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Chapter 5 Implementation of the 2003 Convention

6.4 Knowledge management

METODOLÓGICO

No campo da sociologia o conceito de redes sociais e inclusive a metodologia de análise de redes sociais, para muitos autores, compreende uma sociologia relacional que tem por base as ideias de Simmel e Norbert Elias (STEINER, 2006). Na obra “A Sociedade dos

Indivíduos”, Elias (1994) apresenta o enfoque meso-social citando vários exemplos ilustrativos. Primeiramente destaca que as mudanças ocorridas nas sociedades, em termos da passagem de uma forma de vida em comum para outra, não são planejadas, pois ninguém conscientemente as planeja. Cita como exemplo o surgimento da Revolução Industrial, a qual ninguém planejou antecipadamente, isso porque as grandes transformações históricas independem das interações particulares dos indivíduos. Os indivíduos formam a sociedade, mas não tem controle sob o seu curso, uma vez que a história segue por rotas não pretendidas ou planejadas pelos indivíduos. Dessa forma, embora a sociedade seja composta por indivíduos, as grandes transformações históricas independem das suas intenções particulares.

Segundo esse autor, há duas abordagens das formações sócio- históricas que, em geral, o “indivíduo” e a “sociedade” são vistos como distintos e opostos. A primeira entende que indivíduos concebem e planejam as mudanças, os grandes acontecimentos. Nesse caso seriam as pessoas que tiveram novas ideias, sendo protagonistas de novas instituições, obras de arte etc. A segunda abordagem explica as mudanças sócio-históricas como produto de forças supra-individuais, anônimas, em que os indivíduos estão submetidos. A fim de sair dessa dualidade, o referido autor ressalta a importância das interações sociais, ilustrando através de vários arquétipos a inviabilidade em se limitar às partes ou ao todo para a compreensão dos fenômenos sociais. Cita o exemplo de um grupo de bailarinos, em que para entender os movimentos de um dos bailarinos é preciso compreender as relações dos bailarinos entre si, pois há uma sincronia na dança. Outro exemplo mencionado pelo autor refere-se às pedras e a casa, em que não é possível compreender a estrutura da casa inteira analisando suas pedras isoladamente. Do mesmo modo, não se pode compreender a casa como um somatório de pedras, pois o todo é diferente da soma das partes, assim como por suas partes isoladas. Dessa forma, conclui que “(...) As relações de unidades de menor magnitude (...) dão origem a uma unidade de potência maior, que não pode ser compreendida quando suas partes são consideradas em isolamento, independentemente de suas relações” (ELIAS, 1994, p.16). Essa análise pode também ser ilustrada da seguinte forma:

trabalhando juntas, as células geram uma forma superior de vida que é inteiramente diferente do funcionamento interno de uma única célula. Por exemplo, nossa digestão não é uma função de uma célula qualquer ou mesmo de um único tipo de

célula. Do mesmo modo, nossos pensamentos não estão localizados em dado neurônio; eles resultam do padrão de conexões entre neurônios (CHRISTAKIS & FOWLER, 2010, p. 251). Enquanto na natureza os fatos materiais são percebidos de forma a priori pelo observador, na sociedade são os seus próprios integrantes que constituem a unidade social, de modo que a sociedade só é possível em razão das interações entre os indivíduos. Dessa forma, segundo Simmel a sociologia não poderia ser compreendida como uma ciência social global, pois nem tudo que acontece na sociedade pode ser designado de social. O campo da sociologia deveria ser as interações sociais, os processos sociais, os quais propiciam o dinamismo das sociedades, que Simmel denomina de “sociação”. Dessa forma, a sociedade só existe no momento em que os indivíduos interagem de modo recíproco, movidos por instintos (eróticos, religiosos), ou fins (defesa, ataque, ajuda) formando uma unidade, ou uma ´sociedade`. O que faz a sociedade são as diversas formas de interações existentes, de modo que o objetivo de uma ciência que se propõe estudar a sociedade deve ser essas interações, assevera o referido autor. Desse modo, a sociedade é, por um lado, um complexo de indivíduos sociados e, por outro, é a soma das formas de relações tecidas por indivíduos. A “sociação” é constituída pelas motivações, impulso dos indivíduos podendo constituir diferentes formas, o que justifica a designação pelo autor da Sociologia como ´geometria social`. Do mesmo modo que a geometria considera as formas abstratas que constituem um corpo empírico, a sociologia estuda as formas de sociação vigentes na sociedade, independente dos conteúdos dessas formas. Nesse sentido, caberia à Sociologia compreender e explicar as formas que constituem os grupos humanos, e às demais ciências tratar dos fins econômicos, políticos, religiosos, culturais desses grupos. No entanto, em função da sua complexidade, para definir a sociedade é preciso considerar “formas especiais de sociação e todas as forças que mantêm unidos seus elementos” (SIMMEL, 1983, p.48). Tal como Elias, Simmel procurava situar-se num meio termo entre o organicismo social e o atomismo individual. Ou seja, ao mesmo tempo que reconhecia a importância do indivíduo para a vida social, também considerava as grandes formações sociais.

