Está chegado o momento, é minha convicção, para que a cidade de São Paulo entre com resolução no caminho que lhe é traçado, pelo seu rápido movimento de progresso. Esta capital deve, hoje, sem tocar no passado, sem negligenciar o presente, cuidar do futuro, traçar o programma do seu crescimento normal, do seu desenvolvimento esthetico, deve numa palavra prever, adoptar e executar judiciosamente todas as medidas que reclamam e cada vez mais serão reclamadas pela sua grandeza e importancia.
Joseph Bouvard, Relatório ao prefeito de São Paulo, 15 mai. 1911114
No relatório sobre os melhoramentos para a área central de São Paulo apresentada por Joseph-Antoine Bouvard ao prefeito municipal em 15 de maio de 1911, a caracterização da cidade pela sua “grandeza e importância” é assim denominada em seus parágrafos finais. Semelhante medida é reivindicada por Alexandre Albuquerque, para quem a “segunda maior cidade de todo o Brasil” atingiria em breve a alcunha de uma das “maiores metrópoles latinas americanas”. Para tanto, o engenheiro-arquiteto indicava como justificativas a posição econômica da cidade atraindo investimentos em razão da proximidade com a capital da República, e também pela recente instalação de ferrovias que facilitariam o escoamento da produção do Estado ao porto de Santos, gerando para a cidade, necessariamente uma posição central na circulação de pessoas e mercadorias.
Já para Augusto Carlos da Silva Telles, a posição de capital do Estado obrigaria por si só “a uma natural representação”. A posição, de acordo com o vereador, deveria ser suficiente para um “empenho escrupuloso” dos melhoramentos organizados pela municipalidade, evitando ações que em períodos passados teriam permitido ruas “com alinhamento ébrio”, ou “novos bairros sem a menor observancia de qualquer gênero de regularidade, sem vestígio de (...) qualquer preceito de esthetica”. Seriam ações de gestões anteriores, nos termos de Silva Telles, responsáveis pelo surgimento de uma estética indesejável para a São Paulo do início do século XX, como o lançamento de “prédios no coração da cidade, que só poderiam fazer figura nos confins do Acre”.
Nas propostas de melhoramentos para a área central de São Paulo em debate no início do século XX, a defesa de certa importância da cidade vinha não raro acompanhada da apresentação de quadros estatísticos a respeito do seu crescimento e, problematizações sobre
114 Correspondência de Joseph-Antoine Bouvard ao prefeito de São Paulo, Raymundo Duprat. São Paulo, 15 de
maio de 1911, p. 834. In: DUPRAT, Raymundo da Silva. Ofício, de 18 de maio de 1911. Remete a tradução do relatório de Joseph-Antoine Bouvard. Centro de Memória da Câmara Municipal de São Paulo. OF0002-1911. Disponível em: <http://documentacao.camara.sp.gov.br/iah/fulltext/documentoshistoricos/ OF0002-1911.pdf>, Acesso em: 30 mai. 2016.
um considerado aumento na complexidade de questões urbanas. Crescimento e crise da cidade formavam um par argumentativo presente em diversas iniciativas de melhoramentos urbanos ao menos desde o século XIX nas cidades do mundo ocidental.115 Propunham uma correlação
de imediata compreensão: cidades modernas sob constante transformação populacional, edilícia, econômica e industrial demandavam por melhoramentos de igual complexidade.
