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PARTIE 1. La tradition orale

D. Le cas des contes bilingues

A primeira das hipóteses sobre a formação da Zona Canavieira é a de que as desigualdades entre mulheres e homens, bem como aquelas étnico-raciais e de classes, têm lastros ideológicos comuns:105 o patriarcado e o androcentrismo cristãos, trazidos pelo colonizador português, os quais, conforme será visto na seção 4, foram exacerbados pela Santa Inquisição, atingiram os níveis intoleráveis de misoginia que dominaram a velha Europa entre os séculos XIV e XVIII. No entanto, durante mais de sessenta anos, as desigualdades de classe foram tratadas em todo o mundo como a razão e o fim de todas as desigualdades; enquanto os operários homens eram reconhecidos como a única força revolucionária, as mulheres eram situadas na condição de ajudantes temporárias, e as populações negras e indígenas apenas como vítimas. A primazia das desigualdades de classe agenciou a invisibilidade das demais desigualdades e negou os outros sujeitos.

A segunda é que a severidade das desigualdades em Pernambuco tem a sua razão de ser no fato da centralidade histórica da presença das mulheres indígenas e negras quando, paralelamente, a ausência das mulheres brancas desempenhou um papel excepcional na organização da vida nos dois primeiros séculos da Colônia. A combinação, pois, da presença ativa do elemento dominado (mulheres negras e índias) com a ausência do dominante (mulheres brancas) nas relações afetivas, reprodutivas, de trabalho e de organização do cotidiano produziu uma condição feminina – intragênero e intergênero – indispensável ao funcionamento da ocupação e desejável à sustentabilidade do patriarcado na República.

105 A intensidade da crítica e do compromisso com o enfrentamento de cada uma dessas desigualdades, por sua

vez, guardam forte relação com o envolvimento dos indivíduos com cada questão. Na prática, as desigualdades, quanto mais definidas com base na rejeição às marcas biológicas dos indivíduos, mais comprometimentos emocionais e compromissos políticos geram no discriminado. As críticas ao machismo, ao patriarcado, por exemplo, que estão fundadas em um tipo de sofrimento e de discriminação vivenciado pelas populações femininas desde o nascimento, em razão do próprio corpo, ou melhor, em razão de não terem um corpo igual ao dos homens, encontram em muitas mulheres grandes e fieis militantes, enquanto têm poucos adeptos entre os homens. Da mesma maneira, as discriminações vividas pelas populações negras e indígenas, pelo simples motivo de não terem nascido brancas, têm nos negros e nos índios de ambos os sexos profundos opositores, enquanto são vistas com distância pelas pessoas brancas. Essas discriminações foram forjadas no desenquadramento das mulheres, dos índios e dos negros como seres plenamente humanos. Como as discriminações e as opressões causadas em razão do desenquadramento do Outro da condição de ser humanamente pleno não têm limites, em longo prazo, a reação causada nesse Outro, possivelmente também não terá. Enfim, as diferenças entre as desigualdades existem e fazem sentido; isso quer dizer, é preciso reconhecer os indivíduos da subordinação como sujeitos de sua liberação.

Por último, e em forte ligação com a anterior, identifico que Pernambuco, ao sediar com sucesso o empreendimento basilar da Coroa Portuguesa para a ocupação da Terra

Brasilis, à base da metodologia do plantation106 na cana-de-açúcar, instituiu uma empresa agrícola completamente dependente da escravidão dos homens de cor, voltada apenas para a produção.

Em todos os casos, desenvolverei as análises chamando a atenção para a ausência ou a presença das mulheres nessa ou naquela ação, e reconheço não apenas o sexo dos indivíduos mas a assertiva pronunciada por Marilyn Strathern (2006, p. 22): “A ação é uma atividade que possui gênero.”

O esforço de me aproximar da formação da Zona Canavieira começa pela leitura de gênero da carta de Pero Vaz de Caminha (1500) ao rei D. Manoel I e dos textos poéticos de Luís de Camões (1524-1580) e Fernando Pessoa (1888-1935), uma vez que eles trazem em suas obras a “presença-ausente” das mulheres nas viagens ultramarinas.

Isso me conduziu, com firmeza, a trazer para a lâmina das minhas observações obras histórico-socioantropológicas dos autores considerados como os primeiros brasileiros a produzirem uma narrativa genuinamente nacional sobre a nossa formação; ou seja, regeu-me no sentido de analisar as interpretações daqueles que, nas décadas de 1930 e 1940, se celebrizaram na condição de construtores dos mitos de fundação da sociedade brasileira.

Ao considerar os objetivos desta tese e a influência das obras Casa-grande & senzala de Gilberto Freyre (2005[1933]; Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda (1995[1936]), e Formação do Brasil contemporâneo: colônia de Caio Prado Júnior (1983[1942]) sobre a formação intelectual brasileira, eu as inclui nas minhas análises como uma tríade documental capaz de revelar não somente a posição acrítica de seus autores à subordinação das mulheres aos homens, mas o comprometimento patriarcal do pensamento nacional sobre a formação da sociedade brasileira. Como disse Fernando Henrique Cardoso, esses autores “inventaram o Brasil”, da mesma forma que Antonio Candido os reconheceu como merecedores da láurea de “demiurgos do Brasil”, portanto, representantes do que a intelectualidade brasileira pensa.

