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L'action politique

Dans le document Hannah Arendt et la rupture totalitaire (Page 100-169)

O principal contributo nesta primeira parte é o da adequação do conceito de ‘papel’ como constructo teórico proveitoso no entendimento da ação profissional do assistente social, percecionada pelos profissionais como dispersa e de difícil definição.

Embora enquadrado na lógica da integração, tal conceito não pode ficar amarrado aos significados contidos nesse tipo de lógica de ação (cf. Dubet, 1994), pelo que se salienta a autonomização do mesmo e sua aplicabilidade a diferentes abordagens.

Hoje em dia, com a complexificação das questões sociais e a variedade de serviços sociais disponibilizados, o assistente social vê-se confrontado com exigências que apelam a intervenções heterogéneas, as quais favorecem a emergência de uma pluralidade de papeis, o que, em nosso entender, não deverá ser entendido como uma fragilidade intrínseca ao Serviço Social, mas, como salienta Higham (2006), uma qualidade distintiva que, além de contribuir para uma certa diferenciação relativamente a outros grupos profissionais, pode inclusive ser vista como uma sinergia110 ou potenciar uma sinergia de efeitos.

A multiplicidade de papéis permite também o aparecimento de novas formas de se conceber a profissionalidade (como será abordado mais à frente), se bem que trouxe igualmente um sentimento de dispersão, patente nos assistentes sociais entrevistados, e que pode ser lido como uma faceta da crise de legitimidade resultante do estilhaçamento dos velhos “programas institucionais” e no surgimento de novas ocupações e grupos profissionais no campo das profissões sociais.

O desconforto quanto à natureza da identidade profissional, dos múltiplos papeis e “sobreposição de funções” com outros profissionais, deixa transparecer a ausência de uma unidade simbólica que confira sentido e coerência ao grupo e que os entrevistados projetam na criação de uma ordem profissional111.

De salientar ainda, como contributo esclarecedor, a saliência do ‘papel executivo’ do assistente social, pois permitiu revelar uma realidade nem sempre publicamente assumida pelos assistentes sociais, em parte, devido a uma ideia distorcida e um certo mal-entendido quanto ao significado do termo ‘executivo’, que para muitos assistentes sociais é associado a uma dimensão “praticista”112

e “executora”113 do seu trabalho, o que leva alguns

110

‘Sinergia’ é um trabalho ou esforço para se realizar uma determinada tarefa complexa, e poder atingir seu êxito no final. Sinergia é o momento em que o todo é maior que a soma das partes.

111 A questão da ordem profissional é abordada na secção II.

112 O ‘practicismo’ refere-se à tendência para acções de cunho prático com inexistente ou reduzido referencial

120 profissionais e até académicos a rejeitar este vocábulo, pela conotação inferior que lhe é

atribuída.

A linguagem, segundo uma perspetiva construcionista, estabelece a mediação com a perceção da realidade e constitui-se como aquilo que se conhece. Como refere Lyotard, a realidade não é uma entidade fixa, está imbuída de interpretações e ‘jogos de linguagem’ (in Parton, 2002: 240). A realidade é constituída pela linguagem, não existe fora dela, e portanto os sentidos da linguagem não são fixos, nem naturais, isentos ou sequer lógicos.

importante discutir a tendência que hoje se verifica de estabelecer o primado da ação sobre a reflexão, da prática sobre a teoria, da experiência sobre o pensamento, tendência de que resultam pelo menos dois graves reducionismos: o praticismo e a instrumentalização da teoria (Miranda, 2004)”. (in Miranda e Resende, 2006: 516).

113

O termo ‘executor’ tem, para algumas pessoas, uma conotação depreciativa uma vez que associam à crítica feita sobre a «instrumentalidade do Serviço Social» em que se denuncia “a clássica separação entre trabalho intelectual (quem pensa as políticas sociais) e trabalho manual (quem executa as políticas sociais)” (Sousa, 2008: 120).

“(…) no momento de sua emergência, o Serviço Social atua nas políticas sociais com funções meramente

executivas, também chamadas de funções terminais. A concepção e o planejamento das políticas sociais fi

cavam ao cargo de outras categorias profissionais e dos agentes governamentais – ao Serviço Social cabia apenas executá-las, na relação direta com os “indivíduos, grupos e comunidades” (Ibid.).

121 SECÇÃO 2

Lógica da Estratégia

Tendo este conceito sensibilizador como referencia, que ajuda prestou na interpretação dos dados?

A ‘lógica estratégica’ foi usada como conceito sensibilizador114

na abordagem ao que se pode entender como ‘a profissão’ de assistente social, situada no vasto campo das profissões sociais, o qual é concebido à luz da ‘lógica estratégica’ como um campo concorrencial, onde decorrem práticas que são resultado da “concorrência, da rivalidade mais ou menos viva dos interesses individuais ou coletivos” (Dubet, 1986: 124).

De facto, a ‘lógica estratégica’, tal como compreendida por Dubet, remete para a ideia de um campo concorrencial e foi com essa perspectiva em mente que se partiu para a análise e interpretação dos discursos provenientes das assistentes sociais. Portanto, como pano de fundo à interpretação dos dados esteve essa ideia prévia de que as múltiplas profissões e ocupações sociais actuam num campo profissional concorrencial, movidas por uma certa lógica estratégica, onde os actores são definidos pelos seus interesses no mercado, uma vez que nesta lógica, o campo é visto como um mercado, um sistema de trocas concorrenciais, na competição pela obtenção de recursos: poder, prestígio, reconhecimento, status profissional.

A sociedade é vista como um sistema de trocas concorrenciais na competição para se obterem bens raros: o dinheiro, o poder, o prestígio, a influência, o reconhecimento… Não é a guerra de todos contra todos, o jogo está regulado, só raramente ele é de soma nula. Os sociólogos utilizam também mais naturalmente a linguagem do jogo ou do mercado que a da guerra para descreverem estas relações com os outros. (Dubet, 1986: 124).

No campo das profissões sociais, actualmente, proliferam variados grupos ocupacionais e profissões que concorrem entre si, procurando alguns manter em certa hegemonia herdada, como é o caso do Serviço Social, disputada por novos atores concorrentes. Efetivamente, a disputa por lugares, papéis, reconhecimento e status profissional tem levado os assistentes sociais a reclamarem uma fixação e clarificação da

122 jurisdição profissional, daí ter emergido como categorias centrais as noções de ‘jurisdição

do campo profissional’ e ‘profissionalização’.

Figura 5 – Ilustração do processo analítico-interpretativo dos dados

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