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Compreendendo Martinus Hoyer como um dos agentes propagadores da ideologia liberal em fins do século XIX, precisamos agora considerar precisamente as lutas de representações29 daquele contexto social, e como se inseria nelas. Assim, faz-se necessário abordar mais detidamente suas relações pessoais. Destaco três personagens que são fundamentais para entendermos de que forma Martinus se movimentava na sociedade Maranhense: o jornalista Themístocles da Silva Maciel Aranha; o político, biógrafo e literato Antonio Henriques Leal e o chefe político Augusto Olympio Gomes de Castro.

Comecemos por Gomes de Castro. Este pode ser considerado a maior liderança política no Maranhão nas últimas duas décadas da era imperial. Além de um dos principais líderes políticos do partido conservador desde a década de 1870, era bacharel em direito por Olinda e foi deputado provincial e geral pelo Maranhão; tornou-se por duas vezes presidente da província (em 1870 e 1873), foi conselheiro do Império e senador da República; publicista, jurisconsulto, parlamentar e soberbo orador. Segundo Meireles, nas lutas internas do partido

28 Assim escreveu Antonio Pereira Viana, advogado do Sr. Francisco Gonçalves dos Reis, acusado por Martinus

de desonestidade na apresentação das contas da “Casa do Thesouro” durante sua gestão no início dos anos de 1870.

29 Embora esse conceito seja de Bourdieu, a interpretação dada por Chartier é esclarecedora: “As percepções do

social não são de forma alguma discursos neutros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projecto reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. Por isso esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de poder e de dominação. As lutas de representações têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio”. (CHARTIER, 1990, p. 17).

conservador, chegou à hegemonia do partido auxiliado por uma “plêiade brilhante de jovens intelectuais em que se distinguiam Celso de Magalhães e Temístocles Aranha” (2001, p. 243).

Gomes de Castro também fundou alguns jornais. A “História da Imprensa no Maranhão, 1821-1925”, de Antonio Lopes (1959), informa que Gomes de Castro fundou “A Situação” e “O Tempo”; escreveu em “ O Paiz” e no “Jornal do Recife”, além de ter sido sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Por sua vez, Martinus Hoyer escrevia freqüentemente no jornal “O Paiz” de Themístocles Aranha30. Este era, nas palavras de Viveiros, “o centro animador da actividade intellectual e econômica do Maranhão” (1937, p. 5). Foi também um prestigiado professor. Escreveu no jornal “A Imprensa” e redigiu “O Publicador Maranhense”. Em 1858, foi convidado para dirigir o “Jornal do Comércio”, substituindo o fundador Prudêncio José Botelho. Em março de 1863, funda “O Paiz” e durante mais de 20 anos trabalha nele, “sempre cercado pelo escol da intelectualidade moça naqueles tempos: Celso de Magalhães, João Candido, Francisco e Augusto Viveiros de Castro, Almir Nina, Cláudio e Luís Serra, além de outros” (VIVEIROS, 1937, p. 7).

Entre eles, estavam com certeza Martinus Hoyer, André Rebouças e Alexandre Teófilo de Carvalho Leal (estes últimos elogiaram as obras de Martinus pelo O Paiz). André Rebouças era professor da Escola Politécnica (VIVEIROS, 1954, p. 502) e Alexandre Teófilo31 era bacharel em ciências matemáticas por Coimbra, economista e pedagogista [sic], foi deputado provincial e certamente o maior amigo de Gonçalves Dias. Ambos, reconhecidos como intelectuais das ciências, prefaciaram e/ou elogiaram pelos jornais obras de Martinus, emprestando-lhe dos seus prestígios para legitimá-lo também como cientista a serviço do “progresso da província”.

30 Themístocles Aranha é pai do escritor maranhense Graça Aranha, uma das principais expressões do

modernismo na literatura brasileira, teve importante atuação no movimento conhecido como “Semana de 22”, e autor dentre outras da obra “Canaã”.

