Angola, Ijexá e Gêge, isso sem se falar nas combinações Angola em Gêge e Gêge em Ketu. Antigamente, segundo capoeiristas idosos, o toque chamado na capoeira de Gêge era o toque dos povos gêges (Dahomey) chamado bravum, toque litúrgico, específico do deus Oxumarê, o Arco-íris e que na capoeira era tocado em atabaque, conforme a ilustração de capoeira existente em Rugendas. No toque ijexá, na capoeira de Gato (José Gabriel Goes), o nome é apenas um rótulo, pois o toque em si é uma alteração dos já conhecidos. Entretanto em Caiçara (Antônio da Conceição Morais), quando em exibição para turistas, é o toque litúrgico característico dos povos ijixás, tocado para alguns deuses, que Caiçara toca no berimbau e aplica na capoeira...
Tocado pelo berimbau viola, como variação que pode repetir-se por muitos compassos, o encaixe com o “toque de angola” e com o acompanhamento dos outros instrumentos fica da seguinte forma:
Reco-reco x . . . x . x .
Agogô • . . . • . ▲ .
Pandeiro • . . • • . □ .
Berimbau gunga – toque de angola . . x x • * ▲ . Berimbau médio – toque inverso de angola . . x x ▲ . • . Berimbau viola – toque de angola • * . • * . • *
Pandeiro • . . • • . □ .
Atabaque • . . • • . ■ .
Tabela 2 – Bateria, Toques e Variações de Capoeira Angola
O viola, com seu som marcante pelo timbre, altura aguda e intensidade, destacando-se dos outros instrumentos, ressalta, assim, a antecipação da quinta pulsação já marcada por vários instrumentos em muitos grupos de Capoeira Angola, sendo que o atabaque é o instrumento que mais se destaca na marcação deste quarto pulso. O resultado é o aparecimento de um desenho rítmico que Carlos Sandroni (2001, p. 28-29) chama de síncope característica, muito comum não só no Brasil como em grande parte da América Latina.
Temos ainda uma variação que corresponde ao ostinato do gã no “toque avaninha” ou “ramunha”, dos Candomblés de Nação Ketu, ou no “toque congo”, nos Candomblés de Nação Angola e de Caboclo: ( • x x • x x • x x x • x • x x x ), ou ( • * . • * . • *. . . • *. • * . . ), ou ( • . . • . . • . . . • . • . . . ). Esta variação pode ser tocada por qualquer um dos berimbaus e, tocada pelo berimbau viola, combina-se da seguinte forma com os toques na Capoeira:
Reco-reco x . . . x . x . x . . . x . x .
Agogô • . . . • . ▲ . • . . . • . ▲ .
Pandeiro • . . • • . □ . • . . • • . □ .
Berimbau gunga – toque de angola . . x x • * ▲ . . . x x • . ▲ . Berimbau – médio inverso de angola . . x x ▲ . • . . . x x ▲ . • . Berimbau – viola – toque de angola • * . • * . • * . . • * • * . .
Pandeiro • . . • • . □ . • . . • • . □ .
Atabaque • . . • • . ■ . • . . • • . ■ .
A célula rìtmica ( • • * • ) ou ( . • * • ) - geralmente repetida pelo menos mais de uma vez, resultando em ( • • * • • • * • ) ou ( . • * • • • * • ) - é parte muito característica do desenho rítmico tocado pelo berimbau nos Sambas de Roda em que se utiliza este instrumento, como após as rodas de Capoeira: ( • . x x • . x • • . x x ▲ • * • ) (♪ - 19)82. Este toque é também ensinado “por boca”, isto é, os mestres e professores pedem para seus alunos repetirem vocalmente: (don ton ch ton don ton ch ton). Uma variação desta célula pode ser a seguinte: ( ▲ • * • ), e repetida mais de uma vez ( ▲ • * • ▲ • * • ) ou (. • * • ▲ • * • ). O “toque de samba de roda” do berimbau, quando em ritmo muito acelerado, pode ser substituìdo apenas por esta célula tão caracterìstica do samba, semelhante ao já apresentado “toque cabula” executado pelo atabaque rumpi. No viola, esta variação pode aparecer da seguinte forma:
Reco-reco x . . . x . x . x . . . x . x .
Agogô • . . . • . ▲ . • . . . • . ▲ .
Pandeiro • . . • • . □ . • . . • • . □ .
Berimbau – gunga –toque de angola . . x x • * ▲ . . . x x • . ▲ . Berimbau – médio - inverso de angola . . x x ▲ . • . . . x x ▲ . • . Berimbau - viola – toque de angola . . x x • * ▲ . . • * • • * ▲ .
Pandeiro • . . • • . □ . • . . • • . □ .
Atabaque • . . • • . ■ . • . . • • . ■ .
Tabela 4 – Bateria, Toques e Variações Capoeira Angola
Outro empréstimo que a Capoeira Angola faz do Candomblé é o toque “ijexá” para o atabaque, tocado em alguns grupos, como o Menino de Arembepe83, de Mestre Lua de Bobó. O toque mais comumente usado no atabaque da Capoeira Angola é praticamente uma inversão da base do “toque ijexá”. Ao invés de se tocar ( □ . . • □ . • . ), como no ijexá, toca-se ( • . . • • . □ . ).
82 Mestre Manoel (2007, faixa 25).