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Carte 2 : Bassin inférieur du Mékong

6. DISCUSSION

6.3. L’application de la théorie des coalitions de cause

O conceito de discurso, de acordo com a compreensão de Foucault, caracteriza-se como um coletivo, um conjunto de elementos dispersos no tempo e não como uma unidade. O discurso é, nessa abordagem, um conjunto de enunciados que mantêm uma relação entre si. O trabalho da análise, assim, demanda a descrição desse movimento de dispersão dos enunciados, coloca ao analista a tarefa de determinar as distâncias entre os enunciados, os interstícios dessa trama que forma o discurso e o encadeamento que une tais enunciados e que nos permite apontá-los como um discurso (FOUCAULT, 2008). Desse modo, a noção de discurso desenvolvida por Foucault nos coloca em contato necessário com suas ideias de regras de formação e formação discursiva.

Isso ocorre porque o movimento de dispersão de enunciados que forma o discurso, apesar de não ser regido por um princípio de unidade, permite-nos determinar suas regras de dispersão e, consequentemente, descrever um sistema de relações que aí se forma – o que Foucault denomina “formação discursiva”. O estudo das regras de formação busca de- terminar regularidades no aparecimento dos objetos, formas enunciativas, conceitos e esco-

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lhas temáticas (FOUCAULT, 2008, p.43).

Os objetos de um discurso: inicialmente, pode-se pensar que a regularidade dos enunciados que formam um discurso se encontra em seus objetos; entretanto, o deslocamento temporal, por exemplo, pode transformar o entendimento que se tem de um mesmo objeto. E mais: um determinado conjunto de enunciados pode ter uma apropriação diferente de um mesmo objeto, de maneira que o que se diz sobre ele não mantém uma constante e, por isso, inviabiliza o estabelecimento de um ordenamento. Partindo da ideia de loucura, Foucault constata que, mesmo dentro do campo da medicina, podem-se encontrar diversos entendimentos para esse objeto, a depender do tempo e do desdobramento que as pesquisas acerca do conceito de loucura apresentaram. Além disso, como nos fala o autor, o objeto loucura no campo jurídico não é o mesmo no campo da medicina ou das determi- nações policiais (2008, p.36). Tal alteração na percepção dos objetos não permite estabelecer uma unidade discursiva em torno dos enunciados, mas é no movimen- to de dispersão dos enunciados que o analista deve concentrar-se, buscando de- terminar as distâncias entre os objetos, suas lacunas e aproximações, a trama que forma o discurso.

As formas enunciativas: centrar a análise na forma e no estilo dos enunciados, de acordo com Foucault, não permite estabelecer regularidades, já que nesse caso também ocorrem transformações constantes. Com isso, para determinar as regras de formação do discurso, torna-se importante observar o encadeamento dos enunciados, a rede que os forma – não apenas os objetos que permeiam os dis- cursos, mas os enunciados em que se localizam esses objetos e que levam a uma formação discursiva. É preciso, assim, esquadrinhar as relações que se estabele- cem entre os enunciados, como um enunciado reforça outros, ou se apoia em ou- tros para produzir seus sentidos, quais os seus pontos de convergência no interior de um conjunto heterogêneo. Enfim, é necessário identificar as regras de reparti- ção desses enunciados, suas inter-relações.

Os conceitos articulados no discurso: os conceitos convocados por um conjunto de enunciados podem não ser compatíveis, o que impede a delimitação de um

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campo discursivo. Partindo da comparação de conceitos fundamentais para o campo da gramática, Foucault evidencia que a unidade encontrada nos conceitos trabalhados nesse campo é só aparente. Não seria adequado, então, determinar um campo enunciativo a partir da coerência de um conjunto de conceitos, mas sim no estudo do surgimento desses conceitos, buscando ver aqueles que têm sua gênese simultaneamente ou em subsequência, ao longo do tempo – a ideia é bus- car o nascimento dos conceitos e sua lógica de dispersão dentro do conjunto de enunciados, evitando estabelecer apenas conjuntos de conceitos compatíveis.

