• Aucun résultat trouvé

Como Pedro Martinus Roedberg Hoyer não teve filhos em nenhum dos seus três casamentos, foi através dos seus irmãos mais novos que a descendência dos Hoyer se perpetuou no Brasil. O filho de João Frederico Roedberg Hoyer chamava-se Martinus Hoyer Sobrinho, fruto da sua primeira união conjugal com D. Elisa de Aguiar Rocha. Quando tinha quase 11 anos, Martinus Hoyer Sobrinho teve seu nome mudado pelo pai, em setembro de 1890, para Martinus Boldt Hoyer “por haver outro do mesmo nome” (Diário do Maranhão, 30 set. 1890).

É provável que a mudança de nome tenha sido uma estratégia de João Frederico em ligar o filho à família Sabino, entrelaçada aos Hoyer por matrimônios (do seu tio, primeiro e depois o de João Frederico, em segundas núpcias, com sua prima Iphigenia Boldt), e expressão da insegurança de João Frederico quanto à destinação da herança do irmão abastado empresário e intelectual. Isso porque a mudança de nome se dá apenas nove meses depois que uma irmã, Annete Natalie Hoyer, que estava na Dinamarca, demonstrou interesse na herança do irmão falecido, Martinus Hoyer, gerando a reação de João Frederico pelo jornal (Diário do

Maranhão 11 set. 1889). O interesse de Annete Hoyer permite supor também que o homônimo de Martinus Hoyer Sobrinho poderia ser um de seus filhos.

O que nos interessa é que Martinus Boldt Hoyer, sendo herdeiro dos Hoyer e também das famílias Boldt e Sabino, conseguiu – apesar de uma certa decadência econômica e social da família –, manter o elevado nível de vida econômica que os Hoyer tinham na geração anterior, provavelmente devido a essas heranças. Nos livros de história da família, ele é lembrado como homem de muitas posses, herdeiros de dois homens ricos (Martinus e João Frederico Hoyer), mas nada há sobre sua atividade econômica ou carreira profissional.

Martinus Boldt Hoyer viveu de 1879 a 1911, casou-se em 24 de setembro de 1904 com Emily Amy Sabino Broadbent, filha do imigrante inglês William Henry Broadbent com Maria Lina Belfort Sabino Broadbent (mais uma vez as famílias Hoyer e Sabino, estão ligadas por novo matrimônio no século XIX). Martinus Boldt Hoyer e Emily tiveram quatro filhos. Cerca de um mês antes do parto do quarto filho, Martinus Boldt desapareceu num acidente em alto mar. Emily, após o parto do quarto filho, faleceu de febre puerperal e hemorragia; tinha 35 anos e ele 31 quando deixaram quatro filhos órfãos: Henry, Eunice, Amy e William.

O primogênito, Henry Broadbent Hoyer, nascido em 1905, é a segunda personalidade mais admirada por William Hoyer em seu livro genealógico. Primeiro, por ser seu pai e William considerava que recebera dele a “boa educação”, a transmissão de valores e a dignidade do “bom nome dos Hoyer”; segundo, por ser considerado, numa retrospectiva, a re-atualização do paradigma martiniano. Então, de que forma Henry Hoyer torna-se uma fonte de sentido para a família Hoyer na atualidade?

Segundo as narrativas da história da família Hoyer, as crianças órfãs foram cuidadas por Edwing Albert (tio materno das crianças), até 1918; mas após Albert sofrer uma série de perdas seguidas: dos seus pais, dos três irmãos mais velhos, e por fim da esposa e do

filho em gestação (todos morreram entre 1904 a 1917), “fragilizado ele foi envolvido em um segundo casamento, “por pessoas gananciosas” (LACORTE, 2002, p. 30).

Esse casamento de Edwing Albert fora com Philomena Lauleta, em janeiro de 1918. Ela e os Lauletas seriam considerados, nas memórias da família Hoyer, a razão da decadência econômica dos seus antepassados. As narrativas fazem afirmações de irregularidades no inventário dos bens dos órfãos, ocasionando um verdadeiro despojo dos Lauletas sobre os bens deixados pelas famílias Broadbent e Hoyer.

É nesse ponto que começa a se destacar a história do mais velho dos órfãos. Quando o seu tio Albert faleceu em 1918, Henry Broadbent Hoyer tinha 13 anos. Na narrativa de William Hoyer e nas memórias da família, Henry é apresentado como uma existência determinada ao sucesso, pois apesar das dificuldades da infância com a perda dos pais e a incompatibilidade com os tutores – os Lauletas – “veio a falecer no posto de vice-almirante Intendente da Marinha de Guerra do Brasil, na qual iniciou a carreira como grumete”. (HOYER, 1999a, p. 48).

Henry Broadbent Hoyer casou-se com Nielsen dos Santos Hoyer e tiveram sete filhos: Doris, William (o autor do livro sobre Martinus Hoyer e fundador da COTP), Georgina, Emily, Henry, Albert e Grace. Todos nasceram fora do Maranhão, os quatro primeiros no Rio de Janeiro, um em Belém do Pará e os dois últimos em Natal, quando o comandante Henry serviu na base de Natal durante a segunda Guerra Mundial. Por essas informações, percebemos que a família de Henry vivia em constante mudança devido a sua atividade militar e que suas ligações com o Maranhão eram cada vez mais frágeis.

