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I. DISPOSITIONS GÉNÉRALES

8. D ÉROULEMENT DES COMPÉTITIONS OFFICIELLES

A escolha do estudo de caso foi motivada pelo desejo de concentrar meu olhar no contexto do projeto “João e Maria, Capoeira Angola e Cidadania” realizado no Centro Esportivo de Capoeira Angola - Rio Vermelho (CECA - RV), e assim responder ao objetivo da pesquisa: investigar de que forma os valores civilizatórios afro-brasileiros estão presentes nas aulas de capoeira do projeto “João e Maria, Capoeira Angola e Cidadania”. Alguns fatores fizeram com que optasse por este design metodológico como, por exemplo, a forma das questões de pesquisa, centradas principalmente no “como” e no “por quê”; a pesquisa ser realizada no seu contexto natural, não tendo o pesquisador controle sobre os acontecimentos; a necessidade de coletar os dados de várias formas.

Na literatura, o estudo de caso ocupa uma posição central em áreas como a antropologia, educação, história, saúde, ciências políticas, psicologia e sociologia, sendo que, mais recentemente, esta metodologia começou a ser utilizada também em estudos econômicos. Na área de educação, os estudos em questão são geralmente voltados para pessoas, grupos ou programas.

Segundo Feagin, Orum e Sjoberg (1991), estudo de caso pode compreender também o procedimento etnográfico, as histórias de vida e história social, embora outros autores não concordem com esta visão por considerar que estas metodologias de pesquisa tenham uma trajetória e dinâmica própria. Muitos estão da opinião de que o estudo de caso foi geralmente utilizado para pesquisas exploratórias e que, por esta razão, esta abordagem não goza de grande reputação no meio acadêmico, sobretudo aquele dominado pela pesquisa quantitativa.

Gerring (2007) começa por definir o termo “caso” para, em seguida conceituar “estudo de caso”. Segundo ele, “um caso envolve um fenômeno espacialmente delimitado (uma unidade) observada em um determinado momento ou durante um período de tempo. Compreende o tipo de fenômeno que uma inferência procura elucidar110” (GERRING, 2007, p. 19). “Um estudo de caso” – continua – “pode ser entendido como um estudo intensivo de um único caso onde o propósito daquele estudo é – pelo menos em parte – dar luz a uma categoria mais ampla de casos (uma população)111” (ibidem, p. 20).

Yin (2003) afirma que o estudo de caso continua sendo uma forma essencial de investigação nas ciências sociais. É uma metodologia apropriada quando o pesquisador pretende abordar um tema de pesquisa de forma ampla, refletir sobre realidades contextuais

110 Case connotes a spatially delimited phenomenon (a unit) observed at a single point in time or over some period of time. It comprises the type of phenomenon that an inference attempts to explain.

111 A case study may be understood as the intensive study of a single case where the purpose of that study is – at least in part – to shed light in a larger class of cases (a population).

plurais e não somente variáveis isoladas, e se apoiar em fontes e dados múltiplos (YIN, 2003, p. xi).

Segundo Stake (1995), um caso deve ser de especial interesse por si, portanto, “um estudo de caso é um estudo relativo à particularidade e à complexidade de um único caso, chegando a compreender a sua atividade dentro de circunstâncias importantes” (STAKE, 1995, p.xi)112. Segundo o autor, é possível estudar o caso de várias maneiras, analítica-, holística-, orgânica-, ou culturalmente, sendo que o importante é o fato de se concentrar unicamente nele. Desta forma, o que importa é o foco do estudo e não a metodologia de investigação, sendo que ele ganha credibilidade através da triangulação das descrições e interpretações realizadas ao longo do tempo (STAKE, 1995, p. 443).