Os temas presentes nos discursos: sobre esse aspecto, Foucault sugere que a re- corrência a um conjunto mais ou menos estável de temas não é um modo ade- quado de explicar a inter-relação entre os enunciados que formam um discurso. Para o autor, é possível a um campo discursivo apresentar um dado conjunto de conceitos que dá origem a dois temas recorrentes distintos – teríamos, assim, a mesma origem, para dois percursos temáticos. Por outro lado, é possível o oposto: conceitos incompatíveis que dão origem a enunciados dentro do mesmo tema ge- ral. Não seria possível, desse modo, buscar na determinação dos temas recorren- tes o princípio de unidade de formação dos discursos. A proposta de Foucault é justamente analisar o jogo de tensões e possibilidades temáticas que um conjunto de conceitos permite: as perspectivas temáticas, os pontos de escolha que deter- minam temas distintos ou a convergência temática a partir de quadros de concei- tos incompatíveis – os possíveis jogos estratégicos no processo de configuração de temas é o foco para determinação de um campo discursivo.

Na busca de determinar o campo enunciativo para grandes áreas como a medicina, a gramática e a economia, Foucault se depara com a limitação do estudo de elementos fixos tais como os objetos, as formas enunciativas, os conceitos e temas mobilizados pelos cam- pos discursivos. A partir dessa constatação, o autor nos propõe uma concepção de discurso que se baseia no movimento, na dispersão, no jogo de tensões, nos apagamentos e substi- tuições que se podem observar nos diversos objetos, formas enunciativas, conceitos e op- ções temáticas presentes na dispersão de enunciados – e são as regularidades percebidas nesses movimentos de dispersão que permitem a demarcação das formações discursivas.

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Desse modo, o conceito de discurso corresponde a um conjunto de enunciados vinculados a uma mesma formação discursiva (BRANDÃO, 1997).

Além dessa noção de discurso enquanto conjunto, agrupamento de enunciados que remete a uma mesma formação discursiva e que pode ter sua regularidade apontada pela análise de suas regras de formação, a AD, na compreensão de Foucault, apresenta, ainda, alguns pressupostos fundamentais, tais como:

A noção de sujeito: Foucault se contrapõe a uma visão autônoma e unificante do sujeito. Para ele, as figuras de “autor da formulação” e de “sujeito do enunciado” não se confundem (2008, p.107). O sujeito se caracteriza por sua dispersão, ele é tomado como um conjunto de possíveis posicionamentos que podem ser ocupa- dos por diversos indivíduos para assumir, no interior dos discursos, a legitimidade necessária para colocar em circulação os enunciados. Ou seja, o sujeito não é a origem dos enunciados, não funda discursos e sentidos (BRANDÃO, 1997, p.30).

A inter-relação entre enunciados: em seu percurso de estudos, Foucault opta pela noção de enunciado numa perspectiva de oposição às noções de frase e proposi- ção. Decorre daí que, ao contrário das concepções de frase e proposição, não exis- te enunciado que se constitua isoladamente. Um enunciado se situa sempre no in- terior de um conjunto de enunciados, mantendo com estas relações de oposição, contradição, apoio e sobreposição, por exemplo. Tem-se, então, que os enuncia- dos somente se formam no conjunto, no encadeamento, na inter-relação com ou- tros enunciados.

A noção de discurso: além de uma concepção de discurso enquanto conjunto; en- quanto grupo de enunciados que se interligam num campo denominado formação discursiva, conforme visto anteriormente, Foucault toma o conceito de discurso em sua dimensão de prática, de ato estratégico, que articula posições e interesses polêmicos, já que se trata de um campo de conflitos e disputas pelo poder. Tal apropriação da ideia de discurso impõe um estudo que vai além da matéria lin- guística: coloca-nos diante da análise de práticas discursivas e solicita recursos analíticos de natureza extralinguística.

60  O enunciado e sua materialidade: em paralelo à noção de enunciado, Foucault trabalha com o conceito de enunciação (BRANDÃO, 1997). Enquanto o enunciado vincula-se à ideia de materialidade – depende de um campo institucional, depen- de daquele que fala e de que lugar o faz –, a enunciação é da ordem da singulari- dade, do acontecimento – trata-se da colocação dos enunciados em circulação, em funcionamento; não pode ser reproduzida e resta-nos apenas o estudo de seus traços, de suas marcas. Ou seja, enunciações diferentes podem operar com o mesmo enunciado, mas seus efeitos de sentido são singulares, únicos, haja vista a série de fatores implicados no ato de enunciação, que não podem ser reproduzi- dos integralmente.