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L’effet de rayonnement sur la cellule (jonction PN)

Chapitre I : Généralités sur les systèmes photovoltaïques

I.6 La jonction P-N

I.6.1 L’effet de rayonnement sur la cellule (jonction PN)

Pensar as corridas de jangadas é antes pensar representações de seus elementos, isto é, o jangadeiro, a jangada e o mar. Primeiro porque estes elementos compõem e dão sentido único a esta prática, que seria realizada apenas nesta região do país. Segundo porque, ao se tratar de uma prática de origem popular, as fontes são mais escassas e sintéticas, e recorrer,

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portanto, ao recurso de compreender o cenário mais amplo de seus elementos e dos acontecimentos que os envolvem, nos possibilita mais reflexões no olhar para as fontes.

“Quem diz mar, diz jangada, diz jangadeiro.”, assim escreveu Eduardo Campos (2003, p.123). Como notou o escritor cearense, as representações desses elementos em alguns momentos se confundiam e se completavam. Embora o litoral tenha sido invadido por outros grupos sociais, de uma forma contraditória, os pescadores nunca deixaram de ser os autênticos

homens do mar. Legítimos habitantes daquele espaço e que, em alguns momentos, tinham até

sua existência confundidas com ele em expressões como as que os caracterizavam como de “natureza rude”222 ou pertencentes a uma “(...) raça que se caldeia ao calor e aos excessos da natureza tropical”223.

Uma espécie de destino parecia ser traçado desde cedo para o jangadeiro. A maioria dos pescadores eram filhos de outros pescadores, que, por sua vez, teriam herdado o ofício também de seus pais, seguindo uma linha contínua de gerações de trabalhadores do mar. Não à toa a frase que abre o livro Jangada – uma pesquisa etnográfica de Câmara Cascudo (1957 ,p.9) é “O jangadeiro é filho de jangadeiro”. A declaração fatalista é logo em seguida explicada pelo autor. “O comum é ter nascido á beira-mar e ajudado, desde menino, a jangada a trepar nos rolos, empurrá-la para a maré, puxar o cabo da rêde, pescar moré nas locas, nadar com a mesma naturalidade de um ato respiratório.” (CASCUDO, 1957, p.9).

Ainda que a lógica do ofício herdado indique a pouca possibilidade de mobilidade social, essa mesma configuração também proporcionava a produção de redes de solidariedade em torno daquela profissão. Como efeito apresentava-se a formação de uma identidade de grupo, fundado na ideia de unidade e materializada, por exemplo, na criação das colônias de pescadores, a partir de 1922, ao longo do litoral cearense224.

O protagonismo dos jangadeiros em alguns acontecimentos na história do Ceará contribuiu ainda para a construção de representações a respeito desse grupo e de seu ofício no período que se debruça esta pesquisa. Foram episódios que reverberaram em todo cenário nacional e que consolidaram a imagem do jangadeiro como um tipo popular que transita entre a miséria e o heroísmo, passando a ser considerado símbolo da identidad e cearense.

222 João do Mar. O Nordeste, Fortaleza, 12/05/1929, p.6

223 Epopéa de ja nga deiro. Correio do Cea rá , Forta leza , 22/07/1930, p.3

224De a cordo com Abreu (2012, p.65-66), “Pa ra exercerem a profissã o, os pesca dores de todo o pa ís tinha m q u e

se a ssocia r à s colônia s existentes na s loca lida des onde residia m e tra ba lha va m, ou na s proximida des. Essa s colônia s era m subordina da s à Federa ções loca is que, por sua vez, submetia m -se à Confedera ção dos Pesca d o re s do Brasil, cuja criação é de 1920”. A primeira colônia criada foi a da Praia de Iracema, em 1922, denominada colônia Z-1. Em seguida outra s colônia s fora m se forma ndo no litora l de Forta leza e a o longo da costa cea rense.

A pioneira abolição da escravidão na então província do Ceará, em 1884, quatro anos antes da sanção da Lei Áurea, teve episódios marcados pela participação de jangadeiros. A devastadora seca de 1877 teria tornado dispensável a mão de obra escrava na região, somando-se ao fim do tráfico negreiro, que elevou a demanda e o preço em outras regiões do Brasil, sobretudo nas províncias do sul. No ano de 1881, quando o movimento abolicionista já fervilhava, a Sociedade Cearense Libertadora convocou greves contando com apoio dos jangadeiros. Tendo eles a função de levar mercadorias e pessoas a bordo de grandes embarcações, sua participação era indispensável para impedir a exportação de escravos do Ceará para províncias do sul225.