A sociedade constitui-se pela interação entre os indivíduos, pelas suas relações mútuas que originam algo que ninguém tencionou, a sociedade, daí a importância de compreender as suas relações. É apenas na sociedade, relacionando-se com os demais, que o ser humano se

transforma num ser psicologicamente desenvolvido, pois na condição de ser isolado irá evoluir para semi-selvagem. Assim como a formação individual de cada pessoa irá depender das estruturas das relações humanas da sua época. Dessa forma, o que há nas sociedades é um entrelaçamento de indivíduos assumindo formas específicas por meio das suas relações com os outros. Nesse sentido as redes de interações entre os indivíduos só podem ser compreendidas através da análise das relações entre os elos, sendo as conexões alteradas quando a estrutura da rede é modificada. Desse modo, a rede em que o indivíduo está inserido irá influenciar sua natureza, enfim seu modo de ser e de se portar. Sendo assim, é preciso “partir da estrutura das relações entre os indivíduos para compreender a ´psique da pessoa singular`” (ELIAS, 1994, p.39). A margem de decisão dos indivíduos emerge de dentro da rede social em que estão inseridos e também irá depender da estrutura e do contexto histórico vigente. Embora uma pessoa, dependendo da sua posição, possa ter uma margem maior de influência, seu poder não é ilimitado, sendo o poder da rede onde atua muito mais forte. Ao invés da oposição de que ´tudo depende do indivíduo`, ou de que ´tudo depende da sociedade`, Elias entende que há uma reciprocidade entre esses dois polos, não podendo um existir sem o outro. Um exemplo que corrobora essa análise, destacado por Marques (2007), é referente ao poder, em que mesmo sendo intrinsicamente relacional, as principais teorias sobre esse tema o explicavam em função das estruturas e sistemas sociais, ou em razão dos atributos individuais. Somente nos anos 1970 com o desenvolvimento da sociologia relacional que passa a ser considerado o nível intermediário de análise, ou seja, as relações sociais na conformação das diferentes formas de poder.

A análise intermediária dos fenômenos sociais também pode ser compreendida através do conceito de “sistema de ação” criado por Alain Touraine (1984). Diferenciando-se de grande parte da sociologia clássica em suas diferentes abordagens (marxista, funcionalista), coloca no centro da análise o regresso do ator e a ideia de ação social interdependente. Ao invés da separação entre ator e sistema, propõe a interdependência de ambos através da noção de “sistema de ação”. Dessa forma, o ator não pode mais ser explicado pelo sistema, mas por suas relações, crenças, projetos, orientações culturais e conflitos sociais. Diferente do movimento operário que se pautava pela História, pelo progresso, o ator social se pauta pela sua constituição enquanto sujeito, lutando pela liberdade e pelo direito de ser ele mesmo, de ser reconhecido, não aprisionado a leis históricas ou regras comunitárias. Nessa perspectiva, o progresso social está indissociável do

desenvolvimento pessoal do ator, sendo a liberdade, a capacidade de ação na vida coletiva fundamentais nesse processo. Essa busca por autonomia crescente por parte das coletividades propiciou o surgimento de novos atores e novos conflitos sociais em luta pelo controle dos modelos organizacionais vigentes, não se limitando a reagir a situações, mas a construí-las. Daí a importância em compreender o ator de acordo com o lugar que ocupa nas relações sociais, observando os valores que orientam e motivam a sua ação (TOURAINE, 1998).