31 Dados colhidos da obra de Antonio Lopes (1959), Henriques Leal (1987) e da biografia feita por Meireles

E em relação a Martinus, Themístocles parecia tê-lo em grande apreço, pois várias vezes elogiou pelas páginas de “O Paiz” as iniciativas de Martinus Hoyer, tentando por em prática medidas que eram defendidas pelo jornal.

Tudo indica realmente que ambos mantinham um relacionamento muito próximo, inclusive com amigos em comum, como é o caso da amizade entre Martinus e Antonio Henriques Leal. Este era biógrafo, político do Partido Liberal, literato e jornalista, escreveu em vários jornais e revistas32. No prefácio de sua maior obra, “Pantheom Maranhense”, agradece a Martinus Hoyer e Themístocles Aranha como seus colaboradores na divulgação da obra. Um artigo de Sergio Vieira (O Paiz, 30 dez. 1881), por ocasião da morte de Martinus Hoyer, é bem claro ao dizer que Antonio Henriques Leal, por ser biógrafo reconhecido e amigo íntimo de Martinus reunia as melhores condições para fazer sua biografia. Infelizmente, a biografia de Martinus não foi feita.

Aparentemente, essa rede de relações sociais a qual Martinus se inseria é contraditória à sua pregação de nítida orientação liberal. Isso porque suas relações mais próximas – como Themístocles Aranha – estão relacionadas com o partido conservador e com o grupo de Gomes de Castro. Para compreendermos melhor esse quadro obscuro, precisamos retomar o estágio das lutas políticas pela hegemonia dos discursos e das práticas sociais.

Segundo a historiadora Cabral (1984), após a Balaiada (1838-1841) houve uma reorganização do cenário político imperial no Maranhão. Os liberais mudaram a tônica do discurso de fortalecimento dos chefes locais e republicanismo para a ênfase na idéia de progresso. Dissidentes dos tradicionais partidos (Bem-ti-vi e Cabano) formaram um novo partido, a Liga Progressista Maranhense, cujo programa ideológico comprometia-se com “melhoramentos materiais e morais”.

A base social desse partido era de fazendeiros interessados em reformas econômicas. Em suma, o partido defendia modernização agrícola e uma moralização da sociedade através de uma ampla difusão dos ideais liberais civilizadores por meio de canais ideológicos (jornais, o partido, escolas etc.) e assim procurava impor sua visão de mundo estabelecendo a hegemonia, conquistando o consenso e consolidando o status deste grupo de fazendeiros. Todavia, o predomínio da Liga Progressista Maranhense sofria de uma fragilidade comum da estrutura política da época. Segundo Reis (2007, p. 54), “os diretórios das „ligas‟ e „partidos‟ não tinham força para impedir o patrocínio de candidaturas independentes por núcleos familiais, o que resultava em faccionismo e desagregação crescentes”.

A partir da década de 1850, essa frágil sustentação e os conflitos internos entre os liberais, possibilitaram a ascensão dos conservadores ao predomínio da política regional, enquanto na política nacional, estabelecia-se um acordo entre o Partido Liberal e o Partido Conservador: a chamada Conciliação. No Maranhão, a conjuntura da Conciliação favoreceu o comando dos conservadores nas três décadas seguintes com pouca alternância do poder a favor dos liberais. Mas, somente na década de 1860, é que a maior estabilidade política nacional propiciou a formação de um grupo político regional consolidado como mediador entre a corte e a província, daí surge no Maranhão dois partidos mais fortes: o Partido Liberal e o Partido Conservador que vão se alternar na direção da província, na década de 1860, conforme as modificações na política imperial. (REIS, 2007).

