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L’industrie cinématographique, son aspect économique

Chapitre 1 Le cinéma britannique

B. Le cinéma britannique après la dévolution

2. L’industrie cinématographique, son aspect économique

As festas realizadas no seio das comunidades mais pobres, nomeadamente nos bairros operários. Tomando como exemplo o caso de Deir el Medinah156, podemos verificar que as principais festas deste estrato social eram as já referidas “festas públicas”, grandes acontecimentos religiosos, políticos e económicos que podiam durar vários dias e que eram constituídos por rituais diversificados. Estes acontecimentos espalhavam a euforia e a alegria pelo país, havendo, no entanto, e segundo Della Monica, registo de certas festividades e celebrações populares que eram vivenciadas entre a classe trabalhadora, junto das suas respectivas famílias, e que se caracterizavam pela sua longa duração (por vezes quatro dias) e pelos excessos, nomeadamente a indulgência no consumo de bebidas. Destacam-se as seguintes celebrações populares157:

 a celebração de uma determinada tarefa profissional considerada difícil, como o transporte de um colosso;

 a festa celebrada aquando da subida ao trono de um novo soberano, durante a qual eram distribuídos alimentos e vestuário pela população;

 as festas relacionadas com os cultos privados e pessoais das populações, como dos mortos, muitas vezes precedidas de procissões.

Nos bairros operários existiam capelas votivas construídas fora do perímetro dos muros, geralmente a sudeste do bairro que, para além da sua função arquitectónica e religiosa de capelas funerárias, eram, geralmente, constituídas por estruturas domésticas, nomeadamente cozinhas e bancos, sendo possivelmente aqui que as comunidades se reuniam nos dias festivos158. À semelhança do que acontecia nos banquetes privados, também a música, o canto e a dança faziam parte da festa destas populações159. Nestes acontecimentos festivos, à parte da bebida, a dança era uma fonte de prazer, de descontracção e a distracção principal destas gentes, que chegavam a estar nove dias fora de casa a trabalhar nas grandes construções do Faraó160.

156 Como exemplos do Império Novo salientemos, para além de Deir el-Medinah, os seguintes bairros operários: cidade de Ahmose em Abydos; a “Cidade do Norte” em Malkata; Deir el-Ballas e Tell el-Amarna. De salientar que a denominação de “bairro operário” designa um conjunto de pequenas habitações muradas contíguas, cujo perímetro era delimitado por um muro, sendo, na maior parte das vezes, organizados segundo um plano ortogonal. Diferiam ligeiramente umas das outras, tendo, contudo, no essencial o mesmo tipo de distribuição espacial, servindo, na maior parte dos casos, para albergar os trabalhadores das grandes construções do Faraó. Aquando da finalização das mesmas, estes bairros eram abandonados e, posteriormente, reocupados por outro tipo de comunidades, cf. P. Lacovara, ob. cit, pp. 47 – 51.

157 Cf. D. Monica, La Classe Ouvriére sous les Pharaons. Étude du Village de Deir el Medineh, Paris, Librairie d’Amerique et d’Orient, 1980, p. 159.

158 Cf. P. Lacovara, ob. cit, p. 51. 159 Cf. D. Monica, ob. cit, p. 55. 160 Cf. ibidem, p. 157.

Evidentemente, nestas festas não se verificavam as preocupações relacionadas com o requinte que veremos nos “banquetes privados” dos nobres, nem preocupações excessivas com a indumentária utilizada pelas senhoras, predominando aqui um ambiente despretensioso e natural. A festa era, para este estrato da população, simplesmente uma forma de convívio e de celebração dos bons momentos da vida junto daqueles que faziam parte dela.

1.2.3.2.2 Os funerais

Outro tipo de festa particular era aquela em que era celebrada a viagem do defunto para o Além. Este acontecimento, que encerra em si uma complexidade extrema pois é a base de sustentação da mentalidade cultural egípcia, era considerada a etapa mais marcante na existência de um indivíduo, sendo preparada com muita antecedência e com todo o rigor. No Antigo Egipto a morte era encarada, apenas, como “uma mudança de estado”161 , continuando a existência do morto agora numa outra realidade, melhor do que a terrena162. De uma forma genérica podemos afirmar que esta crença na eternidade e na sobrevivência da alma no Além revela o amor pela vida terrena163.

