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Chapitre 6 : Discussion

6.4 L’impact des facteurs organisationnels

Em meados da década de 90, mais exatamente em 1994, Le Boterf publicou um ensaio sobre competências que teve uma repercussão significativa, gerando outras oportunidades de reflexão sobre o tema, como encontros, conferências e projetos baseados no assunto. As novas reflexões levaram o autor a transformar o ensaio, gerando a uma evolução da abordagem, esta evolução é apresentada em sua obra publicada no Brasil em 2003. A obra citada mostra principalmente os seguintes pontos: a necessidade de raciocinar em termos de profissionalismo, e não mais apenas em termos de competências; a importância de fazer a distinção entre a ação-competência e os recursos necessários para a sua realização; a relevância da abordagem combinatória, pela qual cada ação competente é produto de uma combinação de recursos; a gestão da profissionalização em termos de navegação profissional; a pertinência de um novo tipo de gerenciamento; e a importância da competência coletiva (LE BOTERF, 2003).

A abordagem de Le Boterf não é a única que compõe a escola francesa, mas é certamente uma das mais importantes. Parte deste trabalho tomará como referência a visão do autor, pois esta apresenta significativa relevância no que se refere às competências individuais, o foco da questão aqui abordada. É importante pensar em competências no contexto organizacional, levando em consideração o papel destas para o processo de crescimento e para a competitividade das empresas. Porém, neste trabalho o intuito é analisar a relevância das competências individuais, não pensando apenas na aplicabilidade ao contexto organizacional. O trecho abaixo clarifica tal questão:

“É justamente da ‘escola francesa’ que, em nosso entender, são desenvolvidas as principais contribuições à noção de competência individual: não seria esta última um estado de formação educacional ou profissional, tampouco um conjunto de conhecimentos adquiridos ou de capacidades apreendidas: seria, isso sim, a mobilização e a aplicação de conhecimentos e capacidades numa situação específica, na qual se apresentam recursos e restrições próprias a essa situação”.(RUAS, 2005, p.48)

O conceito de profissionalismo é algo relevante na abordagem de Le Boterf. Para este autor, o profissional é aquele que sabe administrar uma situação profissional complexa, ou seja, é capaz de identificar com antecedência quais competências precisará mobilizar para solucionar problemas e enfrentar situações profissionais que estão sujeitas a constantes alterações, uma vez que dependem de diversos fatores externos, como os tecnológicos, econômicos, organizacionais, etc. O autor faz a seguinte diferenciação entre o trabalhador e o profissional: “Espera-se

que o trabalhador exerça sua qualificação para realizar um trabalho; espera-se que o profissional operacionalize competências para administrar uma situação profissional complexa” (LE BOTERF, 2003, p. 25).

A citação acima menciona um ponto muito debatido, principalmente na literatura francesa, a questão da qualificação e da competência. Trata-se de uma discussão não muito recente, mas de significativa importância para o estudo do tema competência. Como este não é o foco deste trabalho, mas é algo relevante, serão feitas aqui apenas duas citações retiradas da conclusão da obra “Da qualificação à competência”, organizada por Antônio Tomasi:

“A noção de qualificação é construída com base na sociologia e, após um grande esforço para conceituá-la, parece haver, há algum tempo, um consenso entre os sociólogos de que se trata de uma noção em aberto, em evolução permanente, porque tem na noção de trabalho, esta também em aberto, uma referência fundamental.” “A competência, ao contrário, é uma demanda do patronato, e o termo é empregado por ele e não pelos sociólogos. Ela trata das exigências de cada posto, que as empresas já não sabem definir e cuja ausência se manifesta em uma pane ou no prolongamento de uma pane. Ela independe das especificidades do indivíduo e diz respeito às capacidades profissionais, à sua formação sistemática e socialmente controlada” (TOMASI, 2004, p. 157).

