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2-2) L’analyse des besoins

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O Renascimento sugere a descentralização do conhecimento, a interdisciplinaridade, a vida ao ar livre, a sociabilidade, etc. O termo Vegetação Domesticada está sendo empregado para qualificar a vegetação produzida no ambiente antropizado da cidade renascentista, inserindo-se as ações do paisagismo no elenco temporal das intervenções urbanas ligadas à Arquitetura e à Engenharia na Cidade Moderna do Pós-Medievo.

2.2.1 Vegetação Domesticada, Conhecimento e Possibilidades de Utilização

Buscando entender o ponto de ruptura entre o ‘antigo’ e o ‘moderno’, vale acatar a Revolução Científica (Século XVII), quando alguns Filósofos Naturais (Galileu Galilei, René Descartes, Francis Bacon, Isaac Newton)36 se libertaram dos dogmas regiliosos para retomar a

observação mecanicista “clássica” sobre a natureza, e a ilusão ‘cristã’ sobre o ‘mundo’ se tornou o objetivo da pesquisa para se desvendar, sobre a luz da ciência, o universo e sua origem, assim como o processo evolutivo dos seres vivos no Planeta Terra, e nesse processo ocorre a passagem entre a Filosofia Natural (antiga) e a Ciência Natural (moderna), Través de uma conquista gradual que se desenvolvia em instituições associativas de cunho científico, sendo, a Royal Society (Inglaterra)37 considerada como a pioneira.

A Natureza e sua diversidade têm despertado a perplexidade, uma súbita percepção, ‘coisa’ que conduz a atitude em uma determinada localidade, e, assim, percebe-se a ligação intrínseca entre o ambiente geográfico e a botânica e esse entendimento vai possibilitar a utilização da vegertação para ser produzida e aplicada tambem, no meio urbano.

Na Idade Moderna, as atividades do homem caçador-coletor se tornam uma prática para geógrafos e naturalistas segundo métodos de coleta, armazenamento e condução da espécie de seu ambiente natural para o locus de classificação, experimentação, constatação e aplicabilidade. Segundo se observa nas fontes consultadas, essa prática se desenvolvia no fluxo das expedições exploratórias ultramarinas, assim estimulando a inclusão da Geografia e da Botânica nas universidades tradicionais para desvendar as questões do meio ‘Natura

Naturans’ e seus agentes modificadores que conduzem ao meio ‘Natura Naturata’.

Não podemos, pois, falar de espaço, de seres extensos etc., senão debaixo do ponto de vista do homem. Nada significa a representação do espaço, se saímos da condição subjetiva, única sob a qual podemos receber a intuição externa, quer dizer, ser afetados pelos objetos. (KANT, [1781], p.18).38

O campo de experimentação teórico-prático da escola kantiana (Prússia) se tornou-se o

36Isaac Newton (1643-1727). Inglês, católico, teólogo, físico, matemático, astrônomo, alquimista, filósofo

natural. Sua obra Principia, 1686, influenciou o mundo científico para a visão mecanicista da natureza ‘divina’.

37 Royal Society (1640). Origina-se como uma reunião de filósofos naturais para promover o conhecimento do

mundo natural através da observação: Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge, 1660, Reino Unido. Academia de cientistas (1850). Disponível em: < http://royalsociety.org >.

38 Immanuel Kant (1724-1804). Professor de Geografia Física em Königsberg, Prússia (GODOY, 2010, p.59),

República das Letras foi o estímulo da pesquisa científica (Geografia, Naturalismo). Karl Ritter (1779-1859). Professor de Geografia Física (Berlim), defende a ideia de que “todos os povos estão sob a influência da Natureza” (Acot, 1990:116) Alexander von Humboldt(1769-1859). Prussiano, geógrafo, naturalista, explorador. Friedrich Hatzel (1849-1904). Prussiano, protestante, geógrafo e etnólogo.