Nos mesmos anos de 1860, a hegemonia ideológica liberal é reelaborada, pois seus projetos reformistas perdem capacidade de convencimento diante das dificuldades econômicas resultante das graduais perdas de mercado dos produtos maranhenses, principalmente o algodão. O resultado desse processo foi que quanto mais o final da década se aproximava e a crise econômica aprofundava, mais desapareciam as diferenças ideológicas

entre os partidos e no interior dos próprios partidos, diferentes facções digladiaram-se pela liderança política, motivadas mais pelas benesses que a máquina pública poderia dispor para consolidar suas “bases aliadas” do que por ideologias.

Na década de 1870, o partido conservador consolidou sua hegemonia política. Nesse contexto emerge a figura de Gomes de Castro dentro do Partido Conservador, comandado pelos antigos líderes Silva Maia e Vieira da Silva e, em 1877, Gomes de Castro lidera uma dissidência, polarizando as disputas entre uma ala maísta e outra castrista, conflito que vai permanecer até o fim do Império. (REIS, 2007, p. 63).

Do ponto de vista ideológico, a ascensão dos conservadores não significou abandono dos projetos liberal-reformistas, pelo menos no nível do discurso, para agradar os setores do partido sensíveis a medidas progressistas, pois implementá-las, tornava-se cada vez mais complicado diante das deficiências orçamentária da Administração Provincial para intervir diretamente na economia, embora não se medisse esforços para consolidar aliados através dos “favores”. Portanto, quando os líderes conservadores conquistaram a hegemonia do aparelho estatal, a ênfase ideológica da linha progressista teve que adequar-se a necessidade prática de minorar os gastos públicos da Administração, exceto para socorrer fazendeiros aliados em crise ou subsidiar projetos econômicos para garantir suas bases políticas.

É nesse espaço social que Martinus atua como ideólogo de um liberalismo econômico radical, afinado aos interesses hegemônicos do partido Conservador que estava no domínio do aparelho estatal da província, ao mesmo tempo que tentava expressar anseios de progresso econômico, postulando interesses dos setores econômicos como a suavização dos encargos. Esse sentido progressista, antes ligado mais aos liberais, já havia se tornando um consenso entre as elites. E foi assim, jogando com os dispersos anseios liberais-progressistas e com as necessidades de reduzir gastos do Partido Conservador, governista, que Martinus

optou por defender uma radicalização do liberalismo na economia maranhense. Para ele, o progresso – ao contrário da euforia progressista de décadas anteriores (1840 e início de 1850), tendo a Liga Progressista Maranhense (na época governista) como principal financiadora –, dessa vez, deveria ser operacionalizado pela iniciativa privada, sem recursos, subsídios ou intervenções estatais.

É por isso que Martinus está cercado dos homens que governam e pensam o governo, pois ele não só é um ideólogo de um liberalismo radical (medidas modernizadoras na agricultura, mas sem recursos estatais), como também um exemplo da sua possibilidade. Destarte, as iniciativas empresariais e agrícolas de Martinus seriam a prova experimental daquilo que seu grupo intelectual reunido em torno do jornal “O Paiz” e, cada vez mais aliado ao castrismo, defendia.

O final da década de 1870, quando Gomes de Castro assume a direção da política estadual, é justamente o período em que Martinus tem mais acesso aos aparelhos divulgadores das representações do grupo dominante. Escreve em diferentes jornais, tem seus livros editados, difundidos e elogiados pelos jornais. Relacionando-se com figuras dos dois partidos principais, Martinus foi acumulando um capital social suficiente para ser lido e respeitado pelos seus pares, arrogando-se a autoridade para falar de assuntos econômicos e passou a ser reconhecido como alguém acima dos interesses partidários e individuais, um trabalhador do bem comum e desinteressado dos lucros pessoais.