Em Vendaval da Liberdade, publicado pela primeira vez em 1949, o jornalista Edmar Morel narra de forma épica uma das greves dos jangadeiros:

Os tra fica ntes recla ma m a s ja nga da s, de terra pa ra bordo. Os pra ieiros, à frente o preto José Na poleã o – que ha via compra do a ca rta de a lforria de sua mã e e de qua tro irmã s, com a s sua s própria s economia s – a pa rece na s pra ia s como um titã . Cha ma os seus compa nheiros do ma r e fa z um a pelo no sentido de nenhuma ja ngada co n d u z ir escra vos, mesmo com a a mea ça de ba ionetas. O bra do da greve, ecoa ndo pela p ra ia num grito de liberda de e de redençã o de um povo, dá a o Bra sil uma demonstra çã o de sua vita lida de:

-No porto do Ceará não se embarcam mais escravos! (MOREL, 1988, p.114)

Com estes eventos, o Ceará passou a ser conhecido como Terra da Luz, epiteto dado pelo abolicionista José do Patrocínio. Francisco do Nascimento, apelidado de Dragão do Mar, membro e diretor da Sociedade Cearense Libertadora passou a ser um dos protagonistas. Embora não fosse efetivamente jangadeiro, sua função de prático do porto o aproximava dos trabalhadores desse ofício, tendo sido inclusive confundido com eles226. Com a abolição do Ceará, Francisco do Nascimento foi até a Corte Imperial, onde foi homenageado. Jornalistas e escritores do Rio de Janeiro, como Aluísio Azevedo, Múcio Teixeira e Valentim Magalhães escreveram aclamadas crônicas e poemas sobre os feitos de Dragão do Mar e dos jangadeiros cearenses (MOREL, 1988).

Uma importante homenagem foi a capa da Revista Illustrada desenhada por Ângelo Agostini. Nela (FIG.33), Agostini retrata no primeiro plano jangadas ao mar, uma delas identificada como a Libertadora conduzida por três jangadeiros, e a outra tendo a bordo

225 Devido a fa lta de ca is em Forta leza no período, os ja nga deiros era m responsá veis pelo tra nsporte a b o rd o , j á

que “Os desembarques eram difíceis e a jangada indispensável por ser a única capaz de resistir a violência das vagas.” (CASCUDO, 1957, p.51)

226 Segundo Pa trícia Xa vier (2011), o Dra gã o do Ma r exercia a funçã o de 2º prá tico do porto, isto é, “seu

tra ba lho era o de a compa nha r os na vios de forma que nã o sofressem nenhuma a va ria a o a ncora r no porto de Fortaleza.” (p.125).

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escravos de punho erguidos em expressão de luta e liberdade. Ao fundo, vê-se outras jangadas e um grande navio, o qual representa a ameaça da escravidão. No céu, entre as nuvens, Francisco do Nascimento, o Dragão do Mar, emerge como uma figura divina. Abaixo da ilustração, a legenda diz: “Francisco Nascimento. À testa dos jangadeiros cearenses, Nascimento impede o tráfico dos escravos na província do Ceará vendidos para o Sul.”

Figura 33 – Capa da Revista Illustrada em homenagem à abolição no Ceará. Fonte: Revista Illustrada, n.376, 1884

Mais do que analisar detalhadamente os episódios do envolvimento dos jangadeiros com a abolição da escravidão no Ceará, cabe aqui o esforço de refletir sobre como esses eventos seguiam ecoando nas décadas seguintes, que compreende o período aqui recortado. Não era incomum encontrar nas páginas de jornais da década de 1930 e 1940 referências aos episódios, comemorações, exaltações da figura de Dragão do Mar e dos jangadeiros. Em

alguns momentos essas alusões serviam para enaltecer e fortalecer a identidade cearense, marcada pelos atos de coragem e intrepidez, como no trecho que segue:

O Cea rá , entre a ja nga da e os ja nga deiros, possue uma infida vel e ra diosa recolt a d e exemplos de bra vura e impa videz. Ora é Na scimento – o Dra gã o do Ma r – liga ndo o seu nome á Aboliçã o e a ca va lga r, na ja nga da leda ria , o dorso do Atla ntico, do Mucuripe á Gua na ba ra; ora é Berna rdino do Na scimento, a ventura ndo-se na frá gil e histórica emba rca ção, á tra vessia do Cea rá a o Pa rá .227

