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L'ANALYSE D'UN AGRONOME Georges Serpantie

Segundo Castells (2002), a nossa espécie terá alcançado na última década do século XX um nível de conhecimento e de organização que nos permitiria, pela primeira vez na nossa história, viver num mundo predominantemente social. Para o autor, em 1996 (data da publicação original da obra “A Sociedade em Rede”), estaríamos a assistir ao começo de uma nova existência, de uma nova Era, que se designou por Era da Informação, e que é fundamentalmente marcada pela autonomia da cultura face às bases materiais da nossa existência.

A questão da autonomia assume-se então enquanto um conceito central na caracterização da nossa época, das nossas sociedades e da nossa cultura. No entanto, essa percepção não nos será suficiente, pois temos também, necessariamente, de perceber qual o seu impacto na nossa vida quotidiana, o que implica – numa sociedade onde a mediação impera (Silverstone, 1999) - questionar qual o papel dos media no desenvolvimento dessa mesma autonomia. Falar de autonomia, no quadro do quotidiano e das dimensões da sáude implica, igualmente, compreender qual o modelo biomédico de descodificação e compreensão da nossa existência, algo que Giddens (2006) considera como a base da nossa relação com a vida e a natureza. No entanto, se estamos a viver uma época de mutação de paradigma social, uma passagem para um paradigma onde a nossa relação com a natureza é marcadamente, ou mesmo quase só, social, precisaremos efectivamente de compreender esse modelo biomédico? Ou é a própria construção e promoção da autonomia individual, face à natureza, que reforça o modelo biomédico? E, por último, não poderá o próprio modelo biomédico vir a perder, fruto dessa mudança de paradigma, a sua utilidade conceptual ?

O modelo biomédico a que se refere Giddens (2006) baseia-se fundamentalmente nos conceitos de saúde e de doença, conceitos construídos e afectados pelas influências sociais e culturais de cada sociedade e de cada era. O campo da sociologia designado por sociologia do corpo investiga precisamente as formas pelas quais os nossos corpos são afectados pelos aspectos sociais, pelas nossas experiências culturais, normas,

processos de mudança que poderão influenciar esse quadro analítico, é a separação crescente entre o corpo e a natureza – no sentido do nosso ambiente e dos nossos ritmos biológicos. O nosso corpo tem vindo a ser cada vez mais permeável às influências da ciência e da tecnologia, numa alternância entre o uso de máquinas e a prática de dietas, e esses factos vão criando, por sua vez, novos dilemas (Giddens 2006). Giddens cita Foucault (1988) e relembra aquilo que o autor designou por ‘tecnologias sociais’, tecnologias que afectam o corpo. Com essa expressão, Foucault pretende explicar que o corpo é algo que nós cada vez mais “criamos” e não que aceitamos como um facto imutável e dogmático. Uma tecnologia social é toda e qualquer intervenção que realizamos e que interfere com o funcionamento dos nossos corpos, que os altera de alguma maneira. Mas, naturalmente, o impacto das tecnologias é sempre condicionado por factores sociais (Webster, 1997 e 2002; Lyon, 1992 e 1998). O contexto da Era da Informação, criou as condições e a facilitou apropriações para que, por um lado, o indivíduo nunca tenha tido tanta autonomia e controlo sobre o seu corpo como hoje, mas por outro lado, essa constatação cria também novas possibilidades, que podem possuir índole positiva, mas que também implicam novas ansiedades e novos problemas.

As sociedades contemporâneas estão marcadas por uma série de acontecimentos históricos que transformaram radicalmente aquilo que podemos designar por “sociedades modernas”. A revolução tecnológica, centrada nas tecnologias de informação é uma dessas transformações (Castells, 2002; Giddens, 2007). As tecnologias de informação ao possibilitarem a sua apropriação para o remodelar de toda a base material da sociedade de uma forma acelerada (economias globalmente interdependentes, novas formas de relacionamento entre a economia, o Estado e a sociedade) criam a mudança social (Berger e Luckmann, 2004). O capitalismo enquanto sistema económico e de organização social (Webster 2002; Castells, 2002, 2003a; Giddens 1992) passou ele próprio por um processo de profunda reestruturação (maior flexibilidade de gestão, descentralização e ligação em rede entre empresas, fortalecimento do capital em relação ao trabalho, declínio da importância dos movimentos sindicais, valorização do individualismo, diversificação das relações laborais, incorporação feminina no mercado de trabalho, intervencionismo do Estado de forma diferenciada do que era comum até agora, aumento da concorrência económica). A globalização dos mercados também se reflecte na globalização das organizações

criminosas, mas também do conhecimento, proporcionando os meios para estimular a actividade intelectual, produção, transformação, distribuição e consumos massivo de informação e cultura, promovidos pelas tecnologias de informação e comunicação (Castells, 2003a). Todas essas mudanças produzem, e são elas próprias produzidas, através de processos paralelos de mudanças sociais, mudanças que, por sua vez, nos levam a questionar e proceder ao, eventual, reagrupamento conceptual e social das nossas análises. É precisamente essa discussão analítica que se procura desencadear ao longo das próximas páginas no contexto da Era da Informação e dos processos de autonomia em quadros de risco, incerteza e reflexividade (Beck 2004; Giddens, 1992; Castells, 2002, 2003a, 2003b).

Ao longo deste capítulo, e com o objectivo de explicitar, tão claramente quanto possível, o contexto em que as mudanças ocorrem, quais são essas mudanças e como se processam e desenvolvem os projectos de autonomia individual no contexto da saúde nas sociedades contemporâneas, irão ser abordadas temáticas contextualizadoras, nomeadamente: Informação e o Risco nas sociedades modernas; Comunicação e as Redes como alavancas na construção da autonomia; Centralidade da Comunicação e os Novos Paradigmas; Saúde como valor predominante da sociedade; Saúde e Mediação; e, por fim, as TIC’s no sistema de saúde em Portugal.