Como bem lembra Bruno Nettl (1983) no capítulo “Come back and see me next
tuesday: essentials of fieldwork”, o começo do trabalho de campo é um momento tenso que
requer paciência e coragem. Sem dúvida, constitui um momento delicado para o qual nenhum manual de pesquisa prepara e que não pode ser ensinado, por conta das peculiaridades de cada situação, contexto e grupo social. Segundo o autor, cada pesquisador deve fazer a sua experiência, “descobrindo maneiras para intermediar sua própria personalidade com suas
113 (...) combines symmetry and substance, with an infinite variety of shapes, substances, transmutations, multidimensionalities, and angles of approach. Crystals grow, change, alter, but are not amorphous. Crystals are prisms that reflect externalities and refract within themselves, creating different colors, patterns, and arrays, casting off in different directions. What we see depends upon our angle of repose. Not triangulation, crystallization.
forças e fraquezas e as pessoas, sobre cujas crenças compartilhadas aprenderá e interpretará, ganhando confiança e controlando a timidez114” (NETTL, 1983, p. 136). Marshall e Rossman
(2006) constatam que o sucesso das pesquisas qualitativas depende principalmente das habilidades interpessoais do pesquisador (MARSHALL & ROSSMAN, 2006, p. 78).
Como em todas as relações sociais que estabelecemos em nossa vida, nada acontece de um momento para outro, pois o sentimento de confiança que o grupo deve perceber a respeito do pesquisador carece ser conquistado e construído. O grupo precisa compreender as intenções, os objetivos e como o pesquisador pretende consegui-los. Assim, corrobora Lima (2008), ao escrever “por uma metodologia mais humana” na sua dissertação:
Por isso, o diálogo entre as partes envolvidas neste tipo de trabalho deve ser o mais “aberto” possível, procurando mantê- las sempre esclarecidas sobre os objetivos do trabalho proposto às comunidades, sobre as intenções e expectativas alimentadas mutuamente, e sobre as direções que os resultados e produtos gerados por esta pesquisa deverão tomar (LIMA, 2008, p. 8).
Por esta razão, passei por um período em que frequentei o espaço, conversei com as pessoas de maneira descontraída. Nas semanas iniciais deixei os equipamentos para registro em áudio ou vídeo em casa, me preocupando somente em estabelecer uma relação com as pessoas. Considerei importante que o grupo se acostumasse aos poucos com minha presença enquanto observadora.
Outro aspecto importante para a entrada em campo do pesquisador é sempre ter a sensibilidade e humildade de reconhecer que não estamos em “nossa casa”. Lembra Stake (2003, p. 459) que “os pesquisadores qualitativos são hóspedes nos espaços privados do mundo. Suas maneiras deveriam ser boas e seu código de ética rigoroso115”.
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(...) finding ways of mediating between our own personalities with their strenghts and weakness and the individuals whose shared beliefs we will learn and interpret, using confidence and mastering timidity.
115 Qualitative researchers are guests in the private spaces of the world. Their manners should be good and their code of ethics strict.
É necessário, a meu ver, pedir a autorização e licença ao líder do grupo para saber o que pode ser feito e quando. Como não conhecemos as regras e os valores vigentes entre os membros do grupo, torna-se necessária esta constante negociação. O grupo não pode ter a sensação que o pesquisador esteja invadindo o seu espaço, criando desequilíbrios, pois, desta forma, não se abrirá e permitirá somente o acesso a algumas informações. Oliveira (2003, p. 3), a este propósito, lembra que “o pesquisador tem que negociar sua identidade e sua inserção na comunidade, fazendo com que sua permanência no campo e seus diálogos com os atores sejam, por definição, consentidos”.
Outro aspecto importante é a sinceridade, pois, apesar de estas atitudes serem importantes para o bom desenvolvimento da investigação, não podem ser ditadas por mero interesse, mas em nome de um envolvimento real, honesto e de uma sã empatia.
Estas questões remetem para aspectos éticos: mesmo tendo consciência de que cada ser humano interfere, ao se integrar em um grupo, é preciso ter muito cuidado para não criar desequilíbrios. Às vezes, os pesquisadores que entram em campo concebem seu próprio sistema de valores como único e válido e desconsideram outras maneiras de compreender a vida e o mundo. Isto pode se traduzir em ações “naturais” para o pesquisador, mas ofensivas ou invasivas para o contexto em estudo. Sobretudo no começo, os membros do grupo se abrirão somente após o líder expressamente ter deixado claro a razão da presença desta nova pessoa e como eles deverão se comportar com ela.
Embora qualquer pesquisador concorde com a necessidade de haver respeito e seguir um código de ética, Smith (2005) questiona o que se entende com este termo. Para a autora “o que inicialmente parece uma simples questão de respeito, pode terminar em uma complicada questão de protocolos culturais, linguagens do respeito, rituais do respeito, códigos de trajes116”
116 What at first appears a simple matter of respect can end up as a complicated matter of cultural protocols, languages of respect, rituals of respect, dress codes (…).
