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L’évolution du conte, entre archaïsme et modernité

PARTIE 1. La tradition orale

B. L’évolution du conte, entre archaïsme et modernité

O Feminismo é complexo, tenso, contraditório e plural na revelação da opressão contra as mulheres como uma interdição à justiça humana e a uma civilização capaz de olhar o Outro. Reconheço no Feminismo, portanto, uma proposta mais potente de transformação das sociedades ocidentais do que a própria revolução de classe, mesmo que Marx haja tentado incluir as mulheres no processo da revolução proletária, quando reconheceu a profundidade da

subalternidade feminina, ao afirmar que as mulheres seriam as proletárias dos proletários. Sandra Harding, no entanto, chama a atenção para a necessidade de se incorporar uma análise de gênero a essa visão quando diz: “No mundo inteiro insistimos na importância de nossa experiência social, como mulheres, e não apenas como membros de classe, raça ou grupos culturais de gênero invisível.” (HARDING, Sandra, 1993, p. 22).

Alinhada a essa perspectiva, esforcei-me, nos anos de 2006 a 2015, por construir uma definição para o Feminismo. Na primeira versão, já compreendo que o “Feminismo é um tema, uma questão, um movimento político, um pensamento filosófico, protagonizado pelas mulheres, que inquieta o mundo há mais de 200 anos” (BUARQUE, Cristina, 2006a, p. 11). A partir dos acúmulos construídos na relação entre a prática e a teoria nesse intervalo, em que as exigências de respostas para a condução de políticas públicas para as mulheres eram muito constantes e variadas, refinei o conceito, acrescentando os seguintes conteúdos:

Feminismo é a ação política das mulheres em favor da transformação das relações de poder entre homens e mulheres, que incide na transformação da sociedade,103 através do combate às desigualdades, discriminações, opressões

e explorações de sexo, com contribuições, teóricas e práticas, nos campos da organização política, das leis, dos hábitos e costumes, dos saberes e dos governos. (BUARQUE, Cristina, 2015, p. 23).

Percebi, pois, o Feminismo como um movimento limitado às circunstâncias em que esteve envolvido: um Ocidente marcado por muitas privações materiais (crise do sistema feudal), pelas reações às ameaças à derrubada do Estado Laico e o extermínio de mulheres (Inquisição), pela busca de liberdades (Renascimento) e pelas grandes navegações (expansão do capitalismo comercial com exploração das terras do continente americano e a devastação das populações no continente africano).

Diante desse contexto, que na minha visão constitui as expressões do sistema patriarcal à época, enveredei por uma análise feminista de gênero por meio de uma definição do patriarcado, porquanto compreendo que esse não é estático, mesmo que ele esteja incrustado de maneira profunda na história entre os últimos quatro e onze mil anos, ou seja, durante a transição do Paleolítico para o Neolítico (FACIO, Alda; FRIES, Lorena, 2005).104 Corroborando várias autoras feministas, a exemplo da filósofa Márcia Tiburi (2016), da antropóloga Henrietta Moore (2009), da cientista política Carole Pateman (1993) e da

103 No momento da redação desta tese, sinto a necessidade de esclarecer quanto à abrangência do Feminismo e

fazer algumas modificações na citação acima. Assim, coloco a palavra “sociedade” no plural e com ela os vocábulos “ocidentais cristãs”.

socióloga Heleieth Saffioti (2004), busquei definições para o patriarcado. Márcia Tiburi (2016) afirma ser esse fenômeno um tipo de dominação masculina que se apresenta sob a forma de estruturas de poder, ou ainda, como uma maciça e majoritária presença de homens em posição de comando, seja no público, seja no privado; seja real, seja simbólico, enquanto a marxista Heleieth Saffioti (2004) define que o patriarcado não se limita à dominação machista, como explicita a seguir.

[...] o patriarcado não se resume a um sistema de dominação, modelado pela ideologia machista. Mais do que isto, ele é também um sistema de exploração. Enquanto dominação pode, para efeitos de análise, ser situada essencialmente nos campos político e ideológico, a exploração diz respeito diretamente ao terreno económico. (SAFFIOTI, Heleieth, 1987, p. 50). Com essa dupla de definições, assumi na discussão sobre o Feminismo três pressupostos: (i) o Feminismo é o principal antagonista do patriarcado cristão; (ii) a sua presença nas Américas se deve, portanto, à importação do patriarcado cristão europeu como instrumento da colonização e socialização de seus habitantes; (iii) não há evidências de que esse movimento ocidental seja o caminho para a emancipação das mulheres árabes, africanas, asiáticas ou mesmo indígenas americanas, em face da dominação masculina presente em suas sociedades, ainda que possa influenciá-lo.

