Carte 2 : Bassin inférieur du Mékong
2. CADRE DE RECHERCHE
2.2. Le canevas d’articulation conjointe du GAF et de l’ACF
2.2.3. Les croyances et les normes
Diná nasceu na região centro-oeste de Minas Gerais, no município de Arcos, em 1966, fez curso superior completo, é divorciada e mãe de uma filha. Trabalhou na instituição financeira V, no período de 11/05/2006 a 08/09/2008. Como bancária, era comissionada e atuava na análise de financiamento de veículos. Dessa maneira, a parte variável de seu salário dependia do desempenho relacionado ao tipo da carteira de clientes.
No início de suas atividades na empresa V, o gerente de Diná não monitorava as atividades da cidade de Uberlândia – local de trabalho da entrevistada, mas, sim, de Belo Horizonte. No entanto, após alguns meses de trabalho, o gerente agressor, denominado neste estudo como Demétrio, se mudou para Uberlândia. Apesar de “meio estourado”, como aponta a citação da vítima, havia um “bom relacionamento” entre o superior e a subordinada (DINÁ).
O marco para o assédio moral fluir ocorreu em uma ocasião em que Diná foi verificar, com o gerente, informações a respeito de um cliente e, nessa ocasião, Demétrio dirigiu-se à entrevistada aos gritos, na frente de outras pessoas. A vítima pediu que ele não gritasse, e tal resposta pareceu ao agressor uma afronta, como se Diná o estivesse desafiando, já que ela não aceitou sua conduta. Diná afirma que ouviu, por parte de colegas, o gerente comentar, durante um happy hour, que a funcionária “ia ver”, ou seja, ele não admitiu o confronto entre a funcionária e seu senhorio.
A partir do marco referenciado, que passa a representar a segunda fase do psicoterror, ou seja, o assédio moral propriamente dito, a entrevistada explica que o agressor, utilizando táticas sutis ao longo do tempo, passou a persegui-la durante um período de, aproximadamente, um ano e meio (duração). Entre as táticas, é possível citar: tirar clientes de alto padrão da vítima, com o propósito de justificar a demissão, deixando a funcionária com a produtividade baixa; não atender às solicitações da funcionária referentes a resoluções para clientes; conversar aos gritos, ridicularizando a vítima; humilhar a vítima sem se preocupar com “meias palavras”, por e-mail, com cópia para todos na empresa; e exaltar uns e
desmerecer outros, de maneira pejorativa, durante reuniões, em virtude de metas, fazendo ameaças.
A sutileza das táticas trazia mais angústia à vítima, que questionava suas competências, como expresso nos trechos: “[...] quando você tá lá nessa situação, até você tem dúvidas se você é ou não competente, porque você acaba acreditando que você não é” e chega a pensar: “[...] será que tá certo, será que... sabe, será que não sou eu mesmo, será que eu tô ruim, eu que sou ruim de serviço mesmo? Sabe, você acaba pensando [...]” (DINÁ). A perversidade, quanto mais velada, parece ter impactos negativos exponenciais, objetivando que a vítima, de fato, acredite que representa uma nulidade (HIRIGOYEN, 2010a).
Diná, ao longo da entrevista, chorou copiosamente, sendo necessário realizar pequenas pausas para que a vítima pudesse sequenciar as explicações. Os trechos em que suas emoções foram mais notórias relacionam-se à questão da queda de sua produtividade, que foi racionalmente esquematizada pelo agressor. Nesse sentido, nota-se a dor relacionada à imagem falsa produzida pelo processo do assédio moral. É como se a vítima estivesse nadando, com ondas “suaves”, que não apavoram por sinais externos, mas refletem-se internamente ao longo do tempo cansando-a. Não é um típico tsunami oficial, mas sim, de proporções amplas e graves, tecidas pelas relações sociais.
Outra subcategoria tratada pela entrevistada refere-se à reação ao assédio. Mas, antes, Diná explica sua percepção a respeito da violência moral:
[...] é muito confuso, é tudo muito confuso, entendeu? É... É tudo muito confuso, porque você tá no meio de um monte de embolação... Então, assim, é muita, é muita coisa, é muito ruim, né. Então, assim, eu sabia que ele tava... Talvez não com tanta clareza, mas eu não achava normal o que ele tava fazendo comigo, entendeu, talvez não usasse a palavra, mesmo, assédio moral, mas eu sabia que ele tava me prejudicando, isso eu tinha certeza, ué, porque... Como é que pode, né? (DINÁ).
