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3 L'acceptation d'autrui

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A preocupação com a inserção da perspectiva CTS - Ciência, tecnologia e sociedade - nas propostas curriculares para a educação básica teve início no final da década de 1970, devido ao agravamento dos problemas ambientais, políticos e econômicos provocados pela ascensão do desenvolvimento científico e tecnológico (GARCIA et al, 2006).

Posteriormente, foi acrescida por alguns estudiosos a sigla “A” à abordagem CTS, com o objetivo de destacar e explicitar a dimensão socioambiental, uma vez que deve ser considerada como fator primordial para abordagem de problemáticas ambientais. Para Fraga e Freitas (2007), é importante deixar claro esta alusão, pois mesmo ela estando incluída nos pressupostos CTS, como defendem alguns autores, se faz necessário explicitar as dimensões ambientais, políticas, éticas e culturais relacionadas à Ciência e Tecnologia.

Essa explicitação, portanto, torna-se necessária para que o conhecimento seja trabalhado e construído de forma integral, e não apenas de forma isolada e fragmentada, como ocorre no método de ensino tradicional. Ao abordarem-se conceitos e temas científicos sob essas diferentes dimensões, percebemos a sua inserção na realidade cotidiana, e nos inserimos como sujeitos interferentes e atuantes no fazer científico.

A abordagem CTSA está voltada para a promoção da educação científica e tecnológica dos indivíduos, no sentido de auxiliá-los na construção de conhecimentos, habilidades e valores, que os auxiliem na tomada de decisões e na resolução de problemas que assolam a sociedade (SANTOS e MORTIMER, 2002; SANTOS e SCHNETZLER, 1997).

A preocupação em evidenciar a dimensão ambiental emergiu mediante o avanço científico e tecnológico que começou a interferir diretamente no meio ambiente (SANTOS e MORTIMER, 2002). Assim, a neutralidade científica e a ideia de que, por meio dela, seria suficiente a resolução de questões sócio-políticas passou a ser repensada. (FOUREZ, 1995).

O novo modelo emergente de desenvolvimento passou a exigir características mais transdisciplinares e, portanto, menos fragmentadas, de modo a promover interações entre os cientistas e os diferentes atores da sociedade, exigindo mais reflexão e diálogos com outras áreas (SANTOS e MORTIMER, 2002).

Os documentos curriculares oficiais (BRASIL, 1999) apontam sobre a importância da contextualização do conhecimento científico ao pontuar que os fatos biológicos devem ser discutidos junto às implicações políticas, sociais e econômicas; que não devem ser tratados de forma neutra, historicamente indeterminada; e que deve haver a discussão entre a produção científica e o contexto social, político e econômico.

É nesta perspectiva que a abordagem CTSA torna-se importante e relevante de ser abordada no ensino de Ciências e Biologia, uma vez que as propostas curriculares baseadas nesta abordagem envolvem educação científica, tecnológica e social, de modo que haja interação entre elas e que sejam discutidos aspectos históricos, éticos, políticos e socioeconômicos (LOPEZ e CEREZO, 1996).

A ciência e a tecnologia devem fazer parte do cotidiano junto aos debates culturais que vão além de conhecimentos e manifestações em áreas tradicionais e que tenha,

por alvo, ensinar a cada cidadão comum o essencial para chegar a sê-lo de fato, aproveitando os contributos de uma educação científica e tecnológica. Assim, ao contrário de isolar, procurar estabelecer interconexões entre as ciências naturais e os campos social, tecnológico, comportamental, cognitivo, ético e comunicativo (SANTOS, 1999, p. 3).

A aquisição de conhecimentos, desenvolvimento de valores e utilização de habilidades são objetivos gerais a serem desenvolvidos a partir desta abordagem (AIKENHEAD, 1994), e que incluem: a autoestima, a comunicação escrita e oral, a tomada de decisão, o aprendizado cooperativo/colaborativo, responsabilidade social e flexibilidade cognitiva.

A dimensão científica não se deve limitar à aquisição e compreensão de conceitos científicos, mas envolver questões de natureza filosófica, sociológica, histórica, política, econômica e humanística, abrangendo uma dimensão ampla da ciência em todas as suas esferas de construção (ROSENTHAL, 1989).

A tecnologia envolve o questionamento de problemas oriundos da relação sócio- tecnológica, de modo a questionarmos e refletirmos sobre as ideias de progresso por meio da tecnologia, dos custos e benefícios tecnológicos, suas formas de uso apropriadas, os modelos econômicos que envolvem a tecnologia e as decisões pessoais que envolvem o consumo de produtos tecnológicos (FLEMING, 1989).

A ciência e tecnologia não devem ser desvinculadas de problemas sociais potencialmente significativos (AIKENHEAD, 1994). Para Ramsey (1999), três critérios são relevantes para eleger um tema social como importante de ser discutido: 1 - Se existem diferentes pontos de opinião em relação ao tema; 2 - Se o tema tem significado social; 3 - Se o tema tem alguma relação com a Ciência e Tecnologia.