Em outros casos, a referências aos episódios da abolição, serviam para denunciar uma situação do período que parecia não ser digna do passado combativo dos jangadeiros. Neste trecho, Agamenon Magalhães denuncia a prática de intermediações da venda do pescado228 e recorre à abolição como apelo: “Os jangadeiros que escondiam os negros fugidos, transportando-os para o Ceará e praias distantes, estão ainda hoje a espera da sua alforria. O destino tem dessas contradições.”229.

As greves na abolição teriam deixado marcas. Os jangadeiros eram homens de honra, de princípios, que mesmo “Relegados às mais miseráveis condições de vida, morando em palhoças, mal alimentados e doentes, recusam, não obstante, as somas vultosas que os senhores negreiros ofereciam para que o porto do Ceará fosse reaberto ao tráfico do cativeiro.” (MOREL, 1988, p.123).

Somando-se a estes episódios, algumas décadas antes da abolição, o escritor cearense Juvenal Galeno já teria representado o jangadeiro como um tipo popular destemido. Em consonância com o projeto de literatura do romantismo brasileiro da segunda metade do século XIX, em que se buscava a construção da nacionalidade brasileira, Juvenal Galeno teria percorrido o sertão, o litoral e a serra cearense para retratar e representar a cultura local. (AGUIAR, 2013)

Contemporâneo e conterrâneo de José de Alencar, um dos mais canônicos nomes do romantismo brasileiro, Juvenal Galeno aproximou-se mais da cultura popular em forma e conteúdo, escrevendo cantigas, trovas e lendas, adotando uma escrita “pura, original e singela da vida” (AGUIAR, 2013, p.105).

Em sua obra máxima, Lendas e Canções Populares, Juvenal Galeno dedica ao menos cinco canções sobre a vida dos jangadeiros, destacando os temas da miséria, do heroísmo, da

227 Epopéa de jangadeiro. Correio do Ceará, Fortaleza, 22/07/1930, p.3

228 Ainda que Aga menon estivesse fa la ndo da pesca de Perna mbuco, refere -se a o episódio da a boliçã o no Cea rá .

Sua crítica está no costume da s intermedia ções da venda do pesca do, pra tica da nos dois litora is pelos cha m a d o s “atravessadores”, que os compravam dos pescadores a baixos preços e revendiam nas cidades por preços eleva dos.

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proximidade com a morte, da religiosidade, do misticismo do mar, dentre outros. Em O velho

jangadeiro, um marinheiro que ficara parcialmente cego em combate, reclama sua vida

miserável e seu destino infeliz, amenizado pela pesca. A jangada é representada como instrumento redentor diante da fome: “Então fiz esta jangada/ E uma esmola ao mar pedi!” (2010, p.86). Ela repetidas vezes é evocada com ternura, notada no emprego de diminuitivos e pronomes possessivos para indicar intimidade e afeto, em expressões como minha jangadinha ou simplesmente jangadinha.

Com o mar, contudo, o eu lírico estabelece uma relação mais instável. Se em alguns momentos pode ser generoso, concedendo-lhe esmolas, em outros pode ser traidor, impiedoso. A bipolaridade mística do mar reflete na materialidade da vida do pescador, “Se pesco tenho o comer.../ Se nada levo das ondas,/ Ouço da fome o gemer!”. (2010, p.87)

Cabe destacar que essas duas representações – da jangada e do mar - exploradas por Juvenal Galeno nos auxiliam na interpretação de alguns códigos e dinâmicas próprias das corridas de jangadas. A proximidade e intimidade com a jangada, por exemplo, é algo bastante evidente na prática das corridas. As jangadas possuíam nomes e muitas vezes tinham mais protagonismo até que os próprios jangadeiros que as conduzia, de forma similar à prática das corridas de cavalo, em que o nome do jockey era menos anunciado que o do cavalo230. As jangadas, assim como os cavalos, pareciam ter personalidades competitivas explícitas.