Em 1890 a cidade foi apresentada por Adolpho Pinto a partir dos números de habitações com coleta de lixo doméstico, recolha do esgoto, espaços destinados a parques e passeios arborizados e ainda a partir das taxas de analfabetismo. Apoiado nessas estatísticas constrói a imagem de uma cidade com necessidades “em progressão crescente” de variadas ordens: 9.000 casas sem a correta coleta do lixo doméstico, 3.000 casas em novos bairros sem a recolha de esgoto e contando com analfabetismo dos habitantes da província na ordem de 77 por cento.116 Em 1907 a cidade construída a partir de estatísticas contaria com uma imagem mais positiva. Carlos da Silva Telles apoia-se em números do crescimento da população e de novas construções para descrever uma cidade ao mesmo tempo “digna de ser visitada” pelos seus diversos melhoramentos urbanos, mas, necessitada de novos melhoramentos urgentes pela rapidez de seu progresso. A partir de números desenha a imagem de uma cidade com 300.000 habitantes, com crescimento em construções na ordem de “quatro casas por dia” e, possuindo em único distrito um terço do total da sua população.117
Uma expansão urbana por vezes compreendida em critérios positivos é, no entanto, mobilizada a partir de pareceres negativos entre 1910 e 1912. Dados do crescimento de construções e tráfego de passageiros nos transportes coletivos são associados ao crescimento de habitantes, taxas de mortalidade por doenças e cálculos da quantidade ideal de áreas arborizadas na cidade para a correta “distribuição do ar e da luz” no interior das habitações. Nas palavras de Victor Freire a São Paulo do início da década de 1910 apresentava um “salto brusco” em seus números.118 Registrava a presença de 350.000 habitantes e 25 hectares de
115 A reflexão de Donatella Calabi sobre os diversos “topoi” ou lugares-comuns mobilizados pelos diversos
profissionais envolvidos com as questões urbanas incide sobre a construção do urbanismo a partir da segunda metade do século XIX envolto não apenas em esforços pela sua institucionalização, mas pela discussão de temas e questões em comum. Entre esses a percepção de que a cidade industrial estava doente, mobilizou propostas de transformação e extensão de cidades ao redor do globo, e configurou a disciplina enquanto uma prática e uma teoria capaz de “propor soluções aos ‘males’ que afligem a cidade”. CALABI, Donatella. História do urbanismo
europeu: questões, instrumentos, casos exemplares. Trad. Marisa Barda; Anita Di Marco. São Paulo: Perspectiva,
2012. (Estudos; 295). p. 8-9.
116 PINTO, Adolpho Augusto. Melhoramentos municipaes. Correio Paulistano, São Paulo, 13 fev. 1890, p.1. 117 TELLES, Augusto Carlos da Silva. Os melhoramentos de São Paulo. São Paulo: Escolas Profissionais
Salesianas, 1907. p.15.
118 FREIRE, Victor da Silva. Melhoramentos de S. Paulo. Revista Polytechnica. São Paulo, v.6, n.33, 91-145, fev.-
parques e jardins. Circularam pelas ruas da cidade de acordo com o engenheiro municipal, 31.095,501 passageiros nos carros da Light & Power e, foram emitidas 3.231 novas licenças para construções de prédios ou casas no mesmo ano.119 Já no mesmo período, Adolpho Augusto
Pinto projetava para o futuro da cidade um crescimento de habitantes na ordem de “um milhão. Uma “estimativa official”, que segundo o autor seria tradutora de elementos conhecidos da cidade, como suas favoráveis condições físicas e territoriais, a incomparável expansão da economia e a crescente oferta de trabalho.120
É a partir de números e índices estatísticos análogos a estes que uma possibilidade se abre aos poderes públicos para a transformação das cidades. Com o desvelamento dessa possibilidade, como discute François Béguin a cidade passa a funcionar “como um novo domínio de intervenção política”.121 Se a redução da cidade a dados técnicos e números
estatísticos foi largamente utilizada na fundamentação de iniciativas de melhoramentos urbanos, a emergência desse saber menos se relaciona com o nascimento de uma grande visão da cidade e mais com a crença no potencial transformador do meio sobre o comportamento humano e a possibilidade aberta da redução dos altos custos – sociais, econômicos e ambientais – da vida nos grandes centros urbanos.
De acordo com Béguin, as “grandes pesquisas de 1840-1850” organizadas pelas administrações públicas sobre as condições de vida em cidades e bairros da Inglaterra, além de confirmar apreensões em pesquisas anteriores sobre as relações entre um ambiente vicioso e insalubre e a incidência de doenças e comportamentos tidos como imorais nos habitantes destes espaços, preocupavam-se com os efeitos destes comportamentos no crescimento da população inglesa e no desenvolvimento de sua capacidade produtiva.122 Em tais pesquisas a materialidade
da cidade é reduzida a diversos componentes técnicos como incidência do ar e da luz na habitação, controle e distribuição de água, recolha de lixo e esgotos, sistema de drenagem e limpeza das ruas.
119 Ibid.p. 92; Relatorio de 1910 apresentado a Camara Municipal de São Paulo pelo prefeito Raymundo Duprat.
São Paulo: Casa Vanorden, 1911. p.31.