A partir do entendimento ilustrado acima, que denota a intenção do agressor em demolir psiquicamente a vítima e, com isso, prejudicar seu trabalho (FREITAS; HELOANI; BARRETO, 2008), Diná, que sofreu agressões durante, aproximadamente, um ano e meio, buscou, após já estar sentindo diversos problemas como depressão, comunicar por meio da ouvidoria da empresa sua situação (reação da vítima), porém nenhum retorno foi dado. Ao sair de férias, a vítima ficou sabendo, por intermédio de colegas, que o gerente iria demiti-la. Por acreditar que tal decisão seria uma injustiça, a entrevistada contatou o gerente geral da instituição financeira por e-mail. Como resposta, um gerente de Belo Horizonte veio a
Uberlândia para conversar com Diná, não com o propósito de investigar em profundidade o problema, como indica Duffy (2009), mas, apenas, desconfiando da ocorrência do assédio. Promoveu, então, a demissão da vítima e, até mesmo, “tranquilizou-a”, no sentido de que a indicaria para outras empresas, na tentativa, segundo a entrevistada, de comprá-la e evitar um processo judicial.
A vítima explica que acessou a Justiça do Trabalho porque queria ser ouvida. Recebeu conselhos de colegas, assim como Berenice (segundo caso relatado), para não realizar tal ação, com alegações que seria muito difícil provar e poderia ser uma mancha em sua carreira. Todavia, Diná seguiu em frente nessa decisão, pois tinha convicção daquilo que tinha sofrido, como se lê em seu depoimento: “gente, mas eu vivi (choro)”, e, por esse motivo, queria reconhecimento em relação à violência sofrida, como expressa na fala: “[...] aconteceu aquilo, então, eu não tô louca entendeu?”. Além disso, Diná, assim como Berenice, parecia querer “dar uma lição” no agressor, fazendo-o refletir sobre as consequências que imputou em sua vida, marcando-a. E, também, elas expressaram-se dizendo que não gostariam que outros passassem pela mesma situação, muito embora, apesar desse desejo, soubessem que a realidade não é essa, mas, acessando a justiça, dariam sua contribuição para denunciar a violência moral no trabalho. Como expressa Freitas (2001), de fato, o assédio em si não é algo novo, contudo, a sua discussão e denúncia têm sido mais recorrentes.
Visto dessa maneira, entende-se que o prolongar do assédio moral, a partir da não mediação, escamoteia as possibilidades de tratar o processo dentro da empresa. O agressor, reinando sem nenhum abalo, recebe um atestado de permissão e validação de atos não negativos, mas, sim, eficazes (SALIN, 2003a), excluindo os “improdutivos” (Diná), os que se “diferenciaram muito do grupo” (Carmela) e os que “não têm perfil” (Acsa). A produção dessa máscara parece tornar-se cada vez mais espessa, avessa a um entendimento real do ambiente de trabalho, dilacerando oportunidades usurpadas, implicando que “a patologia individual daqueles que humilham é alimentada, construída e fortalecida cotidianamente pela instituição que o produz” (BARRETO, 2005, p. 181 apud BRADASCHIA, 2007, p.158, destaques nossos).
Diná não aborda, de maneira abrangente, as multicausas do assédio, mas direciona-as a dois pontos contidos nas atribuições da empresa. A primeira referência diz respeito à rigidez da estrutura hierárquica, que dificulta a comunicação. Essa mesma questão também foi destacada por Acsa e Berenice. A entrevistada menciona: “[...] como é que você passa por cima do seu gerente pra falar com o superior dele? É complicado!” (DINÁ). A fim de minimizar tal dificuldade, a vítima explica que as grandes empresas, principalmente,
deveriam não apenas disponibilizar um canal de denúncia, mas, sim, estruturá-lo de forma que o funcionário encurralado pelo agressor pudesse não ser penalizado. Isso porque a vítima necessita de segurança para romper a mordaça do silêncio. De acordo com a entrevistada, muitos não usam o canal por medo de terceiros ficarem sabendo, por receio da situação não ser investigada, e, por fim, de serem demitidos. A respeito do receio do problema não ser investigado Xavier et al. (2008) mostram que algumas vítimas optam por não denunciar o assédio justamente por não acreditarem na ação providencial da organização e das que relatam o ocorrido para um superior mais da metade informam insatisfação quanto à maneira como a questão foi tratada. A segunda menção que também contribui para explicar a ocorrência do assédio pauta-se, conforme Diná, na falta de treinamento. Tal investimento seria necessário, na ótica da vítima, pois o gestor precisa lidar com pessoas, sendo essa uma tarefa difícil por natureza.
Em virtude da falta de investigação a respeito do clima no ambiente de trabalho, Diná explica que sua vida foi prejudicada em vários sentidos (consequências). Ela sentiu-se frustrada, pois tinha vontade de crescer na empresa, acordava com disposição para ir trabalhar e era “literalmente apaixonada pela empresa [...]” (DINÁ). Todavia, a exposição ao ambiente tóxico em sua labuta diária levou-a a ter sérios problemas psicológicos e de saúde, passando a fazer uso de medicamentos controlados e, ainda, desenvolver dificuldades para dormir. Em seu ambiente familiar e com os amigos, isolou-se, tentando não deixar transparecer, principalmente, para a filha, os problemas vivenciados. Em um trecho, a entrevistada comenta: “eu fiquei trancada dentro de casa, muito tempo, sem sair, sem namorar, sem... sem nada. Eu me fechei” (DINÁ).