O profissional competente é aquele que efetivamente sabe agir com competência. Sendo assim, é preciso compreender o que está por trás deste saber agir com competência. Têm-se aqui dois pontos relevantes, o primeiro são os recursos (sejam eles intrínsecos, como conhecimentos e habilidades; ou extrínsecos, como bancos de dados) que o profissional vai precisar utilizar e o segundo é a ação para mobilizar tais recursos.

Outro ponto importante abordado por Le Boterf é a importância da abordagem combinatória, onde o autor defende que cada ação competente é resultado de uma combinação de recursos. Ele defende também que não existe apenas uma única forma de ser competente em relação a uma determinada situação, várias formas de combinar recursos são possíveis, gerando diferentes formas de ser competente diante de uma mesma situação. Para o autor, o saber combinatório está no centro de todas as competências.

A questão da navegação profissional chama a atenção para a importância das empresas levarem em consideração os planos e projeções dos profissionais que nelas trabalham. A idéia aqui seria de pensar não somente no planejamento de carreiras ou na formação continuada, mas levar em consideração a necessidade de se criar novos “espaços de profissionalização”, onde os profissionais possam se desenvolver e aprender de forma constante.

A necessidade de um novo tipo de gerenciamento surge como reflexo das características subjetivas dos conceitos de competência e profissionalismo. O “querer fazer”, que está implícito no profissionalismo, torna as antigas praticas de gestão, baseadas no controle, ineficientes. Para Le Boterf “o gerenciamento da

profissionalização é um gerenciamento que dá sentido e age por influência, auxilia a fixar uma meta aceita de comum acordo e cria as condições propicias aos percursos e às dinâmicas de profissionalização” (LE BOTERF, 2003, p. 13).

A prioridade que deve ser dada à questão da competência coletiva é outro ponto relevante na obra de Le Boterf, aqui o autor argumenta que as competências coletivas são uma propriedade das instituições, propriedade esta que emerge da articulação e da sinergia entre as competências individuais e outros fatores relevantes. Como a questão das competências coletivas não é foco deste trabalho, esta parte não será aprofundada, mas é importante ser citada, pois se trata de um ponto crucial da obra analisada.

Para Le Boterf existem dois modelos da competência, os quais exercem influência nas práticas de gestão da atualidade. São eles: “o modelo A”, “herdado

das concepções taylorista e fordista, em que o sujeito é considerado como um operador cuja competência se limita a saber executar operações de acordo com a prescrição”; e o “modelo B” no qual “o profissional é aquele que sabe ir além do prescrito, que sabe agir e, portanto, tomar iniciativas” (LE BOTERF, 2003, p. 90). O

quadro abaixo esclarece melhor a diferença entre os dois modelos:

Quadro 1.4 – Modelos de gestão da competência

Modelo “A”

(Concepção taylorista e fordista)

Modelo “B”

(Perspectiva da economia do saber) Operador

Executar o prescrito Executar operações

Saber-fazer Adotar um comportamento Malha estrita para identificar a

competência Gerenciamento pelo controle Finalização sobre o emprego

Ator Ir além do prescrito Executar ações e reagir a

acontecimentos Saber agir Escolher uma conduta Malha larga para identificar a

competência Gerenciamento pela condução

Finalização sobre a empregabilidade Modelo “A”

(Concepção taylorista e fordista)

Modelo “B”

(Perspectiva da economia do saber) Operador

Executar o prescrito Executar operações

Saber-fazer Adotar um comportamento Malha estrita para identificar a

competência Gerenciamento pelo controle Finalização sobre o emprego

Ator Ir além do prescrito Executar ações e reagir a

acontecimentos Saber agir Escolher uma conduta Malha larga para identificar a

competência Gerenciamento pela condução

Finalização sobre a empregabilidade

O modelo de gestão proposto por Le Boterf está claramente alinhado com o que o autor chama de “modelo B”. Percebe-se uma certa identificação entre o “modelo A” e a linha do próximo autor que será trabalhado, Robert Quinn. Não se pode garantir que a visão de Robert Quinn está totalmente alinhada com o “modelo A” acima apresentado, mas acredita-se que algumas características da proposta de Quinn permitam esta correlação.

