Chapitre 2 Les films British-Asians
A. Qu’est-ce qu’un film British-Asian?
1. L’influence de Bollywood
Os “banquetes privados” da alta sociedade egípcia do Império Novo realizavam-se em espaços recatados e distantes dos olhares indiscretos da restante população, nomeadamente na casa dos nobres ou no palácio real. Tendo em conta o que já referimos no 1º capítulo no que concerne à perecibilidade das “habitações de vida” dos egípcios204, devido aos fracos materiais utilizados na sua construção, os melhores exemplos arqueológicos relativos à arquitectura doméstica, provenientes do Império Novo e pertencentes às classes mais elevadas da sociedade, são as denominadas villas de Amarna205 . Estas casas eram estruturas arquitectónica elevadas (vide Fig. 37), quase quadradas (vide Fig. 38), que se assemelhavam exteriormente a uma fortaleza206 devido à sua delimitação por um muro207. Dentro do seu complexo, existiam as mais variadas estruturas de apoio doméstico, nomeadamente celeiros, estábulos, os aposentos dos servos e um poço208.
De uma forma geral, a organização espacial da casa, em egípcio pr, implica a existência de três zonas espaciais diferentes, dispostas uma atrás da outra, com um “(...) progressively private character”209, entre as quais se destacam: uma zona semi-pública, uma zona central e uma zona privada (vide Fig. 39). De salientar que, ao contrário de Felix Arnold, Franco Cimmino distingue na sua obra Vida Cotidiana de los Egípcios, apenas duas partes independentes na casa: uma pública e outra privada. “La primera, con una sala de techumbre sostenida por columnitas y con divanes apoyados el la pared; la otra, dividida en ámbitos más pequeños, uno para dormir y otros para la cocina y los servicios higiénicos, que en las moradas más ricas comprendían baños y letrinas separadas”210. O ar e a luz
204 Vide 1.2.2.3.2..
205 Para além de Amarna, destacam-se Elefantina, Deir el-Medinah, Malqata, Medinet Habu, Sesebi, Tell ed- Dab’a e el-Lisht, cf. F. Arnold, “Houses” in D. B. Redford (Dir.), ob. cit, Vol. 2, p. 124.
206 Cf. F. Arnold, “Houses” in D. B. Redford (Dir.), ob. cit, Vol. 2, p. 122. 207 Cf. ibidem, p. 124.
208 Cf. ibidem, p. 124. 209 Ibidem, p. 124.
entravam nestas villas através de pequenas janelas quadradas cobertas com uma esteira e protegidas por uma grade de pedra211 (vide Fig. 37).
Seguindo o modelo de Felix Arnold212, a zona central da casa, em torno da qual se dispunham as diversas áreas da habitação, era o espaço principal de convívio da “família”, sendo constituída por uma única sala quadrada, st hms213, que ocupava a largura total do edifício e que possuía uma, duas ou quatro colunas. Outro elemento característico desta sala seria o assento do chefe da casa, um banco baixo, ou estrado, construído encostado a uma das paredes214. De acordo com a descrição desta área, podemos supor que seria neste espaço amplo que se realizariam os banquetes privados. Segundo Felix Arnold, esta sala dava acesso aos quartos e a salas mais reservadas, construídas na zona mais recuada da casa215. A partir da escada colocada numa das zonas laterais desta sala, os donos da casa tinham acesso ao telhado e às estruturas aí existentes (dispensas, cozinhas e mais quartos privados)216. Segundo Franco Cimmino, era no terraço que os habitantes da casa dormiam nas noites de maior calor217 (vide Fig. 37).
A zona semi-pública da casa era constituída por um pátio ou por um amplo átrio, cuja função seria a de resguardar a zona privada da casa, como uma espécie de ante-câmara, sendo palco das mais diversificadas actividades domésticas, nomeadamente a moagem de cereais e a alimentação dos animais da casa218.
Para além da sala ampla existente na zona central da habitação, outra das áreas da casa que serviria de complemento ao cenário dos banquetes era o jardim (vide Fig. 35), onde existia um lago artificial decorado, frequentemente, com flores de lótus flutuantes219 (vide Fig. 36) e um santuário privado220, que, para além de ser um espaço de lazer para a família nos seus momentos de ociosidade221 era, igualmente, considerado um espaço utilitário, onde se produziam os frutos e vegetais para consumo da casa222. Seria neste “jardim dos prazeres” que os convidados eram recebidos aquando da sua chegada à habitação dos anfitriões223.