centro da Geografia Física em que os Geógrafos Naturalistas, através da sucessiva observação do elemento coletado, formulam as teorias básicas para o entendimento do ser vivo (vegetal ou animal) e a possibilidade de aclimatação e de seu desenvolvimento a partir dos condicionantes do ‘ambiente geográfico’. Constata-se que as características da fauna e da flora de uma região encontram-se relacionadas com a latitude, tipo de relevo e condições climáticas existentes: “[...] Humboldt lança diversas bases para a geografia física como a climatologia (termo provavelmente de sua autoria), botânica, orografia, oceanografia, geologia, etc.[...]” (ARAGÃO, 1960, apud GODOY, 2010, p.46). Na sequência associativa entre o ser vivo e seu meio natural, o geógrafo Hatzel observa o ‘determinismo geográfico’ em uma determinada intervenção (espontânea ou provocada) em que os seus indivíduos passam pela adaptabilidade e buscam seus interesses imediatos em regiões vizinhas com propriedades semelhantes para garantia de sobrevivência. Assim, o modelo experimental se amplia em ramificações da ciência europeia, e o interesse sobre a fitogeografia indica os rumos da Botânica na Suécia (Linnaeus)39 onde se criou a classificação binominal da espécie vegetal; na França (Candolle)40, onde se desenvolveu a taxonomia moderna, a sistemática, e foi criada a expressão ‘Paisagem Vegetal’ para um determinado agrupamento florístico em um quadro de observação (ACOT, 1990). Em Portugal (Vandelli) 41, foi criada uma série de

“viagens filosóficas” para estudar sua flora natural e, em função da fisiocracia, iniciou-se o processo da aplicação utilitarista da vegetação na atividade agropastoril, como uma importante fonte de sustentação do Império Português e de coligação com o sistema imperial mercantilista.

Renovava-se a crença sobre a ciência, e o renascimento científico delegava aos sábios e aos cientistas, o papel de construir o bem-estar e a saúde dos homens com suas descobertas, chamando, assim, as ciências naturais e mecânicas ao primeiro plano de interesses de uma nação. (SEGAWA, 1996, p.111).

Nesse entendimento, sobre o meio natural ‘Natura Naturans’, observa-se a relação espontânea entre os seres autótrofos e os seres heterótrofos42 e que no meio aculturado

39 Carolus Linnaeus (1707-1778). Sueco, protestante, teólogo, médico, botânico e Zzoólogo. Autor de Systema

Naturae, 1758. Fundador do Jardim Botânico da Universidade e de sua residência.

40 Augustin Pyrame de Candolle (1778-1841). Suiço radicado na França, botânico e médico. Defendeu sua tese

Essai sur les propriétés médicales des plantes, em 1804.

41 Domênico Vandelli (1735-1816). Italiano, naturalista, botânico. Filho de Girolamo Vandelli, cátedra da

Universidade de Pádua. Fundador de: Museu de História Natural de Pádua (1757 e 1763). Professor do Colégio Real dos Nobres, Lisboa (1764). Disponível em: < http://bibdigital.bot.uc.pt/Domênico Vandelli >.

42 Autótrofos – Seres capazes de produzir seu próprio alimento. Heterótrofos – seres que dependem do outro

‘Natura Naturata’, deflagram-se os movimentos de acomodação das interdependências entre os recursos naturais e o espaço em processo de transformação.

Voltando o olhar para o passado remoto, percebe-se que os povos primitivos conheciam algumas características sobre as plantas, entretanto acreditavam que estas obtinham seu alimento através do solo. Na Idade Moderna, mediante a evolução da Botânica, se desenvolvem as teorias e conceitos sobre a ‘fisiologia vegetal’, comprovando que a planta é um ser autótrofe, e que por essa condição produz sua glicose, transformando-a em energia solar e energia química e que, em seu ritmo natural, promove os fenômenos da fotossíntese, respiração, absorção, condução de água e nutrientes, translocação, germinação, floração43.