O túmulo seria o local em que o mundo dos mortos e o mundo dos vivos se tocavam, sendo aí que “(...) rodeado pelas recordações e pelos seus objectos, o defunto levava uma existência análoga à que vivera sobre a terra, sofrendo as mesmas necessidades e gozando dos mesmos prazeres”164. Para o homem egípcio “(...) morrer é atingir a imobilidade, a invariabilidade, é estabelecer-se num mundo regido por três dimensões, onde o tempo foi excluído”165.

O funeral pode ser, então, considerado uma festa privada, pois celebra a passagem do ka do defunto para a Duat, sendo um ritual de passagem da maior importância. Não se sabe ao certo a verdadeira ordem dos elementos realizados durante a celebração do funeral, sabendo-se, somente, o tipo de rituais realizados em, pelo menos, seis fases distintas do cerimonial166. A fase inicial do funeral consistiria, provavelmente, no “(...) luto na casa do defunto, à volta do leito fúnebre, numa cena de dor que era dominada pelo aflitivo choro das carpideiras profissionais”167. Seguia-se a saída do sarcófago de casa do defunto,

161 R. Ferreira de Sousa, “Morte” in L. Araújo (Dir.), ob. cit, p. 584. 162 Cf. ibidem, p. 584.

163 Cf. ibidem, p. 585. 164 Ibidem, p. 584. 165 Ibidem, p. 584.

166 Ao contrário das quatro fases defendidas por Luís Araújo, cf. L. M. Araújo, “Funerais” in L. Araújo (Dir.), ob. cit, p. 384.

acontecimento acompanhado por uma procissão dentro da qual se destaca a presença de um grupo de sacerdotes que incluiam um sacerdote stm e um jmj-ḫnt, elementos masculinos que “escoltavam” os vasos canopos, carpideiras e elementos do sexo masculino que transportavam o mobiliário e alguns bens do defunto a serem colocados no interior da sua última morada168. Dava-se, depois, início à sua viagem pelo Nilo até ao local de mumificação do corpo, em egípcio sḥ nṯr Jnpw ou a “tenda divina de Anúbis”169, para um processo que demorava cerca de 70 dias. Durante a travessia duas mulheres desempenhavam os papéis de Ísis e Néftis170, seguindo à volta da barca principal “(...) outras embarcações com a família do defunto, os amigos, as carpideiras”171 e os pertences do morto.

Findo o período da mumificação os familiares do defunto recolhem o corpo e dedicam-se a uma série de actos e rituais que correspondem à noção moderna de “funeral”172. Começa-se o cerimonial com uma procissão por barco até à j῾bt wsḫt, a grande casa da purificação173, passando o cortejo fúnebre, com o sarcófago ou a estátua do defunto, por inúmeros locais até chegar ao seu túmulo, nomeadamente por Sais, Buto, Heliopolis e Abidos174. Chegados à margem ocidental dá-se a fase final do funeral, que começava com o reinício do cortejo fúnebre sendo o sarcófago colocado num trenó de madeira que era puxado por vacas pelas areias do deserto até à necrópole tebana175. Quando o cortejo chegava ao túmulo iniciavam-se as cerimónias finais. Segundo Rogério Ferreira de Sousa, grande parte do culto funerário destinava-se a “(...) garantir o acesso ao uso dos bens essenciais à vida, a água, o ar e o alimento, necessário ao ka (força vital e sexual)”176. Desta forma, primeiro realizavam-se os rituais praticados pelos sacerdotes, nomeadamente a queima de incensos177, libações178 e alguns episódios da denominada cerimónia da Abertura da Boca, seguindo-se a despedida da esposa do defunto (vide Fig. 32) e o ritual de puxar do sarcófago vazio179 para trás e para a frente por um sacerdote ka

(hemu-ka), que o colocava a norte, e pelo embalsamador, que o colocava a sul180. Por

último, a múmia, o sarcófago, o tekenu e a arca canópica (que continha os quatro vasos

168 Cf. A. M. Roth, “Funerary Ritual” in D. B. Redford (Dir.), ob. cit, Vol. 1, p. 578. 169 Cf. ibidem, p. 578.

170 Cf. L. M. Araújo, ob. cit, p. 384. 171 Cf. ibidem, p. 385.

172 Cf. J. Taylor, Death & the Afterlife in Ancient Egypt, London, British Museum Press, 2001, p. 187. 173 Cf. A. M. Roth, ob. cit, p. 578.