210 F. Cimmino, ob. cit, p. 305. 211 Cf. ibidem, pp. 305 – 306.
212 Cf. F. Arnold, ob. cit, pp. 124 - 126.
213 “Place of sitting” ou “local para sentar”, cf. ibidem, p. 124. 214 Cf. ibidem, p. 124.
215 Cf. ibidem, p. 124. 216 Cf. ibidem, p. 124.
217 Cf. F. Cimmino, ob. cit, p. 306. 218 Cf. F. Arnold, ob. cit, p. 124.
219 Cf. R. Germer, “Flowers” in D. B. Redford (Dir.), ob. cit, Vol. 1, pp. 541. 220 “Private shrine”, cf. F. Arnold, ob. cit, p. 124.
221 Era um local onde os habitantes da casa jogavam e conviviam entre si. 222 Cf. L. Casson, ob. cit, p. 42.
Por seu turno, no que toca ao palácio, podemos distinguir duas áreas distintas nas quais se podiam realizar este tipo de eventos. Por um lado, salientamos a já referida zona oficial, a ala do palácio destinada aos banquetes, onde o Faraó recebia os mais altos dignatários e autoridades máximas das potências vizinhas com as quais o Estado mantinha uma boa relação institucional. Por outro lado, destacamos o denominado “harém”, em egípcio ipt224, que, tal como nos atestam alguns documentos administrativos do Império Novo, não designa apenas um conjunto de concubinas225, mas uma comunidade de mulheres e crianças que pertenciam à casa real, mas que viviam em edifícios separados do palácio226. Segundo Elfriede Haslauer, escavações arqueológicas em palácios reais datados do Império Novo, tais como os palácios de Amenhotep III e Akhenaton, atestam a existência de residências reais paralelas e independentes do palácio do rei, mais pequenas mas construídas à imagem do palácio do soberano, onde residiriam as mulheres pertencentes ao harém do rei227. Em Amarna, a “ala feminina” estava dividida em harém do sul e harém do norte, estruturas arquitectónicas que para além de possuirem paredes e pavimentos decorados com cores vivas, tinham, igualmente, jardins e pequenos lagos, flores, pequenos pomares, piscinas rodeadas de vegetação e animais228.
Estamos, assim, perante um conceito que remete não só para um determinado grupo social, só acessível a quem possuía um status elevado, mas, igualmente, um conceito claramente espacial, uma vez que designa uma estrutura habitacional privada específica, existente dentro do grande complexo arquitectónico que era o palácio real.
No Império Novo, a importância do harém aumentou consideravelmente, pois para além das mulheres que naturalmente faziam parte deste séquito, nomeadamente princesas, mulheres da alta sociedade e mulheres pertencentes à casa da rainha229, passam também a pertencer mulheres e crianças de alto estatuto, tomadas como despojos de guerra, o que dava, por sua vez, origem a casamentos diplomáticos que garantiam a paz entre o Egipto e algumas potências estrangeiras230. O harém real era considerado uma instituição
223 Para o estudo dos jardins como espaços utilitários e toda a sua simbologia, salientamos a obra de Alix Wilkinson, The Garden in Ancient Egypt e o artigo do mesmo autor “Simbolism and Design in Ancient Egyptian Gardens”.
224 Cf. E. Haslauer, “Harem” in D. B. Redford (Dir.), ob. cit, Vol. 2, p. 77.
225 “A côté de ces épouses, des femmes de second rang ont, en quelque sorte, un statut de concubine”, cf. J. Pirenne, La Religion et la Morale dans l’Egypte Antique, Paris, Éditions Albin Michel, 1965, p. 121.
226 Cf. E. Haslauer, ob. cit, p. 77. 227 Cf. ibidem, p. 79.
228 Cf. ibidem, p. 79.
229 Provenientes de classes mais baixas da sociedade, mas que ou pela sua beleza ou pelo seu talento, como o canto ou a dança, eram escolhidas para serem educadas “(…) for the king’s court”, podendo, posteriormente, casar com homens ligados ao rei ou da sua confiança, cf. ibidem, p. 77.
autónoma, detentora de uma administração própria, que recebia habitualmente dividendos de impostos da cidade onde estava situado, além de possuir terrenos agrícolas, gado e oficinas de manufacturas, tais como moínhos e oficinas de tecelagem231.
Presumivelmente, nestes espaços realizar-se-iam banquetes e festas privadas, momentos de convívio entre o faraó, o seu “harém” e o pessoal da mais alta patente e de sua inteira confiança, uma pequena minoria da nobreza egípcia. Nestes acontecimentos sociais também seriam cometidos os excessos característicos dos banquetes privados, embora aqui tivessem, provavelmente, mais exuberânia e fartura.