120 PINTO, Adolpho Augusto. A transformação e o embellezamento de S. Paulo. São Paulo: Typ. Cardozo Filho
& Comp.,1912, p.3; 6.
121 BÉGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. Espaço e Debates. São Paulo: NERU, ano XI, n. 34,
p. 39-54,1991. p.39.
122 Nesse artigo Béguin explora as pesquisas realizadas pelo inglês Edwin Chadwick e expostas em relatórios nos
anos de 1842 (Report to her Majesty’s principal secretary of state for the home department from the poor law
commissioners on na inquiry into the sanitary condition of the labouring population of G.B., London) e 1844 (First report of the commissioners for inquiring into the state of large towns and populous districts, London). Idem.
A concepção da cidade como meio tanto aberto a ocorrência de misérias quanto potencial formador de comportamentos considerados saudáveis e produtivos torna acessíveis habitantes e hábitos urbanos em momentos anteriores alheios ao controle dos poderes públicos. Dessa forma, um entendimento sobre as crises urbanas – anunciadas por profissionais distintos a partir do crescimento dos números de habitantes, construções e fluxos urbanos de diversas ordens – como algo controlável pelos saberes científicos passa a intervir na cidade, operando os seus diversos fluxos (água corrente, esgoto, energia, gás) e ampliando de forma insidiosa o controle do poder público sobre o indivíduo e suas relações. Como propõe Béguin a incidência dessa nova forma de controle é algo que o indivíduo não deseja, ou não pode combater. Conforto, que nos termos do autor, impõe-se como “uma disciplina suave”.
Uma das implicações sobre a concepção da cidade como meio, é a desconsideração de qualquer “apelo aos dados sensíveis” no “modo de gerar formas urbanas” como a construção de edifícios, as obras de saneamento, entre outras. A própria história das cidades é assim apagada em favor do estabelecimento de um espaço controlável e operacional. No entanto, em algumas cidades, a negação desse apelo nem sempre teria sido observada. Para Béguin, os grandes trabalhos do Barão Haussmann em Paris, ao recorrer à monumentalidade e aos efeitos visuais, foram responsáveis por uma confusão na percepção desses melhoramentos. Argumentando pela “originalidade do urbanismo moderno”, localiza-a numa “ruptura completa com o sensível”, no qual os melhoramentos modernos voltados ao controle dos diversos fluxos urbanos passariam necessariamente despercebidos de qualquer apelo de ordem visual.
A partir do caso de Paris, frequentemente associado a grandes demolições e conflitos, Béguin alerta para leituras negativas das inovações levantadas por essas iniciativas de transformação urbana, encobertas pela sua recorrente confusão com obras monumentais e grandes concepções de cidade. A discussão em torno do que seria uma verdadeira concepção “original do urbanismo moderno” escapa aos objetivos deste estudo, no entanto, as reflexões de Béguin nos permitem pensar uma concepção conflituosa da formação do urbanismo, construído pela disputa entre diferentes concepções de cidade e saberes com origens em áreas distintas. A incidência de equipamentos e saberes técnicos de modo insidioso na relação entre o poder público e o indivíduo – outro ponto das reflexões de Béguin – no instiga a pensar a busca pela institucionalização de saberes pelos especialistas em questões urbanas também como algo incontestável, pelo discurso sempre presente de um contínuo aperfeiçoamento das formas de vida nas cidades.
Na cidade de São Paulo a interação entre os saberes técnicos e as práticas de intervenção e melhoramento na cidade a partir de diversos meios incidem em disputas por princípios de distintas áreas disciplinares, oscilando entre os saberes de médicos, engenheiros e engenheiro-arquitetos. A partir da fundação da Escola Politécnica de São Paulo e da Escola de Engenharia Mackenzie no início do século XX, sendo observados o papel dessas escolas na formação de profissionais para as administrações públicas e para a crescente demanda das atividades urbanizadoras na cidade, a presença de periódicos técnicos como a Revista Politécnica, a Revista de Engenharia - , Revista de Engenharia do Mackenzie College, e o Boletim do Instituto de Engenharia, na circulação dos saberes e realizações da engenharia em cidades no país e no estrangeiro, bem como a institucionalização pelo poder público municipal de um setor voltado às questões urbanas, por meio da Diretoria de Obras Municipais, são indicativos de esforços pela definição desses princípios técnicos orientadores das práticas de intervenção na cidade.123
Pelo convergir desses esforços, indagamos sob que temas a cidade foi colocada em questão nos debates pela institucionalização do urbanismo em São Paulo entre as décadas de 1890 e 1910? Que saberes são mobilizados pelos administradores públicos, parlamentares e profissionais especializados nesse esforço em comum pela institucionalização da disciplina? É possível perceber disputas e tensões? Percorrer discursos sobre práticas de melhoramentos na área central de São Paulo nos instiga a refletir não apenas sobre os interesses de várias ordens presentes nessas ações, mas sob os temas os quais essa parte da cidade foi objeto de disputas.