O quadro abaixo que propõe um resumo das principais características do profissional, na visão de Le Boterf. Ele contém os cinco saberes que serão abordados na pesquisa, além de uma breve explicação de cada um dos saberes.

Quadro 1.5 – Características esperadas do profissional

O profissional: aquele que sabe administrar uma situação profissional complexa.

saber agir e reagir com pertinência saber combinar recursos e mobilizá-los em um contexto saber transpor saber aprender e aprender a aprender saber envolver-se

- saber o que fazer; - saber ir além do prescrito; - saber escolher na urgência; - saber arbitrar, negociar, decidir; - saber encadear ações de acordo com uma finalidade.

- saber construir competências a partir de recursos;

- saber tirar partido não somente de seus recursos incorporados (saberes, saber-fazer, qualidades), mas também dos recursos do seu meio. - saber memorizar múltiplas situações e soluções-tipos; - saber distanciar-se, funcionar em “dupla direção”;

- saber utilizar seus

metaconhecimentos para modelizar; - saber determinar e interpretar indicadores de contexto; - saber criar as condições de transponibilidade com o auxílio de esquemas transferíveis.

- saber tirar as lições da experiência; - saber transformar a sua ação em experiência;

- saber descrever como se aprende; - saber agir em circuito duplo de aprendizagem.

- saber envolver sua subjetividade; - saber assumir riscos;

- saber empreender; - ética profissional. O profissional: aquele que sabe administrar uma situação profissional complexa.

saber agir e reagir com pertinência saber combinar recursos e mobilizá-los em um contexto saber transpor saber aprender e aprender a aprender saber envolver-se

- saber o que fazer; - saber ir além do prescrito; - saber escolher na urgência; - saber arbitrar, negociar, decidir; - saber encadear ações de acordo com uma finalidade.

- saber construir competências a partir de recursos;

- saber tirar partido não somente de seus recursos incorporados (saberes, saber-fazer, qualidades), mas também dos recursos do seu meio. - saber memorizar múltiplas situações e soluções-tipos; - saber distanciar-se, funcionar em “dupla direção”;

- saber utilizar seus

metaconhecimentos para modelizar; - saber determinar e interpretar indicadores de contexto; - saber criar as condições de transponibilidade com o auxílio de esquemas transferíveis.

- saber tirar as lições da experiência; - saber transformar a sua ação em experiência;

- saber descrever como se aprende; - saber agir em circuito duplo de aprendizagem.

- saber envolver sua subjetividade; - saber assumir riscos;

- saber empreender; - ética profissional.

Para elucidar a visão apresentada no quadro, busca-se aqui descrever um exemplo que toma como base o “saber aprender e aprender a aprender”. As atividades cotidianas de um profissional que trabalha em consultoria, na área de gestão de recursos humanos, por exemplo, demandam constantemente este saber. Isso ocorre por que as lições tiradas com a experiência adquirida no desenvolvimento de projetos para outros clientes podem ser consideradas uma das principais fontes de conhecimento para esse profissional. Sendo assim, ele precisa ter a habilidade de saber transformar este conhecimento em efetivo aprendizado, agregando valor para a consultoria na qual trabalha, e, principalmente, para os clientes que atende. A capacidade de concatenar as idéias e fazer as correlações necessárias para se extrair o máximo possível das experiências anteriores é um desafio constante para esses profissionais.

Com os aspectos abordados neste item do trabalho buscou-se apresentar os principais pontos da visão de Le Boterf sobre a questão das competências e dos saberes. O próximo item terá o intuito de mostrar os pontos mais relevantes da proposta apresentada por Robert Quinn, autor cujas idéias completarão a sustentação teórica deste trabalho.