Contudo, vale ainda lembrar a conclusão de Cabral (1984) sobre esses “conflitos” ideológicos-partidários do Império no Maranhão; aplicando-se também à ideologia martiniana:

De toda forma, as divergências atendiam somente a interesses diferentes das frações dominantes e não acarretavam mudanças profundas que ameaçassem o status quo. As questões defendidas por esses partidos, portanto, não visavam mudanças radicais na ordem estabelecida, pondo fim às discriminações econômicas e sociais existentes. Objetivavam, sobretudo, o aperfeiçoamento das bases de dominação, consolidando a hegemonia de uma ou outra fração dos fazendeiros, principal base de sustentação desses partidos provinciais. (p. 121).

Destaca-se ainda que na sua vida, a condição de imigrante forneceu-lhe sanções e oportunidades. Talvez por ser dinamarquês protestante tivesse alguns impedimentos como não ter freqüentado as escolas católicas maranhenses ou mesmo passar por processos de “Cultus Disparitas” para casar-se. Por outro lado, “ser dinamarquês” foi um atributo no qual Martinus soube utilizar-se para conquistar prestígio e agregar mais capital simbólico. Nos jornais, seus contemporâneos não se referem à sua religião, até parecem desconhecê-la, mas o mencionam como “negociante dinamarquês há muito residente no Maranhão”. Basta lembrar que no século XIX a elite maranhense, principalmente em São Luís, esforçava-se por reproduzir os hábitos e até línguas européias, especialmente o francês33. Por ter vindo desde os sete anos para o Maranhão e ter sido criado por uma família tradicional na província, ele era tido como um estrangeiro que amava o Maranhão, o que significava ser alguém com “sangue europeu” (qualidades inatas: ideais de honra, cavalheirismo, civilidade, inteligência, cultura etc.), mas com alma de maranhense34– logo uma pessoa que reunia qualidades especiais para apontar o caminho do progresso e da civilização aos administradores da província.

Apesar de todo prestígio, Martinus Hoyer não escapou das exigências da Igreja Católica para um protestante casar-se: passou três vezes pelo processo de “cultus disparitas”. A primeira vez com Josepha Iphigenia Hoyer, depois com Maria Amália Gromsrl, em 1871 e por último com Alzira Leonor de Moraes Rego, em 1876, filha de um tenente coronel, o que pode indicar o prestígio alcançado por Martinus nessa época. Em nenhum dos casamentos deixou descendentes e morreu em 16 de dezembro de 1881, aos 52 anos, devido a um

33 Lacoix (2002) denomina do século XIX como o século do galicismo,devido a grande influência dos hábitos e

da língua franceses no cotidiano da cidade de São Luís.

34 A imagem de Martinus como alguém com sentimentos regionalista é construída logo após o seu falecimento.

No discurso de inauguração da tela a óleo reproduzindo uma imagem de Martinus [falarei adiante], na ACM, Themístocles Aranha, seu amigo, vai pronunciar que Martinus, numa carta “a um amigo do Maranhão” durante uma viagem à Europa, escrevera: “Tudo isto aqui é arrebatador, é grandioso, mas ao „Sena‟, correndo majestoso entre seus cais de mármore, prefiro o meu „Paciência‟, lento e preguiçoso como o nome indica; não troco os palácios desta soberba „Babilonia‟ pela minha humilde cabana da „Maioba‟. Deus queira que ali, esteja em breve entre os amigos de quem com tantas saudades me lembro.” (apud VIVEIROS, 1954, p. 499).

aneurisma cerebral quando estava em Lisboa. Seus irmãos, João Frederico Hoyer e Rodolfo Hans Hoyer, foram os responsáveis pela descendência da família Hoyer no Maranhão.

Como a maioria dos imigrantes que vinham para o Maranhão, na primeira metade do século XIX, não para fazer prosélitos e sim negócios, tais eram os três irmãos Hoyer que casaram com moças católicas. Isto – mais do que as exigências dos processos de “cultus disparitas” – parece-me ter sido o motivo para não ter transmitido a religião protestante aos filhos. O certo é que a religião tradicional da família tornou-se mesmo o catolicismo.