(SMITH, 2005, p. 98). O respeito, como outros valores, engloba normas sociais, comportamentos e significados bastante complexos, enquanto um de muitos valores ativos e disputados em qualquer âmbito social.
Quando, durante o curso de mestrado, comecei a pesquisa com a Banda Lactomia, os integrantes, que eram adolescentes, se mostraram muito fechados e começaram a se comunicar comigo somente após a autorização de Jair, o líder. No Centro Esportivo de Capoeira Angola, isto não aconteceu de forma tão acentuada, porque o Mestre Faísca, desde o começo, explicou qual a finalidade da minha presença, o que faria e como. Embora o Mestre Faísca ainda não me conhecesse, abriu as portas da sua instituição de forma muito cortês e disponível e demonstrou saber o que implicava o fato de estar participando de uma pesquisa em seu percurso e resultados. A confiança que ele depositou em mim, sem me conhecer, me fez valorizar e ficar mais sensível ainda ao fato de que eu não devia me basear em minhas normas de comportamento, mas perguntar constantemente e aguardar por um retorno do Mestre.
Percebi, ao longo dos anos, que em muitos grupos de tradição oral existe um sentimento de desconfiança a respeito das pessoas que vêm “de fora”. Infelizmente, muitos turistas, pesquisadores e pessoas, em geral movidos por vários interesses, às vezes, se aproveitaram dos únicos bens que estas pessoas possuem: sua riqueza cultural. Fotografam, filmam, gravam, entrevistam com vários objetivos e depois, em muitos casos, desaparecem sem dar um retorno. Muitos, sucessivamente, publicam, produzem CDs ou vídeos sem autorização e sem dar os devidos créditos às pessoas que participaram, ganhando dinheiro ou fama à custa dos reais autores e atores.
Nzewi (2007a), em uma parte do capítulo sobre orientação de pesquisa no livro “A
contemporary study of musical arts informed by African indigenous knowledge systems”,
comunidade acolhem um estranho, um pesquisador, ou seja, uma daquelas pessoas que nem acabou de chegar e logo começa a fazer muitas perguntas, gerando de imediato uma reação de desconfiança. Eles se comportam de forma educada, polida sem deixar transparecer que as informações fornecidas não são corretas ou completas. Atitudes motivadas pela intenção de salvaguardar seus saberes, sua herança cultural, mas que em tempos passados fizeram com que alguns pesquisadores chegassem à conclusão de que os membros destas ou daquelas comunidades não fossem intelectualmente capazes de discutir, em termos filosóficos, sobre suas práticas culturais. Foram consideradas pessoas intelectualmente inferiores, primitivas. Em outras situações, os próprios pesquisadores não souberam interpretar corretamente, divulgaram saberes cuidadosamente guardados e/ou, por conta de sua ignorância e falta de sensibilidade, desrespeitaram costumes e convenções sociais da comunidade. Estas situações podem alienar os membros da comunidade, bem como colocar em risco o acesso do pesquisador à verdade sobre o tema e o objetivo da pesquisa (NZEWI, 2007a, p. 146).
Wilson (2008), em seu livro “Research is ceremony: indigenous research methods”, traça um breve histórico das pesquisas realizadas em comunidades indígenas e constata que estas populações já se tornaram acostumadas em receber pesquisadores, vê-los coletar dados e ir embora. Pelo fato de serem, em grande parte, excluídos do processo de investigação, as comunidades passaram a mostrar ressentimento para pesquisas em geral. Só a partir da década passada, segundo o autor, a situação iniciou a mudar: aos poucos as comunidades indígenas começaram a se tornar cada vez mais parte do processo de pesquisa, da mesma forma que a utilidade da pesquisa começou a se tornar cada vez mais visível e proveitosa para elas próprias.
Vivenciei de perto experiências similares quando trabalhei como coordenadora pedagógica da Escola Profissionalizante de Música “Pracatum”. Muitos estudantes universitários se aproximavam das comunidades dos bairros da periferia, com o intuito de
buscar informações para seus trabalhos acadêmicos, sem terem sido devidamente orientados sobre como se comportar do começo até o fim com os membros do grupo. Chegavam com muita pressa de começar e concluir, preocupados visivelmente com a entrega do trabalho (e com a nota), sem procurar conhecer aquela realidade, sem buscar uma interação, uma comunicação mais verdadeira com o grupo e sem pensar em retribuir, de alguma maneira, o tempo que foi dedicado a eles. Retribuir no sentido de devolver para o grupo pelo menos os resultados do estudo.
Percebia que os estudantes, em muitos casos, chegavam às comunidades sem humildade e de forma preconceituosa: encontravam pessoas que podiam até ter uma baixa escolaridade, mas que detinham uma sabedoria enorme, e com as quais poderiam aprender muito, se tivessem outra compreensão do contexto e da vida em geral.