O conhecimento da fisiologia vegetal possibilitou a integração arquitetura-vegetação, despertando, para os arquitetos, engenheiros e artistas, o interesse por um desenho urbano diferenciado da enclausurada cidade medieval, e por isso alguns autores (SEGAWA, 1996), ao estudar sobre o desenvolvimento urbano na Europa(século XVII), atribuem esse desenho diferenciado à presença da vegetação nos espaços públicos de algumas cidades, um fato que se deve à possibilidade reprodução do elemento vegetal e da sistematização e assim a vegetação foi introduzida como um dos elementos do projeto de arquitetura e de engenharia urbana, e nesse processo de observação ocorreu uma ‘ruptura’44 entre o estilo da cidade

medieval e o conceito da cidade moderna projetada sob a luz da ciência (ARGAN, 1999). Os arquitetos humanistas buscavam, na tratadística clássica, encontrar soluções para o crescimento da cidade medieval (murada) tentando estabelecer a mediação entre o ‘antigo’ preexistente, e o ‘moderno’ a ser construído, percebendo, através do tratado de Vitruvius45

que “[...] a arquitetura é uma ciência adornada com numerosos ensinamentos teóricos e com diversas instruções, que servem de consulta para julgar todas as obras que alcançam sua perfeição mediante as demais artes” a arquitetura é uma atividade que se desenvolve no arcabouço da ciência, mas se concretiza como um produto da arte, segundo os conceitos de simetria e proporção, mas que a natureza é a fonte de inspiração para a obra que, por si, reflete

43 Aristóteles (384-322 a.C) observou que as plantas necessitavam da luz solar para adquirir a sua cor verde. Jan

Baptist van Helmont (1577-1644) criou a teoria de que as plantas retiravam seu sustento da água. Stephan Hales, em Legumes Staticks (1727), demonstrou que as plantas retiravam os nutrientes necessários para sua

sobrevivência do ar; Joseph Priestlye (1771) descobriu que as plantas renovavam o ar. Jan Ingen-Housz (1779) destacou que só as partes verdes das plantas eram capazes de purificar o ar. Nicholas de Saussure (1804) descobriu que a luz era responsável pelas plantas produzirem oxigênio e absorverem gás carbônico (dia) e, à noite, o processo é inverso. Julius Robert Meyer (1842) e Julius von Sachs (1864) compreenderam na fotossíntese a transformação de energia luminosa em energia química. Blackman (1905) classificou dois tipos de fotossíntese, a que ocorria na luz e a que ocorria no escuro (LACERDA, 2007, p.103).

44 ‘Ruptura’ no sentido da reação da cultura humanista sobre a história clássica e seus tratados.

45 Atribui-se ao Arquiteto romano Vitruvius (séc. I a.C.), fazer a transposição da arquitetura clássica grega para

o Império Romano em diversos manuscritos copilados em De Architectura Libri Decem, obra publicada em Roma em 1521 (ARGAN, 1999, p.59).

diretamente na cidade “urbis” latina. Nesse sentido, nota-se que a obra edificada deve-se ampliar em seus limites para dialogar com a cidade e que o projeto que antecede a construção, precisa considerar as características físicas do terreno (relevo, clima, insolejamento, altitude, hidrografia, vegetação) para estabelecer o diálogo entre a preexistência e a paisagem criada. (VITRUVIUS, 1995, Livro 6. cap.1º). E assim, percebe-se que o processo de transformação entre ‘Natura Naturans’ e ‘Natura Naturata’, em sua continuidade e maturação, no período renascentista foi agraciado com o pensamento clássico vitruviano sobre a construção da cidade conforme as condicionantes básicas relacionadas à sua prexistência do meio edificado, do meio semirural e ainda do meio natural, e que tais atributos envolvem uma série de conhecimentos que deveriam ser explorados por meio da interdisciplinaridade. Assim, a ‘paisagem moderna’ vai surgir no âmbito do legado medieval como uma composição entre Arquitetura, Engenharia, Agricultura e Arte, e o Paisagismo se desenvolve a partir da harmonização entre a vegetação agricultivada, no campo se torna um fenômeno da fisiocracia, e, na cidade, o paisagismo passa a representar a condição de salubridade pública, de embelezamento do ambiente edificado, e de atrativo para o turismo.

Nesse contexto, valem referenciar alguns pensamentos que se fundamentam na tratadistica vitruviana e conduzem o pensamento moderno (arquitetos, engenheiros, artistas, agricultores, teóricos e práticos) ao processo de criação de modelos que buscam a integração entre a edificação com a cidade ou com o campo.

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