O termo nação apresenta considerável extensão e diversidade no plano conceitual. Antes do Estado-nação, a palavra era empregada para designar um grupo de descendência comum que se referia aos pagãos, estrangeiros e grupos sem estatuto político ou civil, ao contrário de povo; seria um grupo de indivíduos organizados institucionalmente, obedecendo a leis e normas comuns. Assim, povo era um conceito jurídico-político; nação, um conceito biológico.
No domínio do senso comum, é frequente a Nação ser concebida como um grupo de pessoas unidas por laços naturais e, portanto, eternos. Estes elos, supostamente, tornar-se-iam a base necessária para a organização do poder sob a forma do Estado nacional. Todavia, as dificuldades se apresentam quando se busca definir a natureza destes vínculos, ou pelo menos a identificação de critérios que permitam delimitar as diversas individualidades nacionais. (BOBBIO, 1998) Esta definição da Nação como fundada em laços naturais comumente
remeteu à ideia de raça; ou mesmo, a uma ―pessoa coletiva‖, uma unidade indivisível que atravessa os tempos. Já no século XX, pensa-se em descobrir a presença da Nação no comportamento observável do indivíduos, identificando o ―comportamento nacional‖ em fidelidade a entidades – como ―o Brasil‖, compreendido de forma reificada. Este comportamento não se manifestaria apenas como fidelidade política a uma Estado, mas muito mais do que isso. Este comportamento implicaria a existência de valores que motivariam atitudes e expressões.
Numa perspectiva construtivista, Benedict Anderson (2008) define sucintamente a nação como uma comunidade política imaginada e ao mesmo tempo limitada e soberana. Imaginada porque os membros de qualquer nação não se conhecem todos uns aos outros, o que perfaz a necessidade de forjar laços imaginários. Limitada porquanto a concepção moderna de nação implica a existência de fronteiras, a produção de uma diferença em relação a outras unidades, principalmente as contíguas. É também soberana, pois guarda a prerrogativa de ditar suas próprias leis, mantendo-se autônoma em relação às unidades políticas de estatuto semelhante ou não. Por fim, como atributo fortemente agregador, temos a horizontalidade da comunidade imaginada, ou seja, o sentimento de pertença à pátria faz-se presente em todos os estratos sociais.
Ao adaptar esta abordagem para a dinâmica dos Candomblés baianos, esta discussão afina-se com o que afirmou Nicolau Parés (2006) a respeito das nações no sistema religioso afro-baiano. O recurso ao discurso das ―nações‖ – principalmente Nagô, Jeje e Angola – se orienta no sentido de negociar, construir e legitimar diferenças rituais e identidades coletivas. Nesta dinâmica de competitividade, raramente o Caboclo seria reivindicado como nação. Ainda assim, este ícone passou a ser visto como originário da ―nação‖ brasileira ou – o que é mais enfático – como emblema pátrio nos festejos da Independência.
Já no fim do século XIX, é possível identificar a emergência e visibilidade da tradição nagô, que pode ser confundida com o próprio crescimento da religião afro-brasileira. Os antagonismos entre crioulos e africanos foram fundamentais neste processo, pois havia acentuada rivalidade entre os grupos identificados com as distintas denominações. Com a desaparição progressiva dos terreiros fundados por negros nascidos na África, terreiros crioulos puderam reivindicar uma ancestralidade, um grau de proximidade. Neste processo, assistiu-se invariavelmente a uma inserção da entidade Caboclo nas casas das mais variadas matrizes. E, de forma análoga àquela pela qual se reivindicam a ancestralidade e tradicionalismo africano, o Caboclo assume o papel de ―dono da terra‖ (SANTOS, 1995),
ancestral da nação brasileira. Em suma, a ancestralidade reivindicada seria aquela da terra nacional.
Marilena Chauí (2000), retomando ampla discussão, afirma que o poder político faz da nação ao mesmo tempo sujeito produtor e objeto de culto. Antes da invenção histórica da nação como algo político, os termos políticos eram povo e pátria, que deriva de pater, pai, mas não como genitor e sim como figura jurídica – o senhor, o chefe, que tem a propriedade absoluta da terra e de tudo o que nela existe. Pátria é o que pertence ao pai e está sob o seu poder. Com as revoluções do fim do XVIII, pátria passa a significar território, cujo senhor é o povo organizado sob a forma de Estado independente.
Na maior parte das concepções contemporâneas, concebe-se a nação como artifício. Assim, a consciência nacional seria a adesão e a identificação a uma comunidade imaginada, assumindo a forma de nacionalismo. Segundo Gellner (1996), os Estados-nação são unidades que ligam a soberania à cultura. Isto nos dá margem a pensarmos o processo de manifestação festiva da cultura que envolve o civismo enquanto ligação com os símbolos da nação.
O Caboclo, enquanto ícone da nacionalidade que se organiza a partir da Bahia, projeta a ideia de Nação, o que motiva atitudes e aglutina representações. Entretanto, devem-se matizar as afirmações que apontam qualquer expressão patriótica como resultado, reflexo, já que as representações são constituintes da realidade social. Na perspectiva adotada, o Caboclo desdobra-se de um processo de criação de um Estado-nação, despontado ao mesmo tempo como referencial popular. Em Itaparica, com suas reconfigurações peculiares, esta perspectiva da pátria foi reorganizada na forma de um discurso de clara exaltação. Permite aportar a interpretação histórica de que a atuação dos Guaranys tem três aspectos de frente: civismo, religiosidade e etnicidade na construção do que entendem como sendo o Brasil.
Afinal, a nação é a solução política para o problema de dar forma de unidade indivisa à divisão econômica, social e política. Resta saber de que modo esta solução seria experimentada pelos indivíduos comuns. A forma como visualizamos esta dimensão se baseia na organização e apresentação dos Guaranys, que tomamos aqui como auto-representação dos mesmos.