A queixa, por parte dos membros das comunidades, é que geralmente eles nem devolvem uma cópia sequer do trabalho realizado, gerando assim um sentimento de insatisfação pelo tratamento recebido, preconceito com os ambientes acadêmicos, e frustração pelo tempo investido. Mas a questão vai além da simples entrega de um trabalho acadêmico, pois se sabe que a linguagem escrita utilizada neste ambiente também representa uma barreira para muitos membros das comunidades de periferia. Milton Santos117, durante uma entrevista
realizada no programa Conexão Roberto D’Ávila, em 1998, sugeriu que o mundo acadêmico abandonasse um pouco sua língua, o “facultês”, para utilizar uma linguagem que seja compatível e representativa para outros grupos sociais. Além do trabalho escrito, a meu ver, seria interessante poder apresentar oralmente os resultados obtidos em um encontro, um bate- papo com os membros do grupo ou de uma comunidade para debater as questões levantadas e observar as reações.
Para Smith (2005), muitas vezes, a ética no ambiente acadêmico é mais uma questão de regulamentação institucional e códigos que a consideração das reais necessidades, aspirações e concepções de mundo das comunidades marginalizadas e vulneráveis. Ela afirma que
para as comunidades autóctones e outras marginalizadas, a ética na pesquisa é em um nível muito básico voltado para o estabelecimento, a manutenção e o cuidado com as relações respeitosas e recíprocas, não somente entre pessoas enquanto indivíduos, mas também com pessoas enquanto indivíduos, enquanto coletividades, e enquanto membros de comunidades e com seres humanos que vivem e convivem com outras entidades no ambiente118 (SMITH, 2005, p. 97) (grifo meu)
A consequência destas atitudes é que a desconfiança tornou-se geral. Na época em que acompanhava os ensaios do Arrastão da Timbalada119 não era possível tirar fotos, gravar ou filmar sem autorização prévia. Apesar do enorme interesse neste tipo de material, nunca passou pela minha mente transgredir este acordo tácito. Quando trabalhei como coordenadora pedagógica da Escola Profissionalizante de Música “Pracatum”, muitas eram as solicitações provenientes de faculdades particulares para realizar entrevistas, filmagens, observações. Foi necessário regulamentar estas visitas para não atrapalhar o andamento das atividades. Mesmo orientando e sensibilizando os estudantes sobre o contexto social e sobre o comportamento esperado pela instituição, ninguém mais se manifestava após sua saída pela porta da instituição.
Um ulterior exemplo diz respeito ao evento em que, a cada ano, se celebra o aniversário do Mestre João Pequeno no Forte Santo Antônio, onde não é permitido fotografar ou filmar sem prévia autorização de algum membro da família. Esta rigidez, como pode ser
118
For indigenous and other marginalized communities, research ethics is at a very basic level about establishing, maintaining, and nurturing reciprocal and respectful relationships, not just among people as individuals but also with people as individuals, as collectives, and as members of communities, and with humans who live in and with other entities in the environment.
119 O Arrastão da Timbalada é um grupo percussivo fundado por Carlinhos Brown, que desfila geralmente na Quarta-Feira de Cinza acompanha a banda Timbalada, encerrando o carnaval. Às vezes também participa na festa do Senhor do Bonfim e de Yemanjá. O grupo conta com uma média de 200 ou mais percussionistas.
aparentemente interpretada, foi uma reação a esta mentalidade “predatória”, que não reconhece, não valoriza e se aproveita do saber do outro.
Quem não conhece e não reflete sobre estas situações, considera exageradas estas normas, mas é preciso prestar atenção, pois se os grandes mestres tivessem se preocupado com o aspecto financeiro, como afinal acontece em qualquer outro ambiente profissional, não chegariam à terceira idade dependendo do SUS, sem uma renda compatível com as suas necessidades, em termos de alimentação e saúde. Com certeza, teriam uma qualidade de vida digna correspondente com o que eles fizeram em prol do bom nome da cultura baiana/brasileira em território nacional e internacional.
Mestre Faísca expressou seu pensamento a respeito das interrelações que se estabelecem ao longo de uma pesquisa no final de várias entrevistas. Ele constata que
Às vezes, a pessoa vem me entrevistar, mas você vê que, na realidade, é uma entrevista que não tá preocupada com nada. Na realidade, não tá nem preocupado em descobrir alguma coisa. Eu pude perceber você nesse tempo dentro da escola, que quando você vem aqui, você vem querer saber. Esta questão de relação, de comunicação, de falar de capoeira, do que ensinar... Você acabou me dando mesmo um prazer, porque tenho um prazer em ensinar a capoeira, prazer, porque você teve interesse realmente e teve humildade, interesse de estar realmente entrando dentro do nosso meio, junto com nós.
(Entrevista – 23/07/07).
É preciso então que o pesquisador, ao pretender realizar sua investigação, esteja ciente deste background, para se tornar um diferencial em termos de ética, respeito, humildade, sinceridade.