174 Cf. ibidem, pp. 578 - 579. 175 Cf. L. M. Araújo, ob. cit, p. 385. 176 R. Ferreira de Sousa, ob. cit, p. 584. 177 Cf. A. M. Roth, ob. cit, p. 579. 178 Cf. ibidem, p. 579.

179 E o denominado tekenu, cf. ibidem, p. 579. 180 Cf. ibidem, p. 579.

canopos) eram alvo de oferendas, que incluiam animais sacrificados, que asseguravam a segurança do defunto181. O sarcófago era, posteriormente, enterrado juntamente com os seus pertences numa espécie de poço ou, caso se tratasse de um nobre, colocado no interior do túmulo182.

O funeral terminava com o denominado banquete fúnebre, durante o qual os participantes nas cerimónias fúnebres se reuniam, entrando “(...) em comunhão espiritual com o morto”183.

Apesar da evidentes existência e difusão do fenómeno que Ann Macy Roth denomina de “democratização do Além”184, e salvaguardando-se o estatuto social do defunto185, todo o cerimonial da morte obedecia a rituais “(...) performed by the living for the dead”186, que asseguravam a imortalidade da alma no Além. Segundo Ann Macy Roth187, existiam dois tipos distintos de rituais: os “rituais funerários” propriamente ditos, que eram realizados apenas uma vez aquando do funeral do defunto e que incluiam os seguintes cerimoniais: todas as cerimónias associadas à mumificação e à inumação do mesmo; todos os rituais de acesso às partes seladas do túmulo; as viagens processionais realizadas pela múmia (ou pela sua estátua substituta) e, igualmente, “(...) various farewell gestures by the family of the deceased”188. O segundo tipo de rituais eram realizados após o funeral, por funcionários do culto ou por familiares do defunto e “(...) others visiting the deceased at the tomb-chapel”189, podendo consistir, eventualmente, em repetições de alguns rituais realizados aquando do funeral, embora seja impossivel, até à data, determinar quais seriam esses rituais190 devido à escassez de fontes de que dispomos191, facto que, porventura, terá a sua explicação no secretismo ou no carácter sagrado de alguns destes momentos que, por estes motivos, não seriam representados iconográficamente192.

181 Cf. ibidem, p. 579.

182 Cf. L. M. Araújo, ob. cit, p. 385. 183 Ibidem, p. 385.

184 Os rituais funerários surgiram, numa primeira instância, para assegurar a imortalidade da alma do Faraó, sendo adoptados, numa segunda fase, pela aristocracia egípcia, passando, por fim, a culto generalizado, cf. A. M. Roth, ob. cit, p. 576.

185 De uma forma geral, existiria uma grande diferença entre os rituais funerários executados ao Faraó e aqueles que eram realizados à restante população, cf. ibidem, p. 576.

186 Ibidem, p. 575.

187 Cf. ibidem, pp. 575 - 576. 188 Ibidem, p. 575.

189 Ibidem, p. 575. 190 Cf. ibidem, p. 575.

191 Para o Império Novo salientamos como fontes não só a iconografia presente nas paredes dos túmulos tebanos e menfitas, mas, também, as representações funerárias existentes nos sarcófagos, nomeadamente imagens da Cerimónia da Abertura da Boca, cf. ibidem, p. 578.

De uma forma geral, os diversos cultos e rituais funerários, realizados por sacerdotes ou pelos familiares do morto, existiam com a função primordial de “garante” de continuidade da existência do morto no Além, pois asseguravam a perpetuação dos elementos fundamentais à sobrevivência do defunto193. Embora idealmente estes cultos devessem ser realizados diariamente194, existiam alguns que seriam realizados apenas em ocasiões especiais, tais como os festivais195, tornando-se, facilmente, em acontecimentos festivos que celebravam ocasionalmente a passagem do defunto para uma outra vida e que, por isso mesmo, eram episódios que deviam ser devidamente comemorados e realizados com alguma frequência por forma a renovarem a força vital da alma do defunto.