123 A Revista Politécnica, fundada em 1904 pelo grêmio da Escola Politécnica de São Paulo, em artigos entre 1910
e 1911, traz entre seus assuntos relatos de diversos casos práticos com detalhamento técnico das soluções adotadas, a exemplo das ações de saneamento na Bahia engendradas por Theodoro Sampaio, e a conferência de Édouard Imbeaux, engenheiro e higienista francês acerca do tratamento das águas de abastecimento urbano. Importa notar sobre o papel da Escola Politécnica, que parte do seu quadro de professores e alunos terão importantes atuações em órgãos públicos ou cargos políticos. Dupla atuação notada pelo levantamento de Sylvia Ficher, que traz uma relação de professores e alunos dessa instituição e as distintas funções que assumiram. Bem como o trabalho de Leonardo Caramori, em seu estudo da história da Biblioteca dessa instituição sobre o seu papel no debate de questões urbanas nesse período. Já sobre a Diretoria de Obras Públicas, conforme o estudo de Liliane Lehmann e Rosana Moizo, sobre a formação burocrática dos órgãos públicos municipais, a Diretoria de Obras Municipais foi institucionalizada em 1900, como órgão separado da Secretaria Geral, formada após a criação do cargo de prefeito em 1893. Contudo, guarda relação estreita com a Intendência de Obras, criada em 1890 no início do período republicano, e subordinada à Câmara Municipal. In: Conferência Imbeaux. Revista Politécnica. São Paulo, v. 6, n. 34, abr./mai. 1911, p. 198-201.; SAMPAIO, Theodoro. O saneamento da cidade da Bahia: abastecimento d’água. Revista Politécnica. São Paulo, v.5, n. 30, mar./abr. 1910. p. 399-415.; FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo. São Paulo: Fapesp; Edusp, 2005.; CARAMORI, Leonardo Capelossi. A Biblioteca da Escola Politécnica de São Paulo e seus acervos de engenharia e arquitetura entre 1894 e 1928. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2015.; BARROS, Liliane Schrank Lehmann de; MOIZO, Rosana Pires Azanha. Formação administrativa da cidade de São Paulo (1554-1954). Rev. Arq. Mun. São Paulo: DPH, v. 199, 1991, p. 11-44.
II.1. Revistas especializadas: conhecendo práticas, debatendo a teoria
Publicação de estudo, modesta e simples (...) Orgam do Gremio Polytechnico, ella defenderá sempre, e com energia, o seu interesse, que é o de todos nós, como o da classe a que todos nos destinamos. (...) Possa ella cumprir de bom lhe auguramos, tornando-se de todos apreciada, fazendo-se, em uma palavra, útil (...).
Editorial da Revista Politécnica de São Paulo, nov. 1904 124
Uma década após a fundação da Escola Politécnica de São Paulo, era anunciado o primeiro número do que seria uma nova empreitada pela construção de um periódico voltado a temas e discussões de interesse comum sobre as distintas áreas da engenharia. De acordo com o primeiro editorial da então Revista Politécnica, a publicação de um periódico de estudo, redigido e mantido por estudantes dessa escola já havia sido proposta em 1900, embora não tenha passado do segundo número.125 Demarcando um novo início, a garantia do sucesso da
revista que se iniciava em novembro de 1904 era vinculada pelos seus redatores ao espírito de associação promovido pelo Grêmio Politécnico, órgão fundador do novo periódico.