Alguns autores apontam características que os materiais didáticos produzidos na perspectiva CTS devem contemplar por meio de uma problemática social, para que se possam compreender as relações da Ciência e Tecnologia nessa esfera, como apontado por Aikenhead (1994, p. 39), é preciso considerar algumas etapas:

Introdução de um problema social; 2. Levantamento da tecnologia relacionada ao tema. 3. Estudo dos conteúdos científicos, definidos em função do tema e da tecnologia; 4. Estudo da tecnologia correlata em função dos conteúdos específicos; 5. Discussão da problemática social original.

Alguns temas são apontados por Towse (1986 apud Santos, 2002) como os mais abordados nesta perspectiva de ensino: 1- Saúde; 2- Alimentação e Agricultura; 3- Recursos Energéticos; 4- Terra, Água e Recursos Minerais; 5- Indústria e Tecnologia; 6- Ambiente; 7- Transferência de Informação e Tecnologia; 8- Ética e Responsabilidade Social.

Já Bybee (1987) identificou os seguintes temas centrais de cursos CTS: 1- Qualidade do Ar e Atmosfera; 2- Fome Mundial e Fontes de Alimentos; 3- Guerra Tecnológica; 4- Crescimento Populacional; 5- Recursos Hídricos; 6- Escassez de Energia; 7 - Substâncias Perigosas; 8 - A Saúde Humana e Doença; 9 - Uso do Solo; 10 - Reatores Nucleares; 11 - Animais e Plantas em Extinção e 12 - Recursos Minerais.

Aqui no Brasil, Santos e Mortimer (2002) citam problemáticas que podem ser trabalhadas, como: 1- Exploração Mineral e Desenvolvimento Científico, Tecnológico e

Social; 2- Ocupação Humana e Poluição Ambiental; 3- O Destino do Lixo e o Impacto Sobre o Ambiente; 4- O desenvolvimento da Agroindústria e Distribuição de Terras no Meio Rural, Custos Sociais e Ambientais da Monocultura; 5- As Fontes Energéticas no Brasil, seus Efeitos Ambientais e seus Aspectos Políticos; 6- A preservação Ambiental, a Política de Meio Ambiente e Desmatamento.

Percebemos que as questões/temáticas ambientais estão entre os temas mais recorrentes, o que mostra, portanto, um reflexo das interferências sofridas ao meio ambiente com o advento científico e tecnológico, e que nos faz repensar sobre as consequências acarretadas para a sociedade em todas as suas esferas. Logo, trabalhar estas temáticas nos dias atuais torna-se imprescindível aos professores de Ciências e Biologia que desejam participar da formação de cidadãos mais conscientes de seu papel na sociedade.

Apesar do reconhecimento da importância de se trabalhar tais temas nesta perspectiva de ensino, o uso da abordagem CTSA enfrenta muitas dificuldades quanto à sua efetiva aplicação, e algumas são apontadas por Hofstein (et al, 1988), como: a) A falta de clareza sobre essa abordagem; b) A falta de familiaridade com as estratégias sugeridas; c) A supervalorização das disciplinas Biologia, Física e Química em suas formas tradicionais.

Segundo Barzano (2002), ao investigar sobre as licenciaturas em Ciências Biológicas, fica evidente que poucas vezes os licenciandos são postos em situações que os façam repensar o currículo, e acabam por aderir ao ensino tradicional. Há a necessidade, portanto, de se trabalhar com abordagens que rompam com esse tradicionalismo na formação inicial de professores de Ciências, de modo a apontar caminhos e possibilidades de ensino- aprendizagem.

Nesta perspectiva, este nosso trabalho se propôs a contribuir com a formação inicial de professores com o uso de letras de músicas sob a perspectiva da abordagem CTSA, uma vez que a música se mostra como um recurso lúdico motivador que carrega diferentes discursos e formas de linguagem, e que contemplam muitos daqueles temas contextualizadores propostos pelos autores acima citados.

A linguagem científica é bastante presente na música popular brasileira, e existem trabalhos que evidenciam pontes interdisciplinares entre a música e aspectos científicos, tecnológicos e sociais, além da abordagem de temáticas ambientais como principais enredos musicais.

Os trabalhos de Cordeiro (2012); Moreira e Massarani (2006); Oda (2013); e Mori (2012) mostram que, por meio de letras musicais, pode-se evidenciar conhecimentos científicos e tecnológicos associados a temas sociais e problemáticas ambientais, gerando

discussões e, portanto, possibilidades de trabalhá-las na perspectiva CTSA. Assim, é importante que os professores em formação inicial tenham acesso ao conhecimento desses recursos e potencialidades, assim como direcionamentos de como abordá-los, de forma a extrair o máximo que o seu potencial tem para oferecer.

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