Seguindo a leitura do livro de William, encontra-se a informação de que Henry Broadbent Hoyer foi um dos fundadores da APAE35 (Associação de Pais e Amigos dos

35 Conforme histórico da APAE-Rio, esta foi a primeira APAE do Brasil. O Almirante Henry Broadbent Hoyer e

Dona Beatrice Bemis organizaram um movimento que deu início à APAE-Rio, fundada em 11 de dezembro de 1954. A primeira diretoria foi presidida por Henry Broadbent Hoyer até 31 de março de 1965. Fonte: http://www.apaerio.org.br/

Excepcionais) no Rio de Janeiro, por volta de 1954, quando ainda era Capitão-de-Fragata. Nos livros e depoimentos só se explica o envolvimento de Henry com a APAE devido ao seu espírito altruísta; também não tive conhecimento de que ele teve algum filho ou pessoa da família portadora de necessidades especiais.

Quanto ao lugar que Henry ocupa na memória familial, o depoimento de Waldete Hoyer (10 ago 2006), viúva de William, é expressivo:

Quem se destacou mesmo foi o pai do William. Um homem sofrido, mas ele foi feliz. Na época da guerra, ele foi buscar o navio Almirante Barroso. Trouxe muita coisa da Rainha da Inglaterra. Um homem muito inteligente, muito inteligente, falava fluente inglês, e outras línguas também, mas inglês era o forte dele e chegou ao almirantado. Era muito simples, humilde, pessoa que não era arrogante. E William decidiu escrever.

Na narrativa genealógica de William Hoyer, seu pai seguiu a carreira militar com brilhantismo, pioneirismo e empreendedorismo:

Enquanto vivia uma história de conquistas e vitórias na carreira naval que escolheu desde criança, recebia prêmios e medalhas de ouro, além do privilégio de ter sido o primeiro oficial brasileiro a fazer curso e treinamento nos Estados Unidos do equipamento que foi o grande segredo da II Guerra Mundial – o Radar. (HOYER, 1999a, p. 49 e 50).

Assim, na história da família, Henry Broadbent Hoyer (re)atualiza a mitologia familiar de um herói que teve uma infância caótica mas que superou essas dificuldades e galgou o sucesso profissional. Foi “um homem sofrido” (talvez pensando na infância), tal qual a infância de Martinus, mas teve um espírito de ousadia, pioneirismo, a inteligência, o cosmopolitismo (falava várias línguas), além dos valores do trabalho dedicado, abnegação, bem comum e honradez ao nome “Hoyer”. Esses são atributos destacados nos depoimentos e livros sobre a personalidade de Henry desde a sua meninice, bem como sua humildade.

Por atribuir-lhe tais características, Henry foi alçado pela memória familial à fonte do significado, como herdeiro das qualidades do seu antepassado Martinus Hoyer. A narrativa de sua história de vida feita por William tem sempre como pano de fundo o modelo do antepassado mais famoso pela repetição da expressão “herdou do seu tio Martinus”, pois

assim como este, começou uma vida cheia de dificuldades, mas se tornou um homem respeitável e esteve junto aos poderosos de sua época, porém, apesar de todo sucesso, nas palavras de William, “mantinha aversão a exibicionismos” (HOYER, 1999a, p. 50).

No livro de William há outra característica bem demarcada ao lado do nome de Henry Broadbent Hoyer: o fato de seu pai ser o “Almirante maranhense”. Isso evidencia a necessidade do autor de realçar uma identidade como “filho da terra”, já que o seu pai é um maranhense, mesmo que desde sua infância a família tivesse emigrado para outros estados, ocasionando um desligamento com o Maranhão e até mesmo um obscurecimento da memória de Martinus Hoyer no interior da família, como se queixa William em vários momentos do seu livro.

A certa altura do livro cita a matéria do jornalista e escritor Nascimento de Moraes Filho publicada em 16 de dezembro de 1995, em O Imparcial, sobre a homenagem que a ACM (Associação Comercial do Maranhão) fez a Martinus Hoyer. Nela, Nascimento de Moraes Filho demonstrava desconhecer a existência de descendentes diretos de Martinus Hoyer no Maranhão, exceto a viúva do poeta Lago Burnet, Maria José Gomes Burnet (esta é filha de Eunice Broadbent Hoyer e sobrinha de Henry Broadbent Hoyer, prima do autor – William Santos Hoyer). Esse é um dos motivos que William afirma motivá-lo a escrever sobre Martinus Hoyer e seus descendentes no Maranhão. Ele acredita que o livro seria uma forma de fazer justiça à memória de Martinus e reaver as suas obras que estavam desaparecidas ou foram apropriadas indevidamente. Uma maneira de “redimir” a memória de Martinus e, por extensão, a própria posição social da família e do nome Hoyer na sociedade maranhense, mesmo que de uma forma diferente, interpretada sob a condição de uma nova experiência: a conversão religiosa da família.

Nesse sentido, é necessário atentarmos para a forma como William traduz essa (re)descoberta dos seus antepassados no Maranhão, bem como seu sentimento de missão enquanto porta-voz legítimo dessa memória:

Mas Deus é fiel e quer fazer Sua JUSTIÇA!.

Mandou um descendente de Martinus Hoyer para o Maranhão. Esse descendente que era católico apostólico Romano, Deus converteu ao evangelho, para fazê-lo falar

a mesma linguagem do antepassado notável (a linguagem do Reino), e, agora, de forma sobrenatural, começou Deus a revelar a verdadeira história de Martinus,

que diz respeito exclusivamente a família direta, que não possui nem a sua fotografia... (HOYER, 1999a, p. 58, grifo nosso).

Vale ressaltar que isso se tornou uma “necessidade” depois que a família veio para o Maranhão na década de 1980 e principalmente depois da fundação da igreja COTP, como podemos deduzir do depoimento do Pastor Carlos Hoyer (11 maio 2007): “Nós passamos toda nossa infância e adolescência fora daqui, e viemos parar no Maranhão, que era o berço de Martinus Hoyer, e aqui que nós viemos descobrir o que ele representou‖ (grifo nosso).