A formação dessa revista a partir de uma iniciativa de estudantes não deve ser considerada de menor importância. A partir do seu primeiro editorial pode-se perguntar se os motivos dos estudantes dessa escola com a divulgação de seus trabalhos e de seus professores não incluíam outras pretensões do que uma modesta publicação de estudos, pois entre outros objetivos a Revista Politécnica era anunciada como um material útil, para “estimular o gosto pelo estudo”, a “defesa da classe”, e a “comunhão de ideias e princípios”.
Antes, as interações entre saberes e práticas voltados às questões urbanas, ou ainda os temas e questões levantados em diversos artigos nas revistas técnicas sugerem indícios de uma dimensão política. Ao menos em dois aspectos esses debates instigam a pensar intensões mais amplas do que o conhecimento sobre práticas ou teorias. O primeiro por congregar esforços de especialistas no debate de ideias e princípios das engenharias e com isso, a institucionalização de saberes com diversas aplicações. Entre elas as questões urbanas, a partir das quais diversos profissionais buscariam atuar por meio dessas instituições na definição e legitimação de práticas e saberes sobre a cidade. Outro aspecto pode ser notado na “defesa da classe” percebida em diversos desses artigos e a partir disso, na dotação de uma autoridade aos profissionais das
124 Revista Politécnica. São Paulo, v.1, n.1, nov. 1904. Editorial, p.4.; Alexandre Albuquerque, um dos fundadores
e presidente do Grêmio Politécnico na sua primeira diretoria, também compunha a comissão redatora dos números iniciais da Revista Politécnica. Além do jovem Albuquerque, a comissão era formada por outros estudantes, na direção Hyppolito Pujol Jr, em formação como engenheiro-arquiteto e civil, e como secretário Ranulpho Pinheiro Lima, em formação como engenheiro-civil que em períodos posteriores também irá dirigir a Revista de
Engenharia.
125 Segundo os redatores os dois números do jornal de estudos mantido por alunos da Escola Politécnica levavam
engenharias na atuação em instituições públicas e particulares em ações sobre as cidades. Em ambos aspectos, a incidência dos debates promovidos pelos especialistas sobre as práticas de gestão nas cidades indica desse modo as buscas de conferir legitimidade e autoridade a esses saberes em formação, uma vez que as iniciativas de intervenção urbana ocorriam a partir de discussões com legisladores, proprietários e autoridades públicas especialistas ou não. Percebe- se na atuação dos especialistas nessas definições as intenções em legitimar argumentos pretendidos como incontestáveis nesses debates por estarem baseados em saberes anunciados como técnicos. As dinâmicas dessas disputas, as pressões dos especialistas e as negociações com diferentes interlocutores sugerem, no entanto, que esses saberes não estavam isentos de objeções e conflitos.
A institucionalização dos saberes da engenharia na cidade de São Paulo a partir da formação desse profissional especialista, da divulgação e debate de saberes e preceitos e de sua necessária relação com a aplicação prática desses conhecimentos já foi explorada em diversos estudos. Sobre essas revistas, Josianne Cerasoli observa sua constituição enquanto espaço de debate de ideias e realizações das diversas áreas da engenharia e o constante acompanhamento desses periódicos às mudanças das funções que os engenheiros adquiriam na sociedade, ampliando a partir desses debates os espaços possíveis para sua atuação. Para além de uma concepção enquanto veículos de divulgação de ideias e realizações, Cerasoli identifica outras atuações a partir desses periódicos. Entre essas, iniciativas políticas pelas ênfases na defesa da classe e na institucionalização de saberes e práticas voltados às cidades. Dimensões que buscavam legitimar e dotar a atuação desses profissionais de uma autoridade baseada na obtenção de saberes definidos como científicos. São percebidos esforços pela definição das funções do profissional engenheiro, incidindo em campanhas pela regulamentação profissional e na ampliação de suas possibilidades de trabalho, em iniciativas pela normalização técnica dos saberes e vocabulários associados às diversas áreas da engenharia. Objetivos identificados pela autora como um esforço coletivo de sistematizar e normatizar um conhecimento com implicações diretas no exercício da profissão e, para o estabelecimento de um “fórum mínimo de discussões”.126
126 Em períodos posteriores os debates sobre a regulamentação profissional irão conter preocupações com as
características da profissão. A partir de tensões sobre as definições do campo profissional das engenharias e da