Através das análises desses autores as relações sociais passam a ser consideradas elementos chaves para a compreensão da sociedade, rompendo com os dualismos que ora privilegiavam o indivíduo, ora a estrutura. Daí a importância das redes, do estudo das interações dos indivíduos em rede, campo que passou a ter cada vez mais importância do século XX em diante. Embora não exista um consenso sobre esse conceito, boa parte dos autores que trabalham com essa temática consideram que “as redes são sistemas compostos por “nós” e conexões entre eles que, nas ciências sociais, são representados por sujeitos sociais (indivíduos, grupos, organizações etc) conectados por algum tipo de relação” (MARTELETO, 2004, p. 41). Podem também constituir um projeto bastante ambicioso para certos autores, em termos de ser uma mudança de paradigma na modernidade. Com isso, ao invés do reducionismo, da análise das partes separadas (órgãos, células, moléculas, genes), os cientistas buscam juntar as partes, as quais passam a ser compreendidas como integrantes de um grande sistema.

O estudo de redes sociais é, na verdade, parte de um projeto montado, muito mais amplo na ciência moderna. (...) O entendimento da estrutura e da função das redes sociais e o entendimento do fenômeno da emergência (isto é, a origem das propriedades coletivas do todo não descoberto nas partes) são, assim, os elementos desse movimento científico maior. (...) O grande projeto do século XXI – entender como toda a humanidade pode vir a se tornar maior do que a soma de suas partes – está apenas começando (BARABÁSI, 2009, p.264-263).

A abordagem dos sistemas complexos implica a não linearidade, a dinâmica evolutiva, a auto-organização e a emergência de padrões não planejados. Conforme Barabási (2009), a ciência do século XX “desmontou o universo”, mas não sabe como remontá-lo, pois entendia que uma vez compreendida as partes era possível compreender o todo.

Essa perspectiva reducionista propicia que os indivíduos vejam o mundo através de suas partes constitutivas. Com a perspectiva dos sistemas complexos a natureza não é mais vista como um quebra-cabeça, e muito menos como possuindo apenas uma forma de montagem, pois os seus componentes podem se articular de modos muito diversos. Ao invés da compartimentação, da separação entre mente e corpo, razão e emoção, subjetividade e objetividade, homem e natureza, muitos cientistas de diferentes campos (biologia, neurociência) vem integrando essas dualidades através do pensamento sistêmico/complexo. Dessa forma,

(...) as partes só podem ser classificadas de acordo com as relações que existem entre elas. É preciso pensar as relações (a forma ou o padrão) como algo primário, e os termos relacionados (a substância ou o conteúdo) como algo secundário, focalizando mais a relação do que as pessoas ou fatos relacionados (VASCONCELLOS, 2002, p. 237).

Um dos indicadores que corroboram a crítica ao modelo hegemônico de pensamento vem sendo a sua incapacidade em lidar com a instabilidade e a incerteza, cada vez mais presentes nas sociedades contemporâneas. Um exemplo que ilustra esse fato é a questão da sustentabilidade, pois se torna difícil trabalhar com esse tema num contexto de unilateralidade e unidimensionalidade, em que prevalece a competição a qualquer custo. Sob a ótica sistêmica a competitividade deveria equivaler a competição e cooperação, segundo a fórmula: “

