A Colônia Maciel, núcleo da difusão dos imigrantes italianos, já foi referida até aqui por diversas vezes. Foi fundada em 1885, pelo Governo Imperial. Segundo Anjos (2000, p.71), em 1900 possuía 65 lotes com 55 famílias e 343 pessoas. Nos dias de hoje, um dos sinais da importância desta colônia pode ser percebida pela instalação do Museu Etnográfico da Colônia Maciel (Fig. 28: à esquerda, segunda fotografia de baixo para cima), que tem por objetivos preservar a memória histórica daquela comunidade.
O Museu foi viabilizado pela ação do LEPAARQ/UFPEL e contou com a parceria da Sociedade Italiana Pelotense – SIP e a Sociedade Educacional Vila Maciel. Nas justificativas de elaboração deste Museu, constam dois aspectos que merecem destaque. O primeiro diz respeito à proposta de elaborar um projeto amparado em um “conceito mais amplo de territorialidade que inclui a preservação, tanto do patrimônio cultural material e imaterial (memória), quanto do patrimônio natural (paisagem)” (PANIS et.al., 2005, p.1).
Patrimônio cultural, ruralidade e identidade territorial: diversidade na Colônia de Pelotas – RS
O segundo está relacionado à identificação da Maciel “como a mais representativa presença italiana na região de Pelotas” que, embora tenha sido oficialmente instalada pelo governo imperial em 1885, jamais foi “reconhecida, como tal pela historiografia, causando, assim, um descontentamento para a comunidade italiana que deseja o reconhecimento histórico da Colônia Maciel como a 5ª Colônia Italiana do RS” (PANIS et.al., 2005, p.1).
Os argumentos são expressivos e a proposta inovadora na região de Pelotas, mas o mais interessante é observar que ao sair do papel e se transformar em realidade, em pouco tempo de funcionamento, o Museu Etnográfico da Maciel já tem repercussões na comunidade, tendo se transformado em referência local.
Há no Rincão da Cruz, também, uma forte influência da cultura dos descendentes de alemães e pomeranos. O Sr. Mário Carlos Mayer tem 65 anos e é agricultor aposentado. É casado com Loivinha Böhm Mayer, 60 anos, que nasceu e vive desde então nessa propriedade. Ela é filha de professor e reverendo, que por volta de 1933-1934 inaugurou a comunidade Vitória na Ponte Cordeiro de Farias, na Cascata (Fig. 14: no canto inferior esquerdo). A propriedade fica na Colônia São Manoel e encontra-se dividida pelos limites entre Pelotas e Canguçu. A Colônia São Manoel fica próxima à Maciel, em direção ao Triunfo. É seu Mário quem fala:
Bom aqui, os meus vizinhos são de origem, a maior parte de pomeranos. Já aqui para o lado de Canguçu são mais pessoas já meio até descendentes de bugres ou índios, mas não tem... alguns italianos também tem aí, mas a maior parte aqui, pro município de Pelotas a maior parte são de origem alemã e pomerana e algum italiano. [Sobre o idioma] Onde conseguiram ensinar seus filhos a língua que eles falavam, seus pais falavam, seus avós falavam, a gente encontra pessoas, crianças pequenas que falam pomerano. Alemão não é tanto. Eles conservam isso como, como é que vou dizer? Como uma tradição, que não perderam essa oportunidade de se comunicar. [Inquirido sobre outros idiomas:] Um pouco ainda o italiano. Alguns italianos ainda... (Mário Carlos Mayer). Grifo nosso.
Coincidência ou não as diferenças das origens étnicas marcam com polêmicas as decisões do distrito. Há uma discussão histórica de qualquer equipamento ou serviço público, na Maciel ou na São Manoel. Os não contemplados usarão o fato para argumento na próxima disputa. A memória das Reuniões do Plano Diretor traz situações de segregação, em que os moradores afirmavam não poder ir às reuniões pela distância etc., quando na verdade estava claro não se
dispunham a ir ao “território do outro”. Mas as discussões anteriores, em torno de onde deviam passar os limites distritais, eram muito polêmicas, contando com ânimos significativamente alterados, em alguns casos com ameaças à integridade física dos defensores das opiniões contrárias.
O Rincão da Cruz tem despontado também através de investimentos direcionados à agro-ecologia. O Templo das Águas (Fig. 20: segunda linha, de baixo para cima), propriedade de aproximadamente 7 hectares, pertence à de propriedade de Marco Gottinari, que deliberadamente tem aplicado os princípios da permacultura105. Mas há outros sensíveis a esta postura, como podemos perceber pela fala do Sr. Mário Carlos Mayer, que conta também alguns aspectos que auxiliam a entender um pouco o que o tempo tem destituído:
A gente olhando anos atrás, como o pai da Loiva mesmo tinha até fábrica de conservas, não é? E como tinha, não era só a dele, tinham, centenas quase, de fábricas aí. Não tinha problema em ter a colocação do seu produto. Todo mundo vendia o seu produto e agora isso aqui mudou muito, depois que entraram as fábricas grandes e aí foram massacrando os pequenos. Nossos moinhos coloniais... aqui tinham três, quatro moinhos coloniais, quase que a mesma água movia um, movia outro e hoje quase não existe mais isso. Então para reativar essas coisas que a gente perdeu com o tempo acho muito difícil. Se isso tivesse ficado daquela maneira que muita gente botava sua moage nas costas, trazia sua farinha, seu... plantação de milho era da época... a semente era como é que se diz? criola, não era uma semente de... e o meu filho que trabalha na agro-ecologia
eu acho que ele está num caminho muito bem, não é? É um trabalho
difícil, porque nosso agricultor já está mais para o lado dos inseticidas.
Sobre transgênicos, sei lá. Essas sementes híbridas... não vejo futuro nisto daí (Mário Carlos Mayer). Grifos meus.
Por fim, cabe o registro, obtido com Sr. Otto Germano Loeck, de 51 anos, antigo morador da Colônia Municipal, hoje morador das proximidades da administração distrital. Sr, Otto é agricultor, pedreiro e burocrata da administração distrital. Ele conta a origem do nome Rincão da Cruz:
Nesta localidade eu estou... entre as duas são vinte e dois anos. Aqui nessas duas, Municipal e Rincão da Cruz. Olha [...] pelo o que a gente fala, conversa com esses mais antigos, isso aqui é devido a uma cruz de
madeira que tinha aí e essa cruz hoje se encontra no cemitério do
105
Segundo Tomiello et. al. (2008), a permacultura é um termo “cunhado pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren na década de 1970 para descrever um sistema integrado de espécies animais e vegetais perenes ou que se perpetuam naturalmente e são úteis aos seres humanos, sendo considerada uma cultura permanente sustentável.”
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Rincão da Cruz, que é o cemitério mais conhecido como o cemitério dos Vergara. [...] Mas é no Rincão da Cruz que a cruz está à disposição até
hoje lá tomada do tempo, toda roída, ela vai apodrecendo aos poucos e está lá e já está pequenininha. Ela tinha mais de dois metros, agora acho que está com um metro. [Devido] à ação do tempo. Ele é mais conhecido como cemitério dos Vergara (Otto Germano Loeck). Grifo meu.