A entrevistada sofreu muito por sentir-se incompetente, sem justificativa plausível, o que lhe diminuiu a autoestima. Devido às mudanças na carteira de clientes, suas comissões, ao longo dos meses, foram se reduzindo, o que fez com que Diná acumulasse dívidas e, por fim, apresentasse restrições junto ao Serviço de Proteção ao Crédito – SPC. Ela ressalta que as consequências do assédio refletem-se por muito tempo. Aponta, por exemplo, para a dificuldade em relação à conquista de um novo emprego em uma grande empresa, com a idade de quarenta e cinco anos. Além disso, como Acsa, também foi prejudicada em relação ao prazo para se aposentar, implicando na necessidade de realizar contribuições junto à Previdência Social por mais anos.
Diná, assim como Berenice, ficou traumatizada com o simples pensamento de voltar para o mesmo segmento que trabalhava e, por ser mãe e solteira, e precisando trabalhar para o sustento da filha, buscou serviços autônomos. Ainda explica que, nos dois anos seguintes
(2009 e 2010), após ser demitida, ficou “totalmente perdida”. Somente nos últimos anos (2011 e 2012), tem se recuperado, embora tenha notado que, apesar de já ter feito suspensão da medicação dos remédios de depressão, falar sobre o assunto ainda a afeta muito – isso comprovado pelo choro, em diversos momentos da entrevista -, por isso, continua fazendo terapia com psicólogo.
Nos autos de seu processo, a reclamação na exordial ressalta a conduta abusiva do superior hierárquico que discriminava e humilhava a vítima com vistas ao alcance de metas. A testemunha da reclamante confirmou as alegações feitas na inicial, e provas físicas foram anexadas ao processo (cópias de correspondência eletrônica). Um exemplo a respeito do conteúdo do e-mail é elucidado no trecho a seguir: “Estamos passando por um processo de reformulação na nossa empresa e somos medidos por números, podem ter certeza EU NÃO GOSTARIA DE PERDER MEU EMPREGO, e acho que nenhum de vocês também” (AUTOS). Tal colocação evoca o medo como peça central, porém oculto entre as relações humanas, ademais, reforça a ideia de consagração, ou seja, uma busca pessoal por interesses a qualquer custo. Em outras palavras, um alguém se torna violento e ataca antes de ser atacado (FREITAS, 2001; HIRIGOYEN, 2010a). É, portanto, sob o escudo do medo que o olhar frente ao Outro se escurece, e é o “imperativo de gozo” que mascara uma investigação mais profunda (AZEVEDO, 2009). Isso porque os sinais externos da violência moral são escassos, e o dilacerar interno não é cena de guerra, por isso as táticas mais agressivas parecem ser as sutis. A justificativa da reclamada para a “guerra justa” (FREITAS, 2007c), para uma “violência institucionalizada” (MEREU, 2000), esbarra-se na citação da noção genérica de vida moderna, eximindo a organização do trabalho de qualquer responsabilidade, como se lê no parágrafo seguinte:
Em verdade, qualquer trabalho exige responsabilidade, atenção e dedicação e no mundo atual e globalizado, em que a concorrência é muito maior do que no passado, o estresse e as cobranças, realmente são um pouco maiores, mas não significa dizer que são em decorrência do trabalho, mas de uma vida moderna, agitada, corrida, em que a maioria da população come fora de casa (AUTOS, grifo nosso).
A prática da utilização de termos genéricos parece ligar-se a uma forma de manipulação, como explica Salles (1986, p. 65), como no uso do termo povo apresentado pela proposta dos republicanos, ao indicarem que, na monarquia, a possibilidade de o povo se instituir seria negada. Apenas a república seria capaz de recuperar para o povo “o seu lugar e
função no organismo social”, sob os limites e atribuições, portanto, da minoria detentora do poder.
Assim como a empresa não consegue equacionar com precisão os números referentes às consequências do assédio moral, voltam-se aos números do alcance das metas, aos índices dos retornos potenciais, às métricas para a otimização na produção. Contudo, todo planejamento é uma previsão de futuro que sofre diversas influências, e, por definição, não é um valor pontual, mas estatisticamente medido, considerando os cenários e desvios possíveis. Desse modo, cabe considerar a complexidade das relações humanas e não omiti-la, mas sim dar espaço a análises contínuas nesse sentido que, potencialmente, impactam nos resultados organizacionais no que diz respeito aos objetivos pretendidos (SALIN, 2003b; BRADASCHIA, 2007).
O próximo caso a ser exposto (quinto), assim como o de Diná, já discorrido, emerge no substrato cultural social, em que o agressor, de nível hierárquico superior (assédio, portanto, na direção descendente) e do sexo masculino, não aceita ser confrontado. Como fator agravante, a vítima por depender financeiramente do emprego, pensa que é sua responsabilidade tolerar o sofrimento (RODRIGUES, 2009), e o agressor notando a insegurança financeira da vítima é ainda mais estimulado em sequenciar os ataques, pois pensa que terá mais domínio sobre o alvo (MARTININGO FILHO; SIQUEIRA, 2008).