Feagin, Orum e Sjoberg (1991) definem esta metodologia como uma investigação profunda de um único fenômeno através de métodos de pesquisa qualitativos. O estudo, geralmente, é conduzido com acuidade e baseia-se no uso de fontes obtidas através de várias maneiras. O caso pode ser considerado em si ou parte de um fenômeno mais amplo. Em linhas gerais, o estudo de caso permite embasar observações e conceitos sobre grupos sociais no seu contexto natural; colhe informações obtidas através de vários recursos e ao longo de um período de tempo, aspecto que pode proporcionar uma visão holística das redes, ações sociais e seus significados; fornece uma dimensão histórica, pelo fato de retratar um determinado período de tempo; estimula, na prática, a inovação (ibidem, p. 6-7).

Yin (2003) identifica seis tipos de estudos de caso, baseados na matriz 2 x 3: estudo de caso único ou múltiplo e, uma vez definido este aspecto, o estudo de caso pode ser exploratório, descritivo ou explanatório (causal).

É exploratório quando sua finalidade é definir questões e hipóteses de um estudo sucessivo ou determinar a exequibilidade dos procedimentos de pesquisa desejados. Um estudo descritivo

apresenta uma descrição completa do fenômeno no seu contexto e, para concluir, um estudo explanatório apresenta dados produzidos pelas relações de causa-efeito, expressando como aconteceram os fatos (YIN, 2003, p. 5).

Stake (2005) diferencia três tipos de estudo de caso: a) intrínseco, quando é voltado unicamente para si mesmo, para um determinado contexto, uma determinada situação, e não porque este caso seja representativo, um artefato abstrato ou um fenômeno genérico; b) instrumental, quando o caso serve para aprofundar um assunto, apontar uma generalização, tornando-se um suporte para a compreensão de alguma outra coisa; e, c) múltiplo ou coletivo, quando é estendido a outros casos (STAKE, 2005, p. 445).

A seleção do caso torna-se um aspecto crucial neste tipo de metodologia. No estudo de caso intrínseco, o caso é atribuído, já que não é o pesquisador que escolhe, mas recebe o caso a ser investigado como, por exemplo, acontece na área de saúde ou serviço social. No estudo de caso instrumental e coletivo, torna-se necessário elaborar um processo de seleção para que o caso seja realmente representativo.

Outro aspecto importante no estudo de caso é o estabelecimento de critérios ou protocolos para validar dados, processo chamado por Stake (1995) de triangulação. Nesta fase o pesquisador procura organizar vários métodos, como entrevistas, análise de documentos, dados censitários, entre outros, para fazer com que os dados não dependam somente do bom senso ou da intuição. Denzin e Lincoln (2003) adotam uma perspectiva pós-moderna e criticam o termo triangulação pelo fato de remeter a algo fixo, rígido e bidimensional. Sugerem, assim, o termo “cristalização”. O cristal, para eles,

combina simetria e substância com uma variedade infinita de formas, substâncias, transmutações, multidimensionalidades, e ângulos de abordagem. Os cristais crescem, mudam, se modificam, mas não são amorfos. Os cristais são prismas que refletem as exterioridades e refratam para dentro deles, criando 112 Case study is the study of the particularity and complexity of a single case, coming to understand its activity

cores diferentes, contornos, conjuntos, que se espalham em direções diferentes. O que nós vemos depende do nosso ângulo de descanso. Não triangulação, cristalização113 (DENZIN &

LINCOLN, 2003, p. 517)

No caso da presente pesquisa, em primeiro lugar, foi escolhido o contexto do CECA-RV, de forma a responder à minha inquietação pessoal e dentro deste contexto foram delineadas as questões da pesquisa. Como alguns manuais de metodologia também descrevem, comecei com algumas idéias, que modifiquei em um segundo momento, motivada pela literatura que vinha estudando e pelos discursos, ações e atividades realizadas junto aos colaboradores da pesquisa. Foi assim que, no decorrer do convívio com o Mestre Faísca e os integrantes do Projeto “João e Maria, Capoeira Angola e Cidadania”, resolvi direcionar as questões da pesquisa para aspectos da educação musical baseados em princípios afro- brasileiros ainda pouco estudados nesta área. Optei por utilizar como fundamentação e critérios de análise dos dados os Valores Civilizatórios Afro-brasileiros, pois no CECA-RV estes termos eram muito recorrentes nas falas do Mestre e dos integrantes da academia.