O Feminismo não constitui, no entanto, um movimento universal, ainda que sua presença possa provocar discussões sobre a emancipação das mulheres em relação à dominação masculina em qualquer parte do planeta. Isso quer dizer que o surgimento do Feminismo e a práxis feminista decorrem de situações e condições objetivas de vida, embora a sua ideia de emancipação possa atrair qualquer mulher. São esses elementos que vão permitir a construção de uma crítica de gênero à própria experiência feminista

A tarefa de observar as razões e as origens de fenômenos cronologicamente simultâneos e aparentemente independentes – em que estiveram presentes superpoderes patriarcais – foi presidida por duas perspectivas analíticas que se conjuminam: a proposta de Sherry Ortner sobre agência no contexto da “teoria da prática” e dos “jogos sérios”, e a indicação de Joan Scott, segundo a qual o gênero é uma forma primária de significar as relações de poder.

A presença de Sherry Ortner marca esta tese por sua argumentação de que foi a teoria da prática que mais interpelou a cultura no fim dos anos 1970, o que foi simultâneo à consolidação do Feminismo da 2.ª Onda como um movimento forjado em consonância com essa autora: “A teoria da prática pareceu-me ser a que mais interpelou sua época. Trata-se de

uma teoria geral da produção de sujeitos sociais por meio da prática no mundo e da produção do próprio mundo por intermédio da prática.” (ORTNER, Sherry, 2007b, p. 38). Sherry Ortner, ao comentar tal teoria, valorizou “a produção do mundo por meio da prática humana”, que, segundo sua compreensão:

[...] fornece uma síntese dialética da oposição entre ‘estrutura’ (ou mundo social tal como está constituído) e ‘agência’ (ou as práticas interessadas de pessoas reais) que antes não fora conseguida. Além disso, a ideia de que o mundo é ‘feito’ – em sentido muito amplo e complexo, é claro – por intermédio da ação de pessoas comuns também significava que ele poderia ser desfeito e refeito. Ou seja, a teoria da prática tinha implicações políticas imediatas que entraram em sintonia com as minhas preocupações feministas. (ORTNER, Sherry, 2007b, p. 38).

Essa sintonia a que a autora se refere também se faz presente na minha construção teórico-prática no âmbito do Feminismo. Do ponto de vista da história, o pensamento mais próximo das minhas preocupações na construção de tal metodologia, insisto, é aquele expresso por Joan Scott (1995), em seu ensaio Gênero: uma categoria útil para a análise

histórica, em que ela se dedica a reunir as reflexões teóricas feitas, até a década de 1980, pelo

conjunto das autoras feministas em diálogo com diferentes disciplinas. Nesse trabalho, é notório o fato de a autora ir buscar apoio para as suas teorizações sobre as questões de gênero nas reflexões antropológicas, sendo reconhecível sua aproximação do pensamento de Gayle Rubin (1993), quando define o gênero como instituinte da base das relações de poder na sociedade.

Minha definição de gênero tem duas partes e diversos subconjuntos, que estão interrelacionados, mas devem ser analiticamente diferenciados. O núcleo da definição repousa numa conexão integral entre duas proposições: (1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de poder, mas a mudança não é unidireccional. (SCOTT, Joan, 1995, p. 86). Avaliadas as próprias experiências, localizadas as razões do Feminismo e conhecida a bibliografia inspirada por esse movimento em diferentes disciplinas, aproximei-me da literatura sobre a formação da Zona Canavieira, e busquei identificar a visão dos autores sobre patriarcado, feminino, masculino, androcentrismo, dominação masculina e Feminismo. A perspectiva crítica de tal leitura continuou dependente dos achados do Feminismo da 2.ª

Onda, ou seja, dos avanços teóricos provocados por esse movimento entre o fim das décadas de 1960 e 1980, com destaque para a construção da categoria epistemológica gênero.