A relação oscilante com o mar é outro aspecto interessante para ser pensado nas corridas. Tema também abordad o por Câmara Cascudo (2012) no Dicionário do Folclore

Brasileiro, o autor sublinha esse sentimento que envolve a admiração e desconfiança d a

autonomia do elemento marinho: “O mar é um ser com vontades, manias, gostos e simpatias rápidas ou de prolongação suspeita.” (p.428). Assim como nas provas de natação no mar, nas corridas de jangadas, preocupava no dia da prova o humor, as vontades, o temperamento do mar. Em algumas notícias de provas, as primeiras frases se dedicavam a descrever o tempo e o ânimo das ondas naquelas manhãs, compondo parte importante da narrativa da competição.

As vontades do mar e a relação mística que os pescadores estabeleciam com ele é também representada por Gustavo Barroso (1979) em Praias e Várzeas. Um conjunto de regras e opiniões místicas intermediava essa relação, que transitava entre medo, respeito e gratidão, como vemos nos trechos seguintes: “Era dia santificado; ninguém ia à pesca.” (p.9); “Com o mar ninguém brinca! (p.13)”.

230 Sobre corrida s de ca va lo e a rela çã o dos entre jockey e a prá tica , v er Melo (1999b) e Montenegro e Soa res

Ou ainda nesse trecho que representa um diálogo entre pescadores:

-Quem já viu ca ntoria em ja nga da ? O ma r nã o gosta de a legria s. Entã o de noite, credo! De noite o ma r é ma is tra içoeiro e ma is triste do que de dia .

Um outro interveio:

-O ma r é sa gra do. É vivo. É a única á gua que se bole por si. Eu a cho -o a té pa ciente e bom. Lá uma outra vez za nga -se, ma s qua nto tempo deixa a gente via ja r por cima dele! (BARROSO, 1979, p.24)

Nas corridas de jangadas, entretanto, essa relação mística com o mar poderia esbarrar na perspectiva racional que invadia a vida moderna, à medida que as corridas passaram a compor o cenário da cultura física em processo de esportivização. Se o mar tinha vontades, conduzia o destino do jangadeiro, como expressou Juvenal Galeno no famoso bordão “Minha jangada de vela, que vento queres levar?”, nas corridas esperava-se o oposto, o domínio do jangadeiro sobre seu trajeto, sobre seu destino. Não que a invasão da racionalidade, sobretudo a partir do final do século XIX, tenha apagado todo um imaginário místico do mar, contudo, enquanto em alguns casos é possível a coexistência de elementos da tradição-modernidade, em outros, conflitos e tensões se faziam presentes.

Outro tema relevante e bastante explorado pela literatura e pela produção artística do período, para refletir sobre as representações das corridas de jangada, é a proximidade com morte no cotidiano do pescador. Dos quatro contos que compõem as histórias praianas do

Praia e Várzeas de Gustavo Barroso, todos tem a morte como desfecho da narrativa, seja ela

suicídio, naufrágio ou por causas misteriosas. No conto Velas Brancas, para o velho pescador da praia do Meireles, Matias Jurema, a devoção e fidelidade o levou ao ato de simbiose com o mar, findando sua vida naquele elemento que tanto amava e agora só podia ouvir, e não mais ver, já que havia ficado cego. A morte do pescador no final da vida, embora comovente, é também serena, conformada, assim como na canção praiana É doce morrer no mar de Dorival Caymmi.

Nos outros três contos, a morte no mar tem um tom de pesarosa tragédia. Eram jovens com esposa e família à espera ou com planos de casamento. Muitas vezes o desfecho era consequência da ousadia e imprudência dos jovens pescadores que desafiavam o mau tempo, os dias sagrados ou os mistérios que rondavam o mar. A cena se repete. Jangadas abandonadas, os corpos boiando, o lamento dos parentes, dando ênfase a força do mar frente a fragilidade do elemento humano: “Boiavam cadáveres e fragmentos de tábuas ao sabor das ondulações, sem fito e sem rumo – sem destino como a própria onda. (...) Uma vela de jangada, muito branca, fugia muito longe...” (BARROSO, 1979 p.14).