Ao fixar-me nos clássicos sobre a formação do Brasil, levantei a seguinte suposição para guiar a minha interpretação: as esquerdas, militantes e/ou intelectualizadas, ao não

106 Plantation – Esse sistema de organização agrária, designado também pela palavra francesa plantage, refere-se

à forma de domínio e de exploração de terras tropicais para a obtenção de certos produtos destinados a mercados europeus. Forma que, obviamente, teria de ser diferente, nos seus aspectos econômicos, e nos seus aspectos tecnológicos, tanto das existentes na agricultura europeia como das praticadas pelas populações primitivas dos trópicos (MELO, 1975).

utilizarem em suas estratégias, obras e panfletos o referencial de gênero, não conseguiram identificar o real papel do patriarcado, do sexismo e do racismo para a sociedade e para a democracia brasileira no capitalismo, aproximando-se da perspectiva patriarcal dos liberais, deixando, assim, um flanco aberto ao conservadorismo.

Enfim, foi das narrativas dos clássicos da formação brasileira, plenas de ausências e/ou distorções sobre as mulheres, que retirei os conteúdos de gênero, expondo-os à discussão para, então, desmarcar-me, tanto quanto possível, dos arcabouços androcêntricos, patriarcais e falocêntricos da ciência.

Antes da tríade Freyre, Buarque de Holanda e Prado Júnior, trouxe, porém, autores mais diretamente relacionados com a Zona Canavieira e Pernambuco, como Andrade (1986), o religioso italiano Antonil (1711), Calmon (1961), Freyre (2005), Furtado (1977), Melo (1975), Oliveira (2008) e Santos (1985).

Afora os autores e autoras já citados, importei da literatura brasileira regionalista, mesmo que essa não traga precisão107 sobre a vida das mulheres, descrições sobre a condição

feminina nos engenhos de açúcar, a exemplo da obra Menino de engenho de José Lins do Rego (1968), datada de 1932.

Diante disso, supus que uma análise de gênero dos conteúdos dessas obras, com exceção das feministas, revelaria a responsabilidade do conjunto desses autores, e não apenas de Gilberto Freyre, pela socialização patriarcal avançada da intelectualidade brasileira. Explico a afirmação: a maioria das pessoas no Brasil é socializada com base em valores e comportamentos patriarcais, transmitidos pelas instituições patriarcais que vão atravessando sua vida (família, religião, escola, partido político, empresa, Estado, etc.) e pela literatura a que tem acesso. Essa, por sua vez, cumpre um papel específico na vida acadêmica, ao formar a intelectualidade. A depender, portanto, da presença de oportunidades que fujam às regras da socialização ortodoxa, as pessoas podem tornar-se mais ou menos críticas às desigualdades de classe, de raça e de gênero.

107 Uso o termo preciso no sentido de precisão, como empregou Fernando Pessoa na frase poética: “Navegar é

preciso, viver não é preciso”, e não na de Plutarco, que está ligado à necessidade de movimentação de suas tropas. A palavra “preciso” poderia, em verdade, ter sido empregada, também, pelo poeta, no sentido de necessidade existencial portuguesa, o que combina com a mentalidade fatalista lusitana. Mas, como toda ação tem gênero, essa necessidade seria algo puramente masculino. Por fim, poderia ter o sentido de dever. Como esse dever só era “imposto” aos homens, pois a eles era ensinado navegar, portanto, era um dever do masculino, do qual as mulheres estavam excluídas. Em todos os três sentidos - precisão, necessidade ou dever - , o ato de navegar excede o ato de simplesmente se deixar viver, isso porque aquele é um fazer humano consciente, enquanto viver nega essa condição, sendo sempre carente de precisão, não obrigatoriamente necessário, e apenas dever para as mulheres que, por sua condição de gênero, não arriscariam a vida nem em batalhas nem em aventuras.

Avançando no tempo, passarei a cotejar tais leituras com a história das mulheres produzida no Brasil, a exemplo dos ensaios de Mary del Priore (1988), Del Priore e Bassanezi (2008), Izabel Missagia de Mattos (1999); Beatriz Miranda (1999), Aildes Celestina da Silva (1999), bem como esquadrinhar a presença feminina na Zona Canavieira trazida pelos estudiosos das relações de gênero, a exemplo de Parry Scott (2011), Lady Selma Albernaz (1996) e Marion Teodósio de Quadros (2001). Dessa forma, buscarei, na seção 6, articular fatos, relatos e análises disponíveis aos elementos teóricos do campo das produções de gênero, deixando-me guiar com prioridade pela visão histórica de Joan Scott (1995[1986], 1999a, 1999b, 2002), bem como pelas direções da antropologia feminista construída por Henrietta Moore, Marilyn Strathern e Sherry Ortner.

Nesse contexto, considero, também, a crítica à cultura patriarcal canavieira, feita por sujeitos feministas sobre a região – Cristina Buarque (2014a), Rose Marie Muraro (1983) –, situados em outros espaços (movimento social, aparato do Estado e agências internacionais de desenvolvimento), como material de valor para este estudo.

Insisto, ainda, em esclarecimentos: a adoção da expressão Zona Canavieira como ambiente do Chapéu de Palha Mulher se deveu, prioritariamente, a ela referir-se à ação humana que transcende o significado físico de zona da mata.

A importância do fato de a Zona Canavieira ser tão velha quanto o Brasil ocidental, permite salientar que, em suas terras, foram formatadas as origens ocidentais de nossa Nação. Dessa feita, os conteúdos que envolvem a leitura antropológica da presença feminista na Zona Canavieira de Pernambuco exigiu, igualmente, além de uma amarração na história, o diálogo com vários campos do conhecimento social, a exemplo da sociologia, da economia, e os projetos de desenvolvimento que pululam na Zona Canavieira.

Por fim, essas referências permitiram uma leitura da Zona Canavieira capaz de revelar a dimensão do Gênero na sua formação.