(MARIOTTI, 2007, p.45). Desse modo, ao invés da unilateralidade, a sustentabilidade requer diversidade e tensão criativa. Assim como, devido as incertezas e os riscos cada vez mais presentes nas sociedades atuais, as pessoas vem sendo forçadas a pensar de modo menos unilateral e mecanicista, a ter uma mente menos condicionada (ou isto, ou aquilo), redutora, com dificuldade em aceitar novas ideias. Enquanto o racionalismo busca reduzir tudo a objetividade e à lógica linear, a racionalidade é multilateral e reconhece os limites da razão (MORIN, 2007; MARIOTTI, 2007). Dessa forma, urge uma mudança no modo de pensar, de analisar os complexos problemas sociais e

ao invés de acreditar que vamos ter como objeto de estudo o elemento, ou o indivíduo, e que teremos de delimitá-lo muito bem, precisamos passar a acreditar que estudaremos ou trabalharemos sempre com o objeto em contexto (VASCONCELLOS, 2002, p. 111)

A nova perspectiva paradigmática emprega uma racionalidade não-linear de modo que ao invés da lógica binária “ou-ou” (isto ou aquilo) do modelo linear cartesiano, utiliza a lógica “e-e” (isto e aquilo). Entretanto, isso não significa que se deva desconsiderar a forma tradicional de fazer ciência, mas deve-se evitar absolutizá-la como suficiente, pois: “o mundo real é diversificado, multifacetado e, muitas vezes, incerto e imprevisível” (MARIOTTI, 2007, p.06). As principais diferenças entre essas diferentes óticas de pensamento são:

Quadro 4 - Principais diferenças paradigmáticas

Paradigma Clássico Paradigma sistêmico/complexo

Simplicidade Complexidade

Estabilidade Instabilidade

Objetividade Intersubjetividade

Fonte: Elaborado pela autora com base em VASCONCELLOS (2002).

Ao invés do reducionismo (complexo → simples) passa-se para uma perspectiva integrativa complementar (simples → complexo). No entanto, os referidos autores alertam sobre o condicionamento da racionalidade linear, a qual é parte inseparável do projeto Iluminista que fundamenta a visão de progresso, de certezas, de controle vigente na modernidade, o que torna difícil operar através de outra lógica. Não obstante, em função dos sérios problemas ora vigentes (meio ambiente, desemprego, incertezas, riscos) tal como destacados pelos críticos da modernidade ou “pós-modernos” (BAUMAN, 1999; BECK, 1995; GIDDENS, 1995), muitas questões passam a ser repensadas, tal como, por exemplo, o conceito de desenvolvimento. Além disso, para alguns estudiosos a pós-modernidade seria constitutiva de uma “modernidade líquida”, pois já não existiriam mais as sólidas certezas da modernidade, do progresso contínuo e garantido, do controle e domínio da natureza. Nesse contexto, há dificuldade de formulação de grandes teorias, de macro explicações, tal como era possível na modernidade (BAUMAN, 2001; BECK, 1995).

No entanto, para autores do campo da teoria dos sistemas e da complexidade ao mesmo tempo em que, de certo modo, convergem com a crítica dos pós-modernos, divergem em relação às possibilidades em se pensar saídas para os problemas atuais, seja em termos de teorias mais abrangentes, seja na capacidade de propor alternativas viáveis. O principal ponto destacado por grande parte dos teóricos filiados à matriz sistêmica/complexa é de que se faz necessário um pensamento “auto-

eco-organizador”, relacional com todo o sistema vivo, capaz de repensar, por exemplo, a própria concepção de desenvolvimento. Ressaltam que no contexto atual em que os problemas vigentes envolvem a todos não é mais possível a existência de um “ator privilegiado” que possa ser o protagonista das mudanças. Torna-se necessário um somatório de esforços, de parcerias, a fim de buscar alternativas aos complexos problemas sociais, em especial via sistemas de governança territorial (MARIOTTI, 2007; MORIN & KERN, 1995). Desse modo, ao invés de privilegiar as subdivisões, é preciso considerar as interações entre os elementos que integram o todo o que torna a rede a forma de organização que mais se adapta ao mundo atual. Com base no princípio hologramático Edgar Morin (1977) adverte que ´a rede é um exemplo perfeito desse agenciamento de relações entre componentes ou indivíduos e produz uma unidade complexa ou um sistema, unidade dotada de qualidades desconhecidas em nível dos componentes ou dos indivíduos’ (MORIN, p. 103 apud MARCON & MOINET, 2001, p. 185).