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Na década de 1930 e 1940, a morte do pescador no seu ofício ainda era representada em obras de repercussão nacional como em Mar Morto de Jorge Amado, em que a morte é sempre latente na narrativa do autor. Dentre as Canções Praieiras de Dorival Caymmi, gravadas no mesmo período, em O Mar, Caymmi anuncia gravemente: “Pescador quando sai/ Nunca sabe se volta, nem se fica/ Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos/ Nas ondas do mar”; e mais adiante na canção, a cena do cadáver desamparado se repete: “Pedro saiu no seu barco/seis horas da tarde/passou toda noite/não veio na hora do sol raiá/Deram com o corpo de Pedro/Jogado na praia/Roído de peixe/sem barco sem nada/num canto bem longe lá no arraiá”. Em a Jangada Voltou Só, música que inspirou curta-metragem de Ruy Santos231,

novamente é descrita a imagem da jangada abandonada, sem rumo, à sorte do mar, e não mais do homem.

Figura 34 – A virada (1943) - Raimundo Cela

Na tela do pintor cearense Raimundo Cela (FIG.34), a iminência do naufrágio da jangada é representada. A fúria do mar lança um dos pescadores na água, enquanto os outros três tentam controlar a jangada. A imagem formada pelo pintor a respeito dos jangadeiros

231Além da música , o curta -metra gem foi inspira do no roma nce de Jorge Ama do, Mar Morto. O filme foi

dirigido por Ruy Sa ntos e produzido pelo Depa rta mento de Imprensa e Propa ga nda (DIP) do governo bra sileiro em 1941. A filma gem teria ocorrido no litora l cea rense, tendo como prota gonista o próprio Ca ymmi. Segundo Ca mpbell (2019), esta música ta mbém foi publica da no jorna l O Povo, sendo a ssocia da a o evento da via gem do s ja nga deiros cea renses a o Rio de Ja neiro em 1941.

transita entre idealização e a verossimilhança, em que se destaca todo o esforço para conter os efeitos da arrebentação. Da mesma forma, em outras obras do pintor, os pescadores são representados como indivíduos fortes, afeitos ao trabalho, que demonstram coragem e luta. O naufrágio, ao mesmo tempo que expõe todo o violento poder do mar, revela a intrepidez do homem litorâneo, afinal como afirma Barbosa (2010. p.27), “Em sua fatura, natureza e cultura estão intrinsecamente ligadas, mas nem por isso destituída de tensões”.

Na década de 1930 e 1940, os naufrágios não eram só objetos melódicos da literatura, canção popular e pintura. Nos jornais era ainda recorrente a presença de notícias de acidentes de jangadeiros, acompanhadas de manchetes com desfechos trágicos ou épicos, similares a estas: “Jangada que naufrága”232, “Desapparecido na pescaria”233, “Salvos os tripulantes da jangada que virou no mar”234.

A morte sempre iminente no cotidiano do pescador nos leva a pensar em representações das corridas de jangadas como práticas aventurosas, arriscadas, perigosas, que exigia de seus participantes uma boa dose de experiência, destreza e coragem. Mais que competir entre si, exaltava-se a disputa com os verdes mares bravios: “Os bravos pescadores, acostumados a lutar contra os elementos, venceram-nas, ainda uma vez, e a grande parada começou ás 16,20 horas, viajando todas rumo á Bola Luminosa, de onde regressaram, velozmente.”235. Embora não tenhamos encontrado notícias de mortes nas corridas, parecia ser comum, quando o mar estava mais agitado, que jangadas virassem. Na participação do famoso cineasta norte-americano em uma corrida de jangadas, o Correio do Ceará publicou que “Orson Welles poude, ontem, constatar a bravura dos nossos jangadeiros, pois, o mar se achava terrivelmente encapelado, tendo virado duas jangadas disputantes, cenas realissimas que, aliás, foram apanhadas por Robert Meltzer.236

As corridas de jangadas, portanto, eram mais um momento de exaltar a bravura dos jangadeiros cearenses. Para referir-se aos tripulantes, os jornais utilizavam-se de expressões como exímios jangadeiros e bravos pescadores.

De acordo com a historiadora Berenice Abreu, os jangadeiros estabeleciam com a morte uma relação ambígua:

O fa nta sma da morte no ma r ronda va – e a inda ronda – os pesca dores desde semp re , como a lgo que temem ma s que pa rece exercer uma a tra çã o irresistível; a fina l, é em

232 Ja nga da que na ufraga . O Nordeste, Forta leza , 20/10/1933, p.4

233 Desa ppa recido na pesca ria . Correio do Cea rá , Forta leza , 08/01/ 1935, p.8 234 Sa lvos os tripula ntes da ja nga da...Correio do Cea rá , Forta leza , 05/10/ 1940, p.1