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É voz corrente e confirmada pela investigação que os professores são atores indispensáveis para assegurar o direito à educação dos cidadãos e o seu contributo é fundamental para a melhoria das políticas educativas (Marcelo García, 2009a). E, como o autor adianta, a pesquisa também tem indicado que a qualidade dos professores e a forma como ensinam é um factor primordial na explicação dos resultados dos alunos (idem). Na mesma linha está Darling-Hammond (2000) quando considera que a aprendizagem dos alunos depende sobretudo do que os professores sabem e daquilo que podem fazer. Por isso, a questão da eficácia dos professores tem- se tornado cada vez mais pertinente, até mesmo porque, dada a exigência intrínseca ao trabalho de ensinar, “não é qualquer pessoa que consegue ser um professor eficaz e manter essa eficácia ao longo do tempo” (OCDE, 2005, P. 12).

Neste contexto, baseado em OCDE (2005) - um relatório intitulado Teachers matter: attracting, developing and retaining effective teachers - Marcelo García

(2009a) lembra que a nível internacional, as questões sobre “como fazer com que a docência seja uma profissão atrativa? como conservar no ensino os melhores professores? E como conseguir que os professores continuem a aprender ao longo das suas carreiras?” têm consubstanciado preocupações essenciais na abordagem da atividade docente. E estas são também algumas das causas porque se considerou relevante perceber como os aspirantes a docentes são formados para a função de ensinar, isto é, como são ensinados a ser professores, e como adquirem o saber que os habilita a entrar na profissão docente. E, conceptualizando este propósito, importa compreender em que medida essa FP consubstancia (ou não) um processo de construção de profissionalidade ou, pelo contrário, gera processos de funcionarização ou outros. Tal objetivo do estudo traz para o centro deste trabalho a construção de conhecimento que possa clarificar aspetos pertinentes para a melhoria da FP e certamente também das aprendizagens dos alunos, pois:

a profissão docente é uma «profissão de conhecimento». O conhecimento, o saber, tem sido o elemento legitimador da profissão docente e a justificação do trabalho docente tem-se baseado no compromisso em transformar esse conhecimento em aprendizagens relevantes para os alunos (Marcelo García, 2009a, p. 8).

Assim, a questão da profissionalidade na docência tem-se constituído crescentemente como um campo de pesquisa e muitos cientistas da área da educação têm-se debruçado sobre a questão do saber docente (o saber para ensinar), como configurador da função do professor e legitimador essencial da sua ação. Merecem destaque nesse empenho autores como: Roldão, Nóvoa, Alarcão, Shulman, Perrenoud, só para citar alguns dos relevantes acima referidos.

Parte-se do pressuposto de que um estudo sobre formação e profissionalidade pode produzir conhecimento contextualizado, incitar debate sobre essa temática e

remeter para a reflexão sobre o que é saber ensinar, que

conhecimentos/competências envolve e como são gerados. E, necessariamente, para a explicitação a montante da discussão sobre o que é ensinar.

Outro aspeto que pesou na opção pelo tema deste estudo foi o facto de os problemas apontados aos professores em termos de falhas na concretização do seu

mandato de fazer passar o currículo2 denotarem que os professores estão a ser pouco

eficazes, considerando os resultados preocupantes desse processo (Bagnol e Cabral, 1998;VSO, 2012; Castiano et al., 2012) indiciadores da necessidade de melhorias na FP. Assim, na esteira de Berliner (2000), entende-se que os aspetos relativos ao processo de aprender a ensinar nas suas diferentes fases (formação inicial, inserção na docência e formação contínua) são importantes na apropriação do saber docente, mas o seu desenvolvimento na ação formativa concreta tem merecido pouca atenção e, como o autor advoga, a FIP desempenha um papel crucial no processo de aprender a ensinar, a não menosprezar.

Atendendo a que há estudos confirmando a existência em Moçambique de alunos concluindo a educação primária (7ª classe) sem saber ler nem escrever (Bagnol e Cabral, 1998; AfriMat, 2012; VSO, 2012), e uma vez que a maioria dos estudos da FP sobre construção da profissionalidade coloca a tónica na questão do aprender a ensinar e olham para esse assunto com incidência no estágio profissional e sua supervisão, pareceu que focalizar a outra face da questão: ensinar a ensinar, olhando-se para a ação de quem o faz, os formadores, poderia ser um contributo de interesse na discussão desta temática.

Por outro lado, a nível da atividade profissional da autora do estudo, enquanto docente na Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), uma unidade que se assume como um centro de reflexão, produção e disseminação do conhecimento teórico e prático sobre a educação e cujo compromisso em termos de investigação educacional no contexto da extensão (um dos três vetores de atuação da UEM) é o intento de “realizar investigação educacional que contribua para melhorar os processos de ensino e aprendizagem nas escolas e a tomada de decisões bem informadas” (Missão da FACED), entendeu-se que um estudo sobre a construção da profissionalidade no Ensino Básico, numa perspetiva focada no que se faz para se formar profissionais na linha almejada, era pertinente, pois podia

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Na assunção de Roldão (1999 a) a função da escola através dos professores a passagem do currículo (aprendizagens socialmente desejáveis) aos alunos.

dar um contributo, quer numa lógica favorável à abordagem pragmática3 (Ambrósio,

1992) e aos limites que circunscrevem as finalidades da investigação, quer do ponto de vista da animação do necessário debate sobre esta matéria entre as instituições de FP e outras entidades envolvidas nessa formação. Até porque havia a impressão de que em Moçambique os discursos sobre FP alinhados com tendências atuais e aparentemente adequadas às necessidades não conferiam com a realidade prática e contextual no terreno para os concretizar (VSO, 2012).

Por fim, há a considerar que a UEM tem responsabilidades na formação de formadores de professores do Ensino Básico, nomeadamente os que lecionam as disciplinas/módulos de Metodologia de Ensino Bilingue dos IFP, na sua maioria graduados pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais, nos cursos da área de ensino, que contam com a colaboração da Faculdade de Educação. Por isso, ainda que de forma indirecta, esta unidade participa no desenvolvimento da noção de profissionalidade dos professores do Ensino Básico. O empenho da UEM/FACED é importante porque se assume, na esteira de Canário (2002), que a adoção de uma cultura de formação profissional é uma exigência importante na busca de uma resposta adequada aos desafios da formação de professores na sociedade contemporânea, para proporcionar uma formação de elevado nível a um público escolar crescente e bastante heterogéneo.